A grande dama está lá no céu iluminando a trilha dos andarilhos, é noite de lua cheia, noite mágica dizem, há muito tempo acreditava nisso, mas hoje em dia já não tenho mais nenhuma crença, elas se foram, todas que eu tinha, não me restando mais nada em que acreditar.
A sua luz me ilumina e eu sinto algo familiar nisso, sempre fui um grande admirador da senhora do céu, casa de São Jorge o santo que protege os guerreiros nas batalhas da vida.
Em outros tempos reservaria um tempo para reverenciá-la e agradecer por me oferecer sua beleza e claridade de graça, sem pedir nada, mas já não faço isso, certas coisas morreram dentro de mim, ou melhor, adormeceram colocadas de lado em algum canto do coração e já não se fazem presente.
Vou andando, tentando ignorá-la lá no firmamento, não faço isso por despeito ou mágoa, apenas não quero relembrar de momentos em que ela foi minha confidente, sabe muitos segredos meus, pode relembrar de algumas coisas, já me basta o meu caminhar difícil não quero complicá-lo com mais isso.
À noite vai indo embora e a madrugada chegando, com seu vento gelado no rosto e o orvalho caindo em meu corpo. Deus como adorava a madrugada, ainda gosto, mas agora ela já não me desperta afeição e sim medo, sinto temor, pois com ela aparecem fantasmas para me assombrar e isso não é bom.
Vou andando sem pensar muito, procuro um bar aberto com um garçom disposto a servir até quando eu quiser sair, sem me incomodar com perguntas, apenas me deixando com uma garrafa qualquer.
A lua fica lá em cima, impassível, sorridente, cheia, iluminando a todos, em outros lugares alguém deve está conversando com ela, contando segredos, pedindo conselhos, oferecendo o que se tem de melhor, agradando-a. É feminina e como toda alma de mulher tem seus caprichos, é necessário saber se portar em sua presença e ao se dirigir a ela tem que ser educadamente para ser bem tratado, caso contrário ela ignora, educadamente finge não lhe perceber.
Não tem um bar aberto na cidade, fecham cedo por causa da violência, a boemia sucumbiu aos novos tempos quando se prefere programas mais “seguros”, acho uma loja vinte e quatro horas, feita para notívagos, insones ou vagabundos feitos eu, entro e me dirijo para a seção de bebidas, escolho um vinho bom e me dirijo ao caixa, pago em espécie sem prestar atenção em nada e em ninguém, assim é o mundo moderno, as pessoas se tornam invisíveis, cada uma fechada em seu mundo, tentando resolver seus problemas, ser feliz, viver de uma forma que goste.
Ando e encontro uma praça, está vazia, não tem moradores de ruas e nem mais ninguém, um lugar solitário, abro a garrafa e ofereço a deusa no céu com um sorriso, ela me retribui e pergunta por que eu demorei tanto a falar com ela. Calo-me envergonhado, sem querer responder, mal olhando para cima, percebendo meu constrangimento ela muda de assunto me perguntando como estou. A gente começa a conversar como somente os velhos amigos fazem quando se encontram, conto por onde andei o que eu fiz, a garrafa vai esvaziando e a conversa fluindo, até o dia amanhecer e ela se despedir de mim. Pede para eu não sumir e se vai enquanto faço um discreto aceno com uma ponta de saudade.
Amanhece na cidade, selva de pedra, gente visível se tornando invisível para os outros, cada um tendo o seu destino, eu rumo para a casa, é hora de o vagabundo andarilho retornar ao lar.