Maria disse para fazer nela a vontade de Deus.
Não falou: que seja feita sua vontade mas...
Não falou: Se aceitar minhas condições seja feita a sua vontade.
Não falou: Porque eu?
Não falou: Eu não mereço, procure outra.
Não falou: Fulana não vai ter problema em te ajudar. Procure ela.
Não falou: Mas eu tinha tudo planejado pra minha vida. E agora?
Não falou: Eu não desejo ter filho agora.
Não falou: Me dá um tempo pra pensar?
Não falou: Quero garantias de que nada de ruim vai me acontecer.
Não falou: Tenho medo do que virá.
Não falou: E se duvidarem de mim?
Não falou: O que vão pensar?
Apenas falou: Eis a serva do senhor e cumpra-se em mim a sua palavra. Fica aqui a minha palavra aos amigos crédulos que assim como eu e tantos nessa jornada as vezes deixamos de dizer "eis aqui um servo do senhor" para dá outras respostas. Que nessa noite, data escolhida para celebrar o nascimento do menino Deus, signifique o renascimento da nossa vontade de servir a Deus.
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quarta-feira, 24 de dezembro de 2014
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
Natal (Parte IV)
A Entrega
Acordou sobressaltado. Sem esforço lembrava cada palavra e
imagem do sonho daquela noite, já tinha tomado a sua decisão. Resmungou quando
tropeçou no tapete, meio sonolento se olhou no espelho e perguntou-se a que
horas o mercado abria. Talvez se fosse um dos primeiros a chegar enfrentasse
uma fila menor, pensou resignado enquanto escovava os dentes e tentava dizer a si
mesmo algum motivo para aceitar toda essa loucura como normal. Se contasse para
alguém que tinha sonhado com um anjo e ele tinha pedido para doar uma cesta
básica era capaz de ser internado ou visto com desconfiança.
Comprou os mantimentos, pegou o
carro e rumou até o endereço indicado. Tocou a campainha e quando uma senhora
apareceu entregou os mantimentos.
- Bom dia. Mandaram entregar a
senhora.
- Hã? Quem? O que é isso?
Não respondeu, deu as costas,
entrou no carro, acelerou e foi embora. Ela que arrumasse explicações, ouvisse
sua filha, não importava. Sua parte estava feita e estava com a sensação de ao
menos nesse natal mesmo passando sozinho como nos anos passados iria ser
melhor. Ao menos teria um conforto no coração. E sorriu como há muito tempo não
fazia.
Natal (Parte III)
Pedido de Ajuda (II)
- Bem, eu preciso ir embora. Qual resposta eu levo para Ele?
- Diga-lhe que nesses anos todos eu chorei e não tive consolo, precisei de ajuda e ninguém estava ao meu lado, caí e tive que me levantar sozinho. Por que eu vou me preocupar com uma família que nem conheço? Por que eu vou fazer algo pelos outros se nunca tive quem fizesse por mim?
- Está sendo injusto novamente. Não é porque sente dor que todos devem sentir também. A resposta a todas as suas perguntas é uma só. Tem uma criança que merece sonhar, acreditar em um mundo melhor. E você será o causador disso.
- Belo argumento, mas não me convenceu. Esse mundo é cada um por si e quanto mais cedo ela entender o quanto aqui é infernal, melhor.
- Você realmente acredita nisso?
- Foi à conclusão que cheguei nos últimos anos.
- E realmente acredita?
- Sim.
- Não minta para si mesmo. Como diz a música, é a pior mentira.
- Não importa o que eu acredito ou deixo de acreditar. O mundo é assim comigo e se não é com os outros é por terem melhor sorte. Sinto pela família, pela menina, mas são apenas mais uma nesse mundo a passar mais um dia com fome. Uma cesta agora não vai adiantar nada, é só uma festa capitalista.
