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terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Ganhos Inesquecíveis

- Doutor, me ouviu?

 - Hã? Desculpe-me, pode repetir? 
 
- Estamos chegando ao seu destino. A cidade está se recuperando depois da grande depressão. Volta a ficar mais bonita. 

 - Depressão e Covid. A maldita doença não afetou?

 - Ah, sim! Ela também. Retardou nossa reconstrução. Maldita seja. 

 - Esse prédio grande à direita. Hoje em dia é o quê? 

 - Hotel. Já foi um cassino. Sabia? 

 Já foi um cassino. Sabia? Sim, eu sabia. Nunca me esqueci do pano verde, ambiente festivo, os viciados, desespero com perdas e ganhos festejados. Ali tinha sido feliz, não obstante tantas perdas financeiras ou emocionais. Pediu para o motorista parar, dando a desculpa que queria tirar umas fotos de um prédio tão bonito. Mentiu como se acostumou a mentir por grande parte da sua vida. Queria somente rever um velho conhecido e dizer: "Eu te falei que voltaria como ganhador. Eu consegui, embora as roletas já não rodem e as mesas não tenham mais cartas. Eu consegui"

- Podemos ir embora. 

- Sim, doutor. Aí era um lugar glamouroso. Muitos ficaram ricos aí dentro.

- E outros ficaram pobres e nunca se recuperaram.

- Sim, dizem isso. É a vida.

- É a vida.


quarta-feira, 20 de julho de 2011

Perdas

Aprendi no pôquer que, em algum momento, tudo começa a dar errado e começamos a perder consecutivamente. Nesse momento, o viciado se endivida e o esperto sai da mesa, dá um basta e vai embora. Não adianta insistir, é como se fosse um feitiço interferindo para que tudo dê errado, chega inesperadamente e dessa forma se vai sem deixar saudades e alguns lamentos. O problema é quando essa má fase só vai embora quando deixa o jogador quebrado, sem condições de continuar a jogar, com duplicatas a pagar, dívidas impagáveis, jogando apenas para tirar o prejuízo e sem prazer ou prometendo e cumprindo nunca mais voltar. Tem certos momentos em nossas vidas parecidos com essa má fase do pôquer e, infelizmente, nem todos podem abandonar a mesa e retornar depois; alguns conseguem, outros desistem para sempre. Quando tudo começou a dar errado, eu não consigo lembrar. Talvez tenha sido depois da última guerra, quando nosso exército derrotado retornou com o moral baixo e eu descobri que não tinha mais casa, nem lar, nem quem me esperasse. Como sempre fiz em minha vida, tentei dar a volta por cima, fui à luta, dessa vez sem armas de fogo; segui em frente e, tal como em uma mesa de jogo "amaldiçoada", fui perdendo, rodada após rodada, esperando boas cartas, blefando quando não deveria, pagando para ver na hora errada. Não me arrependo, mas confesso, se tivesse chances, faria escolhas diferentes, jogaria de outra forma, talvez.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Cassino

   Ainda sei jogar e como é bom estar de volta como em outros tempos. Não tenho muitas fichas para apostar, a sensação de não ter outra chance está sempre presente, preciso ter sucesso para não assinar duplicatas, mas aqui estou eu, sentado em uma cadeira, diante do pano verde, cartas na mão com meu olhar indecifrável pronto para ganhar.
   Quem sabe um dia me acostume novamente em perder aqui, ganhar ali e entender que isso é do jogo, ninguém ganha ou perde sempre, o que temos de ter cuidado é em perceber quando as perdas se tornam maiores do que os ganhos. Por isso eu parti, não jogo para perder, mas me acostumei com isso, até que um dia percebi ter me acostumado demais. .
   Então eu fui embora sem pensar muito. Não sei quanto tempo vou permanecer no cassino, já não agüento madrugadas intermináveis, não bebo quanto antes, meu corpo pode pedir arrego. Não importa agora, vou tentar eternizar cada segundo, pois não sei se vou voltar outras vezes.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Cassino

       Sentado observava os jogadores. Conhecia seus comportamentos e poderia com rara certeza apontar quem estava ali por causa do vício, lazer ou para passar o tempo. Sorriu quando percebeu uma bela mulher se aproximar de um ganhador, a banca nunca perde, pensou.        
        Olhou para seu copo, e remoeu seu pensamento, um dia tinha achado que iria sair dali ganhador e se voltasse seria para mostrar-se como um vencedor. "Quantos enganos comete uma mente jovem" tinha sido uma das lições aprendidas nos salões de jogos. Não a mais importante, essa tinha sido a de sempre sair do jogo quando estivesse no lucro ou enquanto o prejuízo fosse pouco. 
      Tinha conhecido os dois lados da moeda, saindo tanto com ganhos quanto com perdas. O problema era que sempre tinha retornado para mais uma rodada. Na roleta ou nas cartas, só importava a emoção do risco. Financiou essa emoção enquanto teve dinheiro, ganhou e perdeu, saindo dali prometendo nunca mais retornar, quebrando suas promessas uma a uma, como se não tivesse palavra.
         Um dia percebeu que era a última tentativa, se perdesse só jogaria assinando duplicatas. Mesmo assim sentou na mesa achando que o fim não chegaria. Perdeu e pagou, mais um final de jogo com ele sendo perdedor. Pensou em assinar uma duplicata, se endividar com o que não tinha mas poderia futuramente ter. Então lembrou-se da lição aprendida a duras penas e saiu do jogo. Orgulho de jogador ferido, evitando olhares. 
       Desde então retorna ao cassino por hábito, sem dinheiro para jogar, procura uma mesa, senta-se, pede uma bebida, observa o salão. Um dia volta a jogar, pensa. Um dia ainda consigo de volta o que é meu. Enquanto isso a roleta gira, as cartas são dadas, as máquinas permanecem ligadas, jogadores comemoram ou praguejam. A vida no cassino é igual a vida em qualquer lugar. Não para.