segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Buraco


- Outro dia que será igual ao de ontem, até quando? Já não agüento mais isso, daria tudo para sair dessa situação.

- Há quanto tempo estamos nesse buraco?

- Cinco anos.

- Ta maluco?! Não é tudo isso não.

- É sim, quando caímos aqui eu marquei o dia ali na parede. Dá uma olhada lá, basta contar.

- Você contou todos os dias que estamos aqui?

- Sim, no começo fiz isso achando que não iríamos demorar. Achei que era uma questão de tempo, quando passou um ano a contagem virou uma forma de lamento, hoje em dia é um hábito adquirido, somente isso.

-  Cinco anos jogados fora.

- Discordo, aprendemos muito nesses anos, foram proveitosos apesar de tudo.

- Eu odeio esse seu modo de achar algo de bom em tudo. Proveitosos? Proveitosos com a gente nesse buraco, sem ter a nossa vida de volta, sem saber se um dia vamos sair.

- Proveitosos sim, todos os dias estamos nos preparando para quando sairmos vamos dá valor a pequenas coisas, não vamos cometer alguns erros, não vamos ficar reclamando, aprendemos demais aqui.

- E se a gente nunca sair, já pensou nisso?

- Já, às vezes eu penso.

- E?

- Sinto tanto medo quanto você de ficar aqui até o final da nossa vida, sempre sonho com a nossa liberdade, a gente correndo pelas ruas e comemorando.

- Sairemos com tantos traumas, você pensa em comemorar e eu penso apenas em conseguir viver melhor.

- Quanto otimismo.

- Tenho muitos motivos, né?

- Um dia a gente tenta sair de novo.

- Um dia? Até lá a gente morre.

- Porque não agora, então?

- Ainda estou com machucados da última tentativa, prefiro esperar sarar.

- E mais dias vão passando.

- Já perdemos cinco anos, o que são alguns dias.

- Deveríamos dá valor a cada dia e, no entanto, vamos ficando aqui sempre achando que, um dia a gente sai. Olha quanto tempo ficamos, se prepara, pois mesmo machucados vamos tentar de novo, e quantas vezes for necessário. Não podemos desistir, aqui não é o nosso lugar.

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