Othon de Figueiredo Baena, Píndaro de Carvalho Rodrigues, Emmanuel Augusto Nery, Ernesto Amarante, Armando de Almeida, Orlando Sampaio Matos, Gustavo Adolpho de Carvalho, Lawrence Andrews e Arnaldo Machado Guimarães, no que esses dez caras estavam pensando quando resolveram seguir Alberto Borgueth em seu insano acesso de ira e posterior abandono da escalação do Tricolor Carioca lá pelos idos dos anos 11? Não, não era 2011, mas sim 1911, e os caras acima representam duas importantes facetas da história do universo futebolista carioca: são os primeiros torcedores do futebol rubro-negro e os primeiros vira-casacas também. Mas não devemos nem saudá-los pelo ineditismo do12º jogador do Flamengo e nem desferir sobre eles críticas envenenadas por conta da traição ao Tricolor; não, não devemos. Esses senhores, certamente sem se darem conta disso, acabaram por fundar com suas atitudes o maior e mais apaixonante Clássico do futebol brasileiro (do futebol mundial, penso eu, pois não creio que Barcelona e Real Madrid, ou Milan e Internazionale arrebanhem tantos corações apaixonados quando estão um diante do outro). Esses senhores saíram do coração Tricolor, sangrando, para fundarem o futebol do Clube de Regatas do Flamengo. Isso claro, eles sabiam estar realizando, mas a consequência deste ato... Duvido!
Foram onze homens importantes em minha vida e na vida de outros milhões de torcedores espalhados por este mundo tão imenso. Homens importantes não apenas por criarem o Departamento de Futebol num clube que posteriormente setransformaria no de maior torcida do país, mas homens importantes porque possibilitaram o nascimento de uma entidade mágica, apaixonante, ludibriante e muitas vezes explicável apenas por sua própria “inexplicabilidade”. Esses homens possibilitaram o nascimento do Fla-Flu, a maior expressão da paixão humana extraída por um esporte, por um jogo.
Hoje o Fla-Flu completa seu centenário. Cem anos de momentos esplêndidos e únicos no coração, na mente e na memória de cada um dos milhões de torcedores dos dois clubes. Quantas vezes cheguei em casa sem voz, rouco, após divinas vitórias do Flamengo sobre o Fluminense... Quantas vezes molhei o travesseiro, com perdão do trocadilho, a partir das travessuras de maravilhosos Tricolores que impuseram inesquecíveis e doloridas derrotas à minha paixão...
Por falar em paixão...Somo meu agradecimento aos onze dissidentes Tricolores a outros homens tão importantes em minha vida quanto estes, não onze, mas vinte e três.
Primeiro de Setembro de 1974, Tijuca. Um descendente direto de portugueses – talvez este fato explique este dia – resolveu levar pela primeira vez seu filho ao Maracanã. Botafoguense doente, o homem não atentou para o detalhe de que naquele dia o Maracanã se encheria de mais de 87 mil pessoas para assistirem tranquilamente não ao Botafogo, mas a um Fla-Flu dos mais empolgantes. O primeiro Maracanã de minha vida, o primeiro Fla-Flu.
Félix, Toninho, Brunel, Assis e Marco Antônio; Kléber, Gérson e Mazinho; Cafuringa, Gil e Zé Roberto – Minha Nossa Senhora! -. Venceram por 2 x 1 a Renato, Luxemburgo, Jaime, Vantuir e Rodrigues Neto; Pedro Omar, Geraldo Assobiador e Paulinho; Doval e Zico. Foi um jogão! Marco Antônio e Gil colocaram o Fluzão na frente ainda na primeira etapa, Zico diminuiu no segundo tempo. Poderia ter saído daquele Maracanã Tricolor, mas quis Deus, além da vitória do Fluminense, que meu coração explodisse em cores diferentes, em cores rubro-negras.
O Maracanã se transformava em dias de Fla-Flus. Magia, tensão, alegria, tristeza, lágrimas e sorrisos, não há clássico igual a este! Ainda hoje, mesmo no acanhado Engenhão, Flamengo e Fluminense protagonizam um jogo a parte, diferente, um Clássico que não traz consigo outra importância relevante que não a sua própria existência. Um Fla-Flu não deve ser definido,mas sentido. Um Fla-flu precisa do rosto de um torcedor para ser traduzido. Um Fla-Flu faz nascerem torcedores, faz claudicarem corações... Não há como pensar um Fla-Flu sem a expressão de um sorriso, ou sem o lacrimejar de um olhar perdido. Sim, precisamos agradecer aos moços lá de cima e, é preciso também parabenizar a todos os torcedores, vivos ou mortos, por toda a emoção derramada para transformar este Clássico no Maior Clássico de Todos os Tempos. Não peço a Deus para completar os mesmo cem anos dos inebriantes Fla-Flus, não preciso viver tanto tempo, preciso viver paixões, mais cem Fla-Flus me bastariam.
* Visão Desconexa, autor desse texto é um querido amigo, flamenguista apaixonado por futebol e pelo Flamengo (evidente) e escreve no blog http://ovisaodesconexa.blogspot.com.br/ , onde a rivalidade do Fla Flu está sempre presente.