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segunda-feira, 15 de julho de 2024

Esperança

        A festinha de formatura transcorria como sempre. Mães e pais empolgados, flashes, a criançada com suas pequenas becas indo até o palco pegar seus diplomas. Havia risadas, abraços e uma sensação de realização no ar.

         Ao fundo, uma idosa prestava atenção a tudo. Suas feições inexpressivas escondiam o turbilhão na sua alma. Seu netinho estava entrando na adolescência e ela havia conseguido viver para ver isso. Em meio às comemorações, sua mente viajava pelo tempo, relembrando os momentos que a haviam levado até ali.

           Dois casamentos, dois lutos, duas dores. A vida nunca fora fácil para ela. O primeiro casamento, ainda na juventude, trouxe felicidade e a bênção de um filho. Mas a guerra levou seu marido, deixando-a viúva e com um bebê para criar. Tempos difíceis se seguiram, mas ela encontrou forças para seguir em frente, casando-se novamente anos depois. Seu segundo marido trouxe estabilidade, mas a paz foi breve. Outra guerra, outro luto. O segundo marido também foi levado pela crueldade dos conflitos.

          Seu filho, seguindo o caminho do pai e do padrasto, alistou-se quando fez dezoito anos. Era uma guerra longa e dolorosa. Ela esperou com fé o retorno do seu filho, mas ele voltou gravemente ferido, com notícias desesperadoras. Os médicos disseram que ele não teria muito tempo, mas ele provou ser mais forte do que esperavam, lutando por cada dia. Ainda assim, as noites foram preenchidas por suas lágrimas amargas, enquanto a realidade cruel se impunha.

         Hoje, vendo seu netinho com a beca, ela sentia uma mistura de dor e orgulho. Dor pelas lembranças dos entes queridos que a guerra tirou dela, e orgulho por ter conseguido criar e sustentar sua família, mesmo em meio a tanta adversidade. Seu netinho era a prova viva de sua resiliência e amor inabalável.

        A formatura continuava, mas para ela, cada sorriso e cada flash de câmera eram um tributo à sua luta e à memória daqueles que ela havia perdido. Com o coração pesado, mas grato, ela enxugou uma lágrima solitária que escapou, permitindo-se um pequeno sorriso de esperança. Afinal, apesar de tudo, a vida seguia em frente, e ela estava lá para testemunhar um novo começo.

        Seu filho tinha sobrevivido apesar das probabilidades e tomado uma boa mulher como esposa. A depressão pós-guerra tinha sido forte para ele. A cada guerra, ele se sentia um inútil por não poder seguir o mesmo caminho dos homens da família. Isso também era passado, felizmente. O bebê cresceu, se tornou um menino genioso, igual ao pai e ao avô, pensou sorrindo. "Deve ser genético", sussurrou para si mesma.

      Ainda não tinha falado disso, mas temia que o neto também se tornasse soldado. Mas o menino era de outra geração, com outros valores. Era das artes, o pequeno. Gostava de pintar e sabia que ele seria um artista de sucesso, longe das armas.

     Enquanto observava seu neto no palco, a avó sentiu uma onda de alívio. Talvez, finalmente, a maldição da guerra que assombrava sua família tivesse chegado ao fim. Ela fechou os olhos por um momento, agradecendo silenciosamente por essa nova esperança. Quando os abriu novamente, viu seu netinho sorrindo para ela, o diploma nas mãos e um brilho de felicidade nos olhos. E, pela primeira vez em muitos anos, ela sentiu que o futuro era promissor.

sábado, 24 de novembro de 2012

Guerra e Paz

Naquela manhã, olhou pela janela do castelo para o seu reino e ficou pensando na decisão que deveria tomar quando recebesse o mensageiro do seu velho amigo. Sabia qual mensagem ele estava trazendo, não tinha a menor dúvida a respeito, tinha esperado esse momento e apesar de ter perdido algumas noites pensando a respeito ainda não tinha tomado uma decisão definitiva.

Iria ter guerra em breve naquela região, não precisava de analistas para saber disso. O começo das hostilidades entre dois países vizinhos ao seu era uma questão de tempo, e aí começavam suas dúvidas e os problemas. Um dos países era governado por um aliado valoroso, suas relações de amizade eram antigas e o outro exatamente o contrário, embora atualmente não fossem inimigos declarados, se detestavam. Seu país já não era tão poderoso como um dia fora, seu povo não tinha se recuperado da última vez que tinham guerreado.  Como iria se aliar ao seu amigo e atacar seu inimigo em uma campanha extenuante? E se não atacasse, era quase certo ser o próximo se o seu aliado fosse derrotado.

Não era uma decisão fácil,  mas não podia mais evitar, o mensageiro estava ali para, com certeza, saber a sua posição, e não podia fugir disso. Respirou fundo, pediu para Deus lhe iluminar e mandou entrar quem lhe esperava. Sentou-se e com um sorriso no rosto o recebeu, escutando atentamente o que ele tinha a dizer:

- Gosto das coisas claras e serei direto. Depois de te escutar, eu entendi que vai ter guerra e te mandaram saber de que lado eu estou, correto?


- Sim, vai ter guerra. Isso já foi decidido, mas não se trata de qual lado irá escolher, no nosso reino existe uma certeza, você não luta contra a gente, queremos saber se estará ao nosso lado, essa é a dúvida, somente, por isso fui enviado para cá, para saber se vai lutar com a gente.

-Entendi. Outra guerra não está nos meus planos, a neutralidade é a melhor opção...


- Neutralidade é se decidir pelo lado mais forte, nesse caso se a gente for o mais fraco estará contra a gente, está ciente disso né? A situação é crítica e não permite erros.


- Tolice, neutralidade é não me meter em uma guerra estúpida. Ela pode ser evitada e também os problemas que podem vir. Façam um tratado de paz e não tragam problemas para a região e todos nós teremos dias tranquilos.


- Estupidez é não perceber algo claro, estamos sendo provocados, meses após meses, reagimos agora ou lá na frente meu reino não terá condições para isso e aí será tarde demais. Não estamos precipitando uma situação, mas, indo ao seu encontro por considera-la inevitável e digo-te, ela também será para vocês, não tenha dúvidas disso. Fugir dos problemas não adianta muito, ele permanece lá esperando ser resolvido, não irá desaparecer em um passe de mágica.

- Concordo, mas também sei que, só devemos enfrentar um problema quando estamos preparados mesmo com poucas chances de sucesso e esse não é o meu caso.

-  Já pensou na hipótese de sermos derrotado?

 - Se vocês caírem, o próximo da lista é o meu país...


-Tem dúvidas disso?


-Não, somos detestados por eles, só não estou envolvido nessa confusão porque preferem cuidar de vocês primeiro.


- E mesmo sabendo disso tudo, ainda prefere a neutralidade? Você é louco?


-Uma guerra agora vai destruir meu reino, mesmo saindo vencedor, fico endividado e com muitos problemas. Volte para o seu rei e diga-lhe que contra ele eu não luto mas, não irei me aliar a vocês.

- As conseqüências disso podem ser ruim para a gente e para vocês. Pense mais um pouco, certos coisas quando não resolvemos rapidamente ficam maiores e piores.

