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quarta-feira, 17 de julho de 2024

Uma Vitória Inesquecível

 

  As memórias de uma vitória que uniu o país inteiro ainda estavam vivas. Aquela final da Copa do Mundo de 1994 foi um marco na vida dele, um dia que ficou gravado na memória de todos os brasileiros.

          - Lembra do Galvão narrando? - disse ele, enquanto abria a champanhe.

           - Como esquecer? A voz embargada, a tensão no ar... 

          - E quando o Baggio chutou pra fora? - Ele levantou a taça, revivendo o momento.

           - Ah, aquele momento... 

         - Eu achei que ia ter um infarto ali mesmo.

Eles brindaram, as taças tilintando num som que reverberou pelo tempo, misturando o passado com o presente.

- Sabe, a vida é feita desses momentos - ele disse, com um olhar pensativo.

- É verdade. A gente precisa celebrar mais, agradecer mais... 

 - Trinta anos. Parece que foi ontem.

Riram, brindaram mais uma vez e beberam, saboreando a champanhe e as memórias.

- Às vitórias passadas e às que ainda virão 

- À vida e aos momentos inesquecíveis 

Aquela noite, como tantas outras, ficaria guardada no coração deles, uma prova de que, apesar do tempo passar, certas vitórias são eternas.

 

Trinta Anos

-   Para que essa champanhe, homem?

-  Comemorar.

-  Hã?

-  Comemorar vitórias conquistadas faz bem ao espírito. Temos que celebrar nossas conquistas.

-  Jesus. Enlouqueceu de vez.

-  Hoje é dezessete de julho.

-  E?

-  Não lembra mais? O terraço, a TV a cores, aquela tosse infinda, um frio, suas preces no banheiro...

-  Brasil, Itália, 94?

-  Sim, lembra né?

-   A narração do Galvão quase chorando quando foi pros pênaltis.

-  A tensão em volta. Todos com o coração nas mãos.

-  Eu lembro de tanta coisa.

-  Devemos comemorar?

-  Abre essa champanhe, caralho. Trinta anos.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Ganhos Inesquecíveis

- Doutor, me ouviu?

 - Hã? Desculpe-me, pode repetir? 
 
- Estamos chegando ao seu destino. A cidade está se recuperando depois da grande depressão. Volta a ficar mais bonita. 

 - Depressão e Covid. A maldita doença não afetou?

 - Ah, sim! Ela também. Retardou nossa reconstrução. Maldita seja. 

 - Esse prédio grande à direita. Hoje em dia é o quê? 

 - Hotel. Já foi um cassino. Sabia? 

 Já foi um cassino. Sabia? Sim, eu sabia. Nunca me esqueci do pano verde, ambiente festivo, os viciados, desespero com perdas e ganhos festejados. Ali tinha sido feliz, não obstante tantas perdas financeiras ou emocionais. Pediu para o motorista parar, dando a desculpa que queria tirar umas fotos de um prédio tão bonito. Mentiu como se acostumou a mentir por grande parte da sua vida. Queria somente rever um velho conhecido e dizer: "Eu te falei que voltaria como ganhador. Eu consegui, embora as roletas já não rodem e as mesas não tenham mais cartas. Eu consegui"

- Podemos ir embora. 

- Sim, doutor. Aí era um lugar glamouroso. Muitos ficaram ricos aí dentro.

- E outros ficaram pobres e nunca se recuperaram.

- Sim, dizem isso. É a vida.

- É a vida.


quarta-feira, 29 de junho de 2016

saudosismo

- Ali tinha um coqueiro.
- Desculpe-me. Não escutei o que disse.
- Um coqueiro. Tinha um ali. .
Aponta para o local onde agora se via um muro amarelo com uma casa ao fundo. Parados na rua o acompanhante acompanhou o dedo apontado e tentou fingir algum interesse.
- Ah. Não tem mais. Devem ter cortado.
- Sim, provavelmente.
Não continuou a falar e quem o acompanhava não demonstrou o menor interesse em continuar a conversa. Queria falar algo mais. Dizer que ali tinha um coqueiro e dentro daquele quintal uma goiabeira. Aquele portão da garagem tinha muitas vezes servido de baliza para as crianças jogando bola. Onde agora tinha o segundo andar da casa era um terraço e sorriu lembrando quanta vez ali em cima soltou pipa. Certa vez caiu, machucou o joelho e teve muito medo de voltar pra casa. Deu uma risada lembrando-se disso.
- Do que o senhor está rindo?
- Nada não. Lembrei de algo engraçado.
- Esse lugar é perigoso. Vamos ficar muito tempo parado aqui?
- Não se preocupe. Não pode ter ficado mais perigoso do que um dia já foi.
- Porque não?
- Deixa pra lá.
Olhou as ruas e se lembrou dos riscos que elas traziam. Acidentes de automóveis eram constantes. O poste da esquina várias vezes tinha sido albaroado por um carro desgovernado. Até disso sentiu saudades. Estava ficando um velho saudosista tolo. Ali tinha uma árvore e quando foi plantada a cada foi dado o nome de quem plantou. Outras plantadas também foram nomeadas..
- Quais eram mesmo os nomes?
- Que nomes?
- Pensei alto. Esquece.
Muitas calçadas eram de terra batida e agora estavam todas diferentes. As casas estavam todas modificadas. A da dona Maria não existe mais. Toda modificada se não tivesse certeza da sua existência não veria nenhum vestígio do que um dia foi. 
Percorrendo os olhos ainda conseguiu identificar sinais do que algumas tinham sido um dia. O santo no mosaico dos azulejos permanecia, o muro de pedras de outra residência também. 
As calçadas já não davam para jogar bolas de gude se essa brincadeira ainda existisse. Era bom nesse jogo assim como no dominó que se jogava sentado em algum degrau ou no pião. Ainda soltavam pipas, dava para perceber pelos fios com esqueletos das armações pendurados. Mas não devia ser igual aquela época.
- Senhor, vamos ficar mais quanto tempo parado?
- Nenhum. Podemos ir.
- Retorno para sua casa?
- Ela sempre foi aqui. Vamos voltar para a que dizem ser minha.


