quinta-feira, 29 de maio de 2014

Vai Ter Copa (Carla IV)

Adorava copas do mundo, via todos os jogos que pudesse, por muito tempo gostou de torcer pela seleção brasileira. Mas o tempo foi passando, o menino de outrora foi dando lugar a um adulto amargo, o evento copa do mundo foi a cada quatro anos sendo sistematicamente atacado por quem o relaciona com a ditadura da FIFA, corrupção, alienação e outras coisas que jamais deveriam ser associadas com o futebol dentro de campo.
A torcida pela seleção não acabou, continua torcendo, sem o fervor de antes, culpa a patrulha cada vez mais forte sabendo que mente para si, o encantamento infantil é que foi dando lugar a uma realidade adulta onde os sonhos não são permitidos.
Ainda gosta de copa do mundo, mas reserva esse sentimento para si. Na última copa, viu os jogos sozinhos, sem torcer por ninguém, apenas apreciando as seleções, os gols, dizendo a si mesmo suas impressões e palpites.
Entre outros motivos para justificar seu isolamento culpava as redes sociais, dizia que desde que elas começaram a ter relevância tudo o que envolve o Brasil e brasileiros ficou chato, mas a culpa também era do que ele havia se tornado. Uma pessoa amarga, fechada para emoções, tentando viver como se não tivesse um coração pulsando.
Estava preparado para assistir a copa no Brasil igual na copa passada, mas agora era diferente, a pequenina Carla estava ansiosa e ele não podia tirar dela os seus sonhos, não ia dá a ela todo o seu amargor. A menina estava empolgada, tinha pedido uma bandeira para ela torcer, e foram escolher uma, (bem grande tá, pai) na loja que já estava cheia de produtos em verde e amarelo. Além da bandeira, uma corneta, um chapéu, barbante e plástico para fazer as bandeirinhas. Trouxe para casa, chamou a empregada (surpresa) e pediu ajuda para enfeitar a casa com verde e amarelo.
Passou o dia cortando plásticos, lembrando de quando era menino e ansioso ajudava a decorar a rua onde morava, enfeitou a casa como se fosse ocorrer uma festa, sorriu para si mesmo, tinha feito um bom trabalho.
No dia seguinte sentou a menina no colo e mostrou velhos recortes de jornais que guardava, revirou caixas buscando revistas antigas e apontou para a pequena os craques que reverenciava. Contou com emoção às copas que já tinha visto,  o gol do Branco, a dor de oitenta e seis, a decepção de 90, cada copa tinha historias, lembranças, uma saudade.
Explicou que a Argentina era a rival, mas gigante mesmo era a Itália e a Alemanha, omitiu sua decepção com ex jogadores tratando-os com reverência como se fora das quatros linhas não fossem pessoas com caráter questionável, falou dos grandes craques, dos personagens inesquecíveis, das seleções que estão classificadas.

- Itália e Alemanha são gigantes. E o Brasil já ganhou das duas em finais.

- E a Argentina, pai?

- Ah a Argentina. Eles não são tão grandes, mas ganhar deles é difícil. Agora com esse Messi então, tenho medo deles.

-Ele joga muito né?

- Joga, mas o Maradona jogava mais. Eu vi com meus próprios olhos.
E entre seleções e jogadores, ficou horas contando a pequena sobre os grandes nomes que tinha visto, onde a memória falhou, a criatividade completou, narrou deixando de lado os fatos e dando ênfase ao subjetivo, cada jogo, cada lance foi contado com emoção. 

- Vamos ver o gol do Branco em 94? Digita aí no Google.

- Presta atenção na narração do Galvão Bueno. Olha a emoção dele.


E a menininha olha a tela com seu jeito meigo e cada vez mais encantada espera a copa ansiosa. O pai também. 

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