- Já decidi, não vou entrar em uma guerra que por enquanto não é minha, sem ter condições para isso. Se ao menos não estivesse em uma situação desfavorável, mas não é o caso. Volte e diga para seu soberano, ele tem a minha amizade e conforme for posso ajudar em outras situações, mas não vou tirar meus homens do quartel.


 - Lamento muito sua decisão, espero sinceramente a mudança dela nos próximos meses.

  

   - Eu espero que nos próximos meses eu não tenha motivos para mudar de opinião e uma solução diplomática seja encontrada.


- Acredita mesmo nisso?


- Oficialmente?


- Não, somente entre nós dois.


- Não acredito,  vou me preparar para o pior.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Finados

O cemitério estava cheio; pessoas com flores e velas nas mãos entravam para homenagear os seus mortos, enquanto ela permanecia do outro lado da rua, como se esperasse alguém. Era bonita, parecia ter uns quarenta anos, rosto sério e um olhar firme, capaz de silenciar qualquer um que a olhasse por minutos. Vestia-se com simplicidade e lá ficou por quase meia hora.

Foi até o vendedor ambulante e comprou um maço de velas. Entrou no cemitério e, com passos firmes, foi até a parte onde estavam enterrados os indigentes. Abaixou-se e acendeu as velas até ficar somente com uma na mão. Essa derradeira foi banhada por suas lágrimas, e ao acender, murmurou: “Ainda sinto saudades”.

Minutos depois, saiu tentando não demonstrar emoção. Onde ele estivesse, não iria gostar de vê-la chorar, ainda mais ali, lugar que ele sempre detestou e sempre dizia não querer ser enterrado, mas sim cremado, para ninguém procurá-lo em determinados dias. Sorriu ao lembrar disso; o conhecia e apostava que lá no céu estaria resmungando por ela não seguir suas recomendações, mas logo daria aquele sorriso infantil e cederia às suas justificativas.

Não queria esquecê-lo e nem tirá-lo da sua vida. Quem sabe um dia só a saudade vai restar, mas, por enquanto, doía demais, e por isso estava ali. Há muito tempo atrás, o seu amor morreu em uma batalha e foi enterrado como indigente em terras estrangeiras. Igual a ele, outros foram, por isso rezava por todos, pedindo a paz para quem foi e quem ainda está por aqui.

sábado, 20 de outubro de 2012

Anistia

O país não chegou a ter uma guerra civil declarada, mas, enfrentando crises consecutivas, alguns grupos, com apoio do exterior, pegaram em armas e foram contra o governo, causando uma fortíssima repressão estatal. O que de pior pode ocorrer é uma briga na família, entre irmãos ou pessoas que se amam. No final, todos saem perdedores, e é necessário que o vencedor, quando há, seja grande o suficiente para oferecer o perdão. Pensando assim, o governante daquele reino distante decidiu anistiar os rebeldes de outrora e fez um pronunciamento à nação.

Boa tarde a todos que de alguma forma estão lendo ou escutando as minhas palavras. Não estou aqui hoje para dizer palavras repetidas como "acabou" ou para fazer velhas promessas de paz. Também não desejo continuar colocando soldados nas ruas, gerando mais violência. Assim, quero novos tempos onde a paz impere sem precisar de armas para ser garantida. Eu sei que muitos de vocês têm dores ainda e não se esqueceram dos motivos para senti-las. Não importa de que lado ficaram ou se escolheram a neutralidade. Infelizmente, não foram poucos a sofrer as consequências causadas pelos últimos acontecimentos. Estamos construindo um novo caminho, onde esses fantasmas serão apenas lembranças em um fundo de baú. É difícil, com sofrimento, com lágrimas, mas suas estradas abertas nos fazem caminhar, e se conseguirmos seguir em frente, poderemos um dia voltar a ser o que fomos um dia, ou quem sabe até melhor. Por isso, preciso de todos vocês, de quem foi contra e a favor, lutou ou luta por nosso país, e de quem desistiu de lutar. Também preciso de quem, em nome de uma causa, bandeira ou ideologia, pegou em armas contra o governo. Não excluo ninguém.

Chegou à hora da reconciliação entre a gente, de enfrentarmos juntos esse momento de dor para todos nós, mas também de esperanças. Se você pegou em armas ou ainda a empunha, desarme-se. Se ainda tem dúvidas ou medo, essa é a hora. Se é perseguido ou está preso por motivos políticos, sinta-se tranquilo; a liberdade está próxima. Hoje, eu estendo as minhas mãos, através da anistia, a qualquer um que queira a reconciliação, e prometo não vingar-me e nem retaliar ninguém. Não é um perdão; quem perdoa é Deus. Também não é um pedido de desculpas ou um desejo de tudo voltar ao que era antes. É apenas a vontade de recomeçar.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Notícias de Vitória

      Os tiros começaram há alguns minutos atrás. Eram poucos; agora são muitos. Rajadas a todo instante são ouvidas. É um velho costume no reino: a cada vitória conquistada, os soldados erguem as suas armas para o alto e atiram para comemorar. Em um país onde ter uma arma é cultural, não são raros os civis armados atirando também, anunciando para todos mais uma guerra terminada. Logo, as ruas estarão cheias de gente se abraçando; outros irão se emocionar ao lembrar dos soldados mortos, e por alguns dias só se falará disso em todos os cantos.
Eu não tenho arma em casa. Optei por não ter nada que me despertasse lembranças do meu passado: farda, medalhas, arma; doei tudo. Foi o melhor a ser feito. Lembranças só devem ser guardadas se forem boas, no coração e em casa. Caso contrário, o melhor é a gente se livrar o quanto antes para não sofrer mais.
Há alguns anos atrás, eu seria um dos soldados nas ruas, dando gritos de felicidade com um sorriso para todos. Mas não posso mais; já não tenho pernas. Elas ficaram em algum lugar depois de eu ter pisado em uma mina terrestre há tempos atrás. Não sei dizer quando foi exatamente; tento todos os dias esquecer os acontecimentos naquele momento. Olho com saudade o guerreiro levantar seu fuzil e atirar. Ele repara no meu olhar e vem até mim com passos firmes:

- Também já foi soldado?
- Já. Como você sabe?
- A sua tatuagem no braço é de quem serviu no décimo batalhão.
- Eu fui um guerreiro valente. Infelizmente, não morri quando perdi parte do meu corpo.
- Então sabe o que eu estou sentindo nesse momento?
- Sim, eu sei.
Olho para ele com olhos de saudade. Como não saber? Eu estava no momento que o nosso rei começou essa guerra. Lembro até hoje do seu discurso emocionado, dizendo ter chegado à hora da gente conquistar o que há tanto tempo sonhávamos. Eu fui um dos que estiveram na derrota mais dolorosa de todas as batalhas, quando me feri e voltei para casa enfermo. Entendo perfeitamente os sentimentos dos soldados e imagino como deve estar o coração do nosso soberano. Luto para não me emocionar; posso estar em uma cadeira de rodas, mas ainda sou um soldado, valente como nos tempos de batalha, e um desses não chora em público, nunca.
O guerreiro me olha e respeitosamente coloca seu fuzil na minha mão. "Pode atirar", ele fala, "você merece". Eu ergo com dificuldade, pressiono o gatilho até escutar a primeira rajada, depois a segunda e terceira. Meu coração palpita; eu estou emocionado. Entrego o fuzil ao dono e vou para casa. Deus não deixou-me morrer no campo de batalha, e eu tive a alegria de ver essa vitória. Já não importa o futuro; agora posso ir em paz.
Pela rua, empurro minha cadeira lentamente. Os tiros agora são constantes; moradores já saem para comemorar. Imagino as bases militares como devem estar; hoje, a festa deve ir até o amanhecer. Apesar de tudo, estou feliz. Hoje será uma noite especial; não tomarei remédios para dormir.
Entro em casa, percebendo que estou sozinho. Solto um grito e várias lágrimas. "Ele conseguiu; nós conseguimos", murmuro enquanto subo na cama, ligo a televisão e ouço uma repórter falando. Adormeço com a notícia da vitória...
- Ainda não foi confirmado pelas fontes oficiais, mas começam a surgir soldados de toda parte comemorando. Esperamos a qualquer momento a confirmação oficial do final da guerra...

