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quarta-feira, 3 de julho de 2024

2 de Julho

     Sentado em uma cadeira da universidade, os pensamentos remetiam a um ano atrás e o coração sangrava. A derrota na Libertadores tinha se juntado a outros problemas, e o sangue escorria. Uma hemorragia dolorida. O tempo passou, anos lembrando e tentando esquecer aquela noite, madrugada, dia.
    Mas não há mal que sempre dure. Não há ferida que não cicatrize, apesar de algumas demorarem demais. Acabou ano passado. O que vai ocorrer este ano não importa. Sarou. Passou.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Manifestante

Sentado na cadeira, olhando a TV, quase cochilando,percebeu o garoto tentando sair sem ser percebido. Tolo, não havia entendido que já tinha usado essa tática quando jovem e se lembrava o suficiente para não se enganado como havia enganado a outros. Sua voz soou no ambiente silencioso.

- Aonde você vai?

- Volto à noite. Vou ali resolver uma situação.

- Estou velho, mas não estou caduco. Acho que mereço a verdade.

- Que verdade, velho? Não entendi.

- Eu vi na televisão a pancadaria entre PM e manifestantes.

- E?

- E eu posso está velho, mas não fiquei idiota para ser enganado por um adolescente.

- Não estou entendendo nada.

- Está se fazendo de desentendido porque ainda não aprendeu a ser homem o suficiente para encarar a verdade. Acha que é mais fácil mentir.

- Não quero lhe preocupar, apenas isso. É para seu bem.

- Esqueça o meu bem e cuide do seu. Não quero o meu neto em um leito de hospital ou na cadeia.

- Eu sei me cuidar.

- Não sabe, tem pouca idade para saber. Impetuoso e imprudente como todos os jovens, é o que te favorece e prejudica. Resta-me rezar pela sua saúde.

- Não acredito em reza. Sei me cuidar, já disse.

- Fica em casa.

- Você ficaria? Melhor dizendo. Em outros tempos você ficou?

- Não. Sabe que não. E paguei um alto preço por isso.

- Se arrependeu? Lutou por aquilo que acreditava não foi? Isso que eu sempre pensei. Estou errado?

- Eu faria tudo de novo. E iria pras ruas agora se tivesse condições.

- Então não me peça para ficar. Estou seguindo o caminho do homem que mais admiro. Ensinou-me a não aceitar injustiças. Sempre escutei nessa casa que não devemos aceitar calados a opressão, aprendi com você a lutar pelo que eu acredito. Se você me disser que se arrependeu, que se tivesse oportunidade faria tudo diferente, escolheria outro lado, eu paro agora. Diga-me.

- Nunca me arrependi, garoto. Nunca.

O jovem saiu deixando em casa, temor e preocupações. Não levou consigo os avisos e recomendações de amigos e da família, nada podia lhe acontecer, tinha certeza. Encontrou-se com uma multidão e seguiu a maioria. Não se lembra de mais detalhes, só dos estampidos, seu rosto sangrando e pessoas lhe arrastando para prestar socorro. O desespero da dor, a gritaria ao seu redor e depois o diagnóstico cruel.

Quando teve alta foi para a casa, não sabia o que doía mais, o ferimento no seu rosto, o orgulho ferido ou a dúvida quanto a ter feito a coisa certa. Cego de um olho, cegueira causada por uma bala de borracha, tenta reorganizar a vida e seguir um caminho diferente. Com seu olho são olha o homem que tanto admira e tenta entender como ele tantos anos depois ainda consegue dizer que valeu a pena.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Doença


O corpo avisa que algo está fora do normal, mas quantas vezes ele fez isso e segui em frente, não há de ser sério mais uma vez, basta descansar um pouco, penso. As várias horas em frente ao PC são diminuídas, não posso parar de vez o mundo continua se movimentando, tenho a vida profissional, o lazer, simples obrigações hoje em dia dependem da internet e de um teclado.
Os avisos continuam, é necessário verificar o porquê da dor, mas eu continuo mesmo sentindo que não sou mais o mesmo. As poucas horas que eu parei já não parecem suficientes, é hora de deixar velhos hábitos, começo a deixar de fazer ações cotidianas.
Agora são gritos, já não é um aviso pequeno, é necessário parar urgentemente, mas o mundo não para, hoje em dia a gente vive conectado, digitando, vivendo atrelado a rede mundial, finjo não escutar e tento me enganar dizendo “amanhã vai melhorar”.
Já não dá mais para continuar sem remédios, é algo mais grave, o corpo manda um “eu te avisei” e eu aceito constrangido, auto medicação é a solução tentada, um remédio qualquer e logo estarei bom, não queria parar, preciso ao menos trabalhar.
Um dia aceito, não dá mais, procuro ajuda e paro, a dor ainda é suportável mas negligenciei demais as advertências recebidas, humilde recebo o diagnóstico e sou submetido à injeção e tratamentos, logo eu que detesto agulhas e nos últimos anos não entrei em hospital.
Abro mão do que exige mais, assim como fiz com o que exige menos, às vezes tentava um retorno e desistia. O tratamento continua até hoje, deu resultados e  logo que pude retornei, ainda não plenamente, infelizmente. Ficou a lição de não negligenciar os avisos do corpo, e faço isso esses dias para evitar uma recaída.  Quem sabe um dia tudo volta ao normal.