terça-feira, 14 de junho de 2016

Fantasmas



   — Era para você ter sido minha nora.

   A voz e o rosto da velhinha bonachona ainda estavam em sua lembrança. A frase nunca esquecida soava em sua mente a cada noite fria. Era um martelo batendo em uma ferradura, causando um barulho que gostaria de não mais escutar.

   Quando o passado é mais forte do que o presente e temos medo do futuro, é porque não estamos bem. Ele costumava dizer isso com aquela entonação usada quando queria falar algo sério. Lembrava dos olhos fitando o nada e as palavras saindo da boca sem demonstrar emoção, sem demonstrar sentimentos. Ah, mas ela sabia o que ele sentia; ela sabia tantas coisas dele, sabia o que ele deixou saber e o que ela descobriu sem ele perceber. Sabia demais, pensou.

   Foi para a sacada e acendeu um cigarro. E se tudo tivesse sido diferente? Fez-se a pergunta pela milésima vez. Uma sessão de tortura cotidiana. Flagelava-se na tentativa de se purificar pela dor. Quem sabe um dia iria conseguir. As respostas vinham à sua mente com a velocidade de um trem-bala, conhecidas e duvidosas, e lá ficavam até qualquer hora.

   Abriu a porta e foi para a rua. O frio maltratou seu rosto descoberto e a fez esquecer seus fantasmas.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Espera (II)

Anos tinham passado quando retornou a praça. Chegou devagar, olhando os arredores, reconhecendo o lugar. Trazia um livro nas mãos como tantas vezes fizera antes e um olhar assustado. A  viu de costas e não se conteve:

- Você por aqui?

- Oi?

- Desculpe-me. Pensei ser alguém que eu conheço.

- Sem problemas.

Desconcertado sentou-se no banco e começou a folhear o livro. Tolice achar que iria encontrá-la, mas as esperanças são tolas. Quem sabe ela ainda continuasse vindo, quem sabe um encontro casual,  o passado se tornando presente.


quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Encontros Inevitáveis

- Senhor, desculpa te incomodar, mas me pediram para te fazer uma pergunta.
- Fique a vontade, faça.
- Aquela pessoa sentada na cadeira ao lado da porta. Está vendo?
- Sim.
- Pediu para perguntar se você ainda lembra-se dela.
- Lembro.

- Senhor, sei que estou incomodando.
- Pois não.
- Eu fui lá e dei sua resposta, mas ela hesita em acreditar na sua resposta.
- Diga-lhe que eu tenho um pequeno baú onde guardo lembranças. Nele tem uma pequena medalha de nossa senhora. De prata. Benzida.
- Eu direi sim.
- Diga-lhe também que eu continuo o mesmo, ela não precisa se preocupar.


Ficaram a distância e não se falaram evitando que seus acompanhantes percebessem que eram conhecidos. Lágrimas foram secadas furtivamente. Era necessário manter as aparências e evitar perguntas inconvenientes.

sábado, 27 de setembro de 2014

Sertão

  A paisagem árida, estrada esburacada, plantações de palmas, gado e aquela sensação de que ali o tempo parou. A casa no meio do nada, qualquer um entra no terreiro, os gritos na porta, chegou visita, e lá ia eu saltando, todo desejeitado, de um carro para cumprimentar quem ali estivesse.
"É seu filho, vona?", era a pergunta recorrente quando não me conheciam, o moleque que nunca foi simpático colocava um sorriso sincero no rosto, era alvo de olhares analíticos, ficava desconfortável mas aceitava fazer parte daquele momento onde tios, mãe, se reencontravam com suas origens.
   Em algumas casas a gente entrava, povo humilde, tentava nos agradar de algum jeito, um café, um beju, uma fruta, era necessário aceitar, quase obrigatório, em uma dessas me vi diante (mesmo detestando) de um grande pedaço de goiabada que foi dividida discretamente entre eu, mãe e uma tia até que ele acabasse.
   As conversas não me diziam respeito, olhava algumas fotos antigas na parede, fotos desenhadas em uma moldura, as vezes saía e ficava olhando o horizonte. Não era o meu mundo e ao mesmo tempo era, de alguma forma eu fazia parte daquilo ali. De alguma forma ainda faço parte embora cada dia mais seja só com lembranças.