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Revolução


      Neste momento, estou olhando pela janela a agitação na rua, com o sangue fervendo. Você sabe como eu me sinto nessas situações. Nas ruas, há pessoas com trajes civis portando armas pesadas. Se havia alguma dúvida, agora não há mais: o povo vai tentar tirar o governo do poder à força novamente. Não é a primeira vez na história do país que isso ocorre, mas a última vez já faz mais de quatro décadas, e poucos viveram esses tempos. Quem foi para a linha de frente agora talvez sejam os filhos e sobrinhos daqueles.

     Você já conhece um pouco dessa história. Quem é daquela época conta que o governo era corrupto, vivia no luxo enquanto o povo estava cada vez mais miserável. Eleito pelo voto direto, se beneficiava de uma democracia viciada para permanecer no poder, usando artifícios legais para a continuidade do mandato, como plebiscitos e prorrogações votadas por um congresso sempre disposto a atender suas exigências mediante o atendimento de suas demandas. Explorando os pobres e agradando a elite, começou a ser odiado e, como nada na vida é para sempre, um dia a população se cansou e foi protestar nas ruas. Eram poucos e foram reprimidos com violência; logo eram muitos, e o estado foi perdendo o controle até que o exército e os policiais ficaram ao lado do povo. O presidente caiu, e muitos sonharam com uma vida diferente.

     O governo foi deposto pelo exército, deu lugar a outro pregando a reconciliação nacional, e as pessoas voltaram para suas casas. Foi feita uma nova reforma na constituição e um novo presidente foi eleito. Muitos anos se passaram, o país progrediu, mas as estruturas não foram mudadas. Desde então, cada governo dava atenção aos pobres e enriquecia mais os ricos, agradando a ambos os extremos e evitando problemas. Mas a burguesia se ressentia disso, não aceitava ver seus impostos sendo gastos com a parte mais desfavorecida, vendo-a ascender socialmente, e apoiou um golpe de estado, levando ao poder alguém que se adequava aos seus interesses.

    Nos últimos quinze anos, a proteção social da classe baixa foi diminuída paulatinamente, enquanto o número de pobres e miseráveis voltava a subir dramaticamente. A burguesia voltou a controlar o ensino superior e os gastos dos impostos. Os ricos, mais uma vez, não foram afetados em nada e lavaram as mãos perante a situação. A parte de baixo da pirâmide social, levada a uma situação desesperadora, não aguentou mais, se armou e foi para as ruas, como seus pais e avós fizeram há muito tempo.

    Um dia, alguém vai dizer que o início disso tudo foi pelas redes sociais, mas não saberá dizer como ou quem começou, somente que a indignação na internet foi ridicularizada e vista como mais uma sem efeitos maiores. Uma manifestação foi marcada e apareceram poucas pessoas, solenemente ignoradas e dispersadas pela polícia. Na outra semana, as duas maiores cidades tiveram outros protestos, sempre combinados no mundo virtual, dessa vez com mais gente e com uma repressão maior. Imagens de pessoas sendo agredidas foram parar no YouTube, e quando o governo se deu conta, a indignação popular explodiu descontroladamente, levando as pessoas para as ruas, pedindo mudanças, e os acontecimentos foram se precipitando. Foi formado um exército irregular disposto a lutar pela libertação deste país.

    Essa é a situação há semanas, e nesse tempo eu fiquei apenas observando, esperando os acontecimentos, rezando para que os políticos consigam um acordo que faça o povo voltar para suas casas com as armas guardadas. Não sou idiota e já vivi muitas guerras; sei o quanto elas são cruéis, e uma guerra civil coloca irmãos contra irmãos, rachando para sempre uma nação. Mas já não consigo me manter neutro, e escolhi meu lado, o do povo, o nosso povo. Por ele vou lutar, e espero seu perdão por ter largado tudo para mais uma vez ir para o campo de batalha. Sei que lhe prometi nunca mais fazer isso, mas desta vez é por um bom motivo. Se um dia tivermos filhos, quero que cresçam em um país melhor, e morreria de vergonha se eles me perguntassem o que eu fiz nessa época e minha resposta fosse “não fiz nada”.

   Quando você ler esta carta, eu estarei bem longe e peço perdão por isso. Mas me entenda, detesto despedidas, já te falei isso muitas vezes. Consola-me saber que não será surpresa para ti. Nas últimas semanas, sabíamos que era questão de tempo até eu ser mais um dos revolucionários a lutar contra o governo. Várias vezes você me viu olhando as lembranças do meu pai e limpando minha arma.

   Olhe pela sua janela e verá o povo nas ruas, pedindo liberdade e mudanças. Eu quero fazer parte disso, como meu pai fez. Prometo me cuidar para retornar aos seus braços, se depois disso tudo ainda me quiser. Cuide-se, evite sair de casa e reze para que essa revolução seja breve, para que nosso país seja um lugar bom para nossos filhos viverem. Eu prometo tentar voltar e, se não conseguir, guarde esta carta para lembrar de mim.

terça-feira, 19 de junho de 2012

A Cidade Abandonada


Há muito cheguei e fiquei andando por lugares conhecidos. Passei pela praça e  lembrei de quantas vezes fiquei ali assistindo a um jogo de futebol ou esperando alguém chegar, passei também pelo clube social onde sempre tinha festas ou outras atividades. Tinha muitos amigos ali, hoje me contentaria em ver um rosto conhecido, somente, ao menos. Olhei em volta, mas já não vi a festa de antes, por alguns instantes tive esperança de encontrar alguém dos velhos tempos, talvez um garçom, mas nem isso consegui. Fui interrompido por uma voz me trazendo para a realidade.

-  Essa cidade não serve mais para turismo. Deveria seguir em frente para outro lugar.

Saio dos meus pensamentos e procuro o autor da frase. Um homem sentado em uma mesa me cumprimenta. Vou ao seu encontro e sento a sua frente.

-   Eu passei muito tempo aqui. Retornei para ver como estava. Não sou  bem um turista? (dou um sorriso)
- Você não é daqui, então é turista.

-   Eu era daqui. Mas tudo mudou.

Meu interlocutor olha para o copo, fala para si “ realmente esse território não é mais o mesmo”.  Percebo certa amargura. Em todos os meus contatos para escrever esse relato eu a percebi. Existe sempre um sentimento de tristeza ou saudosismo quando falam daqui. Peço uma bebida para mim e pergunto se ele está aqui há muito tempo.

