Sentado na cadeira, olhando a TV, quase cochilando,percebeu o garoto tentando sair sem ser percebido. Tolo, não
havia entendido que já tinha usado essa tática quando jovem e se lembrava o
suficiente para não se enganado como havia enganado a outros. Sua voz soou no
ambiente silencioso.
- Aonde você vai?
- Volto à noite. Vou ali
resolver uma situação.
- Estou velho, mas não estou caduco. Acho que mereço a verdade.
- Que verdade, velho? Não
entendi.
- Eu vi na televisão a
pancadaria entre PM e manifestantes.
- E?
- E eu posso está velho, mas
não fiquei idiota para ser enganado por um adolescente.
- Não estou entendendo nada.
- Está se fazendo de desentendido
porque ainda não aprendeu a ser homem o suficiente para encarar a verdade. Acha
que é mais fácil mentir.
- Não quero lhe preocupar,
apenas isso. É para seu bem.
- Esqueça o meu bem e cuide do
seu. Não quero o meu neto em um leito de hospital ou na cadeia.
- Eu sei me cuidar.
- Não sabe, tem pouca idade
para saber. Impetuoso e imprudente como todos os jovens, é o que te favorece e
prejudica. Resta-me rezar pela sua saúde.
- Não acredito em reza. Sei me
cuidar, já disse.
- Fica em casa.
- Você ficaria? Melhor dizendo.
Em outros tempos você ficou?
- Não. Sabe que não. E paguei
um alto preço por isso.
- Se arrependeu? Lutou por
aquilo que acreditava não foi? Isso que eu sempre pensei. Estou errado?
- Eu faria tudo de novo. E iria
pras ruas agora se tivesse condições.
- Então não me peça para ficar.
Estou seguindo o caminho do homem que mais admiro. Ensinou-me a não aceitar
injustiças. Sempre escutei nessa casa que não devemos aceitar calados a
opressão, aprendi com você a lutar pelo que eu acredito. Se você me disser que
se arrependeu, que se tivesse oportunidade faria tudo diferente, escolheria
outro lado, eu paro agora. Diga-me.
- Nunca me arrependi, garoto.
Nunca.
O jovem saiu deixando em casa,
temor e preocupações. Não levou consigo os avisos e recomendações de amigos e
da família, nada podia lhe acontecer, tinha certeza. Encontrou-se com uma
multidão e seguiu a maioria. Não se lembra de mais detalhes, só dos estampidos,
seu rosto sangrando e pessoas lhe arrastando para prestar socorro. O desespero
da dor, a gritaria ao seu redor e depois o diagnóstico cruel.
Quando teve alta foi para a
casa, não sabia o que doía mais, o ferimento no seu rosto, o orgulho ferido ou
a dúvida quanto a ter feito a coisa certa. Cego de um olho, cegueira causada
por uma bala de borracha, tenta reorganizar a vida e seguir um caminho
diferente. Com seu olho são olha o homem que tanto admira e tenta entender como
ele tantos anos depois ainda consegue dizer que valeu a pena.