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quarta-feira, 13 de março de 2024

Sufoco

 

  • - Eu quero sumir dessa merda! Me tira daqui!

  • - Calma. Tudo ao seu tempo.

  • - Vai se fuder, arrombado. Enfia seu tempo no cu. Sempre essa ladainha, porra. E sempre a gente se fodendo.

  • - Sempre não. Mal agradecido. Os últimos anos até que foram legais.

  • - Muito legais. Muito mesmo. Pandemia, uma infeliz infernizando a gente, chute no cu.

  • - Está vendo o copo meio vazio. Tivemos coisas boas.

  • - Foda-se.

  • - Está sendo mal educado.

  • - Foda-se de novo.

  • - Eu vou te largar aí.

  • - Você não faria isso. Se veio até esse inferno foi para me tirar. Qual o plano de fuga?

  • - Não tenho um plano?

  • - Hã?

  • - Então. Não tem plano nenhum. Você vai ficar aí até o tempo necessário para sair pela porta da frente.

  • - Jesus Cristo. Não estou acreditando nisso. Eu não estou acreditando. Você veio até aqui só para olhar minha cara?

  • - Calma. Vamos sair dessa. Juntos. Sem fazer merda.

  • - Eu quero morrer!

  • - Para de drama. Não é tão ruim aí.

  • - Não, não é tão ruim. É um ninho de cobras, picando tudo e todos, com ataques de ansiedade toda hora, um mundo a ser construído e eu esperando a luz do sol.
  • Não está ruim, caralho. Para de drama, fdp. Calma.

domingo, 3 de abril de 2016

Liberdade Cantou


- A cidade de Santa Maria fica afastada do mundo.

A frase do taxista lhe trouxe de volta a realidade. Olhando pela janela lutava para ordenar seus pensamentos enquanto o carro ia engolindo a distância pela estrada bem asfaltada. A cidade ficava longe, lugar ideal para construírem um presídio de segurança máxima e jogar lá todos aqueles que uma sociedade onde não vigora a pena de morte quer se livrar.
Condenados por diversos crimes violentos vão para lá, alguns travam verdadeiras batalhas judiciais para evitar esse destino, outros sem recursos financeiros aceitam sem reclamar, não tem santo atrás dos muros, talvez nem Deus e o Diabo ousam atravessar para o outro lado da muralha, lugar sombrio, com algumas pessoas tendo a sorte de ter uma visita.
 O carro chega à cidade, pequena, que sobrevive em torno do presídio, mulheres de presos que resolveram ficar perto de quem amam famílias de agentes penitenciários, de policiais, pequenos comércios, uma escola, uma farmácia, uma igreja e lá em cima da colina a construção de pedra, razão de aquela cidade existir. A selva de pedra, inferno de concreto, fortaleza são alguns dos apelidos pouco carinhosos adjetivando aquela construção sombria depósito de pessoas violentas.
 Para chegar lá não pode ser de carro particular, é necessário se identificar na entrada da estrada, pegar uma vam que leva até a outra cancela onde então depois de uma nova identificação o caminho até o portão de ferro é feito a pé. Mais uma vez é necessário se identificar e então adentrar no que os presos chamam de castelo, mas aqui não tem princesa e muito menos é cenário para contos infantis. Foi levado até uma sala, revistado, confirmado a autorização para visitar e levado até o pátio onde foi orientado a escolher com cuidado um lugar que não "pertencesse" a ninguém, não podia olhar no rosto das pessoas e de forma nenhuma fazer movimentos bruscos, era chegar, parar ficar quieto e esperar.
Tensão no ambiente acendeu um cigarro e esperou por alguns minutos. Chegou quem esperava, estendeu a mão e não a teve apertada.

- O que você faz aqui?

- Vim te visitar. O que mais eu posso fazer nesse inferno?

- Não preciso de visitas. Se quiser ajudar mande cigarros. Eu preciso de muito deles.

- Sempre orgulhoso. Não está em situação de exigir nada.

- Não exigi. Eu pedi. Ou melhor, sugeri.

- Aceite o que vim lhe trazer e cale-se.

- O que veio me trazer?

- A liberdade, filho da puta. Vim lhe tirar dessa merda que se meteu e não consegue mais sair. Talvez lá fora você volte a ser o que era né?

- Eu não estou entendendo. Do que você está falando? Não brinca assim comigo.

- Consegui contratar o melhor advogado da cidade. Vai me custar um bom dinheiro, mas ele prometeu te tirar daqui em breve. Se prepare para sair.

- Eu não sei o que dizer.

- Quando estiver lá fora diga obrigado e faça valer à pena o meu dinheiro gasto. Por hora não diga porra nenhuma. Não estou aqui para te escutar.