-  Sim, estou. Sou da antiga, fui soldado, lutei aqui por muito tempo.

-   Esteve por muito tempo no exercito?

- Tempo suficiente para não saber fazer mais nada além de lutar.

-    Então lutou na última guerra?

- Sim, eu lutei, defendi esse país com meu próprio sangue. Ganhamos mas como pode ver, foi uma vitória amarga.

- Teria sido pior se vocês tivessem perdido. Seriam invadidos e dominados pelos inimigos.

- É verdade, mas não serve de consolo. Não adianta muito sair vencedor e destruído. Olhe em volta, a cidade tão bonita parece mais uma cidade fantasma.

 Fiquei mais um pouco com o desconhecido e me despedi rapidamente, não queria ficar perto de pessoas derrotadas no pensamento, tinha retornado para mudar a sua vida e a daquela cidade, para isso era necessário ter pessoas fortes ao seu lado com tanta vontade quanto ele de mudar tudo de ruim a sua volta.

domingo, 4 de março de 2012

Noite Longa

 Não queria estar aqui. Preferia está em uma cama quente, tentando me preparar para os acontecimentos que estão por vir, mas hoje é meu dia de ficar na “contenção”, dia de proteger a minha vida e a dos meus irmãos, e aqui estou eu, tendo como companhia, meus temores e minhas certezas.
Todos estão tensos, as noticia não são boas por aqui. Muitos dizem que o rei vai se retirar, outros falam em  lutar não importando a situação, e assim a central dos boatos de guerra vai gerando notícias sem confirmações oficiais, de certo somente a constatação de estarmos em uma situação difícil nessa colônia.
Eu não vivi tantas guerras, mas os mais velhos contam não ser a primeira vez que uma colônia passa de um lugar agradável para um território problemático, citam exemplos anteriores onde à situação ficou insustentável e fomos obrigado a bater em retirada deixando para trás um território onde fomos felizes por muito tempo.
Se eu pudesse escolher, fico e luto, gosto daqui, se as ordens for para ir embora, eu acato e sigo o decidido pelo soberano. Segundo me contam, as retiradas são dramáticas, sempre fica uma parte de cada um mesmo estando preparados para esse momento, mesmo sendo prevista, por mais que todos se preparem para o pior. Já vi histórias de soldados preferindo morrer como mártir a ir embora, no museu de guerra tem uma lista de desses nomes. São considerados heróis de guerra, soldados corajosos preferindo a morte no campo de batalha a ir embora deixando para trás, amores, valores, lembranças.
A frase mais comum por aqui é “se preparar para o pior”, é como se todos estivessem focados apenas nisso, em proteger o pouco que tem e não se machucar tanto.
Hoje quando saí de casa, rumo ao quartel, via sempre nas feições uma resignação de quem já enfrentou isso outras vezes. Os jovens iguais a mim, talvez por não terem passado por tantas guerras, se sentem na obrigação de lutar até o último homem, mas quem já veio de outras guerras apenas espera o futuro, sem nutrir expectativas ou fazer promessas de resistências.
Cheguei aqui no cair da noite e assumi meu posto de sentinela, só saio ao amanhecer se Deus quiser. O vento bate no meu rosto, vem me fazer companhia um soldado, que luta desde o tempo das terras verdes, traz no corpo cicatrizes de outras batalhas, não resisto e puxo conversa:

- Preparado para retirada?

Ele me olha e sorri melancolicamente:

- Já me retirei de tantas, mais uma talvez não doa mais do que já doeu às outras. Seja feito conforme o rei decidir.

 Falo com esperança:

- Talvez dessa vez não doa.

Ele me olha, dessa vez sério:

- Aprenda uma coisa. Toda retirada irá sempre doer. 

 Falando isso, acende um cigarro e fica em silêncio olhando para o firmamento. Reparo que faz um esforço enorme para não demonstrar os seus sentimentos, mais pelo visto, sofre muito.

- E se a gente lutar. E se a gente não se retirar, e lutar, quem sabe a gente consiga.

- Garoto eu vou lhe dizer algo. Se o rei quiser lutar eu estou á disposição. Nesse momento eles estão deliberando isso, pelas minhas experiências anteriores, a noite vai ser longa e as decisões se virem será durante o dia. Se o rei quiser lutar por isso aqui, estou aqui de fuzil na mão, mais se a decisão for retirada, será mais uma na minha vida.

Fico pensando nessa resposta. Esse é um pensamento recorrente entre os mais velhos. Uma certa indiferença em relação ao que será decidido. Enquanto os mais novos querem lutar a qualquer custo, os veteranos apenas aguardam os acontecimentos. Muitos deles são abertamente contra a ficar por aqui, defendem esse pensamento dizendo que ao chegar nessa situação, lutar é apenas adiar a derrota.
Eu quero lutar até o fim, não desistir antes do final mesmo com poucas coisas a nosso favor, talvez pense assim por não ser um veterano de guerra com tantas feridas sem cicatrizar. Se isso não acontecer, seja o que Deus quiser.
            

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Conselho de Guerra

 Não fujo das decisões, desde que assumi o trono e comecei a governar sempre decidi o que achava ser melhor para todos assumindo todas as responsabilidades. O reino não é uma democracia, sou eu quem manda a palavra final sempre será minha  e nem sempre levo em conta a vontade da maioria.
 Algumas vezes recorro ao conselho (formado por todos os comandantes da ativa e reserva) para me orientar sobre o que eu devo fazer, é quando estou em dúvidas ou acho que necessito de opinião alheia em relação a algum assunto. Nessa situação os conselheiros se reúnem (sem a presença do rei) e discutem a situação votando uma recomendação para a situação apresentada,  então o soberano pode acatar ou seguir o seu pensamento assumindo as responsabilidades desse ato.  
O conselho de guerra começou durante a noite e varou a madrugada, estavam lá todos os generais do reino tentando chegar a uma decisão, o tempo passou e eu novamente entrei na sala. Não tendo nenhuma decisão sido tomada novamente começaram as deliberações, agora com a minha participação, um fato raro o que demonstra o quanto a situação é grave.
Quando me sentei e comecei a ouvir o comandante do décimo quarto batalhão ele falou aquilo que a julgar pelas expressões na sala ninguém queria dizer: 

- Não existe lugar seguro no reino. Fomos atacados por inimigos e traídos por amigos, meus soldados sempre estão expostos a perigos constantes. Algo tem de ser feito urgentemente, todos os dias temos baixas, o terror está instalado entre os nossos e os civis começam a migrar com medo. Não estou lamentando a sorte e sim constatando a nossa situação crítica na atualidade.

Não houve questionamentos, alguns acenaram à cabeça concordando e então o Cmt do 4º falou:

- Concordo, mas o que vamos fazer? Atacar nossos inimigos mesmo estando com o nosso exército fraco? Isso não me parece uma boa opção, já tivemos muitas perdas e iríamos ficar pior do que já estamos.

