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terça-feira, 14 de junho de 2016

Fantasmas



   — Era para você ter sido minha nora.

   A voz e o rosto da velhinha bonachona ainda estavam em sua lembrança. A frase nunca esquecida soava em sua mente a cada noite fria. Era um martelo batendo em uma ferradura, causando um barulho que gostaria de não mais escutar.

   Quando o passado é mais forte do que o presente e temos medo do futuro, é porque não estamos bem. Ele costumava dizer isso com aquela entonação usada quando queria falar algo sério. Lembrava dos olhos fitando o nada e as palavras saindo da boca sem demonstrar emoção, sem demonstrar sentimentos. Ah, mas ela sabia o que ele sentia; ela sabia tantas coisas dele, sabia o que ele deixou saber e o que ela descobriu sem ele perceber. Sabia demais, pensou.

   Foi para a sacada e acendeu um cigarro. E se tudo tivesse sido diferente? Fez-se a pergunta pela milésima vez. Uma sessão de tortura cotidiana. Flagelava-se na tentativa de se purificar pela dor. Quem sabe um dia iria conseguir. As respostas vinham à sua mente com a velocidade de um trem-bala, conhecidas e duvidosas, e lá ficavam até qualquer hora.

   Abriu a porta e foi para a rua. O frio maltratou seu rosto descoberto e a fez esquecer seus fantasmas.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Só o Amor Resolve

- E agora?

- Ame.

- Hã? Amar quem? Esqueceu que não tenho ninguém. Estou sozinho nessa merda de mundo.

- Sozinho não está. Tem seus parentes...

- Ora bolas, cada um deles tem a sua vida e eu estou à margem. Você sabe muito bem de qual solidão estou falando. Não se faça de tonto.

- Tem gente em situação pior.

- Pqp, eu sei, não precisa me dizer. Comparar a dor que eu sinto com a dor dos outros não melhora a situação.

- É verdade.

- Tudo está dando errado. Nunca passei por isso antes.

- Eu sei que não.

- E o que eu faço?

- Ame. Tem gente precisando de conforto, conforte-o. Outros precisam de uma refeição, ajude-o. Desabrigados precisam de ajuda, animais de um lar, pessoas de uma palavra carinhosa, crianças de um protetor. Faça isso. Saia do seu mundo e olhe o do seu próximo.

- Isso não vai aplacar a minha dor. Sinto, mas eu sou egoísta, quero resolver primeiro meus problemas e não os dos outros. Estou sofrendo demais para me preocupar com o alheio.

- Você não vai conseguir resolver seus problemas a curto prazo, sua situação é difícil, não existem soluções fáceis. Fechando-se é como não permitir a luz do sol em sua alma permitindo que detritos apodreçam e te faça mal. Abra seu coração, o amor é mágico, ele pode curar feridas. Acredite em mim.

- O quer que eu faça? Funde uma ONG? Saia por aí dando comida a mendigos? Não é a minha cara fazer isso. Não sou um Francisco de Assis, porra. 

- Faça um pouco todo o dia. Em frente a sua casa tem um idoso que mora sozinho, quantas vezes você deu um bom dia para ele? Um sorriso é o que ele precisa e não custa muito. Passar por ele pensando apenas em si não é bom para nenhum dos dois. Não lhe digo para fazer o máximo que pode, apenas o mínimo. Todos os dias se procurar encontrará quem precisa de amor, divida um pouco de si, fará bem aos dois. Existem aquelas pessoas que fazem muito e outras pouco mas elas estão fazendo algo. É isso que te peço, faça algo por eles e estará fazendo a ti.

- Não sou uma pessoa simpática. Nunca gostei de mostrar afeto, não me vejo na rua distribuindo amor para estranhos.

- Tente. É o que eu tenho a dizer. Tchau.

- Ei, espera. Temos ainda o que conversar.

- Quando precisar novamente estarei aqui ao seu lado. Agora não é mais comigo, já lhe dei a solução.

Despediram-se e cada um seguiu seu caminho. Amar era tão difícil, não estava disposto a isso, a última vez que tinha se entregado a esse sentimento não tinha sido uma experiência agradável. Mas o que fazer? Ficar fechado em seu mundo, bancando o durão não estava lhe fazendo bem. Todo dia sorvia o amargor e só se acalmava quando a noite chegava e ia dormir. 

Foi andando pela rua e viu um neném em um carrinho, esboçou um sorriso tímido e ensaiou um gesto carinho para o bebê, recebeu de volta um sorriso da mulher que acompanhava a criança. Talvez não fosse tão difícil ser agradável com desconhecidos, pensou. Talvez a dor passasse um dia.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Assum Preto