- Porque você está fazendo isso?

- Por quê? Deve ser porque sou seu amigo. Deve ser porque você caiu aí enquanto eu fiquei na pista sozinho tendo que me virar. Deve ser porque não era para você está  tanto tempo nesse inferno. Deve ser porque está na hora da gente voltar a ficar juntos na pista. Sei lá porque eu fiz isso. A visita acabou e eu vou embora. Se mantenha vivo até a liberdade vir.


Fez o caminho de volta sem lágrimas. Elas tinham secado faz tempo e não eram mais derramadas. Não escutava o que dizia o motorista. Pensamento estava longe demais. Iria tirá-lo daquele inferno. A vida ia voltar a ser boa. Mereciam.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Esperto Demais Se Atrapalha


        - Porque você está aqui?

- Hã?

- Perguntei por que você "rodou"? Qual foi o seu crime para ficar preso nesse presídio?

- Rssss. Achei que era esperto demais e me ferrei. Tudo pode se resumir a isso.

- Entendi você assinou um 171?

- Não. Homicídio. Meti bala em alguém e fui preso em flagrante.

- Isso foi burrice, porque diz que se achou esperto? Não entendi.

- Vou explicar, afinal aqui temos tempo demais né? Posso perder um pouco explicando minha historia para você. Sabe jogar xadrez?

- Mais ou menos. Por quê?

- Vai ser mais fácil explicar então. Eu sempre me imaginei um jogador de xadrez e era assim que eu vivia, posso antecipar os movimentos das  outras pessoas e consigo usar isso a meu favor, assim como nesse jogo, antecipar os atos do outro, era a melhor forma de eu me dá bem. Mulheres ou homens, não importava, eu sempre arrumava um jeito de conseguir o que eu queria em qualquer situação, vivia bem assim. De galho em galho, conseguindo dinheiro fácil, enrolando e sendo enrolado, afinal todo esperto tem seu dia de otário e ninguém é perfeito.
Um dia eu estava em uma cidade nova, bebendo uma cerveja e achei que ali poderia ser um bom lugar para  arrumar um dinheiro. Comecei a puxar conversa com um e outro e escolhi um alvo preferencial, alguém que poderia me render muito lucro. Foi então o começo da minha desgraça.

- Continua. Estou escutando.

- O plano era simples, arrancar dinheiro dele oferecendo um negócio vantajoso para ambos, e, para isso eu fui obrigado a colocar muito dinheiro meu na empreitada. Sem me dá conta, ele me incentivou a usar muito do meu capital enquanto ele colocava sempre uma quantia menor, eu achando que era esperto e logo iria conseguir meu lucro não me incomodei em investir uma alta soma.
A minha seqüência de erros por ter  errado o comportamento do meu "sócio" causou a seguinte situação,  quando tentei lucrar com meu dinheiro investido, ele me surpreendeu mostrando que seria prejudicial para a empresa e, não era mentira, saindo do negócio naquela ocasião não teria nem metade do investido por mim, lucro então, nem pensar.
Fui convencido a esperar mais, ele não falou quando e nem prometeu uma data, mas, um dia iria recuperar o investido ali, eu fingi não perceber esse detalhe e aceitei esperar mais uns meses, afinal eu sou um cara esperto e o enrolado na situação era ele e não eu. Meses se passaram, e meus lucros não vinham, quando tentei sair outras vezes fui persuadido a ficar por pressões financeiras ou psicológicas, se eu tivesse me dado conta que tinha virado caça e não caçador tinha amargado o prejuízo e ido embora, mas cometi outro erro que é se enganar, contar mentiras para eu mesmo. Poderia ter sido sincero e dito diante de um espelho que tomei uma volta, amargava o prejuízo e ia embora, mas permaneci, afinal, meu sócio não parecia ser um trambiqueiro e sim alguém com boas intenções tentando fazer uma empresa dá lucros para ele e eu, não havia motivos para eu não confiar nele e esperar mais um pouco, eu pensava em não ficar no prejuízo depois de investir tanto dinheiro e tempo.

- No jogo de xadrez quando você sai com as brancas, à vantagem é sua, correto?

- Sim.

Então, eu tinha saído com as brancas, movido os bispos, cavalos e peões, mas tinha sido bloqueado, a minha dama e torres não conseguiam espaço para jogar. Sem perceber ele me controlava a seu bel prazer, sempre colocando na situação que ele queria e se eu saísse um pouco da linha logo era cobrado com a ameaça da sociedade se desfazer. Passou um ano, o dinheiro empregado ali não tinha gerado os lucros esperados e quando eu pensava em retirar sempre era convencido a esperar mais um pouco, pois um dia teria o prometido, era essa a promessa implícita nas palavras dele.
Esperei o quanto pude, era uma questão de honra, não poderia ter sido tão tolo assim a ponto de ter sido enrolado por alguém claramente mais burro do que eu, meu orgulho não permitia aceitar isso, dei mais um tempo, esperando por um milagre onde ao menos eu conseguisse ter uma saída honrosa para a situação.