Todos se põem a falar sem serem entendidos uns pelos outros, até que a ordem retorna a reunião para que se possa deliberar novamente. Dessa vez quem começa a discursar é o comandante mais velho do reino, veteranos de muitas batalhas e muito respeitado. Com firmeza, encarando cada um nos olhos ele começa a falar:

- Passamos a noite deliberando, e eu não abri a boca, escutei a todos vocês cada qual com argumentos valorosos e eu respeito cada opinião, agora peço licença para falar.
O dia amanheceu e agora temos aqui o rei e sem nenhuma decisão, algo raro, mas fica evidente que tudo se resume ao dito pelos dois últimos comandantes. Fomos atacados de maneira feroz, tivemos que nos defender e mesmo assim os danos foram enormes. Hoje o reino tem territórios ocupados e outros perdidos de vez, os suprimentos já começam a ficar escassos. Para resolver isso à solução é atacar o inimigo, sair da defensiva e assumir os riscos dessa atitude. Não adianta a gente se enganar querendo alternativas, não temos. Ou atacamos e tentamos expulsa-los de nossas terras ou vamos permanecer ocupados recebendo ataques constantes, bem sei das nossas condições atuais e dos riscos de tomarmos uma decisão beligerante, mas sempre fomos valentes porque agora não estamos sendo? Quantas vezes lutamos em situações adversas e vencemos? É necessário viver o presente e não esquecer o passado e quando a gente olha para o nosso passado sempre temos várias histórias de superações para contar. Se alguém esqueceu disso, eu não e por isso não temo mais uma vez está em desvantagem, não é a primeira vez e nem será a última.

Quando se calou e se sentou, novamente várias vozes foram ouvidas ao mesmo tempo não permitindo o entendimento de ninguém enquanto todos queriam se fazer ouvir. Foram necessários alguns minutos para que mais uma vez a ordem fosse restabelecida e a palavra foi dada ao Comandante conhecido como “o sábio" por sua sensatez. Levantou-se e começou a discursar

- Pode parecer estranho para um guerreiro, mas eu não gosto das guerras, prefiro a paz. E minha preferência não é por covardia, pois graças a Deus eu nunca senti isso e nem por medo, pois o sinto desde que ergui uma arma há décadas atrás e nunca me recusei a lutar. Prefiro-a porque quando se guerreia são poucas vezes que o vencedor não tem algo a lamentar, muitas vezes o preço é alto demais e não vale a pena. Sim, eu sei, muitos estão com raiva e querem vingança e por isso estão dispostos a pagar o preço, mas outros ainda não se recuperaram de batalhas anteriores e por isso ainda tem dúvidas quanto a mais uma vez entrar em guerra.
A todos vocês, eu tenho a dizer que estou cansado de ser atacado em meus domínios, de ver meus soldados serem mortos dentro dos nossos territórios onde deveríamos está em segurança. É hora de a gente mostrar que nossa fama não é falsa e mexer com a gente não é uma boa opção. Sempre fomos respeitados e temidos e hoje o que mudou? Deixamos de ser fortes? Não acredito nisso e se alguém me convencer disso eu juro me calar e aceitar qualquer proposta de paz.

Sentou-se recebendo aplausos calorosos, alguns deixavam claro com palavras e gestos a sua empolgação. O sábio pareceu ter conseguido alcançar a maioria e com isso termos uma decisão. Quem pediu a palavra agora era um da jovem guarda digamos assim, alguém que tinha subido rapidamente na hierarquia militar  sendo um jovem para aquele posto. Todos se calaram para ouvi-lo.

- Quisemos a paz e mesmo assim não nos respeitaram. Oferecemos a nossa amizade e mesmo assim nos tomaram o que tínhamos, tentamos acordos de paz e preferiram nos atacar. É hora de mudar, de voltarmos a ser temidos, de a nossa força voltar a ser conhecida porque tentamos ser pacíficos e isso foi confundido com  covardia. Basta meu rei dá a ordem que está preparado para lutar e creio que comigo estarão outros guerreiros. 

Os aplausos dessa vez foram altos e longos. Estava claro, a decisão tinha sido tomada, mas mesmo assim pedi para  a votação ser feita conforme mandava a tradição. Cada general deu seu voto e explicou o porquê da sua decisão. Alguns justificavam mais longamente outros com poucas palavras, a maioria decidiu por atacar nossos inimigos aceitando todas as conseqüências desse ato. Foi informado a mim a decisão então declarei o conselho encerrado dizendo a última fala dele: 

- A partir de agora começa os preparativos e declaro desde já estarmos em estado de guerra. Cada um de vocês se prepare para os tempos difíceis que virão, mas já não é mais tempo de dá a outra face. Tentamos viver em paz e não conseguimos, tentamos apenas nos defender e acharam que podiam nos humilhar por isso, tentamos acordos diplomáticos e assinaram hoje para romper amanhã. Agora chega, é hora  de a espada ser desembainhada,  o fuzil ser erguido,  a lança ser empunhada,  que nossos inimigos tremam quando ouvir nossos nomes e a notícia  que estamos de volta ao campo de batalha, nossos soldados lutem com honra.
Desejo a proteção de Deus para os religiosos, a proteção das armas para os ateus e nossa vitória contra quem ficar em nosso caminho.

A reunião acabou e eu me despedi de todos, até agora tínhamos sido atacados e nos limitamos a nos defender sem conseguir alcançar o objetivo de proteger as nossas fronteiras. Agora, era hora de atacar, mostrar para quem nos subestimou o porquê da nossa fama e do temor despertado em outras ocasiões. 

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Humilhação


“Foi um tapa na cara“. Com essa frase um rei desolado se dirigiu ao conselho, admitindo a humilhação que estava estampada em sua face.
Alguns conselheiros tinham uma expressão no rosto de  triunfo, como se dissessem “ avisamos antes, você não acreditou”, outros de decepção. Foi assim o começo da reunião do conselho de generais, convocado após a dura derrota causada pela traição de um aliado.
O rei então discursou, falou que agiu conforme tinha sido orientado pelos estrategistas mas assumia toda a responsabilidade pois a decisão de ter mantido o tratado de cooperação era dele, apesar da desconfiança de muitos que algo assim poderia ocorrer se levarmos em conta os últimos acontecimentos onde já havia sinais claros que a relação entre os dois países estavam desgastadas. Por mais algum tempo nosso grande chefe falou, rosto sério, dentes trincados, olhos fitando cada face, assustando até mesmo quem já viu outras crises tão sérias quanto essas. Não era a primeira vez que nós víamos em dificuldades mas ao discursar o soberano parecia ter sido atingido em cheio dessa vez.
Depois discursaram os generais e conselheiros de guerra. Aqueles que sempre a defenderam falaram com uma certa repulsa por terem negociado e aceitado uma aliança quando poderia ter simplesmente rejeitado e ter largado o outro país a própria sorte. Agora eles estavam fortes e a gente fraco, isso não podia mais acontecer, nunca mais.Quem sempre foi contra (mesmo com alguns evitando) tinha na face e nas palavras a certeza de que sempre estiveram certos e que deveríamos ter invadido e destruído tudo em vez de negociar a paz. Se tivéssemos feitos dessa forma teríamos evitado agora todas essas perdas.
Destaco o comandante que foi atacado e derrotado na fronteira, a culpa da derrota de certa foi dele por ter sido incapaz de ter conseguido a vitória. Esse me impressionou pelo orgulho e altivez que foi ao centro falar, quando eu achava que apareceria quebrado diante de tanta desventura. 
Com a cabeça erguida, voz firme, disse que ele mais do que ninguém sentiu todos os efeitos dessa guerra. Seus guerreiros que estão vivos tem a moral baixa e muitas viúvas choram a morte de seus pares. 

