A ambulância ia abrindo caminho
pelas ruas, o motorista cortava passava pelos carros em alta velocidade, o
alerta sonoro não deixava dúvidas quanto a sua missão. Lá dentro os médicos
faziam os procedimentos padrões para essa situação e não suspeitavam que uma
discussão ocorresse entre um anjo da guarda e seu protegido.
- Segura a onda, cara. Se a
gente conseguir chegar ao hospital dá para te salvar.
- E quem disse que eu quero ser
salvo?
- Ainda não é hora de partir.
Tentei te avisar umas três vezes para não ficar naquele lugar, mas é teimoso
né? Agora estamos nessa enrascada.
- Não estou em enrascada
nenhuma. A não ser que chegando lá em cima eu seja comunicado que vou pro
inferno.
- E se isso ocorrer?
- Não deve ser pior do que a
minha vida na terra.
- Não fala isso, cara. Não sabe
o que diz. Não desiste, espera ao menos a gente chegar ao hospital.
- Eu pensava que quem decidia
se eu ia morrer ou não era Deus.
- Putz, vai começar com seu
deboche?
- Ué, estou falando sério.
- É ele quem decide. Ocorre que
às vezes a pessoa precipita à hora e ele decide aceitar que ela morra antes do
planejado. Suicídio é um exemplo disso.
- Eu não precipitei...
- Ah não. Claro que não. Eu te
avisei três vezes para ir embora e você teimou. Bastava ter saído dali
uns minutos antes, mas preferiu ficar mais um pouco. Bastava mudar de lugar,
mas não arredou o pé. E não precipitou?
- Não, ué. Sou obrigado a
receber seus avisos por acaso? Não é a primeira vez que por não te escutar dá
problemas.
- Ah, você escutou sim. Tenho
certeza disso. Não saiu dali porque não quis. Deixou de dá valor a sua vida e
ficar se arriscando.
- Não se estressa. Se eu morrer
não vai fazer falta a ninguém, ninguém vai chorar. Não há motivos para
lamentos.
- Vai fazer falta a mim. Minha
missão aqui na terra é te proteger e fiz isso durante todos esses anos. Não
quero você partindo por falha minha.
- Um anjo "caxias".
Eu daria uma gargalhada se pudesse.
- Você deve ser a única pessoa
que quase morrendo fica fazendo piadas sem graças. Ah meu pai, olha a missão
que você me dá.
- Relaxa, eu estou indo em paz.
Lutei o quanto pude, consegui algumas vitorias, ganhei, perdi. A única coisa
que eu não queria era ir com algo por fazer.
- Segura mais um pouco.
- Não tenho mais nada a fazer
aqui? Você mesmo falou: Não dou mais valor a minha vida.
- Claro que tem, sempre temos
algo a fazer. Seja especial para alguém, adote um cão e faça a diferença pra
ele, visite um orfanato, um hospital, basta você querer que acha um propósito
para ti.
- Sou egoísta demais para esses
atos altruístas.
- Deixa de ser, sempre há tempo
para mudar.
- Meu tempo acabou.
- Não fala isso. Não desiste.
No carro veloz a equipe médica
se esforçou o quanto pode, mas foi inútil tendo sido obrigados a aceitar aquela
derrota. Enquanto lamentava a perda da vida o anjo lamentava ter falhado em sua
missão. Tinha avisado ao seu protegido, mas não foi escutado, tinha certeza que
se quisesse ele poderia chegar até o hospital vivo, mas preferiu partir.
Chorava a perda enquanto pensava qual seria o seu futuro sem seu amigo.