domingo, 6 de julho de 2014

Um Ano

     Eu aposto que aí de cima está vendo a copa do mundo sendo realizada aqui. Claro que estaria feliz com o sucesso e atribuiria parte dele ao PT, e claro que nem adiantaria eu discordar, eu nem tentaria.  Esses dias vendo os jogos dessa copa lembrei da copa de 90, minha mãe também lembrou, aquela mesa vermelha levou muita porrada, os copos de cerveja sendo derrubados em um dos gols. Depois que eu me dei conta de quanto o Careca era bom, enquanto sua admiração ele já tinha, você nem deve lembrar mais, mas eu lembro. Também lembro que após o jogo contra a Suécia de você manifestando preocupação enquanto eu empolgado não entendia o porque, tínhamos conseguido a vitoria. Não me lembro com quem você estava conversando, só sei que estávamos em frente ao nosso portão, naquela calçada que era de terra.
    Os outros jogos não lembro de quase nada, mas o contra a Argentina, sim. A Ida estava naquele Brasil e Argentina, Lino, Dita, meu pai viajou naquele dia, depois do jogo, todos na sala, lembro-me que nos minutos finais eu desisti de assistir enquanto vocês ainda tiveram esperanças nos lances finais. Final de jogo, enquanto eu segurava as lágrimas você bebia e dizia que era para esquecer a derrota.
Lembro disso tudo, futebol e música era o que mais a gente conversava quando estávamos juntos, o que será que você falaria dessa seleção? E do Neymar? Nessa copa as vezes pensei nisso.
    Faz um ano que você se foi e eu ainda não me acostumei. Saudades de você, onde quer que esteja, olha pelo teu sobrinho que ainda hoje tenta lidar com a saudade.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Vai Ter Copa (Diário)


Escrever este diário se tornou uma terapia. Aqui nas folhas, coloco capítulos desta história que pretendo finalizar com a sua volta. Sim, te aguardo todos os dias, sem vacilar, com a certeza da fé. Se te conheço bem, vai reclamar disso, resmungar só para não reconhecer o quanto está feliz com a minha espera. Te conheço, sou uma das poucas pessoas que te conhece bem.

Faltam poucos dias para a Copa, mas a cidade ainda está entrando no clima. A demora na empolgação talvez tenha sido causada pelas manifestações do ano passado, patrulhamento ideológico ou desmandos governamentais. Não sei dizer; eu sou das exatas, lembra? Das humanas aqui em casa é você. Tenho certeza que, se estivesse aqui, teria boas explicações a respeito dessa demora. Arrisco-me a dizer que os brasileiros sentem certo medo do que pode acontecer quando os jogos começarem ou demoraram a acreditar que realmente vai ter Copa, mesmo com todos os problemas e falhas na organização.

A casa está enfeitada conforme você sempre gostou. Comprei bandeirinhas, plásticos, cortei e, com a ajuda da Júlia, fiz e coloquei os enfeites na varanda e janelas. Quem sabe você volta a tempo de ver conosco esta Copa do Mundo. Sua filha está empolgada, ansiosa. A pequena já me fez mil perguntas sobre a Copa do Mundo. Tive que me informar na internet para não fazer feio. Ah, se estivesse aqui, nem precisaríamos da ajuda do Google.

Eu fiz dois álbuns de figurinhas, um para a Júlia e outro para você. Está guardado aqui, junto com as coisas que deixou quando partiu dizendo que voltava em breve. Por que ainda não voltou? Por que não dá notícias? Sempre me disseste que não era homem de sumir sem avisar. É isso que me conforta; a pessoa que eu conheci não é capaz de ser covarde a ponto de desaparecer, deixando eu e sua filha esperando.

Ela te espera, sinto isso, mesmo que não fale. Nesse ponto, é igual ao pai: não fala, guarda lá dentro o que sente, quieta. Eu pergunto, jogo indiretas, insinuo, mas ela não se abre. Me olha com aquele maldito jeito que sabe muito bem qual é, porque é seu, e muda de assunto.