- Confiamos para evitar uma guerra e fomos atacados, guerreamos para defender o nosso reino e fomos derrotados, mas não nos destruíram, causaram somente danos passageiros, somos fortes e vamos nos recuperar por isso, hoje venho pedir a vocês não á pena e  nem o apoio moral. Venho pedir respeito por todos aqueles que lutaram nesses meses todos, alguns morreram, outros voltaram para suas casas tendo que se recuperar de ferimentos, todos foram heróis. Nenhum deles fugiu da luta, por isso peço a vocês, eles merecem.

O comandante acabou seu discurso e ao final foi aplaudido de pé por todos os presentes. Saiu do centro das atenções como entrou, altivo, olhos firmes, mais percebi que não conseguia e talvez não fizesse questão de disfarçar o quanto estava sofrendo. Ao retornar para junto dos generais foi cumprimentado por todos que estavam perto, e quando chegou ao seu lugar, um dos conselheiros,  aquele sempre defendeu a paz foi ao seu encontro e se abraçaram de forma afetuosa e demorada. Percebi que os dois sentiam a mesma dor. A dor da humilhação.
Com o final desse discurso, eu comecei a redigir esse relato para o jornal enquanto a ninha volta as pessoas saíam vagarosamente e falando em voz baixa, menos o comandante citado por mim anteriormente. Esse continuava em seu lugar, em pé encarando a todos os presentes, sem evitar olhares com uma coragem invejável. 

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Fronteira

    Os territórios que delimitam os limites do nosso país nunca foram conhecidos pela paz. Pelo contrário, aqui sempre foi local de batalhas sangrentas, algumas delas tão longas que até os dias atuais não foram resolvidas definitivamente embora tenham sido começadas há muitos anos. Aqui por exemplo a fronteira está fechada por tempo indeterminado e é guardada por soldados armados até os dentes prontos para barrar a entrada de qualquer desconhecido.
   Quando um soldado vem para cá, diz de forma irônica que “vai com Deus, se não voltar, estará com ele”, e foi sabendo disso que vim para cá, sabendo do inferno onde estava me embrenhando com possibilidades reais de ficar por aqui mesmo.
   A principio eu iria liderar um pequeno grupo, tomando conta de um caminho conhecido como "corredor" que liga o reino a outro país, mas logo na minha chegada fomos surpreendidos por um ataque intenso e o que era um pequeno destacamento militar tornou-se uma unidade de combate com a missão de nos proteger de uma invasão ou de coisas piores. Desde então perdi a esperança de retornar para casa.
   As notícias da capital que eu ouço são de extrema dificuldade causada por uma recessão cada dia pior, só que ao menos quem está lá permanece junto aos seus, enquanto quem fica aqui só vê destruição e morte. Ontem foi mais um dia assim, combates sangrentos fazendo mais vítimas nos meus soldados, eu até tentei evitar uma carnificina maior tentando me manter distante, mas não foi possível diante de mais uma invasão inimiga. Foi necessário o confronto com o nosso exército utilizando todos os recursos disponíveis para não sermos empurrados para trás e perder territórios o que seria inadmissível.
     Agora eu olho o que está em pé ainda e tenho vontade de desistir, pedir para me tirarem desse inferno mesmo que isso me cause desonra. Permaneço ainda pelo nosso orgulho que continua firme, esse ainda não foi destruído por essa guerra, a coragem desse destacamento militar é algo que também impressiona, talvez se fossem outros soldados já tivessem se rendido, mais não a gente. Somos soldados da fronteira estamos acostumados com situações onde até os corajosos tremem de medo, trazemos orgulhosos nos corpos às marcas de batalhas, não temos medo de morrer, apenas da desonra e deixar de lutar não é honroso. Por isso permaneço, perdi muito nessas terras, mas não o orgulho.

sábado, 15 de outubro de 2011

Demora

Ficou esperando na janela e viu o dia amanhecer mais uma vez. Nos últimos dias tinha se levantado da cama sem sono e ficava olhando o final da rua até o sol nascer. Então começava a se preparar para mais um dia sem notícias do seu amado. A guerra já tinha acabado os soldados retornavam para suas casas, mas o pai da sua filha não tinha retornado até então. Nos primeiros dias esperou pacientemente, depois tentou obter notícias e frustrada percebeu que não tinham informações do seu paradeiro. Era comum isso ocorrer, soldados sumiam para sempre, alguns escolhiam viver uma nova vida e simplesmente morriam para a vida antiga, outros morriam de verdade e nem seus corpos retornavam e tinha também os prisioneiros, pessoas capturadas pelos inimigos ficando incomunicável até surgir uma oportunidade de serem inseridos em alguma negociação.
Eram os "desaparecidos" e as historias das suas famílias tinha sempre esperas torturantes e tristes para serem contadas. Quantas vezes soube de casos onde mães esperavam até o fim da sua vida o retorno do filho (a) sem querer aceitar a sua morte, algumas pessoas depois de longos anos reapareciam e então se descobria que as lágrimas derramadas não eram merecidas, não tinham morrido e nem estavam presas, apenas tinham decidido não mais retornar.
Acabou de preparar o café e foi acordar sua filha, quando tinha dúvidas se ele realmente a amava lembrava-se que ele não deixaria sua menina sem um pai, disso tinha certeza, se não tinha voltado ainda era porque não podia, quem sabe estava morto. Pensando isso, chorou a que ponto tinha chegado, o preferia morto a se sentir abandonada, seus pensamentos estavam confusos. Não, ele iria voltar assim que pudesse, tinha prometido antes de ir que voltaria e gostava de dizer com aquele sorriso irônico que suas promessas sempre eram cumpridas, não seria dessa vez a falhar.
A menina tomou seu banho e foi para a mesa fazer a primeira refeição do dia sendo olhada pela mãe. Era linda como o pai, pensou, e tinha as mesmas manias. O jeito de olhar, a personalidade forte e aquele maldito sorriso que a tinha conquistado alguns anos antes. Como adorava e odiava aquele jeito de sorrir,  enigmático e irônico, a irritava e ao mesmo tempo apaixonava sempre. O jeito desafiador era outra herança paterna, pensou sorrindo enquanto fazia os últimos preparativos para sair para mais um dia de espera, esperança e fé. Um dia ele iria voltar, sempre cumpria suas promessas.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Acampamento de Sangue