- Não é uma festa qualquer. É a celebração de um nascimento e seu gesto irá trazer conforto a três pessoas. Conforto e esperança em dias melhores. Bem sabe o quanto à falta de esperança mata aos poucos.
- Sei.
- Pois é. Não é triste quando isso ocorre?
- Sim, é.
- Então, faça esse favor. Depois cobre dele ou de mim. Faça isso pela gente e por você.
(continua)
Natal (parte II)
Pedido de Ajuda
Não precisavam ser apresentados, pois eram velhos conhecidos. Não foi um encontro amistoso ou com demonstrações de afeto das duas partes, mas a rispidez estava somente de um lado.
Não precisavam ser apresentados, pois eram velhos conhecidos. Não foi um encontro amistoso ou com demonstrações de afeto das duas partes, mas a rispidez estava somente de um lado.
- Preciso de sua ajuda.
- Ajuda? Minha? Tem algo errado
aí.
- Na verdade não sou eu que
estou precisando. É Ele que mandou eu vir aqui te pedir.
- Hum, peraí. Os papéis estão
invertidos. Não sou eu que peço ajuda, rezo, vou à igreja e tal?
- Sim, era você. Nos últimos
tempos já não faz isso.
- Claro, pedia, pedia, e nada.
Desisti.
- Está sendo injusto.
- Se tivesse sido auxiliado
acho que não teria deixado de pedir, correto?
- Você foi, mas imerso em sua
dor deixou de ver ao seu redor e passou a olhar somente para si. Várias vezes
velei seu sono enquanto você rolava na cama perturbado por pesadelos. Não foram
poucas manhãs que tentei melhorar algo para que enfrentasse um novo dia, pois
eu tinha medo da sua desistência. Mas você não me via, não o chamava mais,
lidou com a sua dor e dificuldades do seu jeito. Não o recrimino.
- Obrigado por não me
recriminar.
- De nada.
- Vou ignorar sua ironia.
Porque eu? Tem tanta gente por aí.
- Às vezes eu não entendo as
decisões dele. Acato as ordens.
- Pois já faz um tempinho que
não estou disposto a acatar as decisões dele se é que não perceberam ainda.
- Percebemos.
- E porque eu acataria essa?
- Não me pergunte. Ele sabe o
que faz. Quem sou eu para perguntar os motivos.
- Que tipo de ajuda vocês
querem?
- Coisa simples, amanhã é natal
e certa família não tem nada na geladeira. Basta você levar uma cesta básica
para ela.
- E porque eu faria isso? Não
está querendo que amanhã, véspera de natal eu vá para um supermercado cheio de
gente mal educada comprar os itens né? Vocês estão malucos. Procurem outros.
- Sempre o mesmo, tentando
esconder atrás dessa grossura um coração mole.
- Eu estou falando sério. Não
vou fazer isso.
( continua)
-
Não posso te obrigar. Apenas pense que será uma nova chance para você.
-
Chance de que?
-
De ser feliz.
-
Não entendi.
-
Lei do retorno. Não preciso explicar do que se trata. Sabe muito bem disso.
-
Isso é chantagem. E daquelas emocional.
( continua)
Natal (Parte I)
O Pedido
Clarisse acordou e escutou seus pais lamentarem a má sorte da
família. Endividados e desempregados tinham conseguido até então manter a
comida na mesa, mas por uma dessas coincidências tristes tudo levava a crer que
o natal teria menos do que os outros dias. Já tinha se conformado em não
receber presente igual às outras crianças, os brinquedos que via nas vitrines
não eram para ela, os baratos nesse ano não chegariam as suas mãos, mas quem
sabe se rezasse pedindo a Deus por comida ele ajudasse a terem um natal melhor.
