Pelo segundo dia ficou dentro de casa, sem abrir as janelas, saindo da
cama só para ir ao banheiro. Tinha Depressão, se procurasse um médico ia diagnosticá-lo
com essa doença, tinha certeza, precisava de um tarja preta, qualquer coisa
para levantar seu ânimo, uma ajuda química qualquer para lhe colocar em pé
novamente.
Era meio dia, hora do almoço em várias casas, mães gritando seus filhos
para levá-los a escola, famílias felizes, pessoas saindo do trabalho para comer
alguma coisa em algum restaurante. E ele ali, prostrado, sem ânimo para nada,
querendo que o mundo acabasse para poder descansar em paz.
Já chegou à tarde, dezesseis horas, continua olhando o nada, tentando
arrumar um motivo para viver, repentinamente à porta da sua casa se abre e
escuta passos, quem será, pensa, enquanto ainda está se levantando, uma figura
conhecida adentra o seu quarto.
- Pensei que tinha morrido. Liguei várias vezes e não atendeu, receei
que entraria aqui já com o cheiro ruim alertando.
- Sempre gentil.
- Outra crise depressiva?
- Acho que sim. Sei lá, talvez seja o meu normal, talvez eu só não
queira ver a cara de ninguém.
- Talvez continue mentindo a si mesmo, talvez seja orgulhoso demais para
admitir que precisa de ajuda, talvez seja burro demais para pedir ajuda
enquanto é tempo.
- Veio aqui para me deixar pior? É melhor voltar, já tenho o suficiente
para ficar ruim.
- Não, toma um banho, coloca uma roupa no corpo e outra na mochila que
vamos para São Paulo.
- Vamos? São Paulo? Fazer o que lá?
- Arrumei dois ingressos para a copa do mundo. Jogo de estréia do Brasil, vamos realizar nosso sonho de criança, cara.
- O meu você pode vender ou doar. Não vou. Estou boicotando a copa.
- Eu sei que vou me irritar, mas, pergunto: Boicotando a copa?
- Sim, olha o que ela causou, desvio de dinheiro, remoções. Uma tristeza
enorme.
- E por isso vai boicotar a copa.
- Sim, e vou pra rua protestar. Vem comigo, como nos velhos tempos,
temos muito pelo que lutar.
- Uma das coisas que eu aprendi contigo foi sonhar e lutar pelos meus
sonhos. E um deles é ver o Brasil jogar uma copa do mundo em casa.
- Mas não era para ser assim, polícia repressora, políticos desonestos,
está tudo errado, cara. Tudo errado.
- Eu achava que a gente separava a política do futebol.
- Não dá, minha copa é na rua, desafiando o choque, gritando pelos que
não tem voz.
- E não pode fazer isso depois da copa?
- Engraçadinho.
- Falo sério. A copa vai passar, os problemas vão ficar e a luta será a
mesma. Porque não podemos por alguns dias esquecer essa merda toda.
- Enquanto a gente se diverte tem gente se fudendo por causa da copa,
você sabia?
- Sim, nesse país, por causa de várias coisas tem gente se
ferrando.
- Então?
- A copa vai acabar e vão precisar de gente lutando por um Brasil
melhor. Eu serei um deles, como sempre fui. Tenho direito a sonhar, por alguns
instantes esquecer as lágrimas no meu rosto.
- Não, não temos. Não somos melhores do que aqueles que sofrem, entenda
isso.
- Não somos melhores do que ninguém e mesmo assim, perceba, o quanto
está tentando ser superior ao sentir uma dor que não é sua. Depressivo, em um
quarto escuro, lamentando a vida, sorvendo cada gole de tristeza com prazer.
Deixou de gostar de futebol? Responda-me sinceramente.
- Não.
- Levanta, vamos embora pra São Paulo. Ninguém é forte o suficiente para
lutar constantemente. Às vezes é necessário parar e se divertir um pouco. Vamos
embora, garoto. Não me faça chorar sozinho quando ouvir o hino nacional.
- Eu vou te acompanhar até São Paulo, mas não garanto que vou entrar. Se
do lado de fora estiver mais divertido eu escolherei as ruas.
- Ok, revolucionário. Ok. Se adianta que já é tarde.
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