-E então, o que fez?

- Comecei a pressionar e como fui burro, mas não sou sempre burro compreendi ser tarde demais,  tinha perdido, enrolado por aquele cara, não ia ter lucros e muito menos recuperar o que eu coloquei lá. Desde o começo, ele tinha feito às coisas do jeito dele e  fui incapaz de compreender isso, tão focado em entender a estratégia dele não percebi a manipulação que eu sofria desde então. O procurei em um hotel, estava no bar, fui até lá e exigi ao menos um pouco do meu dinheiro investido. Ficaria satisfeito com a metade e iria embora, quando tentou me convencer novamente a esperar, fiquei irritado e gritei vários palavrões. A discussão entre nós chamou a atenção das pessoas, seguranças esperavam apenas uma ordem para intervir na situação, então, quando mais uma vez pedi o final daquilo tudo com o reembolso proposto ele respondeu calmamente não ter nada a me dá. Se eu quisesse, fosse embora, pois eu era um ingrato, ele tinha dado a oportunidade de eu fazer parte de algo grandioso e era assim a minha retribuição. Falou isso com seriedade, como se realmente acreditasse nisso, dizendo que eu era um covarde medroso e por isso estava saindo fora da situação.

- Caramba. E então?

- Antes que alguém adivinhasse e tentasse impedir, puxei a pistola e descarreguei o “pente” nele. Doze tiros a queima roupa, sem chances de defesa e possibilidades de sobrevivência. Deve ter caído morto, nem reparei. Atirei e fui preso, diante do delegado quando perguntaram o motivo do crime eu respondi: Eu me achava esperto demais, Doutor...

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Prisioneiro

   Nunca negou sua culpa e aceitou a pena imposta sem reclamar. Réu confesso, sem direito a benefícios, tendo uma pena dura a cumprir. Ainda se lembra do juiz batendo o martelo decidindo pela condenação rigorosa e mudando a sua vida para sempre
  Desde então perdeu a liberdade e passou a viver dias difíceis. Não é um prisioneiro problema, mas já foi parar na solitária, algumas vezes por ter que mostrar a quem duvida o porquê de ser considerado perigoso, as pessoas vêem uma fera enjaulada e se sentem corajosas, por isso mostrou a alguns guardas na prisão porque era tão temido e respeitado nas ruas.
  Se pudesse voltar atrás teria agido diferente, tem essa certeza embora pense que o seu erro foi apenas acreditar em quem não devia, ou quem sabe, apostar na sorte quando o melhor era ter optado por algo mais seguro. Às vezes você se envolve em assuntos que não são seu e quando se dá conta de que não valia a pena é tarde demais.
  Anos se passaram sempre a cela silenciosa escutando seus lamentos e presenciando seu desespero, o banho de sol sendo aproveitado em cada segundo para não enlouquecer, o rádio de pilha escondido trazendo notícias do mundo lá fora, a esperança de um dia esse inferno ter um fim.
  Tem algum dinheiro em algum lugar fora dali e o usa para conseguir pequenas coisas naquele lugar, uma visita íntima mais demorada, uma cama mais confortável, mas a paz não há dinheiro que compre, a liberdade tem um preço alto demais e não está em condições de pagar. Olha os muros e se lembra de um dia o Mano Brown dizer que todo prisioneiro deveria ter o direito de tentar fugir, pensa da mesma forma, queria esse direito de tentar, se desse certo iria sentir mais uma vez o prazer de ser livre se desse errado não aumentaria sua pena, talvez uma punição mais amena e teria o consolo de ao menos ter tentado. Mas não é assim, conta cada dia para sair dali e voltar para o mundo, procurar algum lugar que ninguém saiba da sua vida e ter o direito de ir e vir sem dá satisfação a ninguém.
  Merece isso, depois de ter lutado tanto para defender o seu país, deram medalhas e honrarias quando matou em nome do governo e de uma ideologia, quando matou para se defender não quiseram nem lhe escutar e o encarceraram como se fosse um criminoso comum.
  A vida tem dessas coisas, infelizmente, pensa, olhando para o céu, sentindo o sol no rosto, até que o mandem retornar para a cela novamente. Um dia isso acaba, se Deus quiser, acaba. E a liberdade vai chegar.