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domingo, 17 de março de 2013

Alívio, Tristeza e Recomeço


- Não lamenta, era para ter sido feito e você fez.

- Eu não queria fazer...

- Queria, se não quisesse não faria, não tente se enganar. São poucas as coisas que faz totalmente sem querer.

- Pode ser. Mas podia ter adiado mais um pouco, ter feito de outro jeito. Vou causar destruição demais.

- Já era para ter sido feito há muito tempo, sabemos disso. Não adianta, de qualquer jeito iríamos ter danos, infelizmente, não tem outro jeito. Para nascer um novo mundo, o velho é destruído em parte ou totalmente.

- Não é um novo mundo, é tudo familiar, parece igual.

- Nada nessa vida é igual, aprenda isso. Se você caminha pela mesma trilha mais de uma vez, ela não é igual embora seja capaz de reconhecer muitas coisas nela. Mas algo sempre muda.

- Eu queria está feliz ou sem tristeza...

- Impossível, fizestes algo que estava postergando por não ter coragem de lidar com as conseqüências. Sinta-se recompensado com o sentimento de ter feito o certo.

- Nunca serei perdoado.

- Não, as pessoas não perdoam quem as magoa.

- Eu não queria isso.

- Ninguém quer, mas assim são as relações humanas. Por mais que se evite, sempre vai ocorrer. Não se culpe por mais que seja considerado culpado.

- Agora é seguir em frente né?

-  Sim, finalmente seguir em frente.

- Eu estou com medo, sinto-me como se tivesse pulado do trapézio sem rede de proteção.

- E foi o que fizestes.

- E se eu cair e me machucar?

- Não será a primeira vez, até hoje não morreu, não será agora.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Madrugada



   Outra madrugada insone em um lugar com a janela aberta, dando para um muro de concreto, frio e silencioso, sem nem ao menos um vento no rosto. Está frio; madrugadas são frias. Eu gostava disso. Ah, como eu gostava de sentir essa friagem enquanto caminhava de volta para casa. A mente diz que eram bons tempos, mas é mentira. É apenas saudosismo, idealizando e romantizando o passado. Não eram tão bons, mas eu gostava daquela vida que já não tenho mais. Talvez seja por isso que o que não temos e não podemos mais ter é o que nos faz muita falta e nos faz sentir saudades.
     Eu não fumo, nunca fumei, mas hoje eu queria um cigarro, um copo de bebida em uma sacada qualquer, olhando a madrugada, a rua, a lua, o céu. Queria poder refletir sobre o rumo que minha vida tomou, quando perdi o controle dessa forma. Em vez de conduzir, passei a ser conduzido por uma série de acontecimentos pelos quais sou culpado pelas pessoas que convivem comigo.
    Fico me imaginando com o cigarro na boca. Sou bom de imaginação. Quando criança, viajava dessa forma e mantive o costume até os dias atuais, embora agora, bem menos. A realidade está sempre desesperadamente presente, evitando que meus esforços sejam para qualquer coisa que não lidar com o mundo real.
    O copo imaginário na outra mão enquanto a fumaça sobe, um sorriso cínico no rosto de alguém acostumado a desafiar qualquer um. Basta achar que a batalha vale a pena. Olhando para a vida e como um Muhammad Ali gritando "me bate, me bate que eu não caio". É o que resta, é o que sei fazer de melhor.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Lua Cheia

