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quarta-feira, 17 de julho de 2024

Trinta Anos

-   Para que essa champanhe, homem?

-  Comemorar.

-  Hã?

-  Comemorar vitórias conquistadas faz bem ao espírito. Temos que celebrar nossas conquistas.

-  Jesus. Enlouqueceu de vez.

-  Hoje é dezessete de julho.

-  E?

-  Não lembra mais? O terraço, a TV a cores, aquela tosse infinda, um frio, suas preces no banheiro...

-  Brasil, Itália, 94?

-  Sim, lembra né?

-   A narração do Galvão quase chorando quando foi pros pênaltis.

-  A tensão em volta. Todos com o coração nas mãos.

-  Eu lembro de tanta coisa.

-  Devemos comemorar?

-  Abre essa champanhe, caralho. Trinta anos.

quarta-feira, 13 de março de 2024

Sufoco

 

  • - Eu quero sumir dessa merda! Me tira daqui!

  • - Calma. Tudo ao seu tempo.

  • - Vai se fuder, arrombado. Enfia seu tempo no cu. Sempre essa ladainha, porra. E sempre a gente se fodendo.

  • - Sempre não. Mal agradecido. Os últimos anos até que foram legais.

  • - Muito legais. Muito mesmo. Pandemia, uma infeliz infernizando a gente, chute no cu.

  • - Está vendo o copo meio vazio. Tivemos coisas boas.

  • - Foda-se.

  • - Está sendo mal educado.

  • - Foda-se de novo.

  • - Eu vou te largar aí.

  • - Você não faria isso. Se veio até esse inferno foi para me tirar. Qual o plano de fuga?

  • - Não tenho um plano?

  • - Hã?

  • - Então. Não tem plano nenhum. Você vai ficar aí até o tempo necessário para sair pela porta da frente.

  • - Jesus Cristo. Não estou acreditando nisso. Eu não estou acreditando. Você veio até aqui só para olhar minha cara?

  • - Calma. Vamos sair dessa. Juntos. Sem fazer merda.

  • - Eu quero morrer!

  • - Para de drama. Não é tão ruim aí.

  • - Não, não é tão ruim. É um ninho de cobras, picando tudo e todos, com ataques de ansiedade toda hora, um mundo a ser construído e eu esperando a luz do sol.
  • Não está ruim, caralho. Para de drama, fdp. Calma.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Velhos Amigos

- Entra. Pode entrar. Não está fechada.

O quarto era escuro, sombrio e com o cheiro característico de lugar que há muito não via a luz do sol. Entrei tentando manter um rosto agradável.

- Ainda lembra de mim, filho da puta?

- Jesus Cristo. Essa voz. Essa voz! É você mesmo? É quem estou pensando?

Tinha a voz surpresa tentando esconder o embargo da emoção. Tenho certeza que nunca esperava minha presença ali.

- Quem é vivo sempre aparece. E mesmo morto eu iria aparecer para você, arrombado.

- Deus meu. O que você está fazendo aqui, peste ruim? A covid não te levou?

- Não. Perdemos muitos para a maldita doença, mas eu fiquei.

- Até hoje eu não me recuperei, velho amigo.

E quem se recuperou, eu penso? É como se tivesse sido ontem. Há um bloqueio na minha mente com lapsos do desespero de outrora.

- E quem se recuperou, velho amigo? Nem você, nem eu, nem ninguém. Por isso está aqui vivendo nesse lugar horrível?

- Estou onde pude ficar. O dinheiro é escasso. Não posso pagar algo melhor.

- Pode melhorar isso aqui. Uma janela aberta não paga impostos.

- Não paga. O que te fez voltar aqui?

- Nunca deixo um inimigo para trás. Quanto mais um amigo. Vim por você. Preciso te tirar daqui.

- Não quero sair. Não quero ir embora. Quero ficar.

- Fique, mas não nessa situação. Estou aqui para te ajudar a reerguer.

- E você? Já se ergueu para tentar ajudar os outros?

- Quem tem pouco pode dividir o que tem? Não precisa esperar ter muito, cara.

- Eu não saio daqui.

- Ok. Mas juntos vamos melhorar tudo isso.