Lembra quando discutíamos com quem ela parece mais? Exteriormente, é mais comigo, mas o sorriso, o jeito de olhar, o jeito de me enrolar é seu. Só pode ser genético, ou uma bênção de Deus, a forma que ele encontrou para eu não te esquecer.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Saudades Senna

O caminho entre a igreja e a minha casa não era longo, mas foi se tornando enorme conforme eu ia passando pelas casas e sentia a tristeza pairando no ar. Lembro-me de um bar onde sempre tinha gente bebendo e conversando alto, estava vazio, o silêncio da rua foi me dando à certeza de que algo estava muito errado, não havia sido somente um acidente como tantos outros, tinha sido algo sério, com passos rápidos  eu entrei em casa e minha mãe foi avisando o que tinha ocorrido.
O acidente tinha sido grave, Senna tinha sido socorrido e esperavam notícias em frente à televisão. Foi o que eu também fiz, fiquei esperando notícias boas e, no entanto conforme o tempo passava minhas esperanças iam se esvaindo.
Ainda lembro-me do plantão, do Roberto Cabrini e eu desabando em um choro incontrolável.
Passaram vinte anos e se um dia eu o fiz já não coloco o Senna em um pedestal, vejo seus defeitos, aceito várias críticas que fazem ao piloto. Também deixei de me irritar com quem usa outros pilotos para afrontar os seus fãs, ainda me irrito é verdade com quem infantilmente acha que foi a rede Globo que o fabricou ou tenta desesperadamente minimizar seus feitos, mas compreendo, deve ser difícil para esses conviver com um mito que eles não simpatizam.
Já faz vinte anos, tanta coisa mudou na minha vida, já perdi tanta gente e tanta coisa e, no entanto ainda continuo me emocionando como naquele primeiro de maio. 

domingo, 20 de abril de 2014

Saudades (Carla III)


 Ainda era daqueles que costumava ler o jornal impresso. Sentava-se em um sofá, colocava os óculos e lia os cadernos espalhados em seu colo, rejeitava categoricamente qualquer sugestão para trocar o papel pelo on line. Às vezes pedia uma xícara de café à empregada, fazia questão do silêncio e não gostava de ser incomodado em hipótese nenhuma, mas, como vinha acontecendo com constância desde a sua chegada, Carla, desrespeitava as regras da casa.
Sempre deixou claro aos cada vez mais raros freqüentadores que não tolerava certas atitudes e uma delas era ser interrompido quando lia o jornal, mas com aquela menina travessa abria exceções, sorrindo por dentro e com a face séria, sempre.
Já conhecia um pouco do seu comportamento, quando começava a lhe rodear, inquieta, é porque queria perguntar algo, puxar conversa, contar alguma novidade. Era sempre a mesma coisa, vinha sorrateiramente com aquele rosto ingênuo, como se tivesse a intenção de está ali por acaso e na primeira oportunidade levava a cabo o seu intento. 
Por isso se desconcentrou da leitura, manteve o jornal aberto, mas já não lia as páginas, esperava a pestinha dizer o que estava lhe passando pela cabeça e ela não tardou em fazê-lo:

- Pai?

- Oi

-  Hoje eu entrei no seu quarto.

- Hum. Foi fazer o que lá? Não tem nada lá dentro que lhe interesse.

- Eu estava brincando e entrei lá dentro.

- Hum.

- Eu vi aquela foto que o senhor já tinha me falado. Aquela mulher é muito bonita.

- Ela era sim. Já falamos sobre ela.

- Já sim, mas...

- Mas...

- A Marília disse que os pais dela se amam e ...

- E?

-  você amou aquela mulher da foto?

Levou um susto. O que uma garotinha de 8 anos sabe sobre o amor? Que mundo é esse que as crianças  perguntam essas coisas ao pai? No meu tempo de menino eu perguntava coisas bobas, hoje em dia essa maldita modernidade faz com que se cresça rápido demais. E quem disse isso a ela? Aposto que foi a Maria, empregada fofoqueira. Esses empregados em vez de calar a porra da boca e manter a discrição, falam pelos cotovelos.

- O que é amar para você, menina?

- Amar é gostar de alguém. A Paula falou isso hoje de manhã. 

- E você concorda com a Paula?

- Sim.

- Então está respondida sua pergunta. Amei sim. Pode voltar a brincar.

- O que é amar pra você, pai?

Eu sabia que não seria tão fácil me livrar dela. Sabia, não podia ser tão simples né, Deus. Ela tinha que complicar, e agora, cito Fernando Pessoa, Vinicius de Moraes, procuro uma resposta filosófica, dou uma resposta qualquer, como é difícil a paternidade, tinha que ter um manual de instruções junto com as crianças adotadas. Se eu mandá-la procurar no dicionário acho que resolvo o problema por agora, mas tenho certeza que ela voltará com mais perguntas, é melhor responder:

- Amar é gostar muito de alguém sem motivos ou do jeito que a pessoa é. É mais do que simplesmente gostar.

- E você mais do que gostou daquela mulher?

- Sim.

- E chorou quando ela foi embora?

- Não, quando era criança os homens aprendiam que não podiam chorar e eu não chorei. Fiquei triste, muito triste.

- Você sente falta dela?

- Sinto.

- Muita?

- Muita.

- E como a gente faz quando sente muita a falta de quem já foi embora?

