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terça-feira, 15 de julho de 2014

Manifestante

Sentado na cadeira, olhando a TV, quase cochilando,percebeu o garoto tentando sair sem ser percebido. Tolo, não havia entendido que já tinha usado essa tática quando jovem e se lembrava o suficiente para não se enganado como havia enganado a outros. Sua voz soou no ambiente silencioso.

- Aonde você vai?

- Volto à noite. Vou ali resolver uma situação.

- Estou velho, mas não estou caduco. Acho que mereço a verdade.

- Que verdade, velho? Não entendi.

- Eu vi na televisão a pancadaria entre PM e manifestantes.

- E?

- E eu posso está velho, mas não fiquei idiota para ser enganado por um adolescente.

- Não estou entendendo nada.

- Está se fazendo de desentendido porque ainda não aprendeu a ser homem o suficiente para encarar a verdade. Acha que é mais fácil mentir.

- Não quero lhe preocupar, apenas isso. É para seu bem.

- Esqueça o meu bem e cuide do seu. Não quero o meu neto em um leito de hospital ou na cadeia.

- Eu sei me cuidar.

- Não sabe, tem pouca idade para saber. Impetuoso e imprudente como todos os jovens, é o que te favorece e prejudica. Resta-me rezar pela sua saúde.

- Não acredito em reza. Sei me cuidar, já disse.

- Fica em casa.

- Você ficaria? Melhor dizendo. Em outros tempos você ficou?

- Não. Sabe que não. E paguei um alto preço por isso.

- Se arrependeu? Lutou por aquilo que acreditava não foi? Isso que eu sempre pensei. Estou errado?

- Eu faria tudo de novo. E iria pras ruas agora se tivesse condições.

- Então não me peça para ficar. Estou seguindo o caminho do homem que mais admiro. Ensinou-me a não aceitar injustiças. Sempre escutei nessa casa que não devemos aceitar calados a opressão, aprendi com você a lutar pelo que eu acredito. Se você me disser que se arrependeu, que se tivesse oportunidade faria tudo diferente, escolheria outro lado, eu paro agora. Diga-me.

- Nunca me arrependi, garoto. Nunca.

O jovem saiu deixando em casa, temor e preocupações. Não levou consigo os avisos e recomendações de amigos e da família, nada podia lhe acontecer, tinha certeza. Encontrou-se com uma multidão e seguiu a maioria. Não se lembra de mais detalhes, só dos estampidos, seu rosto sangrando e pessoas lhe arrastando para prestar socorro. O desespero da dor, a gritaria ao seu redor e depois o diagnóstico cruel.

Quando teve alta foi para a casa, não sabia o que doía mais, o ferimento no seu rosto, o orgulho ferido ou a dúvida quanto a ter feito a coisa certa. Cego de um olho, cegueira causada por uma bala de borracha, tenta reorganizar a vida e seguir um caminho diferente. Com seu olho são olha o homem que tanto admira e tenta entender como ele tantos anos depois ainda consegue dizer que valeu a pena.