Em algumas ruas do Rio de Janeiro, quando chega a madrugada fica perigoso andar por elas, mas para quem conhece o lugar como nós três e tem um pouco de coragem, era algo normal vir da farra pelo meio da rua, falando alto, brincando até cada um chegar em suas respectivas casas.
Naquela noite, fazia frio intenso, um de nós alcoolizado vinha pelo meio da rua contando como tinha se aproximado de uma mulher no baile, quando eu visualizei uma senhora parada um pouco a nossa frente. Devia ter uns quarentas anos, se vestia de forma simples, “está assustada com três homens andando pela rua e espera a gente passar para continuar seu rumo”, foi meu pensamento e analisei cá com meus botões o que ela fazia ali uma hora daquelas.
Quando estávamos perto ela nos chamou e pediu para que informássemos como fazia para chegar a uma determinada rua. A pergunta nos pegou de surpresa, o endereço era dentro de uma favela, na madrugada, definitivamente não era uma situação comum. O mais sóbrio dos três (eu), falei que era perigosa ainda mais naquela hora. A senhora insistiu, precisava ir, e o mais bêbado do nosso grupo perguntou sem rodeios os seus motivos.
A resposta nos comoveu. Segundo ela, tinha adotado um menino de rua e ele não se adaptou à falta de liberdade, fugiu de casa e alguém lhe informou que ele estava morando embaixo de uma marquise naquele endereço. Um de nós talvez afetado pelo álcool, perguntou por que ela estava fazendo isso se não era seu filho. A resposta veio rápida e não deixou margem para contestação “Mãe não é só gerar, é quem ama também”. Ainda insisti ser ali um lugar perigoso, adverti que ali era vida real e não uma novela e mais uma vez ela reagiu com firmeza “qual mãe não vai até o inferno pelo seu filho? Eu não sou diferente”.
Calamos-nos, talvez pensando nas nossas em casa nos esperando, se preciso fosse fariam a mesma coisa que aquela senhora estava fazendo, não havia dúvida disso. O que fazer silenciosamente me perguntei olhando para os outros dois acompanhantes, poderíamos apenas informar e ir dormir, mais isso não era “papel de homem” conforme um de nós definiu dias depois ao recontar a historia.
Mesmo com medo, sabendo dos riscos, resolvemos acompanha-la até a entrada da comunidade mais sem entrar lá dentro. Três homens juntos, dois deles negros em uma favela carioca são os chamados “suspeitos padrões” pela policia e mesmo sendo todos inocentes, os riscos eram grandes demais. Pelo caminho mais longo que o costume, fui pensando comigo o que levava aquela mulher a ter tamanha coragem, eu estava assustado, rezava, pedia proteção, enquanto olhava seu rosto e apenas via determinação. Se eu tinha uma certeza era que se a gente desistisse, ela prosseguiria sem hesitar. Caminhamos em silencio, cada qual em seu pensamento, cada qual com seus medos e crenças.
Na entrada, um de nós, não sei se o mais corajoso ou o mais temerário foi até o “menino” da entrada e falou que a “tiazinha” estava procurando seu filho e se ele podia entrar com ela. Confesso, me senti orgulhoso de ser amigo daquele cara, embora ele quando reconte essa historia para ser modesto, diga que fez apenas porque não estava sóbrio. Mentira. Fez por uma mãe, talvez pela dele, talvez pela nossa, com certeza pelo sentimento de um filho. Certo tempo depois, a dupla retorna com um menino franzino, a mulher acariciava sua cabeça, não havia reprimenda, apenas amor. Fizemos o caminho de volta, dia amanhecendo, esperamos uma Kombi aparecer para a senhora e o garoto irem para casa e recebemos seus agradecimentos dizendo que nossas mães deveriam ter muito orgulho de ter filhos assim.
Retornando para a nossa casa, pensei novamente sobre os motivos para alguém fazer isso? A resposta estava em meu coração. O amor de mãe, capaz de fazer uma mulher não temer nada nem ninguém, enfrentar situações adversas quando o motivo é alguém a quem ela chama de filho ou filha. Exemplificar ou tipificar esse amor seria errôneo de minha parte, pois algo tão intenso e tão bonito não pode ser analisado e quantificado como algo qualquer, naquela madruga eu tive um exemplo ao vivo do sentimento materno e de como ele independe do ato de gerar e dá a luz. Mãe é mãe, não importa como seus filhos foram gerados, a idade que eles tenham ou a situação onde eles se encontram, elas são sempre capazes de tudo pelos seus filhos.
* Esse texto é a minha homenagem as mamães nesse 13 de maio, dia de N Sra de Fátima, ela própria um belo exemplo de mãe.