 Ele foi caminhando devagar até a praça como se acostumou a fazer nas últimas semanas.  Evitava olhar no rosto das pessoas ou andava cabisbaixo cantarolando uma música triste. Sentou-se em um dos bancos de pedra e ficou olhando o nada como se esperasse algo. Fazia isso todos os dias, tinha se tornado um hábito, não falava com ninguém, era como se não enxergasse nada ao seu redor, fitava o vazio imerso em seus pensamentos até a noite chegar e percorrer o caminho de volta até a sua casa.
O mês de abril tinha chegado trazendo um sol exuberante e um jardim florido, nas ruas as pessoas aproveitavam o final da tarde agradável para apreciar a natureza ou levar seus filhos para passear. Riam, sorriam, faziam planos, mas ele não via nada ao seu redor
Ali era uma bela cidade, quem chegava logo se encantava com as belezas naturais, mas já não enxergava isso, enquanto os outros olhos viam a luz do sol seus olhos tinham perdido o brilho há algum tempo atrás. Lamentava-se por isso cantarolando canções tristes, andando pelas ruas, sentado naquele banco, onde estivesse. Passava por pessoas felizes e invejava a felicidade delas, um dia também tinha sido assim, pensava, e continuava seu caminho.
Não tinha para onde ir, nenhuma condição de mudar o seu destino. Dizia magoado que preferia está em uma gaiola sendo bem tratado e amado por alguém a ter uma liberdade triste.
Voe, você pode, pois suas asas não estão quebradas, não está preso a nada e nem por nada, diziam, e ele sorria tristemente. Não podia, tinham deixado-o liberto, mas sem condições de ir longe. Preferia está preso, mas com os seus olhos brilhando a cada manhã. Livre, podia cantar á cada amanhecer, mas seu canto era de dor. Lamentava-se pelo destino ter levado o seu amor.


Obs: Uma das músicas que eu mais gosto é Assum Preto do Luiz Gonzaga e o conto acima foi inspirado em sua letra que eu posto abaixo junto com um vídeo.

Assum Preto

Luiz Gonzaga

Tudo em vorta é só beleza
Sol de Abril e a mata em frô
Mas Assum Preto, cego dos óio
Num vendo a luz, ai, canta de dor (bis)
Tarvez por ignorança
Ou mardade das pió
Furaro os óio do Assum Preto
Pra ele assim, ai, cantá de mió (bis)
Assum Preto veve sorto
Mas num pode avuá
Mil vez a sina de uma gaiola
Desde que o céu, ai, pudesse oiá (bis)
Assum Preto, o meu cantar
É tão triste como o teu
Também roubaro o meu amor
Que era a luz, ai, dos óios meus
Também roubaro o meu amor
Que era a luz, ai, dos óios meus.



sexta-feira, 29 de março de 2013

Encontro Marcado (IV)

- Nunca passou pela sua cabeça que poderia ser um?

- Um o que?

- Um bruxo, ora! Estamos falando de que? (sorriso). Não me enrola.

- Um dia, em algum lugar, alguém me disse que eu era, achei interessante e segui a minha vida, não dei atenção ao fato.

- Não teve curiosidade em aprender? Tentar ao menos ser um aprendiz?

- Eu sou católico, tive medo de ser excomungado, não quero ir para o inferno.

- Está falando sério?

- Estou, pareço brincando (rs)?

- Não parece alguém que tenha medo do inferno.

- Tenho, espero não ir pra lá.

- E te contaram também sobre o seu poder?

- Hahahahaha, poder só se for de arrumar confusão. Se eu tivesse algum, arrumaria dinheiro e ajeitaria a minha vida, não viveria tal qual um vagabundo, vagando nesse mundo em busca de farelos de alguém com gratidão.

- Existem várias formas de usar os nossos dons e com certeza ganhar dinheiro e ser um sucesso capitalista não é uma delas.

- Você aprendeu isso com os outros bruxos ou com algum comunista maluco?

- Não, com a vida e você está mentindo novamente. O meu guia disse-me que é muito poderoso e tem exata noção do quanto, por isso nunca deveria subestimá-lo e acreditar na sua fraqueza, só você é capaz de saber seus limites.

- A última parte é verdade, mas acho que, com todos são assim. A única pessoa capaz de saber até onde consegue ir é você mesma. Pelo visto você sabe muito sobre mim.

- Pode-se ler um resumo de um livro e falar sobre, mas nunca poderemos dizer que conhecemos o livro.

- E mesmo assim veio ao meu encontro?

- Sim, estava marcado, não adiantava fugir.

- Não teve medo?

- Tive, coloquei cartas e perguntei se oferecia perigo, fiz perguntas ao meu guia, mas, não se foge do que decidiram lá em cima para sempre.

- E decidiram que a gente ia se encontrar e mais o que?

- Mais nada. A partir do nosso encontro, as páginas estão em branco, podemos nos separar e nunca mais vermos ou ficarmos amigos para sempre, não sei.

- hum

- Não vai falar nada?

- Vou dizer o que?

- Sei lá, tudo isso é uma loucura, eu sou uma louca, estranhe, fale algo, homem.

- A vida tem dessas coisas.

- É só isso que tem a dizer?

- As páginas estão em branco, então, vamos escrever algo nela. O que, só com o tempo saberemos, confesso, estou começando a gostar desse início.

- Eu também.

- Então, um brinde ao início da nossa história.


quarta-feira, 27 de março de 2013

Encontro Marcado (Parte III)

         - Posso continuar a minha historia? Onde parei?

- Quando se divorciou e tentou reconstruir sua vida.