Alegraria a ela e seus pais, os faria felizes e com isso ela ficaria feliz
também. Ajoelhou-se e fez uma prece silenciosa, acreditou tanto que acordou no
dia vinte e quatro feliz com a surpresa reservada aos seus pais. Até a noite
iriam ter uma ceia como nas outras casas e seria uma família feliz, tinha
certeza disso, não pedia muita coisa a papai do céu e tinha certeza que por
isso ele iria dá um jeito de atendê-la. Não sabia como seria mas tinha certeza
do milagre.
(continua)
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Natal
- Oi, onde você
está?
- Na igreja.
- Hahahahaha,
sério, onde você está?
- Já falei, na
igreja.
- Agora chamam de
igreja?
- Bom, que eu
saiba nunca chamaram de outro nome. Tem a palavra templo, mas não é comum
usarem e...
- Para!! Você é
muito sonso, e acha que eu sou idiota.
- Não começa.
- Como assim não
começa, eu faço uma pergunta e a resposta é um deboche? Como você quer que eu
te responda?
- Ontem te deixei
falando sozinha por ficar gritando comigo, se fizer de novo agora, bato na sua
cara novamente.
- Faz isso, para
ver se eu te ligo mais. Liguei agora para fazer as pazes, maldita hora que fiz
isso, deveria ter esperado ao menos ficar de tarde. Boba que sou, liguei com
você ainda na putaria.
- Não estou na
putaria.
- Claro que não,
está na igreja. Deve ser aquelas que tem luzes vermelhas, mulheres nuas,
bebidas, etc.
- Essa era uma
boa, infelizmente não estou.
- Odeio quando começa
com essas ironias baratas, consegue ser mais inteligente do que isso.
- Olha só, você
está falando alto e já tem umas velhinhas aqui me olhando estranho.
- Que velhinhas?
- As que estão
recolhendo os presentes.
- Caralho, que
presentes, homem de Deus?
- Então, o padre
da paróquia pediu para os fiéis doarem brinquedos e eu vim trazer a minha
contribuição.
- E desde quando
você é algum fiel?
- Bem, eu não sou
um exemplo de religioso, mas acredito em Deus, vou à igreja, rezo sempre.
- Puta que pariu
nunca te vi indo a uma igreja, rezar só se for quando seu time está jogando,
porque não sendo assim.
- Bem, eu não sou
assíduo nas missas, mas quando dá eu freqüento.
- E desde quando
comunista é católico?
- Mas eu não sou
comunista, sou socialista.
- É tudo a mesma
merda.
- Não é não, já te
expliquei, comunismo é...
- Não começa pelo
amor de Deus. A última vez que você foi me explicar à diferença entre um e
outro, passei duas horas te escutando e no final não entendi nada. Para mim são
as mesmas merdas e ponto final. Tudo vermelho, malucos, pensando em mudar o
mundo. O que importa é, você realmente
está em uma igreja?
- Sim, aquelas que
têm padre, altar, missa, etc.
- Ha ha há,
engraçadinho. E os presentes são para quem? Para os santos, tipo a umbanda que
coloca oferendas para os orixás?
- Você de religião
entende tanto quanto eu de física. Não oferecemos presentes aos santos, fazemos
promessas e não é nada disso. Os presentes são para a festa de natal, a igreja
vai distribuir para as crianças pobres e eu vim trazer a minha doação, todo ano
eu venho.
- Por isso que
você comprou aquelas bonecas?
- Sim, foi por
isso.
- Poderia ter
comprado umas mais caras né? Tinha que ser tão baratas?
- Não interessa, o
que importa é que eu comprei com carinho e dentro do meu orçamento. Não vou me endividar no cartão
igual a você.
- E porque não me
contou?
- Porque o bem a
gente faz sem dizer a ninguém. É bíblico.
- E desde quando
você segue a bíblia, criatura?
- No natal eu
tento.
- Só no natal né?
- Sim, quem faz um
pouco com amor no coração está fazendo muito.
- Pronto, além de
religioso, virou filósofo. Hahahaha. Já que está impregnado de espírito
natalino, faz as pazes comigo?
- E eu briguei
como você? Quando?