A grande dama está lá no céu iluminando a trilha dos andarilhos, é noite de lua cheia, noite mágica dizem, há muito tempo acreditava nisso, mas hoje em dia já não tenho mais nenhuma crença, elas se foram, todas que eu tinha, não me restando mais nada em que acreditar.
A sua luz me ilumina e eu sinto algo familiar nisso, sempre fui um grande admirador da senhora do céu, casa de São Jorge o santo que protege os guerreiros nas batalhas da vida.
Em outros tempos reservaria um tempo para reverenciá-la e agradecer por me oferecer sua beleza e claridade de graça, sem pedir nada, mas já não faço isso, certas coisas morreram dentro de mim, ou melhor, adormeceram colocadas de lado em algum canto do coração e já não se fazem presente.
Vou andando, tentando ignorá-la lá no firmamento, não faço isso por despeito ou mágoa, apenas  não quero relembrar de momentos em que ela foi minha confidente, sabe muitos segredos meus, pode relembrar de algumas coisas, já me basta o meu caminhar difícil não quero complicá-lo com mais isso.
À noite vai indo embora e a madrugada chegando, com seu vento gelado no rosto e o orvalho caindo em meu corpo. Deus como adorava a madrugada, ainda gosto, mas agora ela já não me desperta afeição e sim medo, sinto temor, pois com ela aparecem fantasmas para me assombrar e isso não é bom.
Vou andando sem pensar muito, procuro um bar aberto com um garçom disposto a servir até quando eu quiser sair, sem me incomodar com perguntas, apenas me deixando com uma garrafa qualquer.
A lua fica lá em cima, impassível, sorridente, cheia, iluminando a todos, em outros lugares alguém deve está conversando com ela, contando segredos, pedindo conselhos, oferecendo o que se tem de melhor, agradando-a. É feminina e como toda alma de mulher tem seus caprichos, é necessário saber se portar em sua presença e ao se dirigir a ela tem que ser educadamente para ser bem tratado, caso contrário ela ignora, educadamente finge não lhe perceber.
Não tem um bar aberto na cidade, fecham cedo por causa da violência, a boemia sucumbiu aos novos tempos quando se prefere programas mais “seguros”, acho uma loja vinte e quatro horas, feita para notívagos, insones ou vagabundos feitos eu,  entro e me dirijo para a seção de bebidas, escolho um vinho bom e me dirijo ao caixa, pago em espécie sem prestar atenção em nada e em ninguém, assim é o mundo moderno, as pessoas se tornam invisíveis, cada uma fechada em seu mundo, tentando resolver seus problemas, ser feliz, viver de uma forma que goste.
Ando e encontro uma praça, está vazia, não tem moradores de ruas e nem mais ninguém, um lugar solitário, abro a garrafa e ofereço a deusa no céu com um sorriso, ela me retribui e pergunta por que eu demorei tanto a falar com ela. Calo-me envergonhado, sem querer responder, mal olhando para cima, percebendo meu constrangimento ela muda de assunto me perguntando como estou. A gente começa a conversar como somente os velhos amigos fazem quando se encontram, conto por onde andei o que eu fiz, a garrafa vai esvaziando e a conversa fluindo, até o dia amanhecer e ela se despedir de mim. Pede para eu não sumir e se vai enquanto faço um discreto aceno com uma ponta de saudade.
Amanhece na cidade, selva de pedra, gente visível se tornando invisível para os outros, cada um tendo o seu destino, eu rumo para a casa, é hora de o vagabundo andarilho retornar ao lar. 

sábado, 26 de novembro de 2011

Riqueza

Colocou mais bebida em sua taça enquanto olhava para o horizonte sem se fixar em nada especial. A vista da cobertura no bairro de Ipanema era linda e sempre gostava de apreciar enquanto a madrugada chegava trazendo aquele sereno tão familiar. Lembrou-se do passado quando o orvalho o encontrava  indo trabalhar e não sentiu saudades daquele tempo. Tentava lembrar coisas boas do seu passado mas definitivamente essa não era uma delas e só permanecia em suas lembranças por não ter conseguido expulsa-la ainda de si. Agora era um homem rico, tinha dinheiro suficiente para viver com conforto pelo resto da sua vida, com todo o luxo que sempre sonhou e pensava merecer. 
Na solidão que estava ergueu a taça e fez um brinde com ninguém, bebeu alguns goles e voltou seus olhos para a o mar infinito. Tinha tudo que um homem podia querer, mas as coisas que mais lhe faziam faltas e sentia saudades de ter o dinheiro não podia comprar.