- Isso, senti o gosto da liberdade e tratei de usufruí-la o quanto pude, mas, as coisas deram errado.

- Por quê?

- Não queria viver sozinha, precisava de alguém ao meu lado.

- Todos nós precisamos, alguns lidam com isso de forma diferente, mas, acho que ninguém, aceita viver só nesse mundo.

- Pois é, fiquei procurando alguém e tendo experiências ruins, um dia desisti e resolvi focar na minha carreira e agora chego aos quarenta e cinco anos, sendo uma profissional bem sucedida e resolvida financeiramente.

- Mas poderia ser melhor né?

- Sim, às vezes sinto falta de alguém e não estou falando de sexo, é de companhia mesmo.

- Eu entendo, sei bem como é.

- E você, não vai me contar nada? Nesse jogo só eu falo?

- Nesse jogo, por enquanto eu tento saber quais são as peças e as regras (sorriso).

- Ué, e não sabe ainda?

- Não, ainda não.

- Quer saber o que?

- Você é uma espécie de vidente, é isso?

- Bruxa,  os leigos chamam de bruxa, feiticeira, maga e afins. Rs.

- Uma bruxa, uma bruxa linda, deveras.

- Obrigado.

- E você fala com uma entidade, né?

- Não é uma entidade...

- Já sei, os leigos chamam de entidade...

- Pense em um guia espiritual, um espírito que conversa comigo quando eu o chamo. Resumidamente é isso.

- E ele falou que a gente iria se encontrar...

- Sim, disse.  Iríamos nos encontrar um dia, mas não falou a hora, local, nem nada. Segundo ele nossos caminhos estão traçados e um encontro entre a gente marcado sabe-se lá por quem nesse universo e ele estava certo. Aqui estamos nós.

-  Não sei o que dizer.

- Saberá quando começar a deixar de tentar mentir para mim e resolver ser verdadeiro. Desculpe-me os maus modos, mas não vou te subestimar, disseram para jamais fazer isso quando a gente se encontrasse.

- Vou tomar como um elogio.

-  Você também é um bruxo não é? É um de nós, digamos assim.

- Não sou, sinto te decepcionar.

- Fale a verdade, por favor, não minta dessa forma, se quer se ver livre de mim, basta falar e eu vou embora, nada nos prende mais, já cumprimos o nosso destino.

-  Estou falando a verdade.

(continua)

terça-feira, 26 de março de 2013

Encontro Marcado (Parte II)


- Eu estou meio confuso então deixa eu me situar. Um dia eu estou sentado tomando um café, lendo um livro quando você me aborda e diz que eu não deveria ver o filme, pois iria detestar.

- Sim, não ia perder a chance de falar com você né? Nessa vida nunca sabemos se teremos outra oportunidade, não se pode correr riscos.

- Eu surpreso, pergunto o porquê, você sorri, diz que apenas sabe, deixa seu telefone e vai embora sem dizer nada.

- Sim, aí você me telefona eu te conto o que sou e estamos aqui, simples.

- Não é simples assim.

- Claro que é, a gente é que complica as coisas querendo explicações para tudo.

- Para tudo não, mas, algumas coisas é preciso.

- Será mesmo?

- Acho que sim.

- Já te enrolei demais e acho que você está curioso em saber como a gente veio parar aqui, não é mesmo?

- Confesso que sim.

- Então, como diz aquele rap do Racionais (conhece a música Negro Drama?) a minha historia é mais ou menos assim...

(balança a cabeça confirmando conhecer a música)


- Eu tentei ser aquela mulher que meus pais sonhavam,  boa aluna, ingressei em uma boa faculdade, uma profissão que paga bem e o casamento com o cara que é o genro preferido de toda mãe, sabe como é?

- Sim (sorriso), bom moço, bem sucedido profissionalmente, essas coisas.

- Sim, isso mesmo e consegui tudo isso antes dos 30 anos, estava tudo perfeito para todos, menos para mim. O casamento se tornou uma prisão que aos poucos se transformou em um inferno, diziam para eu ter um filho e tudo ia melhorar loucos, eu não curto crianças, nunca me vi sendo mãe.

- Entendo, pressão social é horrível mesmo.

- Um dia descobri que ele estava me traindo, chorei mais pelo fracasso dos planos feitos para mim por outros do que propriamente pela traição. Por ele não chorei nem um pouco, fui franca com ele a respeito e decidimos terminar o casamento com cada um seguindo o seu caminho, com trinta anos eu era a mais nova divorciada nesse país e cheia de planos para o recomeço da minha vida.

- Recomeçar é preciso, sempre, nunca podemos parar e aceitar as coisas como o final.

- Estou falando demais?

- Não, pode continuar.

- Estou sim, eu falo de mim e você não fala nada sobre você.

- (sorriso) E precisa falar? Lembra o que me contou quando a gente se falou no telefone?

- Sim, lembro, mas eu não sei muito sobre você, se acertaram o que disseram a seu respeito só saberei o que quiser.

- Continue sua historia, estava interessante, não interrompa por favor. Depois eu conto-lhe o que desejar.

- Hahaha, duvido

- Não é prudente duvidar de mim, sabia?