- Vamos sim.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Dois Meses

Bom malandro não esquece os caminhos que lhe sorriem e não deixa para trás quem lhe dá abrigo. Por vezes some mas sempre retorna com aquele jeito de quem sempre esteve ali. Voltou sorridente, com aquele ar cínico e seu sarcasmo de sempre. Parecia que sempre estivera ali.

- Voltei, achou que eu o havia esquecido? Estou aqui.

- É, voltou. Demorou um pouco né?

- Demorei? Acho que não. Exagero seu.

- Demorou e sabe disso. Não se faça de bobo.

- Não resmungue, vai. Estou feliz. Vim te agradecer.

- A mim?

- Sim. Me abrigastes nos momentos ruins. Só por isso consegui continuar meu caminho.

- E nos momentos bons você some.

- Não é bem assim.

- Não?

- Não. Eu queria voltar quando não fosse tão recente os acontecimentos. Quando tudo estivesse firme. Sem obstáculos.

- E está?

- Sim, dois meses hoje. E eu estou feliz.

- Então não tem mais obstáculos?

- Sempre terá. Nunca vou prescindir de vocês me iluminando. Porém posso dizer que está firme e superado os mais importantes nesse começo.

- Fico feliz por você.

- Sei que sim. Você me abrigou em momentos ruins e agora pode sorrir comigo. As coisas finalmente estão bem.

- Que bom. Cuide bem dela.

- Cuide de nós como sempre cuidou de mim. Esse é o meu pedido.

domingo, 3 de abril de 2016

Liberdade Cantou


- A cidade de Santa Maria fica afastada do mundo.

A frase do taxista lhe trouxe de volta a realidade. Olhando pela janela lutava para ordenar seus pensamentos enquanto o carro ia engolindo a distância pela estrada bem asfaltada. A cidade ficava longe, lugar ideal para construírem um presídio de segurança máxima e jogar lá todos aqueles que uma sociedade onde não vigora a pena de morte quer se livrar.
Condenados por diversos crimes violentos vão para lá, alguns travam verdadeiras batalhas judiciais para evitar esse destino, outros sem recursos financeiros aceitam sem reclamar, não tem santo atrás dos muros, talvez nem Deus e o Diabo ousam atravessar para o outro lado da muralha, lugar sombrio, com algumas pessoas tendo a sorte de ter uma visita.
 O carro chega à cidade, pequena, que sobrevive em torno do presídio, mulheres de presos que resolveram ficar perto de quem amam famílias de agentes penitenciários, de policiais, pequenos comércios, uma escola, uma farmácia, uma igreja e lá em cima da colina a construção de pedra, razão de aquela cidade existir. A selva de pedra, inferno de concreto, fortaleza são alguns dos apelidos pouco carinhosos adjetivando aquela construção sombria depósito de pessoas violentas.
 Para chegar lá não pode ser de carro particular, é necessário se identificar na entrada da estrada, pegar uma vam que leva até a outra cancela onde então depois de uma nova identificação o caminho até o portão de ferro é feito a pé. Mais uma vez é necessário se identificar e então adentrar no que os presos chamam de castelo, mas aqui não tem princesa e muito menos é cenário para contos infantis. Foi levado até uma sala, revistado, confirmado a autorização para visitar e levado até o pátio onde foi orientado a escolher com cuidado um lugar que não "pertencesse" a ninguém, não podia olhar no rosto das pessoas e de forma nenhuma fazer movimentos bruscos, era chegar, parar ficar quieto e esperar.
Tensão no ambiente acendeu um cigarro e esperou por alguns minutos. Chegou quem esperava, estendeu a mão e não a teve apertada.

- O que você faz aqui?

- Vim te visitar. O que mais eu posso fazer nesse inferno?

- Não preciso de visitas. Se quiser ajudar mande cigarros. Eu preciso de muito deles.

- Sempre orgulhoso. Não está em situação de exigir nada.

- Não exigi. Eu pedi. Ou melhor, sugeri.

- Aceite o que vim lhe trazer e cale-se.

- O que veio me trazer?

- A liberdade, filho da puta. Vim lhe tirar dessa merda que se meteu e não consegue mais sair. Talvez lá fora você volte a ser o que era né?