Vou andando pelo acampamento arrasado, me desvio de obstáculos  fumengantes, vejo barracas arrasadas, olhares assustados, rostos preocupados, tristezas no ar. Me olham com um certo ar de interrogação. Como se me perguntassem, e agora, o que a gente faz, perdemos muito, alguns perderam tudo.
O Comandante dos soldados vem ao meu encontro. No seu rosto vejo raiva, misturada com uma dor mascarada inultimente. É a mesma  que eu sinto na minha alma, e faz meu coração sofrer muito. Ao redor, também não é diferente,  está no semblante de cada um. 
A forma como meu soldado está lidando com toda a situação só me faz sentir mais orgulho da sua coragem. Se fosse outro, já teria desabado, com tanta coisa acontecendo. É um guerreiro muito corajoso sem dúvidas, merece todo meu respeito, nessa situação, já vi muitos desertarem por covardia. 
Mais uma vez me recrimino, é duro  aceitar que errei mais uma vez. Como pude ser tão idiota, tão imbecil me pergunto,  agora isso não adianta, o mal já foi feito, e só resta os lamentos e a vontade de ter feito tudo certo. 
O comandante geral me chama de volta a realidade, dando ordens e fazendo perguntas. Me ponho a pensar mais uma vez, e dessa vez sou interrompido pelo comandante:
             -  Já reuni meus soldados, e estou tentando reconstruir o básico. E agora qual será as outras providências?
-    Quantos mortos?
-    Quinze (olhos para o chão).
-    Serão considerados heróis de guerra. Vamos reconstruir tudo, e continuar aqui.
-    Será que não é melhor sairmos, bater em retirada? Já sofremos bastante. Vamos ficar para sermos atacados novamente?
-    Sei que é um momento difícil mas vamos ficar. Isso vai ter volta, vamos nos vingar. 
-  Você sabe o que faz 
 Falando isso meu Comandante, ficou ao meu lado na minha visita ao resto do acampamento. Visitei os feridos e as viúvas. A cada um tentei dar um motivo para consolo ou alegria. Se tivesse juízo ia embora. Seja o que Deus quiser, talvez sofra revés mas se for embora nunca  vou me perdoar por não ter resistido. Não quero ser um covarde apesar de está em desvantage. O caminho é perigoso, mas eu vou pagar para ver, se amanhã perceber a ausência de qualquer chance de vitória então eu vou embora e não olho para trás.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Tentativa de Mudanças


   Deveria estar lamentando a sorte madrasta, procurando um jeito de recuperar o prejuízo, lutando como em outras guerras, mas continuo sentado em uma esquina qualquer esperando cair do céu algo que não seja chuva. Teve um tempo distante onde as quedas não eram definitivas e eu continuava em frente sem deixar ninguém me deter. E foram tantas vezes em situações tão difíceis, quando deixei de fazer isso me pergunto sem saber responder.
    Não me rendi oficialmente, lá no fundo do coração continuo de armas em punho querendo guerrear, com vontade de retornar como se fosse à primeira vez. Não vou bancar o saudosista, aqueles não eram tempos bons, não era, na minha vida nunca teve tempo bom, no máximo alguns dias mais amenos com meses onde eu tive paz.
    Foi uma época onde eu lutava contra tudo e todos sem me acovardar para nenhuma situação, protegido por São Jorge, santo protetor dos guerreiros, de arma na mão era como se diz nas ruas do Rio de Janeiro pura disposição e topava qualquer parada se considerasse a causa justa. Agindo assim aprendi a ter honra quando duelasse com alguém e a valorizar quem me desse á mão em uma situação difícil, era um homem de fibra como diz o velho clichê e me orgulhava muito disso.
     Quando me tornei esse cara de agora eu não sei, nem me lembro quando a bebida começou a ser o único refúgio para minhas dores, só não quero permanecer assim, não mereço ter me tornado um derrotado sentado em um banco de praça olhando os sorrisos alheios sentindo saudade de um passado idealizado.
    É difícil recomeçar, as dores no corpo se confundem com as do coração e para isso não tem cura, embora o tempo possa amenizá-las e algumas vezes quem sabe nos fazer fingir o esquecimento das mesmas. O andar trôpego até se tornar firme faz tropeçar e infelizmente os tombos irão acontecer nos machucando novamente reabrindo velhas feridas, será doloroso demais, mas não se mover também dói embora me engane dizendo estar melhor. Não estou. A garrafa de bebida vazia, a carreira de cocaína e os remédios para dormir testemunham como estou e não é um relato agradável, não mesmo.  Não é hora de mudar e sim de me mover, um passo de cada vez, aceitando as porradas da vida até um dia quando me sentir forte sem álcool e drogas e puder lutar como em outros tempos.
   O passado não era um tempo bom, mas eu era um bom guerreiro e lutava com honra. Um dia pretendo voltar a fazer isso, quem sabe quando não deixar para amanhã o que deveria ser feito agora.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Vidas em Guerra

  As guerras eram como desastres naturais, todos ali sabiam que elas sempre aconteciam, deveriam sempre permanecer preparados para quando ocorressem, poderia demorar anos ou alguns dias, mas elas sempre vinham e todos esperavam  essa situação. 
  Um dia qualquer a notícia chegava e então algumas pessoas da aldeia, procuravam o conforto da fé pedindo proteção aos seus entes queridos e choravam em silêncio a dor de mais uma partida para sem certeza da volta.  Os homens se reuniam para relembrar outras batalhas e se preparavam para lutar, os mais velhos saudosistas em volta da fogueira se passavam por mais heróis do que realmente foram, os mais jovens ansiavam ter tantas glórias quantos outros, quem já não reunia condições sentia certa inveja dos atuais guerreiros, o sentimento geral era de excitação.
   As mulheres  também faziam parte do exército e era incomum ve-las no combate corpo a corpo, não tinham a necessidade masculina de se mostrarem corajosas e de se gabar dos seus feitos. Recebiam a notícia e iam para suas casas se prepararem para mais uma vez ir a luta, tinham tido a opção entre serem mães ou guerreiras, as duas não era aceitável  embora a proibição não existisse.  
   O governo dava preferência a soldados alistados por vontade própria e somente se precisasse começava uma convocação compulsória dos mais aptos. Naquele reino a cultura da guerra era forte e quando se chegava à maioridade se alistar nas forças armadas era a primeira opção das pessoas. 
   O menino desde pequeno já sonhava em ser um guerreiro, ter medalhas por bravuras, chegar como herói em sua cidade e se morresse seria lembrado como um bravo, alguém valente e digno de orgulho. As meninas tinham a opção de serem soldados ou mulheres de soldados, podiam se alistar ou ser as noivas, namoradas ou esposas que viam os seus indo sem ter certeza da volta, muitas receosas de criarem um filho sem pai e outras temendo ver o segundo homem da família não retornar mais. Era uma vida dura, se tornavam fortes por necessidade e não por querer. 
   Um habitante daquele lugar poderia optar por ser um pacifista ou alguém sem vontade de guerrear, mas seria sempre um estranho no ninho, alguém fora da ordem, pois tudo remetia as batalhas travadas desde muito tempo. De uma forma ou de outra todos se envolviam, aqueles que não podiam ser soldados por não estarem aptos  contribuíam para os esforços de outra forma.
   Assim sendo, era comum cada família ter soldados mulheres ou homens entre os seus, com perdas e historias semelhantes. Uma família sem um soldado era uma desonra, um motivo para ser segregada, por isso era necessário ter no mínimo dois herdeiros ou herdeiras para que não corressem o risco de não ter a honra de ver um filho seu servindo ao reino.
   Enquanto o pai catequizava os filhos a serem guerreiros a mãe aceitava o destino imposto às mulheres naquele lugar. Ver seus amados partirem sem certeza de volta, muitas vezes nem o corpo para enterrar tinham. Pior do que enterrar alguém era a eterna espera, sem corpo, sem notícias, sem enterro, ficavam olhando o horizonte dia após dia, esperando quem sabe, o reaparecimento de quem mais amavam. 