- Sim, disseram isso.

- Pois é.

(continua)

domingo, 24 de março de 2013

Encontro Marcado (Parte I)


- Então você veio? (sorriso)

- E porque não viria?

- Sei lá, podia me achar louca, alguma maluca que fica contando historias estranhas por aí.  Rssss

- De louco todos nós temos um pouco e confesso gostar de historias loucas.

- Haha, por isso veio?

- Não.

- Porque então?

- Pensei, não tenho nada a perder, porque não aceitar o convite para jantar.

- Teve um tempo que os homens aceitavam meus convites para beber por me achar interessante e não por ter nada a perder. E não confundiam com jantar.

- Ué? Não é um jantar?

- Que eu lembre era para tomar uma bebida em um bar, conversarmos e eu contar a historia toda que iniciei naquela noite...

- Perdão, então. Que seja assim, não vou reclamar.

- Devo agradecer-te por isso?

- Agradeça quando eu fizer outras coisas.

- Por exemplo, me ouvir?

- Também não, vim para isso, esqueceu?

- Claro que não.

(continua)

segunda-feira, 11 de março de 2013

Casal


- Já fez sexo em tal lugar?

- Já.

- Com a ex?

- Sim.

- Gostou?

- Sim.

- Era bom o sexo com ela?

- Normal.

- O que significa normal?

- Significa que diante dos níveis de satisfação causadas pela atividade sexual pode-se dizer que ao final os dois estavam de pleno acordo quanto a ter sido bom.

- E precisa falar tão formal assim?

- Sim.

- Você gostava dela?

- Se não gostasse tinha assinado um 121.

- O que é  isso?

- Homicídio.

- Fala sério?

- Estou falando, de onde eu venho  mata-se quem nos irrita e a gente não gosta.

- Dá para falar sério? Não estou brincando!!

- Ok. Eu falo sério.

- Você era apaixonado por ela né?

- Não.

- Era sim, a gente nem se conhecia direito e lembro que você era.

- Está lembrando de outra pessoa.

- Tenho memória boa.

- Então ela está falhando.

- Sabe o que eu acho?  É que você está enrolando para não me responder.

- Humrum.

- Não entendi. O que você falou?

- Eu não falei, eu grunhi. É diferente.

- Grosso.

- Podemos dormir agora?

- Mal educado. Nem sei por que eu te amo.




segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Natal



 - Alô.

- Oi, onde você está?

- Na igreja.

- Hahahahaha, sério, onde você está?

- Já falei, na igreja.

- Agora chamam de igreja?

- Bom, que eu saiba nunca chamaram de outro nome. Tem a palavra templo, mas não é comum usarem e...

- Para!! Você é muito sonso, e acha que eu sou idiota.

- Não começa.

- Como assim não começa, eu faço uma pergunta e a resposta é um deboche? Como você quer que eu te responda?

- Ontem te deixei falando sozinha por ficar gritando comigo, se fizer de novo agora, bato na sua cara novamente.

- Faz isso, para ver se eu te ligo mais. Liguei agora para fazer as pazes, maldita hora que fiz isso, deveria ter esperado ao menos ficar de tarde. Boba que sou, liguei com você ainda na putaria.

- Não estou na putaria.

- Claro que não, está na igreja. Deve ser aquelas que tem luzes vermelhas, mulheres nuas, bebidas, etc.

- Essa era uma boa, infelizmente não estou.

- Odeio quando começa com essas ironias baratas, consegue ser mais inteligente do que isso.

- Olha só, você está falando alto e já tem umas velhinhas aqui me olhando estranho.

- Que velhinhas?

- As que estão recolhendo os presentes.

- Caralho, que presentes, homem de Deus?

- Então, o padre da paróquia pediu para os fiéis doarem brinquedos e eu vim trazer a minha contribuição.

- E desde quando você é algum fiel?

- Bem, eu não sou um exemplo de religioso, mas acredito em Deus, vou à igreja, rezo sempre.

- Puta que pariu nunca te vi indo a uma igreja, rezar só se for quando seu time está jogando, porque não sendo assim.

- Bem, eu não sou assíduo nas missas, mas quando dá eu freqüento.

- E desde quando comunista é católico?

- Mas eu não sou comunista, sou socialista.

- É tudo a mesma merda.

- Não é não, já te expliquei, comunismo é...

- Não começa pelo amor de Deus. A última vez que você foi me explicar à diferença entre um e outro, passei duas horas te escutando e no final não entendi nada. Para mim são as mesmas merdas e ponto final. Tudo vermelho, malucos, pensando em mudar o mundo. O que importa é,  você realmente está em uma igreja?

- Sim, aquelas que têm padre, altar, missa, etc.

- Ha ha há, engraçadinho. E os presentes são para quem? Para os santos, tipo a umbanda que coloca oferendas para os orixás?

- Você de religião entende tanto quanto eu de física. Não oferecemos presentes aos santos, fazemos promessas e não é nada disso. Os presentes são para a festa de natal, a igreja vai distribuir para as crianças pobres e eu vim trazer a minha doação, todo ano eu venho.