- Bobo, te espero
aqui, vem logo.
domingo, 23 de dezembro de 2012
O Pastor (II)
Como
todos sabemos, o tempo não para e aquele dia especial tornou-se mais um, o
pastor continuou com a sua vida pacata cuidando das suas ovelhas até quando a
idade deixou. Ao longo da sua vida Samuel passou a perceber a beleza da
simplicidade, sua manta que valia tão poucas moedas tinha sido presenteada ao
maior dos homens, simples palhas tinham servido de berço, assim tinha lhe dito
o anjo e levava essa lição para onde ia, as vezes tentava contar sua história,
mas poucos o escutavam, agora já ficando velho, tomavam-no por senil.
Certo
dia na pequena cidade onde morava começou a escutar a historia de um homem
acompanhado por mais doze e seguido por uma multidão, andando entre todos sem
distinção. Sorriu, falando em voz alta “finalmente eu sei quem você é, e logo
vou me encontrar com seu pai”. Alguns olharam e não deram atenção, outros
fizeram troça, todos o ignoraram minutos depois. Era só um velho que vivia
perambulando pela rua contando ter visto um anjo e sido um dos primeiros a
cumprimentar uma família muito importante pelo seu primogênito, como se um
pastor de ovelhas fosse merecedor de tal honraria.
Enquanto
o ancião sorria, o menino na manjedoura tinha virado um homem e estava
cumprindo a sua missão, mas não
adiantava ele tentar ser escutado, a maioria preferia prestar atenção no que os
sábios falavam, tinham esquecido que Deus está nas coisas simples. Se soubessem
compreenderiam o porquê do seu filho ter nascido tendo como pai um carpinteiro
e nascido em uma manjedoura, sendo velado pelos mais simples.
sábado, 22 de dezembro de 2012
O Pastor (I)
Sentado
em uma pedra tendo como teto o céu, olhando as estrelas Samuel pensava sobre o que tinha
ocorrido. Sua vontade era, quando amanhecesse, contar para todos que passassem
por ele, mas sabia que ninguém iria acreditar. Ora, era apenas um pastor de
ovelhas, profissão destinada a pessoas simples, quem iria acreditar que ele
tinha visto um anjo,pensou consigo, seria taxado de maluco ou herege, ninguém
iria acreditar. Preferiu ficar quieto e guardar para si.
Tudo começara com o primeiro sonho, um anjo
apareceu e disse que por ser uma pessoa justa, Deus lhe daria uma grande honra.
Acordou assustado naquela madrugada e não conseguiu dormir mais. Visões,
presságios, profecias só ocorriam com pessoas que se distinguiam de alguma forma,
era assim nas sinagogas com os doutores, nos templos da cidade, sabia que iam
rir da sua cara, por se considerar tão especial para um anjo aparecer,
calou-se, não queria passar por mentiroso.
Quinze
dias depois novamente sonhou com o anjo, estava a sua frente, tomava coragem e
perguntava "porque eu?", o ser de luz sorriu e falou que havia feito
por merecer. Feito pro merecer? Ora, ele não tinha feito nada para merecer
honras, não era um sábio para pregar a palavra de Deus, não tinha riquezas para
caridades, suas ofertas eram menores do que a maioria prezava a justiça,
tentava sempre ser correto no que fazia, era incapaz de trapacear para obter
vantagens, respeitava qualquer ser vivo, mas não era especial e sim mais um
naquele lugar.
Na
última madrugada, enquanto acendia a fogueira para se esquentar, o anjo
apareceu igual no seu sonho, tinha um sorriso singelo, irradiava luz, seus
olhos expressavam amor, diante do pastor assustado, falou que o momento havia chegado
se preparasse e quando visse uma estrela cadente a seguisse até uma estrebaria
e chegando nela entrasse sem medo.
