sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Finados

O cemitério estava cheio; pessoas com flores e velas nas mãos entravam para homenagear os seus mortos, enquanto ela permanecia do outro lado da rua, como se esperasse alguém. Era bonita, parecia ter uns quarenta anos, rosto sério e um olhar firme, capaz de silenciar qualquer um que a olhasse por minutos. Vestia-se com simplicidade e lá ficou por quase meia hora.

Foi até o vendedor ambulante e comprou um maço de velas. Entrou no cemitério e, com passos firmes, foi até a parte onde estavam enterrados os indigentes. Abaixou-se e acendeu as velas até ficar somente com uma na mão. Essa derradeira foi banhada por suas lágrimas, e ao acender, murmurou: “Ainda sinto saudades”.

Minutos depois, saiu tentando não demonstrar emoção. Onde ele estivesse, não iria gostar de vê-la chorar, ainda mais ali, lugar que ele sempre detestou e sempre dizia não querer ser enterrado, mas sim cremado, para ninguém procurá-lo em determinados dias. Sorriu ao lembrar disso; o conhecia e apostava que lá no céu estaria resmungando por ela não seguir suas recomendações, mas logo daria aquele sorriso infantil e cederia às suas justificativas.

Não queria esquecê-lo e nem tirá-lo da sua vida. Quem sabe um dia só a saudade vai restar, mas, por enquanto, doía demais, e por isso estava ali. Há muito tempo atrás, o seu amor morreu em uma batalha e foi enterrado como indigente em terras estrangeiras. Igual a ele, outros foram, por isso rezava por todos, pedindo a paz para quem foi e quem ainda está por aqui.

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