- Eu não estou entendendo. Do que você está falando? Não brinca assim comigo.

- Consegui contratar o melhor advogado da cidade. Vai me custar um bom dinheiro, mas ele prometeu te tirar daqui em breve. Se prepare para sair.

- Eu não sei o que dizer.

- Quando estiver lá fora diga obrigado e faça valer à pena o meu dinheiro gasto. Por hora não diga porra nenhuma. Não estou aqui para te escutar.

- Porque você está fazendo isso?

- Por quê? Deve ser porque sou seu amigo. Deve ser porque você caiu aí enquanto eu fiquei na pista sozinho tendo que me virar. Deve ser porque não era para você está  tanto tempo nesse inferno. Deve ser porque está na hora da gente voltar a ficar juntos na pista. Sei lá porque eu fiz isso. A visita acabou e eu vou embora. Se mantenha vivo até a liberdade vir.


Fez o caminho de volta sem lágrimas. Elas tinham secado faz tempo e não eram mais derramadas. Não escutava o que dizia o motorista. Pensamento estava longe demais. Iria tirá-lo daquele inferno. A vida ia voltar a ser boa. Mereciam.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Teimosia

- Você conhece esse caminho.
- Sim, conheço.
- E sabe os riscos.
- Sim, sei.
- E não vai voltar.
- Deveria?
- Depois vai reclamar (risos)
- E eu deixo de reclamar de algo?
- Teimoso...
- Igual ao meu pai. É genético.

- Ao menos saiba que se cair eu estou ao seu lado para ajudar.
- Sim, eu tenho essa certeza.
- Ao menos toma mais cuidado dessa vez.
- Porque tanta preocupação? Eu nunca morri  e não vai ser agora.
- Verdade, mas chega de choro né?
- Seja o que Deus quiser.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Um Pedido Para Ficar

A ambulância ia abrindo caminho pelas ruas, o motorista cortava passava pelos carros em alta velocidade, o alerta sonoro não deixava dúvidas quanto a sua missão. Lá dentro os médicos faziam os procedimentos padrões para essa situação e não suspeitavam que uma discussão ocorresse entre um anjo da guarda e seu protegido.

- Segura a onda, cara. Se a gente conseguir chegar ao hospital dá para te salvar.

- E quem disse que eu quero ser salvo?

- Ainda não é hora de partir. Tentei te avisar umas três vezes para não ficar naquele lugar, mas é teimoso né? Agora estamos nessa enrascada.

- Não estou em enrascada nenhuma. A não ser que chegando lá em cima eu seja comunicado que vou pro inferno.

- E se isso ocorrer?

- Não deve ser pior do que a minha vida na terra.

- Não fala isso, cara. Não sabe o que diz. Não desiste, espera ao menos a gente chegar ao hospital.

- Eu pensava que quem decidia se eu ia morrer ou não era Deus.

- Putz, vai começar com seu deboche?

- Ué, estou falando sério.

- É ele quem decide. Ocorre que às vezes a pessoa precipita à hora e ele decide aceitar que ela morra antes do planejado. Suicídio é um exemplo disso.

- Eu não precipitei...

- Ah não. Claro que não. Eu te avisei três vezes para ir embora e você teimou.  Bastava ter saído dali uns minutos antes, mas preferiu ficar mais um pouco. Bastava mudar de lugar, mas não arredou o pé. E não precipitou?

- Não, ué. Sou obrigado a receber seus avisos por acaso? Não é a primeira vez que por não te escutar dá problemas.

- Ah, você escutou sim. Tenho certeza disso. Não saiu dali porque não quis. Deixou de dá valor a sua vida e ficar se arriscando.

- Não se estressa. Se eu morrer não vai fazer falta a ninguém, ninguém vai chorar. Não há motivos para lamentos.

- Vai fazer falta a mim. Minha missão aqui na terra é te proteger e fiz isso durante todos esses anos. Não quero você partindo por falha minha.

- Um anjo "caxias". Eu daria uma gargalhada se pudesse.

- Você deve ser a única pessoa que quase morrendo fica fazendo piadas sem graças. Ah meu pai, olha a missão que você me dá.