Fez
conforme ordenado, a sua frente estava um casal com uma criança no colo, animais
e outros pastores estavam ao lado, junto a anjos, entre eles o que tinha lhe
aparecido. O nome da criança esquecera de perguntar, deixara sua manta para
esquentá-lo e soube apenas ser um homem importante, segundo dissera a legião
presente ali.
Era
nisso que pensava, enquanto a madruga ia embora dando lugar ao dia, quem era
aquele bebê e seus pais? Poderia ser um príncipe, mas eles eram nascidos e criados em palácios. Talvez
aquele casal fosse de comerciantes ricos, mas porque a estrebaria, porque
alguém rico deixaria nascer seu filho em um lugar tão simples? Recriminava-se
agora por não ter feito essas perguntas e tinha a esperança de sonhar novamente
com o mensageiro de Deus para tirar suas dúvidas, afinal, era humano e por isso
a curiosidade estava lhe afetando.
Continua
Continua
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Um Conto de Natal (Parte Final)
A festa foi um sucesso, presentes foram distribuídos para as crianças, adultos se divertiram e ao final de tudo o salão ficou vazio. Já era noite, as famílias começavam a se reunir em suas casas para a comemoração particular de cada uma delas. Ao contrário do que pensava por anos, existia feliz natal na periferia, não era apenas tristeza e miséria, era simples é verdade, mas com calor humano. Era hora de voltar para a solidão do seu lar e foi em direção ao seu carro quando um casal conhecido a chamou e perguntou:
- Vai passar o natal com quem?
- Desde que minha filha morreu eu passo sozinha lá em casa.
- Lá em casa não tem o luxo que a senhora está acostumada, mas se quiser passar com a gente será muito bem recebida.
- Agradeço. Não quero atrapalhar.
- Vai fazer desfeita? Vamos lá, não passa, não passe o natal sozinha. Vem com a gente.
Sorriu e aceitou o convite, indo com eles para a pequena casa sem pintura e com poucos móveis. Em cima da mesa uma ceia simples, mas o mais importante estava presente. A tranqüilidade e o amor no lar, isso era algo que dava para sentir ao entrar. Os moradores tinham dito a verdade, não era o luxo a qual estava acostumada e isso não fez a menor importância. Os talheres de prata e os pratos de porcelanas eram lindos, mas eram apenas coisas materiais, enquanto ali o garfo e faca simples e um prato limpo e barato era servido com amor. Acostumou-se com toalhas de linho, mas não se importou nem um pouco com a toalha de pano forrada na mesa, as pessoas sentiam prazer pela sua presença, não por causa da sua posição social ou pela condição financeira, mas por ela e isso não tinha preço. Agradeceu a Deus em oração aquele momento proporcionado e pela lição aprendida, passou a noite com seus novos amigos, e pela primeira vez em muitos anos não se sentiu solitária na noite de natal.
- Vai passar o natal com quem?
- Desde que minha filha morreu eu passo sozinha lá em casa.
- Lá em casa não tem o luxo que a senhora está acostumada, mas se quiser passar com a gente será muito bem recebida.
- Agradeço. Não quero atrapalhar.
- Vai fazer desfeita? Vamos lá, não passa, não passe o natal sozinha. Vem com a gente.
Sorriu e aceitou o convite, indo com eles para a pequena casa sem pintura e com poucos móveis. Em cima da mesa uma ceia simples, mas o mais importante estava presente. A tranqüilidade e o amor no lar, isso era algo que dava para sentir ao entrar. Os moradores tinham dito a verdade, não era o luxo a qual estava acostumada e isso não fez a menor importância. Os talheres de prata e os pratos de porcelanas eram lindos, mas eram apenas coisas materiais, enquanto ali o garfo e faca simples e um prato limpo e barato era servido com amor. Acostumou-se com toalhas de linho, mas não se importou nem um pouco com a toalha de pano forrada na mesa, as pessoas sentiam prazer pela sua presença, não por causa da sua posição social ou pela condição financeira, mas por ela e isso não tinha preço. Agradeceu a Deus em oração aquele momento proporcionado e pela lição aprendida, passou a noite com seus novos amigos, e pela primeira vez em muitos anos não se sentiu solitária na noite de natal.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Um Conto de Natal (II)
Tinha dinheiro e podia ter tudo o que ele poderia comprar, no entanto lhe faltava muito e sofria por isso. Um dia leu sobre um projeto social em uma favela, as pessoas daquele lugar tinham se unido e estavam tendo pequenas conquistas, procurou saber mais e quando percebeu estava batendo na porta do projeto perguntando como poderia ajudar.