- Por isso que você comprou aquelas bonecas?

- Sim, foi por isso.

- Poderia ter comprado umas mais caras né? Tinha que ser tão baratas?

- Não interessa, o que importa é que eu comprei com carinho e dentro do  meu orçamento. Não vou me endividar no cartão igual a você.

- E porque não me contou?

- Porque o bem a gente faz sem dizer a ninguém. É bíblico.

- E desde quando você segue a bíblia, criatura?

- No natal eu tento.

- Só no natal né?

- Sim, quem faz um pouco com amor no coração está fazendo muito.

- Pronto, além de religioso, virou filósofo. Hahahaha. Já que está impregnado de espírito natalino, faz as pazes comigo?

- E eu briguei como você? Quando?

- Bobo, te espero aqui, vem logo.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Finados

O cemitério estava cheio; pessoas com flores e velas nas mãos entravam para homenagear os seus mortos, enquanto ela permanecia do outro lado da rua, como se esperasse alguém. Era bonita, parecia ter uns quarenta anos, rosto sério e um olhar firme, capaz de silenciar qualquer um que a olhasse por minutos. Vestia-se com simplicidade e lá ficou por quase meia hora.

Foi até o vendedor ambulante e comprou um maço de velas. Entrou no cemitério e, com passos firmes, foi até a parte onde estavam enterrados os indigentes. Abaixou-se e acendeu as velas até ficar somente com uma na mão. Essa derradeira foi banhada por suas lágrimas, e ao acender, murmurou: “Ainda sinto saudades”.

Minutos depois, saiu tentando não demonstrar emoção. Onde ele estivesse, não iria gostar de vê-la chorar, ainda mais ali, lugar que ele sempre detestou e sempre dizia não querer ser enterrado, mas sim cremado, para ninguém procurá-lo em determinados dias. Sorriu ao lembrar disso; o conhecia e apostava que lá no céu estaria resmungando por ela não seguir suas recomendações, mas logo daria aquele sorriso infantil e cederia às suas justificativas.

Não queria esquecê-lo e nem tirá-lo da sua vida. Quem sabe um dia só a saudade vai restar, mas, por enquanto, doía demais, e por isso estava ali. Há muito tempo atrás, o seu amor morreu em uma batalha e foi enterrado como indigente em terras estrangeiras. Igual a ele, outros foram, por isso rezava por todos, pedindo a paz para quem foi e quem ainda está por aqui.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Revolução


      Neste momento, estou olhando pela janela a agitação na rua, com o sangue fervendo. Você sabe como eu me sinto nessas situações. Nas ruas, há pessoas com trajes civis portando armas pesadas. Se havia alguma dúvida, agora não há mais: o povo vai tentar tirar o governo do poder à força novamente. Não é a primeira vez na história do país que isso ocorre, mas a última vez já faz mais de quatro décadas, e poucos viveram esses tempos. Quem foi para a linha de frente agora talvez sejam os filhos e sobrinhos daqueles.

     Você já conhece um pouco dessa história. Quem é daquela época conta que o governo era corrupto, vivia no luxo enquanto o povo estava cada vez mais miserável. Eleito pelo voto direto, se beneficiava de uma democracia viciada para permanecer no poder, usando artifícios legais para a continuidade do mandato, como plebiscitos e prorrogações votadas por um congresso sempre disposto a atender suas exigências mediante o atendimento de suas demandas. Explorando os pobres e agradando a elite, começou a ser odiado e, como nada na vida é para sempre, um dia a população se cansou e foi protestar nas ruas. Eram poucos e foram reprimidos com violência; logo eram muitos, e o estado foi perdendo o controle até que o exército e os policiais ficaram ao lado do povo. O presidente caiu, e muitos sonharam com uma vida diferente.

     O governo foi deposto pelo exército, deu lugar a outro pregando a reconciliação nacional, e as pessoas voltaram para suas casas. Foi feita uma nova reforma na constituição e um novo presidente foi eleito. Muitos anos se passaram, o país progrediu, mas as estruturas não foram mudadas. Desde então, cada governo dava atenção aos pobres e enriquecia mais os ricos, agradando a ambos os extremos e evitando problemas. Mas a burguesia se ressentia disso, não aceitava ver seus impostos sendo gastos com a parte mais desfavorecida, vendo-a ascender socialmente, e apoiou um golpe de estado, levando ao poder alguém que se adequava aos seus interesses.

    Nos últimos quinze anos, a proteção social da classe baixa foi diminuída paulatinamente, enquanto o número de pobres e miseráveis voltava a subir dramaticamente. A burguesia voltou a controlar o ensino superior e os gastos dos impostos. Os ricos, mais uma vez, não foram afetados em nada e lavaram as mãos perante a situação. A parte de baixo da pirâmide social, levada a uma situação desesperadora, não aguentou mais, se armou e foi para as ruas, como seus pais e avós fizeram há muito tempo.