Não faz, menina, agüenta firme, finge que não está doendo, chora, berra, dá chutes nas paredes, sei lá. Ah que vontade de ser duro com essa moleca impertinente e suas perguntas embaraçosas. Será que quando criança fazia tantas perguntas também? Vamos lá, respira fundo, pensa e responde:

- Quando a gente sente muita falta de alguém é porque estamos com saudades e não há o que se possa fazer quando a pessoa já não está aqui. Então procuramos formas de aliviar esse sentimento, às vezes vemos fotos, escutamos uma música, relembramos. 

- Eu não sinto saudades?

- Você é uma menininha, está começando a viver. Sentirá conforme o tempo passar. Todos nós temos motivos para sentir. 

- Sentir saudade é ruim?

- Depende. Lembra quando um dia te disse que certas coisas na vida podemos optar por ser algo ruim ou bom?

- Sim, lembro.

- Assim é a saudade. Ela pode machucar fazer sofrer, mas também pode ser um sinal dentro da gente que valeu a pena ter vivido certos momentos, ter conhecido certas pessoas. Depende.

- Porque ela foi embora?

- Porque nada nessa vida é eterno. Esses dias você viu que um dos meus pássaros amanheceu morto não viu?

-Vi, sim. E você ficou triste.

- Então. Bichos, gente, plantas, não duram para sempre. Um dia, Deus chama, decide que é chegada à hora. Esse é o problema de envelhecer, menina, temos que aprender a dá adeus, a entender que tudo nessa vida é passageiro, tem um fim.

- Você não acredita em Deus, pai. Esqueceu?

- Não seja espertinha. Eu te disse que eu não falava com ele faz um tempo e por isso não sabia se acreditava mais.

- E como você adora brigar, brigou com ele por causa disso.

- Engraçadinha.

domingo, 11 de agosto de 2013

Pai

Eram pequenos cadernos com páginas datilografadas. Cada um dos cadernos tinha um ano na capa, e lá dentro estavam algumas datas com anotações. Um diário, pensou, não aquele que sempre vem à mente quando citamos um. Não era escrito à mão; parecia ter sido digitado em um computador e não parecia ser organizado. Misturavam-se ali coisas pessoais com acontecimentos no mundo e no seu país. Em uma mesma data, tinha algo pessoal escrito junto com outro fato totalmente diferente. Dava para entender, é claro, mas isso o distanciava da imagem que ela tinha de um diário.

Ficou folheando alguns anos, leu mágoas e alegrias, descobriu como ele havia se sentido diante de alguns acontecimentos, sorriu. Era como se fosse um Forrest Gump contando a história a partir daquelas páginas, e percebeu que os anos se sucediam até o dia da sua morte. Inconscientemente procurou o ano da sua chegada ali. Tinha a esperança de ser citada e um medo de descobrir o que não queria. Se quisesse que ela visse, tinha avisado antes de morrer sobre a existência dos cadernos. Parecia estar cometendo uma invasão de privacidade, mas não ia desistir pelo meio. Era curiosa e agora ia até o final.

Achou o ano e, trêmula, começou a leitura. Já não lembrava o mês que tinha chegado, por isso ficou lendo data por data até encontrar. Uma nota fria informava que tinha decidido dar guarida a uma menina que, morando em um orfanato, tinha suas chances de ser adotada reduzidas. Era um texto frio, sem emoção. Entristeceu-se, mas não se surpreendeu. O escrito era exatamente como o escritor vivia a vida, sem mostrar muitos sentimentos, uma pessoa dura.

Ia desistir. Para que reabrir velhas feridas? Aquilo ali tinha sido largado para ser esquecido. O lugar adequado dele realmente era aquele baú velho sem ninguém abrir. Teimosamente, pegou outro ano aleatoriamente e, se recriminando por isso, começou a leitura. Era o ano do seu primeiro namorado, e ele escrevia que tinha sentido ciúmes, mas o garoto parecia ser legal. Sorriu, mal se lembrava desse namorico. Não tinha durado muito, e ele tinha dado tanta importância que tinha escrito sobre o fim do relacionamento e a preocupação para que não ficasse triste.

O tempo ia passando, os acontecimentos se acumulando, e para cada um que a envolvesse, ele dedicava algo. Ali, descobriu que ele chorou no banheiro, escondido, quando ela se formou, e para não deixar que percebessem, lavou o rosto e se controlou quando foi lhe dar um beijo. Quando foi para a mesa de operação por causa de uma apendicite, o velho, duro na queda, fez promessas ao seu santo de devoção. Logo ele, que dizia não acreditar em religiões e achava que aqueles santos eram só para decorar a casa.

