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terça-feira, 14 de junho de 2016

Fantasmas



   — Era para você ter sido minha nora.

   A voz e o rosto da velhinha bonachona ainda estavam em sua lembrança. A frase nunca esquecida soava em sua mente a cada noite fria. Era um martelo batendo em uma ferradura, causando um barulho que gostaria de não mais escutar.

   Quando o passado é mais forte do que o presente e temos medo do futuro, é porque não estamos bem. Ele costumava dizer isso com aquela entonação usada quando queria falar algo sério. Lembrava dos olhos fitando o nada e as palavras saindo da boca sem demonstrar emoção, sem demonstrar sentimentos. Ah, mas ela sabia o que ele sentia; ela sabia tantas coisas dele, sabia o que ele deixou saber e o que ela descobriu sem ele perceber. Sabia demais, pensou.

   Foi para a sacada e acendeu um cigarro. E se tudo tivesse sido diferente? Fez-se a pergunta pela milésima vez. Uma sessão de tortura cotidiana. Flagelava-se na tentativa de se purificar pela dor. Quem sabe um dia iria conseguir. As respostas vinham à sua mente com a velocidade de um trem-bala, conhecidas e duvidosas, e lá ficavam até qualquer hora.

   Abriu a porta e foi para a rua. O frio maltratou seu rosto descoberto e a fez esquecer seus fantasmas.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

O Gatinho

Eu lembro quando chegou o primeiro deles. Era arredio, me olhava com aquele jeito desconfiado, o apelidei de black bloc ou vândalo por cismar de tentar invadir a minha sala, procurando não sei o que. 
Parecendo eu com certas situações da vida, aparecia, sumia, reaparecia, resolveu ficar de vez por aqui. Comia os restos de jantar ou lanche que o pessoal da noite deixava, alguém do dia passou a trazer ração e a colocar água e ele com os outros foram ficando, fazendo morada no pátio.
 Isso foi no ano passado. Esse ano eu descobri que o primeiro gato era macho e um dos dois que apareceram depois era uma gata, não sei o sexo do terceiro.
Agora escutei um miado e fui lá ao pátio verificar, sei lá, talvez um dos gatos estivesse doente. Vi um gatinho, sozinho, quando me viu, carente correu para os meus pés, se roçando nas minhas pernas, pedindo carinho. Naquele pátio enorme, sem ninguém por perto, imagino o abandono que estava sentindo.

Está aqui ao meu lado, no meu colo, enquanto eu trabalho. Não posso levá-lo para casa, não sei qual será o seu dia de amanhã, mas eu sei o que é me sentir solitário, em um lugar vazio, querendo desesperadamente alguém que me diga “fica comigo essa noite. Não te deixarei só”.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Asilo

-Você voltou?

- E porque não voltaria? Não entendi a surpresa. Rssss

- Essa semana mais um não apareceu. Já vinha dando sinais que iria fazer isso, eu  estava preparado, mas lá no fundo sei, vou sentir falta dele, achei que o amigo seria mais um a sumir nesse mundão de meu Deus.

- Eu fiz uma promessa de sempre vir aqui não fiz? Eu cumpro o que prometo (sorriso).

- Sim, fez. Desculpa esse pobre velho. Às vezes sou sentimental demais.

- Não se preocupe com quem some, ainda tem muitos ainda para vir aqui lhe ver, não se importe com quem ficou para trás, a vida é assim, a gente vai vivendo e deixando pelo caminho pessoas que gostamos.

- Sim, às vezes por causa da morte, outras somem por razões tristes, algumas foram por culpa minha.  Eu tenho medo de serem poucos ou nenhum, quem vem aqui me ver. Não mereço isso depois de tantos anos.

- Não merece mesmo. Eu sempre vou vir.

- Voce já ameaçou me deixar.

- Ameacei dá um tempo de vir aqui, iria retornar depois. Mas isso ainda não ocorreu e aqui estou eu como sempre. Então não faça drama e vamos curtir a visita.

- Não é drama. Sou um velho em um asilo tendo pouco para oferecer. Sinto medo da solidão e ela sempre está presente para  lembrar do meu temor.

- Tem amor para oferecer. Eu te amo e por isso retorno sempre para lhe ver. Não venho toda semana como outros porque não posso, mas venho com freqüência, e não me faça ficar falando igual uma mulher. Ora, somos homens nascidos em uma época onde eles não choravam então nada de lágrimas.

- Hahahahahaha. Lágrimas são para mulheres né?

- Isso!

- Mas hoje em dia, eu sempre vejo homens chorando sem a menor vergonha. O que me diz disso?

-Os tempos mudaram não se faz mais homens como antigamente, gente igual a nós, dura e firme diante das dificuldades.

-Eu já chorei muito, sabia?

-Também, e choro. Mas ninguém precisa saber né, a gente engana que somos homens a moda antiga.

-Hahaha, você está certo. Para que precisam saber?

-Então.

-Voce é um grande homem, sinto orgulho de ter sua visita. Orgulho e felicidade.

- Gosto de vir aqui e conversar com você, escutar seus conselhos, relembrar historias, falar de futebol, vir aqui me faz muito bem. O oferecido já me basta, não preciso de mais nada.

- Sinto medo da solidão, ela me assombra nas noites frias, nos dias ensolarados eu consigo me enganar, mas eles não acontecem sempre. Aqui eu sou bem tratado, mas não pertenço a esse lugar, nunca pertenci. Não me integro às atividades, não faço amizades, aqui não é para mim. Se eu tivesse um pedido atendido por Deus, pediria condição física para eu ao menos uma vez ter a liberdade de ir e vir sem depender de nada e nem ninguém, mas como não acontece, espero as visitas para em algumas horas esquecer tudo e ser feliz por alguns momentos.