    Um dia, alguém vai dizer que o início disso tudo foi pelas redes sociais, mas não saberá dizer como ou quem começou, somente que a indignação na internet foi ridicularizada e vista como mais uma sem efeitos maiores. Uma manifestação foi marcada e apareceram poucas pessoas, solenemente ignoradas e dispersadas pela polícia. Na outra semana, as duas maiores cidades tiveram outros protestos, sempre combinados no mundo virtual, dessa vez com mais gente e com uma repressão maior. Imagens de pessoas sendo agredidas foram parar no YouTube, e quando o governo se deu conta, a indignação popular explodiu descontroladamente, levando as pessoas para as ruas, pedindo mudanças, e os acontecimentos foram se precipitando. Foi formado um exército irregular disposto a lutar pela libertação deste país.

    Essa é a situação há semanas, e nesse tempo eu fiquei apenas observando, esperando os acontecimentos, rezando para que os políticos consigam um acordo que faça o povo voltar para suas casas com as armas guardadas. Não sou idiota e já vivi muitas guerras; sei o quanto elas são cruéis, e uma guerra civil coloca irmãos contra irmãos, rachando para sempre uma nação. Mas já não consigo me manter neutro, e escolhi meu lado, o do povo, o nosso povo. Por ele vou lutar, e espero seu perdão por ter largado tudo para mais uma vez ir para o campo de batalha. Sei que lhe prometi nunca mais fazer isso, mas desta vez é por um bom motivo. Se um dia tivermos filhos, quero que cresçam em um país melhor, e morreria de vergonha se eles me perguntassem o que eu fiz nessa época e minha resposta fosse “não fiz nada”.

   Quando você ler esta carta, eu estarei bem longe e peço perdão por isso. Mas me entenda, detesto despedidas, já te falei isso muitas vezes. Consola-me saber que não será surpresa para ti. Nas últimas semanas, sabíamos que era questão de tempo até eu ser mais um dos revolucionários a lutar contra o governo. Várias vezes você me viu olhando as lembranças do meu pai e limpando minha arma.

   Olhe pela sua janela e verá o povo nas ruas, pedindo liberdade e mudanças. Eu quero fazer parte disso, como meu pai fez. Prometo me cuidar para retornar aos seus braços, se depois disso tudo ainda me quiser. Cuide-se, evite sair de casa e reze para que essa revolução seja breve, para que nosso país seja um lugar bom para nossos filhos viverem. Eu prometo tentar voltar e, se não conseguir, guarde esta carta para lembrar de mim.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Reencontro


   Noite mal dormida, aquelas que você fica acordado durante horas ou dorme e seus sonhos lhe atormentam. Aconteceu à primeira opção e o dia foi amanhecendo enquanto esperava a cidade acordar para ir ao encontro dela.
   Porque reapareceu? Tanto tempo depois o que tinha para falar com ele? Eram tantas perguntas, tantos sentimentos se confundindo, que só de pensar sentia certo mal estar.
  Olhou pela janela e ao menos o Cristo Redentor continuava com seus braços abertos, pensou sorrindo, enquanto ele estiver lá em cima cariocas são protegidos de alguma forma.
 Foi o que lhe disseram quando desembarcou na rodoviária há vinte anos querendo ter tudo o que sonhava, pensando ser esperto o suficiente para essa cidade. Tempos depois descobriu o quanto a selva de pedra é cruel. “Viver no Rio não é para os fracos” lhe disseram em uma favela qualquer, “se você ama a cidade então é carioca falou alguém”, “a cidade te adota” disse outra pessoa em um bar na Lapa foram lições dadas como tantas outras que aprendeu do jeito bom ou ruim. Hoje em dia entendia a cidade e seus habitantes, já não era um forasteiro passando um tempo para retornar ao seu lugar, aqui era onde desejava ficar, apesar de algumas coisas ruins, lembranças esquecíveis como a que tinha resolvido se tornar atual com o telefonema de ontem.
  Sim, gostaria de esquecer apesar de ter sido os momentos mais bonitos de sua vida onde com certeza tinha sido muito feliz por alguns anos, a forma dela agir quando terminou a relação o fez pensar assim e por isso riscou da sua vida de todas as formas possíveis a sua presença sem nunca pensar em voltar até ontem, o telefonema, a voz que não reconheceu se identificando, sua surpresa e a pergunta:
  - Pode me ver amanhã na praia de Copacabana?
  Poderia não aceitar, o que iriam falar, não tinham deixado nada em aberto, tudo havia sido decidido com palavras ou atitudes, mas confirmou o encontro querendo enganar-se quanto ao motivo: Queria vê mais uma vez.
  Sai pela rua, o sol já está quente, quem é carioca sabe, o dia terá aquele calor intenso, caminha para a estação do metrô tendo mil pensamentos todos com ela sendo o motivo principal, naquele horário os vagões já não estão cheios como na hora do rush, pode sentar calmamente e vai ao seu destino tentando controlar seu coração. Chega ao calçadão da Avenida Atlântica, procura o número do posto onde marcou o encontro e a reconhece facilmente, não mudou nada, pensa, por fora não demonstra o que sente por dentro, a cumprimenta e vão conversar como se fossem dois conhecidos em um encontro agradável.