No seu último ano, relatou estar doente. Dia após dia, foi se despedindo da vida. Na última anotação, agradeceu pela filha que Deus tinha dado e por estar indo antes dela. Filha, ele a considerava como tal. Ali, naquele lugar onde não precisava se esconder de ninguém, deixava seus sentimentos à mostra. Ele considerava-se seu pai. Chorou, molhando as páginas, e se arrependeu de quantas vezes duvidou do sentimento paterno dele e não considerou a hipótese de morar naquela casa por uma circunstância qualquer que não fosse o amor nutrido por ele. Agora, tinha certeza. Tinha sido sempre a filha dele, a moleca que, como ele escreveu, o fez feliz até o último dia

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Assum Preto


 Ele foi caminhando devagar até a praça como se acostumou a fazer nas últimas semanas.  Evitava olhar no rosto das pessoas ou andava cabisbaixo cantarolando uma música triste. Sentou-se em um dos bancos de pedra e ficou olhando o nada como se esperasse algo. Fazia isso todos os dias, tinha se tornado um hábito, não falava com ninguém, era como se não enxergasse nada ao seu redor, fitava o vazio imerso em seus pensamentos até a noite chegar e percorrer o caminho de volta até a sua casa.
O mês de abril tinha chegado trazendo um sol exuberante e um jardim florido, nas ruas as pessoas aproveitavam o final da tarde agradável para apreciar a natureza ou levar seus filhos para passear. Riam, sorriam, faziam planos, mas ele não via nada ao seu redor
Ali era uma bela cidade, quem chegava logo se encantava com as belezas naturais, mas já não enxergava isso, enquanto os outros olhos viam a luz do sol seus olhos tinham perdido o brilho há algum tempo atrás. Lamentava-se por isso cantarolando canções tristes, andando pelas ruas, sentado naquele banco, onde estivesse. Passava por pessoas felizes e invejava a felicidade delas, um dia também tinha sido assim, pensava, e continuava seu caminho.
Não tinha para onde ir, nenhuma condição de mudar o seu destino. Dizia magoado que preferia está em uma gaiola sendo bem tratado e amado por alguém a ter uma liberdade triste.
Voe, você pode, pois suas asas não estão quebradas, não está preso a nada e nem por nada, diziam, e ele sorria tristemente. Não podia, tinham deixado-o liberto, mas sem condições de ir longe. Preferia está preso, mas com os seus olhos brilhando a cada manhã. Livre, podia cantar á cada amanhecer, mas seu canto era de dor. Lamentava-se pelo destino ter levado o seu amor.


Obs: Uma das músicas que eu mais gosto é Assum Preto do Luiz Gonzaga e o conto acima foi inspirado em sua letra que eu posto abaixo junto com um vídeo.

Assum Preto

Luiz Gonzaga

Tudo em vorta é só beleza
Sol de Abril e a mata em frô
Mas Assum Preto, cego dos óio
Num vendo a luz, ai, canta de dor (bis)
Tarvez por ignorança
Ou mardade das pió
Furaro os óio do Assum Preto
Pra ele assim, ai, cantá de mió (bis)
Assum Preto veve sorto
Mas num pode avuá
Mil vez a sina de uma gaiola
Desde que o céu, ai, pudesse oiá (bis)
Assum Preto, o meu cantar
É tão triste como o teu
Também roubaro o meu amor
Que era a luz, ai, dos óios meus
Também roubaro o meu amor
Que era a luz, ai, dos óios meus.



sábado, 4 de maio de 2013

Maio


A sua ausência já não dói tanto, a gente quase não fala no seu nome e a saudade embora presente conseguimos enganar ano após ano. Você partiu em noventa e oito, já faz tanto tempo, não obstante ainda sinto sua falta. Se eu paro e penso, logo me lembro de suas visitas, aposto que estaria aqui uns dias atrás no aniversário da minha mãe, você sempre vinha. Ela se lembra de você embora não fale muito, já perdemos tantas pessoas queridas que as lembranças vão envelhecendo e dando lugar a outras,  mas mesmo estando em um plano diferente somos amigos e uma verdadeira amizade não morre jamais. De repente, no silêncio do quarto, olhando para o nada, as recordações aparecem e eu fico quieto com meus pensamentos.
Aqui em casa  continua tudo igual, minha mãe continua presenteando as visitas com as historias que você tanto gostava e te fazia rir francamente, se chegasse depois de tanto tempo não ia estranhar nada, ela é a mesma de sempre, agora a gente mora em um lugar diferente desde dois mil e cinco, saímos daquele lugar e dos problemas dali.
Eu sempre passo onde você morava, fito o apartamento, confesso que o coração às vezes aperta, lembro de quantas vezes passei por ali e deixei a visita para depois, por causa de um compromisso ou outro eu não te visitei, sempre achando que tinha todo o tempo para isso, até a maldita doença aparecer e tudo se acabar.
Às vezes a gente  não fala o quanto amamos as  pessoas, ficamos com vergonha de dizer a o outro o quanto é especial em nossa  vida, adiamos telefonemas, visitas (afinal ele (a) está tão próximo), e então a morte vem e finda para sempre uma amizade. A dor pela sua partida ao menos me ensinou a valorizar cada minuto ao lado dos meus amigos, me ensinou a sempre tentar manter um contato, mesmo parecendo um pouco ‘enjoativo, sempre deixar claro o quanto são importantes  para mim. Sua última  lição foi uma das mais valiosas na minha vida.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Aniversário