- Relaxa, eu estou indo em paz. Lutei o quanto pude, consegui algumas vitorias, ganhei, perdi. A única coisa que eu não queria era ir com algo por fazer.

- Segura mais um pouco.

- Não tenho mais nada a fazer aqui? Você mesmo falou: Não dou mais valor a minha vida.

- Claro que tem, sempre temos algo a fazer. Seja especial para alguém, adote um cão e faça a diferença pra ele, visite um orfanato, um hospital, basta você querer que acha um propósito para ti.

- Sou egoísta demais para esses atos altruístas.

- Deixa de ser, sempre há tempo para mudar.

- Meu tempo acabou.

- Não fala isso. Não desiste.


No carro veloz a equipe médica se esforçou o quanto pode, mas foi inútil tendo sido obrigados a aceitar aquela derrota. Enquanto lamentava a perda da vida o anjo lamentava ter falhado em sua missão. Tinha avisado ao seu protegido, mas não foi escutado, tinha certeza que se quisesse ele poderia chegar até o hospital vivo, mas preferiu partir. Chorava a perda enquanto pensava qual seria o seu futuro sem seu amigo.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Tinder

- Pqp, você é muito burro!

- Eu? Porque eu sou tão burro o gênio da raça?

- Você gostou da mulher não gostou?

- Gostei?

- E porque não puxou conversa o idiota?

- E era pra fazer isso?

- Claro né? Porque você está naquele lugar? Não é pra isso? Ou é pra arrumar homem?

- Vai se fuder, vai.  Pelo que disseram os dois tem que combinar para iniciar um bate papo e tal.

- Então, caramba, quando combina aparece aquela mensagem e inicia.

- É?

- É.

- E porque ela não iniciou?

- Porque desde que Deus criou Eva elas esperam o homem tomar a iniciativa.

- Isso é machismo. Se uma feminista te escutar falando isso te xinga. Estamos em um mundo moderno onde essas convenções já...

- Cara, para, por favor. Você não vai começar com esse papo escroto né? Quase quarenta e parece um integrante do DCE. Pqp.

- E agora o que eu faço?

- Senta e chora.

- Estou falando sério.

- Ué, espera outra mulher combinar com você e dessa vez inicia uma conversa.

- E se isso não ocorrer de novo?

- Aí é caso de uma cirurgia plástica nessa sua cara. Hahahaha.


- Filho da puta.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Vai Ter Copa (Amigos)



Pelo segundo dia ficou dentro de casa, sem abrir as janelas, saindo da cama só para ir ao banheiro. Tinha Depressão, se procurasse um médico ia diagnosticá-lo com essa doença, tinha certeza, precisava de um tarja preta, qualquer coisa para levantar seu ânimo, uma ajuda química qualquer para lhe colocar em pé novamente. 
Era meio dia, hora do almoço em várias casas, mães gritando seus filhos para levá-los a escola, famílias felizes, pessoas saindo do trabalho para comer alguma coisa em algum restaurante. E ele ali, prostrado, sem ânimo para nada, querendo que o mundo acabasse para poder descansar em paz.
Já chegou à tarde, dezesseis horas, continua olhando o nada, tentando arrumar um motivo para viver, repentinamente à porta da sua casa se abre e escuta passos, quem será, pensa, enquanto ainda está se levantando, uma figura conhecida adentra o seu quarto.

- Pensei que tinha morrido. Liguei várias vezes e não atendeu, receei que entraria aqui já com o cheiro ruim alertando.

- Sempre gentil. 

- Outra crise depressiva?

- Acho que sim. Sei lá, talvez seja o meu normal, talvez eu só não queira ver a cara de ninguém.

- Talvez continue mentindo a si mesmo, talvez seja orgulhoso demais para admitir que precisa de ajuda, talvez seja burro demais para pedir ajuda enquanto é tempo.

- Veio aqui para me deixar pior? É melhor voltar, já tenho o suficiente para ficar ruim.

- Não, toma um banho, coloca uma roupa no corpo e outra na mochila que vamos para São Paulo.

- Vamos? São Paulo? Fazer o que lá?

- Arrumei dois ingressos para a copa do mundo. Jogo de estréia do Brasil, vamos realizar nosso sonho de criança, cara.