Foi olhada com desconfiança a princípio, parecia ser mais um “turista” indo ver favelados em seu habitat natural como os pesquisadores observam animais na floresta, perguntaram se era política ou de alguma igreja e diante das negativas alguém foi direta:
- Olha não me leve a mal não. Mas se não é política, da igreja, porque está aqui? Curiosidade em conhecer como é uma favela? É isso?
- Não, não é isso, não me entendam mal. Eu vi uma reportagem sobre o projeto de vocês e queria saber como ajudar.
- Madame, se você quiser doar dinheiro, ninguém aqui vai rejeitar. Se quiser ajudar de outra forma aqui nunca falta trabalho.
Poderia dá o dinheiro somente e retornar para sua casa, seu mundo luxuoso, onde tudo era diferente. Ficou e engolindo seu orgulho pela primeira vez em muito tempo pediu e não deu uma ordem. Queria fazer parte daquele trabalho, poderia trabalhar igual às pessoas ali faziam. Foi aceita e se tornou mais uma mão a construir um futuro melhor, sua posição social e seu dinheiro ali não valia de nada.
Desde esse dia sempre retornou, tornou-se conhecida e aos poucos foi se integrando ao lugar, sempre participando das festas promovidas por aquela gente. Por isso estava ali hoje, era o dia vinte e quatro de dezembro, a festa de natal e lá estava mais uma vez participando como em outros anos.
O salão estava cheio de crianças barulhentas, o som alto tocava um pagode desses tão ao gosto popular enquanto as mulheres enfeitavam ou mostravam aos homens onde colocar as mesas e cadeiras. Ficou olhando em volta, alguém gritou seu nome e se pôs a trabalhar junto com todos. À tarde a festa finalmente começou, as crianças se divertiam, estavam felizes como deveria ser sempre, muitas tinham o pai ausente (desconhecido, preso ou morto), poucos motivos para sonhar e para sorrir. Cada sorriso deles era uma forma de alegrar o seu coração, ali ela não era a madame que ordenava e sim a tia sendo puxada pela mão para tirar uma foto de lembrança. A importância ali não era por causa do dinheiro ou do status e sim por fazer parte da relação social daquele lugar, se a pessoa era querida, solidária e participativa então tornava-se importante.
(Continua)
Foi olhada com desconfiança a princípio, parecia ser mais um “turista” indo ver favelados em seu habitat natural como os pesquisadores observam animais na floresta, perguntaram se era política ou de alguma igreja e diante das negativas alguém foi direta:
- Olha não me leve a mal não. Mas se não é política, da igreja, porque está aqui? Curiosidade em conhecer como é uma favela? É isso?
- Não, não é isso, não me entendam mal. Eu vi uma reportagem sobre o projeto de vocês e queria saber como ajudar.
- Madame, se você quiser doar dinheiro, ninguém aqui vai rejeitar. Se quiser ajudar de outra forma aqui nunca falta trabalho.
Poderia dá o dinheiro somente e retornar para sua casa, seu mundo luxuoso, onde tudo era diferente. Ficou e engolindo seu orgulho pela primeira vez em muito tempo pediu e não deu uma ordem. Queria fazer parte daquele trabalho, poderia trabalhar igual às pessoas ali faziam. Foi aceita e se tornou mais uma mão a construir um futuro melhor, sua posição social e seu dinheiro ali não valia de nada.