Acordou cedo e foi para a Quinta da Boa Vista, era lá que queria está nesse dia e antes das dez já estava entrando pelo portão com um sorriso triste no rosto. Levava uma cesta com bebidas e alimentos,  sentou-se na grama, estendeu uma toalha e colocou o que tinha levado com cuidado em cima. Pão, queijo, uma lata de refrigerante e um porta-retrato com uma foto. Ao terminar, sorriu para o rosto emoldurado e cantou silenciosamente um “parabéns para você”, permaneceu ali por longas horas, olhando o infinito sem prestar atenção em quem estava a sua volta.
No final do dia, recolheu suas coisas e tomou o caminho de volta até sua casa, deitou na cama e esperou o dia acabar com lágrimas nos olhos causadas pela dor da saudade.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Reencontro


   Noite mal dormida, aquelas que você fica acordado durante horas ou dorme e seus sonhos lhe atormentam. Aconteceu à primeira opção e o dia foi amanhecendo enquanto esperava a cidade acordar para ir ao encontro dela.
   Porque reapareceu? Tanto tempo depois o que tinha para falar com ele? Eram tantas perguntas, tantos sentimentos se confundindo, que só de pensar sentia certo mal estar.
  Olhou pela janela e ao menos o Cristo Redentor continuava com seus braços abertos, pensou sorrindo, enquanto ele estiver lá em cima cariocas são protegidos de alguma forma.
 Foi o que lhe disseram quando desembarcou na rodoviária há vinte anos querendo ter tudo o que sonhava, pensando ser esperto o suficiente para essa cidade. Tempos depois descobriu o quanto a selva de pedra é cruel. “Viver no Rio não é para os fracos” lhe disseram em uma favela qualquer, “se você ama a cidade então é carioca falou alguém”, “a cidade te adota” disse outra pessoa em um bar na Lapa foram lições dadas como tantas outras que aprendeu do jeito bom ou ruim. Hoje em dia entendia a cidade e seus habitantes, já não era um forasteiro passando um tempo para retornar ao seu lugar, aqui era onde desejava ficar, apesar de algumas coisas ruins, lembranças esquecíveis como a que tinha resolvido se tornar atual com o telefonema de ontem.
  Sim, gostaria de esquecer apesar de ter sido os momentos mais bonitos de sua vida onde com certeza tinha sido muito feliz por alguns anos, a forma dela agir quando terminou a relação o fez pensar assim e por isso riscou da sua vida de todas as formas possíveis a sua presença sem nunca pensar em voltar até ontem, o telefonema, a voz que não reconheceu se identificando, sua surpresa e a pergunta:
  - Pode me ver amanhã na praia de Copacabana?
  Poderia não aceitar, o que iriam falar, não tinham deixado nada em aberto, tudo havia sido decidido com palavras ou atitudes, mas confirmou o encontro querendo enganar-se quanto ao motivo: Queria vê mais uma vez.
  Sai pela rua, o sol já está quente, quem é carioca sabe, o dia terá aquele calor intenso, caminha para a estação do metrô tendo mil pensamentos todos com ela sendo o motivo principal, naquele horário os vagões já não estão cheios como na hora do rush, pode sentar calmamente e vai ao seu destino tentando controlar seu coração. Chega ao calçadão da Avenida Atlântica, procura o número do posto onde marcou o encontro e a reconhece facilmente, não mudou nada, pensa, por fora não demonstra o que sente por dentro, a cumprimenta e vão conversar como se fossem dois conhecidos em um encontro agradável.

  Algumas horas depois parte deixando pedidos de desculpa e perdão, é sincero em suas palavras, nunca a esqueceu, mas não vai perdoá-la, deixa-a com algumas lágrimas nos olhos e parte sem olhar para trás, se sente triste, mas não importa a cidade, o tempo não para, é necessário continuar sempre.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Se Fosse Só Sentir Saudades


                  “Aprendi há pouco o conceito da palavra saudade, uma das coisas mais impactantes que já ouvi, justamente no momento que a sinto fortemente”.
(DBC Pierre)

Eu adoro frases, não aquelas idiotas, repetidas a exaustão em qualquer lugar geralmente carentes de um raciocínio inteligente, gosto daquelas espirituosas, engraçadas, originais e por isso costumo guardar comigo algumas delas, anotadas em agendas. digitadas no word, escaneadas, onde conseguir guardar para mim. Também tenho alguns livros com citações, costumava arrancar páginas de uma revista com a seção de frases mas essas infelizmente perdi por algum motivo que eu não lembro mais.
Uma das citações que mais me marcaram é a de  um escritor australiano chamado DBC Pierre sobre saudade, estava visitando o Brasil e na hora da partida conseguiu entender o que estava sentindo ao se despedir, então ele deu essa declaração destacada por mim lá em cima do post.
Estava no Rio de Janeiro acho que para a Bienal do livro de 2005 e ia embora com aquele sentimento de quem deve ir mas se pudesse ficava mais um pouco, talvez quando ele embarcou no avião olhou pela janela e pensou ser aquele um lugar para onde gostaria de retornar e sentiria falta enquanto não fizesse isso, ou quem sabe na hora da despedida, tenha se dado conta que o tempo é rápido demais e a lembrança do passado faz doer muito. Quem nunca sentiu esse aperto no peito por alguma razão, um sentimento indescritível se uma palavra não definisse tão bem, é saudade, somente isso.
Até hoje tento definir o sentimento de saudade e não consigo, sei apenas que ela se manifesta fortemente em algumas ocasiões, por vários motivos, e muitas vezes nos pega tão desprevenidos, ficamos por alguns momentos parados deixando o tempo passar e relembrando o que ficou para trás.
E você, sabe dizer exatamente o que é saudade, ou assim como eu e o escritor apenas a sente, e cá entre nós, o que chega ao coração não carece muito de explicações lógicas.