- O meu você pode vender ou doar. Não vou. Estou boicotando a copa.

- Eu sei que vou me irritar, mas, pergunto: Boicotando a copa?

- Sim, olha o que ela causou, desvio de dinheiro, remoções. Uma tristeza enorme.

- E por isso vai boicotar a copa.

- Sim, e vou pra rua protestar. Vem comigo, como nos velhos tempos, temos muito pelo que lutar. 

- Uma das coisas que eu aprendi contigo foi sonhar e lutar pelos meus sonhos. E um deles é ver o Brasil jogar uma copa do mundo em casa.

- Mas não era para ser assim, polícia repressora, políticos desonestos, está tudo errado, cara. Tudo errado.

- Eu achava que a gente separava a política do futebol.

- Não dá, minha copa é na rua, desafiando o choque, gritando pelos que não tem voz.

- E não pode fazer isso depois da copa?

- Engraçadinho.

- Falo sério. A copa vai passar, os problemas vão ficar e a luta será a mesma. Porque não podemos por alguns dias esquecer essa merda toda.

- Enquanto a gente se diverte tem gente se fudendo por causa da copa, você sabia?

- Sim, nesse país, por causa de várias coisas tem gente se ferrando. 

- Então?

- A copa vai acabar e vão precisar de gente lutando por um Brasil melhor. Eu serei um deles, como sempre fui. Tenho direito a sonhar, por alguns instantes esquecer as lágrimas no meu rosto.

- Não, não temos. Não somos melhores do que aqueles que sofrem, entenda isso.

- Não somos melhores do que ninguém e mesmo assim, perceba, o quanto está tentando ser superior ao sentir uma dor que não é sua. Depressivo, em um quarto escuro, lamentando a vida, sorvendo cada gole de tristeza com prazer. Deixou de gostar de futebol? Responda-me sinceramente.

- Não.

- Levanta, vamos embora pra São Paulo. Ninguém é forte o suficiente para lutar constantemente. Às vezes é necessário parar e se divertir um pouco. Vamos embora, garoto. Não me faça chorar sozinho quando ouvir o hino nacional.

- Eu vou te acompanhar até São Paulo, mas não garanto que vou entrar. Se do lado de fora estiver mais divertido eu escolherei as ruas.

- Ok, revolucionário. Ok. Se adianta que já é tarde.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Amigos (VIII)

- Olha, eu tenho um plano para a gente. Tenho certeza que dará certo ou ao menos nos colocará em um caminho melhor. Escuta só, poderíamos...

- Esquece.

- Pow, eu nem terminei e você já desanima, cara. Fala sério. Me escuta primeiro e ...

- Eu não vou tentar novamente. Desculpa mas para mim não dá mais.

- Como assim? Vamos ficar aqui, parados, esperando cair do céu.

- Vamos, não. Eu vou.

- Não entendi.

- Você ainda sonha, tem forçar para caminhar, seguir em frente. É hora de você partir e eu vou ficar aqui. Não quero mais andar.

- Pensei que a gente sempre ia ficar juntos.

- Estaremos juntos. Só que em lugares diferentes.

- Porque isso? É por causa das minhas ideias? Eu posso mudar, dá uma sugestão. nada é definitivo.

- Não, apenas não tenho forças para seguir. E é injusto te prender a mim. Vai, quem sabe um dia eu te siga.

- Não vou sem você. Ou partimos juntos ou ficamos aqui.

- Não seja tolo. Você ainda tem sonhos, ainda acredita em mudanças. Eu não, desisti, já não aguento mais. Não desperdice sua vida por causa de mim. Siga seu caminho, tente ser feliz. Um dia quem sabe te acompanho.

-  Se eu te abandonar quem vai te ajudar a recomeçar?

- Eu não quero recomeçar. Não quero mais tentar de novo. Aqui é um bom lugar, se eu me cuidar posso viver bem. Mas se você ficar será infeliz pois aqui não te serve.

- Um lugar só é bom quando a gente o ama, quando temos alguém que valha a pena. Paramos aqui por falta de opção.

- Sim e por falta de opção melhor eu vou ficar aqui.

- Partir é uma opção melhor.

