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sexta-feira, 6 de julho de 2012

Onze Homens e Milhões de Corações Apaixonado

Por Visão Desconexa
      Othon de Figueiredo Baena, Píndaro de Carvalho Rodrigues, Emmanuel Augusto Nery, Ernesto Amarante, Armando de Almeida, Orlando Sampaio Matos, Gustavo Adolpho de Carvalho, Lawrence Andrews e Arnaldo Machado Guimarães, no que esses dez caras estavam pensando quando resolveram seguir Alberto Borgueth em seu insano acesso de ira e posterior abandono da escalação do Tricolor Carioca lá pelos idos dos anos 11? Não, não era 2011, mas sim 1911, e os caras acima representam duas importantes facetas da história do universo futebolista carioca: são os primeiros torcedores do futebol rubro-negro e os primeiros vira-casacas também. Mas não devemos nem saudá-los pelo ineditismo do12º jogador do Flamengo e nem desferir sobre eles críticas envenenadas por conta da traição ao Tricolor; não, não devemos. Esses senhores, certamente sem se darem conta disso, acabaram por fundar com suas atitudes o maior e mais apaixonante Clássico do futebol brasileiro (do futebol mundial, penso eu, pois não creio que Barcelona e Real Madrid, ou Milan e Internazionale arrebanhem tantos corações apaixonados quando estão um diante do outro). Esses senhores saíram do coração Tricolor, sangrando, para fundarem o futebol do Clube de Regatas do Flamengo. Isso claro, eles sabiam estar realizando, mas a consequência deste ato... Duvido!
Foram onze homens importantes em minha vida e na vida de outros milhões de torcedores espalhados por este mundo tão imenso. Homens importantes não apenas por criarem o Departamento de Futebol num clube que posteriormente setransformaria no de maior torcida do país, mas homens importantes porque possibilitaram o nascimento de uma entidade mágica, apaixonante, ludibriante e muitas vezes explicável apenas por sua própria “inexplicabilidade”. Esses homens possibilitaram o nascimento do Fla-Flu, a maior expressão da paixão humana extraída por um esporte, por um jogo.
Hoje o Fla-Flu completa seu centenário. Cem anos de momentos esplêndidos e únicos no coração, na mente e na memória de cada um dos milhões de torcedores dos dois clubes. Quantas vezes cheguei em casa sem voz, rouco,  após divinas vitórias do Flamengo sobre o Fluminense... Quantas vezes molhei o travesseiro, com perdão do trocadilho, a partir das travessuras de maravilhosos Tricolores que impuseram inesquecíveis e doloridas derrotas à minha paixão...
Por falar em paixão...Somo meu agradecimento aos onze dissidentes Tricolores a outros homens tão importantes em minha vida quanto estes, não onze, mas vinte e três.
Primeiro de Setembro de 1974, Tijuca. Um descendente direto de portugueses – talvez este fato explique este dia – resolveu levar pela primeira vez seu filho ao Maracanã. Botafoguense doente, o homem não atentou para o detalhe de que naquele dia o Maracanã se encheria de mais de 87 mil pessoas para assistirem tranquilamente não ao Botafogo, mas a um Fla-Flu dos mais empolgantes. O primeiro Maracanã de minha vida, o primeiro Fla-Flu.
Félix, Toninho, Brunel, Assis e Marco Antônio; Kléber, Gérson e Mazinho; Cafuringa, Gil e Zé Roberto – Minha Nossa Senhora! -. Venceram por 2 x 1 a Renato, Luxemburgo, Jaime, Vantuir e Rodrigues Neto; Pedro Omar, Geraldo Assobiador e Paulinho; Doval e Zico. Foi um jogão! Marco Antônio e Gil colocaram o Fluzão na frente ainda na primeira etapa, Zico diminuiu no segundo tempo. Poderia ter saído daquele Maracanã Tricolor, mas quis Deus, além da vitória do Fluminense, que meu coração explodisse em cores diferentes, em cores rubro-negras.
O Maracanã se transformava em dias de Fla-Flus. Magia, tensão, alegria, tristeza, lágrimas e sorrisos, não há clássico igual a este! Ainda hoje, mesmo no acanhado Engenhão, Flamengo e Fluminense protagonizam um jogo a parte, diferente, um Clássico que não traz consigo outra importância relevante que não a sua própria existência. Um Fla-Flu não deve ser definido,mas sentido. Um Fla-flu precisa do rosto de um torcedor para ser traduzido. Um Fla-Flu faz nascerem torcedores, faz claudicarem corações... Não há como pensar um Fla-Flu sem a expressão de um sorriso, ou sem o lacrimejar de um olhar perdido. Sim, precisamos agradecer aos moços lá de cima e, é preciso também parabenizar a todos os torcedores, vivos ou mortos, por toda a emoção derramada para transformar este Clássico no Maior Clássico de Todos os Tempos. Não peço a Deus para completar os mesmo cem anos dos inebriantes Fla-Flus, não preciso viver tanto tempo, preciso viver paixões, mais cem Fla-Flus me bastariam.


* Visão Desconexa, autor desse texto é um querido amigo, flamenguista apaixonado por futebol e pelo Flamengo (evidente) e escreve no blog http://ovisaodesconexa.blogspot.com.br/ , onde a rivalidade do Fla Flu está sempre presente.