                                                                        

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Asilo

-Você voltou?

- E porque não voltaria? Não entendi a surpresa. Rssss

- Essa semana mais um não apareceu. Já vinha dando sinais que iria fazer isso, eu  estava preparado, mas lá no fundo sei, vou sentir falta dele, achei que o amigo seria mais um a sumir nesse mundão de meu Deus.

- Eu fiz uma promessa de sempre vir aqui não fiz? Eu cumpro o que prometo (sorriso).

- Sim, fez. Desculpa esse pobre velho. Às vezes sou sentimental demais.

- Não se preocupe com quem some, ainda tem muitos ainda para vir aqui lhe ver, não se importe com quem ficou para trás, a vida é assim, a gente vai vivendo e deixando pelo caminho pessoas que gostamos.

- Sim, às vezes por causa da morte, outras somem por razões tristes, algumas foram por culpa minha.  Eu tenho medo de serem poucos ou nenhum, quem vem aqui me ver. Não mereço isso depois de tantos anos.

- Não merece mesmo. Eu sempre vou vir.

- Voce já ameaçou me deixar.

- Ameacei dá um tempo de vir aqui, iria retornar depois. Mas isso ainda não ocorreu e aqui estou eu como sempre. Então não faça drama e vamos curtir a visita.

- Não é drama. Sou um velho em um asilo tendo pouco para oferecer. Sinto medo da solidão e ela sempre está presente para  lembrar do meu temor.

- Tem amor para oferecer. Eu te amo e por isso retorno sempre para lhe ver. Não venho toda semana como outros porque não posso, mas venho com freqüência, e não me faça ficar falando igual uma mulher. Ora, somos homens nascidos em uma época onde eles não choravam então nada de lágrimas.

- Hahahahahaha. Lágrimas são para mulheres né?

- Isso!

- Mas hoje em dia, eu sempre vejo homens chorando sem a menor vergonha. O que me diz disso?

-Os tempos mudaram não se faz mais homens como antigamente, gente igual a nós, dura e firme diante das dificuldades.

-Eu já chorei muito, sabia?

-Também, e choro. Mas ninguém precisa saber né, a gente engana que somos homens a moda antiga.

-Hahaha, você está certo. Para que precisam saber?

-Então.

-Voce é um grande homem, sinto orgulho de ter sua visita. Orgulho e felicidade.

- Gosto de vir aqui e conversar com você, escutar seus conselhos, relembrar historias, falar de futebol, vir aqui me faz muito bem. O oferecido já me basta, não preciso de mais nada.

- Sinto medo da solidão, ela me assombra nas noites frias, nos dias ensolarados eu consigo me enganar, mas eles não acontecem sempre. Aqui eu sou bem tratado, mas não pertenço a esse lugar, nunca pertenci. Não me integro às atividades, não faço amizades, aqui não é para mim. Se eu tivesse um pedido atendido por Deus, pediria condição física para eu ao menos uma vez ter a liberdade de ir e vir sem depender de nada e nem ninguém, mas como não acontece, espero as visitas para em algumas horas esquecer tudo e ser feliz por alguns momentos.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Dia Da Saudade

 Não sabia que hoje era o dia da saudade e por coincidência resolvi visitar o Maraca. Para os outros o estádio é Mário Filho ou Maracanã, para os torcedores cariocas é simplesmente Maraca, o lugar onde todos os apaixonados por um time foram felizes ao menos uma vez, tão especial que até torcedores de outros estados e países podem se orgulhar de ter visto seu time campeão nele. Dos lugares turísticos do Rio de Janeiro, acho que é um dos poucos se não for único a ser maior do que a cidade, se o tirassem e colocassem na lua continuaria sendo majestoso, apaixonante, o templo do futebol.
  Ele está cheio de tapumes, máquinas e operários. O campo eu olhei de longe, através do vidro, deu tristeza, visitei o mini museu e confesso deu um nó na garganta vendo a torcida mais linda desse mundo cantar o horto mágico em vídeo.
  Na saída procurei com atenção até achar a marca dos pés do Assis, fotografei para meu acervo particular, trouxe para casa um pedaço da sua construção e prometi voltar quando ele estivesse inteiro novamente. Deu saudade do velho gigante, muita saudade.