- Não é. Para mim não. Sinto muito, mas dessa vez um fica e o outro vai.


Não se despediu na partida, nenhum dos dois gostava de despedida. Foi embora com lágrimas escorrendo, prometendo que se o amigo quisesse parava onde estivesse para acompanha-lo. Seu companheiro de longas jornadas tinha razão, se ficasse ali ia acabar enlouquecendo ou desistindo também e não queria isso. Ainda ia tentar mais uma vez. Só mais uma vez, prometeu a si mesmo novamente.

sábado, 27 de julho de 2013

Culpa (V)

- Você está estranho. O que houve?

- Eu?

- E tem mais alguém aqui a não ser você e eu?

- E porque eu estou estranho?

- Não reclamou de nada até agora.

- E do que eu deveria reclamar posso saber?

- Ora, te convenci a largar tudo para trás e tentar outro caminho e agora estamos sem nada. Nem um dinheiro para comer algo a gente tem no momento. Vamos ter que nos virar de algum jeito.

- Não tínhamos tanta coisa assim que eu lembre. Nas minhas lembranças era quase nada e em certos dias nem para matar a fome dava.

- Era pouco, concordo. Mas era nosso.

- Se fosse um pouco que nos desse o suficiente para a gente sentir falta eu reclamaria. Mas se for para viver na miséria que ao menos seja tentando mudar.

- Nossa, estou surpreso. Não é sempre que lhe escuto com essa disposição.

- (sorriso) Você sabe por que está me provocando né?

- Não sei. Por quê?

- Está em dúvida e se eu resmungasse disso não se sentiria tão responsável por essa situação.

- Não me arrependo, mas confesso que imaginei chegar nesses dias atuais em uma situação diferente. Imaginei que alguns meses depois nós estaríamos felizes e eu lhe diria o quanto foi bom a minha decisão.

- Nossa decisão. Eu aceitei vir e não fui obrigado.

- Isso.

- Também apostei nisso e perdi. Pretendia ter um pouco de conforto para nós dois, algum lugar que a gente pudesse descansar menos dissabores e perdi feio. Mas não há motivos para arrependimentos ou sentimentos do tipo, ficar lá seria permanecer em uma situação miserável até sabe-se lá quando.

- Ao menos tínhamos algo para nos cobrir nas noites frias, um alimento qualquer, motivo para sorrir em alguns dias.

- Em dias de inverno rigoroso um pano não serve para nada. Perdemos um alimento que não matava a nossa fome e é sempre possível achar um motivo para sorrir.

- Você não quer reclamar mesmo né? Vai fazer de propósito (risos).

- Não vou reclamar. Desiste. (sorriso)


domingo, 14 de julho de 2013

Culpa (IV)

- Bem feito.

- Não fala assim.

- Falo sim, as vezes tem que ser duro com você para ver se aprende e me escuta mais.

- Ok, ok.

- Ok, mesmo, agora vai seguir em frente? Parar de sentir culpa por isso? Ou vai ficar se preocupando?

- Precisa responder?

- Sim.

- Vou embora, não fico onde não me querem ou não fazem questão que eu fique. Ainda não perdi o meu orgulho.

- Que bom. Ao menos isso.

- Não seja tão duro comigo. As coisas estão difíceis.

- Estão mas você está piorando, cara. Lembra o que eu te falei?

- Sim, para eu cuidar da minha vida e parar de achar que sou responsável pela vida dos outros.

- E o que mais?

- Que se relacionar com outras pessoas é um exercício difícil e inevitavelmente terá ferimentos. Alguns tão leves que ninguém dá atenção e outros mais graves.

- E você me escutou?

- Não, preferi assumir a responsabilidade pela minha vida e a de outros e me culpar por não corresponder  a expectativa que esperavam de mim.

- Ao menos agora está livre desse sentimento e pode seguir em frente. A não ser que pretenda retroceder.

- Não pretendo.

- Isso é bom. Arruma suas coisas, a gente parte agora.

- Não é melhor deixar o dia amanhecer?

- Não. Vamos agora.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Buraco


- Outro dia que será igual ao de ontem, até quando? Já não agüento mais isso, daria tudo para sair dessa situação.

- Há quanto tempo estamos nesse buraco?