sábado, 24 de setembro de 2011

A Despedida de Um Guerreiro

Não gosto de despedidas, e hoje eu estou diante de mais uma. O comandante do esquadrão da águia vai embora. Já estava com seu pedido de reforma desde sexta, tentei protelar, mais ver outra batalha perdida foi demais para ele. Se não fosse ontem seria hoje, depois das últimas notícias iria embora com certeza. Nosso exército foi empurrado para trás, cidades importantes dos nossos aliados foram tomadas. O comando já foi entregue, a ultima revista em tropas já foi feita, já está tudo terminado. Ele olha pra mim e vem ao meu encontro...
- Acabou irmão. Já não sou mais seu soldado.
- Sempre será meu soldado. Você sabe disso. Sabe também que  será sempre lembrado pela sua bravura e lealdade. Tivemos momentos bons juntos, agradeço a você pelas vitórias conquistadas. Não queria te ver saindo no meio de uma guerra
- Realmente foram momentos inesquecíveis. Lutamos várias batalhas e tive muito orgulho de ser um soldado do seu exército. Lhe deixo hoje diferente de quando eu cheguei, um comandante com várias qualidades. Lamento também sair assim, mas é melhor para todos. Já lutei demais e não tenho forças para continuar, um dia eu retorno para alguma festa comemorando uma vitória magnífica, daquelas rompendo a noite com bebidas e mulheres a vontade. Nesse dia eu estarei aqui com você, as tropas e o povo comemorando, prometo isso. Uma vez guerreiro do reino sempre guerreiro do reino.
- Que sua boca seja bendita. Que Deus escute suas palavras e as torne realidade, porque está muito difícil.
- Está na hora de eu ir. A estrada é longa e não quero viajar muito tarde.
- Você sempre terá um lugar no meu reino, quando quiser retornar basta me falar que eu providencio tudo. Aqui sempre será sua casa.
Dito isso nos abraçamos emocionados. Lutamos tantas guerras juntos, travamos tantas batalhas, e agora chegou a hora de nos despedir. 
Ele diz algumas palavras que eu não escuto e segue em frente seu caminho, não olha para trás, aprendeu comigo a sempre olhar para frente. Sigo com meus olhos, quem sabe eu um dia não o faça voltar para comemorar o final dessa guerra. Só me resta pedir a Deus, com fé, e lutar por isso. Meu guerreiro se vai no horizonte e deixa um líder cheio de dúvidas e tristezas. 
    A guerra continua.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Lembranças Esquecíveis

    A platina na perna foi o melhor que os médicos conseguiram fazer depois do tiro que eu tomei há alguns anos atrás quando fui emboscado por quem eu considerava um aliado. Se tivesse sido um fogo amigo eu aceitaria mais facilmente mas a traição não é digna de perdão. Nunca é, seja qual motivo for. Deveria estar satisfeito por não ter perdido a perna ou quem sabe a vida mas ainda não aprendi a agradecer algo que dói mesmo depois de tanto tempo.
  Nos dias frios é frequente a dor aparecer, as vezes pequena quase sempre na intensidade suficiente para afetar meu bem estar, me fazendo relembrar uma guerra que já deveria ter sido esquecida. Nesses dias me tranco em um quarto, retiro de uma caixa algumas medalhas ganhas e tento dizer a mim mesmo que valeu a pena embora já não acredite no que digo. Algumas vezes as lágrimas molham a caixa, outras eu apenas pergunto porque não foi tudo diferente, com a gente saindo vitorioso ou quem sabe ileso do campo de batalha. São dias difíceis esses que a perna dói me lembrando o que eu quero esquecer.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Luta

- E agora playboy?


- Playboy porra nenhuma, como diz o Catra, já viu preto ser playboy?


- Hahaha. É verdade, mas, as coisas estão mudando. Dizem que lá no Brasil as coisas estão melhorando, não é como antigamente.


- Sei, melhorando. Dá uma lida no que escrevem ou falam. O que antes era dissimulado, agora é dito abertamente. Preto playboy, irmão, só se for artista ou jogador de futebol. Gente igual a mim tem outro nome.

 - Quanta amargura negão, porra. Até parece que estamos na pior e isso não é verdade. Temos mais dinheiro do que nunca tivemos em nossa vida, estamos vivendo bem nesse país, conforme for podemos voltar para o Brasil à hora que a gente quiser...

- Mas estamos derrotados, qual sonho que você tinha e está realizado? O tempo passou, irmão e a gente ficou aqui. Ex-soldados em um país que está em paz e não tem mais lugar para a gente. Estamos vivendo bem porque já vivemos em situações piores, voltar para o nosso país para que, ver uma classe média fudida mais elitista do que nunca? Antigamente os filhos da puta eram de Copacabana, Tijuca, agora qualquer babaca de Madureira se acha elite. Para lá eu só volto se não tiver mais opção.


- To ligado. Concordo com você, mas a babaquice elitista sempre existiu. É como eu falei, agora estão tendo que lidar com certa ascensão social da pobreza. As coisas estão mudando.


- Pode até está mudando para eles. E para nós, estamos aqui olhando o tempo passar, aceitando o mínimo quando sabemos que poderíamos ter muito mais. É foda, no passado ao menos lutávamos por algo, e agora nem isso temos mais.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Esperando Alguém

Um dia, você volta; essa é minha esperança, e por isso fico aqui olhando o horizonte por muitos minutos. Não foi minha culpa a sua partida, e nem isso alivia a tristeza, só me consola. Por onde você anda, o que faz, suas risadas ainda são constantes. Quanta falta você me faz. Às vezes, preciso conversar com você sobre nossos assuntos preferidos, contar minhas novidades; como era bom fazer isso.

Eu agora virei religioso, por sua causa, e quando te contar, aposto que dará aquele sorriso irônico, me chamando de ateu de meia tigela, e eu o culparei pela minha conversão, rindo com o meu jeito debochado de ser. Deus não vai gostar nada disso, aposto. Correremos risco de ser castigados por não levar a sério o sagrado, mas ele vai entender. Afinal, sempre estivemos na vida errada, ficando do lado certo.

Até indo à igreja rezar, estou. Olha o que você apronta, seu canalha. Me ajoelho diante de São Jorge e peço a ele para me auxiliar; ele foi um guerreiro como você é, meu pai, e por isso tenho certeza da sua atenção. Às vezes, choro naquela igreja e me culpo por não ter sua coragem. Se tivesse, esperaria sua volta sem aborrecer ninguém com minhas lamúrias, nem mesmo o santo guerreiro.

Esses meses sem te ver são intermináveis, se transformaram em anos, já nem sei quantos. Um ano, dois anos, não me lembro, não quero lembrar a data da sua partida e sim a da sua chegada.

O Maracanã está fechado, sabia? Reforma para a copa. O Rio de Janeiro está em paz, algo raro nos últimos anos. Nunca mais retornei à praia da Urca; não quero voltar lá sem sua presença. O seu bar preferido continua aberto. Quando passo lá, tenho que dar notícias suas ao dono. Seus livros continuam na estante; não deixo ninguém mexer. Esperam seu retorno, de terras estrangeiras, para a sua casa.