Adorava copas do mundo, via
todos os jogos que pudesse, por muito tempo gostou de torcer pela seleção
brasileira. Mas o tempo foi passando, o menino de outrora foi dando lugar a um
adulto amargo, o evento copa do mundo foi a cada quatro anos sendo
sistematicamente atacado por quem o relaciona com a ditadura da FIFA,
corrupção, alienação e outras coisas que jamais deveriam ser associadas com o
futebol dentro de campo.
A torcida pela seleção não
acabou, continua torcendo, sem o fervor de antes, culpa a patrulha cada vez
mais forte sabendo que mente para si, o encantamento infantil é que foi dando
lugar a uma realidade adulta onde os sonhos não são permitidos.
Ainda gosta de copa do mundo,
mas reserva esse sentimento para si. Na última copa, viu os jogos sozinhos, sem
torcer por ninguém, apenas apreciando as seleções, os gols, dizendo a si mesmo
suas impressões e palpites.
Entre outros motivos para
justificar seu isolamento culpava as redes sociais, dizia que desde que elas
começaram a ter relevância tudo o que envolve o Brasil e brasileiros ficou
chato, mas a culpa também era do que ele havia se tornado. Uma pessoa amarga,
fechada para emoções, tentando viver como se não tivesse um coração pulsando.
Estava preparado para assistir
a copa no Brasil igual na copa passada, mas agora era diferente, a pequenina Carla estava ansiosa e ele não podia
tirar dela os seus sonhos, não ia dá a ela todo o seu amargor. A
menina estava empolgada, tinha pedido uma bandeira para ela torcer, e foram
escolher uma, (bem grande tá, pai) na loja que já estava cheia de produtos em
verde e amarelo. Além da bandeira, uma corneta, um chapéu, barbante e plástico
para fazer as bandeirinhas. Trouxe para casa, chamou a empregada (surpresa) e
pediu ajuda para enfeitar a casa com verde e amarelo.
Passou o dia cortando
plásticos, lembrando de quando era menino e ansioso ajudava a decorar a rua
onde morava, enfeitou a casa como se fosse ocorrer uma festa, sorriu para si
mesmo, tinha feito um bom trabalho.
No dia seguinte sentou a menina
no colo e mostrou velhos recortes de jornais que guardava, revirou caixas
buscando revistas antigas e apontou para a pequena os craques que reverenciava.
Contou com emoção às copas que já tinha visto, o gol do Branco, a dor de
oitenta e seis, a decepção de 90, cada copa tinha historias, lembranças, uma
saudade.
Explicou que a Argentina era a
rival, mas gigante mesmo era a Itália e a Alemanha, omitiu sua decepção com ex
jogadores tratando-os com reverência como se fora das quatros linhas não fossem
pessoas com caráter questionável, falou dos grandes craques, dos personagens
inesquecíveis, das seleções que estão classificadas.
- Itália e Alemanha são
gigantes. E o Brasil já ganhou das duas em finais.
- E a Argentina, pai?
- Ah a Argentina. Eles não são
tão grandes, mas ganhar deles é difícil. Agora com esse Messi então, tenho medo
deles.
-Ele joga muito né?
- Joga, mas o Maradona jogava
mais. Eu vi com meus próprios olhos.
E entre seleções e jogadores,
ficou horas contando a pequena sobre os grandes nomes que tinha visto, onde a
memória falhou, a criatividade completou, narrou deixando de lado os fatos e
dando ênfase ao subjetivo, cada jogo, cada lance foi contado com emoção.
- Vamos ver o gol do Branco em
94? Digita aí no Google.
- Presta atenção na narração do
Galvão Bueno. Olha a emoção dele.
E a menininha olha a tela com
seu jeito meigo e cada vez mais encantada espera a copa ansiosa. O pai também.
Belo texto.
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