- Cinco anos.

- Ta maluco?! Não é tudo isso não.

- É sim, quando caímos aqui eu marquei o dia ali na parede. Dá uma olhada lá, basta contar.

- Você contou todos os dias que estamos aqui?

- Sim, no começo fiz isso achando que não iríamos demorar. Achei que era uma questão de tempo, quando passou um ano a contagem virou uma forma de lamento, hoje em dia é um hábito adquirido, somente isso.

-  Cinco anos jogados fora.

- Discordo, aprendemos muito nesses anos, foram proveitosos apesar de tudo.

- Eu odeio esse seu modo de achar algo de bom em tudo. Proveitosos? Proveitosos com a gente nesse buraco, sem ter a nossa vida de volta, sem saber se um dia vamos sair.

- Proveitosos sim, todos os dias estamos nos preparando para quando sairmos vamos dá valor a pequenas coisas, não vamos cometer alguns erros, não vamos ficar reclamando, aprendemos demais aqui.

- E se a gente nunca sair, já pensou nisso?

- Já, às vezes eu penso.

- E?

- Sinto tanto medo quanto você de ficar aqui até o final da nossa vida, sempre sonho com a nossa liberdade, a gente correndo pelas ruas e comemorando.

- Sairemos com tantos traumas, você pensa em comemorar e eu penso apenas em conseguir viver melhor.

- Quanto otimismo.

- Tenho muitos motivos, né?

- Um dia a gente tenta sair de novo.

- Um dia? Até lá a gente morre.

- Porque não agora, então?

- Ainda estou com machucados da última tentativa, prefiro esperar sarar.

- E mais dias vão passando.

- Já perdemos cinco anos, o que são alguns dias.

- Deveríamos dá valor a cada dia e, no entanto, vamos ficando aqui sempre achando que, um dia a gente sai. Olha quanto tempo ficamos, se prepara, pois mesmo machucados vamos tentar de novo, e quantas vezes for necessário. Não podemos desistir, aqui não é o nosso lugar.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Recomeço


A chuva caía forte e não dava sinais de parar ou diminuir, pela janela eles olhavam em silêncio como se na rua molhada, casas e poças a sua frente estivesse algo que importasse para os dois, fingiam dá atenção enquanto seus pensamentos vagavam. Tinham chegado naquela cidade há uns quatros anos com planos de se estabelecer e foi o que fizeram depois de algumas semanas hospedados no hotel da região, é nossa última chance falou o mais velho deles quando decidiram onde iam morar e abriram mais uma cerveja desejando que não tivessem motivos para sair dali e que fossem felizes por muito tempo, era essa a esperança.
Infelizmente, a cidade aparentemente próspera se revelou estéril, não era o lugar que tinham pensado  e tudo foi ficando pior, não estavam satisfeitos em ficar, mas não reuniam coragem para ir embora, aceitar perder o pouco construído e sair com as mãos abanando reconhecendo a derrota, sempre esperavam uma ocasião melhor para partir ou quem sabe tudo melhorar e finalmente tudo valer a pena. Esse tinha sido um dos motivos eles continuarem na região, nos últimos anos o mais novo da dupla sempre falava da necessidade de saírem dali, mas se não conseguia convencer a si próprio quanto mais o seu parceiro, falava, mas não transformava suas palavras em atos, sabia que, se fosse, seu companheiro iria também, mas, um deixava o outro decidir, os meses passavam, viravam anos e eles ali esperando uma coragem ausente até então.
O mais novo da dupla, um dia levantou-se cedo e começou a arrumar seus poucos pertences e quando perguntado sobre o que estava fazendo comunicou a decisão de partir.Terminou de arrumar a mala, sem justificativas ou motivos, pouco falou e foi até a porta, quando estava na calçada seu amigo gritou e pediu para esperar, estava indo também e foram embora sem pensar muito, porque somente os corajosos fazem isso, os covardes pensam muito antes de agir e na maioria das vezes não decidem deixam outros decidirem por ele.
Os dois em silêncio foram até a rodoviária e partiram no primeiro ônibus para uma cidade qualquer guiados pela necessidade de recomeçar, dessa vez, sem esperanças no coração.