  Algumas horas depois parte deixando pedidos de desculpa e perdão, é sincero em suas palavras, nunca a esqueceu, mas não vai perdoá-la, deixa-a com algumas lágrimas nos olhos e parte sem olhar para trás, se sente triste, mas não importa a cidade, o tempo não para, é necessário continuar sempre.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Simplesmente Amor


   Em um dia comum de trabalho eu entendi o que é o amor, acreditem se quiser, ou entendi como é amar verdadeiramente alguém e eu decepcionado com o ser humano acabei recebendo uma bela lição de vida.
   Trabalho em um hospital tirando radiografias e já vi muitas coisas por aqui, mas confesso nunca me emocionei com as histórias, embora algumas fariam qualquer um chorar por minutos. Mas eu não sou assim, a vida me endureceu de tal forma que nada me emociona ou me faz ter esses sentimentos bonitos tão falados em redes sociais, livros ou novelas, como compaixão, pena, amor, gratidão. Não sou uma pessoa ruim, má, mas confesso sem a menor vergonha ser insensível ao drama alheio, vivo assim por chegar à conclusão ser essa a melhor forma de não ter maiores decepções com essa raça filho da puta (desculpe o termo xulo) que são os humanos.
   Como dizia meu trabalho é em um hospital e vocês já devem presumir o já visto por mim aqui todos os dias faça chuva ou faça sol. Pois bem, hoje chegou aqui um casal, com a mulher aparentando uns cinqüenta anos e o homem parecendo mais novo, a radiografia deveria ser tirada para uma futura amputação nela.
   Fiz o serviço como deveria e quando eles saíram, fui conversar com a recepcionista e ela começou a contar à conversa que teve com o acompanhante da mulher. Detestava hospital, não entrava neles sem precisar de atendimento de jeito nenhum, mas desde que descobriu a doença da mulher a acompanhava mesmo tendo outras pessoas podendo fazer isso, enquanto estava na recepção mostrou suas mãos trêmulas de pavor, ao passar pela portaria do prédio já tinha começado a sentir esses sintomas e tinha certeza, sua pressão estava alta, no entanto permanecia ali corajosamente esperando eu terminar o serviço.
  Ela tinha filhos e sabendo da sua fobia tinha combinado ir acompanhada com um deles e, no entanto o homem não permitiu e quando perguntado por que deu a seguinte resposta:
   - A doença dela é um câncer, o médico disse que a amputação talvez salve a sua vida, a operação será em menos de um mês, você sabe o que isso significa exatamente?
   - O que?
   - O tempo de vida dela ao meu lado pode ser menos de trinta dias, se você soubesse disso perderia tempo de está ao lado do seu amor por causa de um medo? Eu não quero perder, cada minuto ao seu lado pode ser o último e não importa o lugar eu sempre estarei ao seu lado.
   Os dois quando saíram de mãos dadas por motivos diferentes estavam sentindo medo em seus corações, querendo está em outro lugar, de outro jeito, mas unidos pelo amor permaneciam juntos.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Cemitério


   Não tinha jeito de quem estava no mundo para fazer amizades, sempre com o rosto sério, uma forma desconcertante de olhar as pessoas, andava com firmeza como se ninguém estivesse na sua frente.  Nunca pretendeu ser popular, pouco se importava em ser assim, sempre dizia ser amado por quem era importante e agora ia visitar a pessoa que havia mais importado o seu amor.
   Desceu do carro e perguntou ao jornaleiro onde era o cemitério daquela cidade. Sem maiores dificuldades chegou ao local indicado e ficou olhando aquele lugar, então era ali a última morada de quem tinha vindo ver pela última vez.
  Era igual a outros vistos em outros lugares, as cruzes, túmulos, jazigos, aquele clima de tristeza tão característico. Recusava-se a entrar neles, detestava até mesmo passar em frente, tinha deixado instrução para ser cremado e assim nem quando morto seria levado para uma cova com uma lápide qualquer, no entanto estava lá procurando uma sepultura em especial.
   Devia a ele ao menos uma despedida, um adeus ou quem sabe até logo e por isso estava ali, para pagar sua dívida. Ficava falando em uma vida pós-morte, quem sabe estava certo e um dia se encontrariam em alguma parte do além para gargalharem sobre o que já tinham aprontado lá em cima e aqui embaixo.
   As sepulturas tinham números, nomes e uma frieza triste, enquanto procurava se escutou dizendo "só você para me fazer vir aqui, seu filho da puta " e riu alto sem se importar com algum estranho vendo a cena. Não é comum rirem em cemitérios, pensou, se alguém me vir fazer isso pensará se tratar de um maluco e sorriu dessa vez, afinal já tinha deixado de ser são há muito tempo. Chegou até onde tinham indicado e lá estava seu nome, data de nascimento e morte, por algum momento desejou ver algum erro e assim ter alguma dúvida, mas estava tudo correto, embora não aceitasse até então era verdade a sua morte, uma triste verdade.
   Estava morto e agora não iriam se ver novamente nunca mais, pensando isso, chorou, as lágrimas caíram por vários minutos e então se recompôs. Não tinha vindo ali para isso e sim para uma despedida e eles mereciam isso, portanto iria fazer conforme o combinado.
   Tirou uma garrafa de whisky do bolso e dois copos, encheu cada um e bebeu brindando a vida e ao vivido por eles. Bebeu até esvazia-la, já bêbado, xingou o morto por ter partido sem ele, isso não era justo, tantas coisas juntos e aprontava uma dessas. Uma morte repentina, se ao menos tivesse sido uma perda anunciada com tempo para todos ficarem preparados, mas foi de repente, em uma cidade qualquer, longe dele até mesmo na despedida.
   Afastou-se daquele local tonto por causa da bebida. Era um bom de um filho da puta, fazê-lo entrar naquele lugar só para se despedir, pensou. Alcançou o portão de saída, disse um adeus triste e foi caminhando com os olhos úmidos em frente. A vida deles tinha acabado. Agora só restava a sua e iria vivê-la enquanto pudesse e quisesse.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Ato de fé

