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terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Ganhos Inesquecíveis

- Doutor, me ouviu?

 - Hã? Desculpe-me, pode repetir? 
 
- Estamos chegando ao seu destino. A cidade está se recuperando depois da grande depressão. Volta a ficar mais bonita. 

 - Depressão e Covid. A maldita doença não afetou?

 - Ah, sim! Ela também. Retardou nossa reconstrução. Maldita seja. 

 - Esse prédio grande à direita. Hoje em dia é o quê? 

 - Hotel. Já foi um cassino. Sabia? 

 Já foi um cassino. Sabia? Sim, eu sabia. Nunca me esqueci do pano verde, ambiente festivo, os viciados, desespero com perdas e ganhos festejados. Ali tinha sido feliz, não obstante tantas perdas financeiras ou emocionais. Pediu para o motorista parar, dando a desculpa que queria tirar umas fotos de um prédio tão bonito. Mentiu como se acostumou a mentir por grande parte da sua vida. Queria somente rever um velho conhecido e dizer: "Eu te falei que voltaria como ganhador. Eu consegui, embora as roletas já não rodem e as mesas não tenham mais cartas. Eu consegui"

- Podemos ir embora. 

- Sim, doutor. Aí era um lugar glamouroso. Muitos ficaram ricos aí dentro.

- E outros ficaram pobres e nunca se recuperaram.

- Sim, dizem isso. É a vida.

- É a vida.


quarta-feira, 29 de junho de 2016

saudosismo

- Ali tinha um coqueiro.
- Desculpe-me. Não escutei o que disse.
- Um coqueiro. Tinha um ali. .
Aponta para o local onde agora se via um muro amarelo com uma casa ao fundo. Parados na rua o acompanhante acompanhou o dedo apontado e tentou fingir algum interesse.
- Ah. Não tem mais. Devem ter cortado.
- Sim, provavelmente.
Não continuou a falar e quem o acompanhava não demonstrou o menor interesse em continuar a conversa. Queria falar algo mais. Dizer que ali tinha um coqueiro e dentro daquele quintal uma goiabeira. Aquele portão da garagem tinha muitas vezes servido de baliza para as crianças jogando bola. Onde agora tinha o segundo andar da casa era um terraço e sorriu lembrando quanta vez ali em cima soltou pipa. Certa vez caiu, machucou o joelho e teve muito medo de voltar pra casa. Deu uma risada lembrando-se disso.
- Do que o senhor está rindo?
- Nada não. Lembrei de algo engraçado.
- Esse lugar é perigoso. Vamos ficar muito tempo parado aqui?
- Não se preocupe. Não pode ter ficado mais perigoso do que um dia já foi.
- Porque não?
- Deixa pra lá.
Olhou as ruas e se lembrou dos riscos que elas traziam. Acidentes de automóveis eram constantes. O poste da esquina várias vezes tinha sido albaroado por um carro desgovernado. Até disso sentiu saudades. Estava ficando um velho saudosista tolo. Ali tinha uma árvore e quando foi plantada a cada foi dado o nome de quem plantou. Outras plantadas também foram nomeadas..
- Quais eram mesmo os nomes?
- Que nomes?
- Pensei alto. Esquece.
Muitas calçadas eram de terra batida e agora estavam todas diferentes. As casas estavam todas modificadas. A da dona Maria não existe mais. Toda modificada se não tivesse certeza da sua existência não veria nenhum vestígio do que um dia foi. 
Percorrendo os olhos ainda conseguiu identificar sinais do que algumas tinham sido um dia. O santo no mosaico dos azulejos permanecia, o muro de pedras de outra residência também. 
As calçadas já não davam para jogar bolas de gude se essa brincadeira ainda existisse. Era bom nesse jogo assim como no dominó que se jogava sentado em algum degrau ou no pião. Ainda soltavam pipas, dava para perceber pelos fios com esqueletos das armações pendurados. Mas não devia ser igual aquela época.
- Senhor, vamos ficar mais quanto tempo parado?
- Nenhum. Podemos ir.
- Retorno para sua casa?
- Ela sempre foi aqui. Vamos voltar para a que dizem ser minha.