Fla Flu Centenário

   A briga ocorreu em um casarão antigo no bairro das Laranjeiras há muito tempo atrás, não se sabe exatamente o que foi dito na ocasião e até hoje dizem que o motivo foi à vaidade, a verdade é que os irmãos desde então se tornaram rivais e fazem questão de disputar com o outro o que é possível.
   Quem não conhece mais intimamente os dois, não diz que tem a mesma origem, são como a água e óleo, fazem questão de se colocarem em lados opostos quase sempre, embora algumas vezes quando conveniente tenham estado no mesmo lado (não admitem isso de bom grado em hipótese nenhuma).
   João permanece morando nessa casa até hoje, homem elegante de muitos admiradores, anda pela cidade com seu terno cortado, sapatos caros e aquele ar arrogante de quem se sente parte de uma aristocracia carioca que já não existe mais. Seus detratores o chamam de esnobe, elitista e para esses exibe um sorriso irônico aceitando que seja, mas em sua casa todos são bem vindo, com uma única condição, quem lá estiver tem que se sentir diferenciado assim como ele.
   Artur é exatamente o contrário, apesar de morar na Gávea desde a briga com seu irmão, gosta de ser popular, de fazer parte do povão, faz questão disso. Sua popularidade é evidente, aonde chega tem vários admiradores, suas festas são populares e não se importa nem um pouco quando alguém para tentar denegrir o chama de favelado, diz que o Rio de Janeiro não é só Ipanema e Copacabana, e ele detesta preconceito, gosta de ser se sentir o maior em tudo, diz com desdém que é o mais invejado, maior sucesso, mais admiradores.
   Os dois irmãos são antagônicos, durante décadas rivalizaram no Rio de Janeiro e levaram essa disputa para outros estados do Brasil e até países estrangeiros, onde um está o outro faz questão de desejar sinceramente seu fracasso sem o menor remorso. Como todos os vencedores não gostam de perder, mas a derrota de um para outro dói mais, é inadmissível e já fez muito estragos de lado a lado, enquanto as vitorias são contadas e relembradas sempre mesmo que algumas delas tenham ocorrido em décadas passadas.
   Um dia João se arruinou financeiramente e ficou muito doente, nas festas que Artur estava, João não era convidado, e para surpresa do irmão mais novo estava sentindo falta das disputas com o irmão mais velho, secretamente começou a desejar a melhora do desafeto do jeito que podia, simplesmente o ignorou, deixou de mandar indiretas na imprensa, de tentar prejudicá-lo, passou a dá atenção para outro rival. O tempo passou e a recuperação da enfermidade aconteceu, aos poucos se recuperando, foi convidado para a mesma festa e Artur foi cumprimentar João dizendo debochadamente que tinha sentido falta dele durante a sua doença, o adversário respondeu com aquela arrogância habitual que era medo o sentimento e tinha voltado mais forte ainda. Começaram a discutir, palavras pouco elogiáveis como “mulambo” “gay” “favelado” "esnobe” foram ditas e foi preciso a turma do “deixa disso” levar um para cada canto. Desde então, as disputas retornaram ao que era antes e o morador da Gávea lamenta publicamente que o seu irmão tenha adoecido e não morrido, embora no fundo do coração saiba que um depende do outro para serem gigantes.
  Domingo vão se encontrar de novo, ao menos nisso concordam, tinha que ser no Maracanã esse reencontro, lá é onde os dois foram mais felizes, mas não importa, a festa será bonita como os dois merecem, em lados opostos novamente, vão se xingar e dizer palavras politicamente incorretas, e se você perguntar nenhum dos dois irá falar do temor e respeito que um desperta no outro, por isso a rivalidade ainda existe, são cem anos de uma briga que dizem por aí, começou quarenta minutos antes do nada.

O Primeiro Fla Flu


João pisou no gramado e olhou em volta emocionado se segurando para não chorar. Eles não tinham abandonado o time, estavam nas arquibancadas apoiando, apesar de todo o ocorrido os torcedores acreditavam.
Na cidade daquele tempo, o futebol ainda não era tão popular mas o assunto tinha sido muito comentado durante a semana, iriam se encontrar pela primeira vez dois times que tinham se tornado rivais mesmo sem ter disputado ainda a primeira partida.
Os especialistas davam como certa a vitória do Flamengo formado pelos antigos titulares do seu adversário tricolor o Fluminense.
Meses antes por causa de um desentendimento nove atletas tinham abandonado a sede situada no bairro da Laranjeiras e tinha encontrado abrigo na Gávea, dois dos titulares haviam ficado, um deles era João, conhecido pelo apelido preguinho, ele não tinha ido, defendia o Fluminense por amor, pela dor, pelo irmão e pelo pai, eram tantos motivos que tudo podia ser resumido como o clube sendo parte da sua vida.
O jogo começou, antigos companheiros de clube frente a frente, agora em lados opostos, ao contrário do que é comum ocorrer, a rivalidade tinha nascido antes do primeiro jogo, já não era admissível perder para o time rival e durante noventa minutos cada espaço do tempo serviu para a batalha entre os dois times.
Quando o juiz apitou o final, sacramentando a vitória tricolor por três a dois, João correu para a arquibancada e abraçou seu pai, o escritor Coelho Neto, chorando disse-lhe “O Fluminense não vai acabar meu pai, será eterno”.