“Foi um tapa na cara“. Com essa frase um rei desolado se dirigiu ao conselho, admitindo a humilhação que estava estampada em sua face.
Alguns conselheiros tinham uma expressão no rosto de triunfo, como se dissessem “ avisamos antes, você não acreditou”, outros de decepção. Foi assim o começo da reunião do conselho de generais, convocado após a dura derrota causada pela traição de um aliado.
O rei então discursou, falou que agiu conforme tinha sido orientado pelos estrategistas mas assumia toda a responsabilidade pois a decisão de ter mantido o tratado de cooperação era dele, apesar da desconfiança de muitos que algo assim poderia ocorrer se levarmos em conta os últimos acontecimentos onde já havia sinais claros que a relação entre os dois países estavam desgastadas. Por mais algum tempo nosso grande chefe falou, rosto sério, dentes trincados, olhos fitando cada face, assustando até mesmo quem já viu outras crises tão sérias quanto essas. Não era a primeira vez que nós víamos em dificuldades mas ao discursar o soberano parecia ter sido atingido em cheio dessa vez.
Depois discursaram os generais e conselheiros de guerra. Aqueles que sempre a defenderam falaram com uma certa repulsa por terem negociado e aceitado uma aliança quando poderia ter simplesmente rejeitado e ter largado o outro país a própria sorte. Agora eles estavam fortes e a gente fraco, isso não podia mais acontecer, nunca mais.Quem sempre foi contra (mesmo com alguns evitando) tinha na face e nas palavras a certeza de que sempre estiveram certos e que deveríamos ter invadido e destruído tudo em vez de negociar a paz. Se tivéssemos feitos dessa forma teríamos evitado agora todas essas perdas.
Destaco o comandante que foi atacado e derrotado na fronteira, a culpa da derrota de certa foi dele por ter sido incapaz de ter conseguido a vitória. Esse me impressionou pelo orgulho e altivez que foi ao centro falar, quando eu achava que apareceria quebrado diante de tanta desventura.
Com a cabeça erguida, voz firme, disse que ele mais do que ninguém sentiu todos os efeitos dessa guerra. Seus guerreiros que estão vivos tem a moral baixa e muitas viúvas choram a morte de seus pares.
- Confiamos para evitar uma guerra e fomos atacados, guerreamos para defender o nosso reino e fomos derrotados, mas não nos destruíram, causaram somente danos passageiros, somos fortes e vamos nos recuperar por isso, hoje venho pedir a vocês não á pena e nem o apoio moral. Venho pedir respeito por todos aqueles que lutaram nesses meses todos, alguns morreram, outros voltaram para suas casas tendo que se recuperar de ferimentos, todos foram heróis. Nenhum deles fugiu da luta, por isso peço a vocês, eles merecem.
O comandante acabou seu discurso e ao final foi aplaudido de pé por todos os presentes. Saiu do centro das atenções como entrou, altivo, olhos firmes, mais percebi que não conseguia e talvez não fizesse questão de disfarçar o quanto estava sofrendo. Ao retornar para junto dos generais foi cumprimentado por todos que estavam perto, e quando chegou ao seu lugar, um dos conselheiros, aquele sempre defendeu a paz foi ao seu encontro e se abraçaram de forma afetuosa e demorada. Percebi que os dois sentiam a mesma dor. A dor da humilhação.
Com o final desse discurso, eu comecei a redigir esse relato para o jornal enquanto a ninha volta as pessoas saíam vagarosamente e falando em voz baixa, menos o comandante citado por mim anteriormente. Esse continuava em seu lugar, em pé encarando a todos os presentes, sem evitar olhares com uma coragem invejável.