   Não perdeu sua fé embora tenha pensado nisso intensamente nos últimos anos, ainda é capaz de acreditar no impossível, sem medo de parecer tola, crê em Deus. Perante os homens é uma pecadora, mulher mundana, vende o corpo por dinheiro. Já foi usada diversas vezes, olhada com desprezo e com desejo, somente uma vez a viram como alguém á ser amada. Pelas ruas, mercadora do prazer, segue seu caminhar,  rezando para mudanças ocorrerem. Uma vez acreditou nisso, promessas de um freguês que se tornou amante e depois amor, mas,  veio a guerra, o chamamento as armas e ele se foi. Chorou amargamente por vários dias quando percebeu a falta de dinheiro. Voltou para as ruas, para o mundo marginal onde mulheres tem preço e rótulos. Oferece seus serviços por necessidade, talvez por já ter desistido de outra vida. Um dia, passando por uma igreja, escutou o sermão de um padre. Falava da fé em Deus. Voz firme, o homem em cima do altar, discorria sobre a arte de acreditar no impossível divino. Por não ter mais em que acreditar na terra, acreditou no céu. Naquele dia acendeu uma vela fazendo o pedido da volta ao seu amado. Repetiu  por outros dias seguidos. Nada ocorria mas era o que restava acreditar. Mais por necessidade do que por religiosidade, acreditou por meses. Um dia, o telefone tocou. Reconheceu a voz quando escutou. Ele perguntava se ainda o esperava, não se importando com mais nada. Diante da resposta afirmativa, pediu para que continuasse, ele voltaria para ela. Desde então acende as velas esperançosa, fazendo uma prece silenciosa. Jesus um dia evitou que uma adúltera fosse apedrejada, então poderia perdoá-la e quem sabe deixar ter uma nova vida.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Promessas

- Você tem mesmo que ir?

Fala sem olhar no rosto. Não quer mostrar a tristeza que sente. Caminha até a janela e finge olhar o horizonte como se lá tivesse algo interessante.

  • - A guerra não acabou. Sinto muito, mas eu vou até o fim.

  • - Lembra o que me falou?

  • - Sim. Questão de tempo para isso acabar e a gente ser feliz.

  • - E eu acreditei.

  • As lágrimas antes contidas agora rolam no rosto. Não tem por que esconder o sentimento de tristeza. "Eu acreditei nisso", repete.


  • - Eu também acreditei. Mas nem tudo nessa vida é como a gente quer. Planejamos algo como se fôssemos donos do nosso destino, mas, infelizmente ou felizmente, não somos nós a decidir. Eu vou voltar, te juro, e seremos felizes como planejamos. Conforme prometi, você ainda vai caminhar pelas areias da praia e sentar para ver o pôr do sol. Eu te prometo isso.


  • - Apenas me prometa sua volta. Apenas sua volta e eu ficarei feliz. Por que a vida gosta tanto de maltratar certas pessoas? Entendo sua ida, mas nunca entenderei se não retornar. Vá, mas volte, pelo amor de Deus, volte.


  • - Eu volto. Ainda não vivemos tudo. Deus vai me proteger como sempre. "Soldado de Jorge tem o corpo fechado."

- Fala isso e termina de se arrumar. Pega sua arma e verifica mais uma vez se está carregada. Já fez isso tantas vezes, mas agora é diferente. Está com medo de não voltar, medo da morte. Pensou melhor, não era medo de morrer e sim de não cumprir sua promessa. Não era justo agora na reta final não sair vitorioso, ficar em algum campo de batalha sem identificação ou vir em um caixão com honras militares. Não era justo, pensou mais uma vez. Merecia voltar, inteiro, com saúde. Conferiu se estava arrumado corretamente, pegou sua arma e se despediu. Manteve a frieza, caso contrário, não conseguiria sair dali.

  • - Estou indo. Espere minha volta.

Beijou seus lábios, chorando de mansinho. Aceitando a dor de mais uma partida. Não falou nada, palavras em certas ocasiões não são necessárias. Acariciou o rosto e se desprendeu dos seus braços. Era o seu jeito de permitir sua ida. Ainda de costas, escutou a porta bater. O barulho doeu em seu coração como se fosse uma flechada. Rezou uma prece, pediu a Deus a sua volta. Foi para o altar, acendeu velas. Se refugiou na religião.