Desde esse dia sempre retornou, tornou-se conhecida e aos poucos foi se integrando ao lugar, sempre participando das festas promovidas por aquela gente. Por isso estava ali hoje, era o dia vinte e quatro de dezembro, a festa de natal e lá estava mais uma vez participando como em outros anos.
O salão estava cheio de crianças barulhentas, o som alto tocava um pagode desses tão ao gosto popular enquanto as mulheres enfeitavam ou mostravam aos homens onde colocar as mesas e cadeiras. Ficou olhando em volta, alguém gritou seu nome e se pôs a trabalhar junto com todos. À tarde a festa finalmente começou, as crianças se divertiam, estavam felizes como deveria ser sempre, muitas tinham o pai ausente (desconhecido, preso ou morto), poucos motivos para sonhar e para sorrir. Cada sorriso deles era uma forma de alegrar o seu coração, ali ela não era a madame que ordenava e sim a tia sendo puxada pela mão para tirar uma foto de lembrança. A importância ali não era por causa do dinheiro ou do status e sim por fazer parte da relação social daquele lugar, se a pessoa era querida, solidária e participativa então tornava-se importante.
(Continua)
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Um Conto de Natal (Parte I)
Acordou tarde, tomou café e um banho para despertar. Hoje tinha um compromisso importante, se arrumou para ele colocando seu vestido e um perfume comprado na última viagem a Paris. Olhou para os remédios tarja preta na cama e sussurrou sorrindo um "hoje não" na mansão vazia. Nos últimos cinco anos para conseguir viver com certa tranqüilidade precisava de ajuda médica, mas hoje não precisaria da química no corpo, conseguiria isso sozinha.
Saiu do seu condomínio em seu carro de luxo e aos poucos foi deixando para trás os bairros ricos enquanto a paisagem ia mudando de casas luxuosas, bem cuidadas com aquele ar de sofisticação para lugares onde a simplicidade e a pobreza se confundiam constantemente. Envergonhada, lembrou-se da primeira vez que tinha feito esse trajeto e como tinha estranhado ver pessoas em trajes comuns, estava acostumada a vê-las com uniformes impecáveis destinado aos empregados, esse tinha sido o primeiro de muitos choques até compreender a realidade do outro lado de uma cidade segregada socialmente.
Chegou à favela, tinha aprendido com os moradores as regras do lugar e sabia que não podia burlar nenhuma delas, ali seu nome e seu dinheiro não valia muita coisa, imperava a lei do tráfico e todos respeitavam. Piscou o farol pedindo permissão e foi reconhecida por um dos "meninos" armados:
- Pode passar tia. A favela "tá" lazer.
Sorriu para o garoto talvez com dezesseis anos, com certeza não mais do que isso e foi em frente. Já entendia um pouco daquele linguajar peculiar, o "lazer" significava tranqüilidade para todos, sem polícia, tiros ou qualquer outro motivo de tensão, por isso não precisava se preocupar. Foi dirigindo com cuidado pela comunidade, pessoas e motos dividiam o espaço na rua com os automóveis, era preciso cuidado, então chegou a um casarão onde tinha uma placa o denominando de Centro de Lazer. Era ali o seu destino ao menos uma vez por semana desde a reconstrução da sua vida destruída pela morte da filha. A dor da perda e depois a depressão foram responsáveis por longos anos vivendo um inferno particular, até que aceitou o tratamento médico rigoroso e seguiu com disciplina a rotina de tomar os remédios para se manter sã, como dizia aos amigos.
(Continua)
Saiu do seu condomínio em seu carro de luxo e aos poucos foi deixando para trás os bairros ricos enquanto a paisagem ia mudando de casas luxuosas, bem cuidadas com aquele ar de sofisticação para lugares onde a simplicidade e a pobreza se confundiam constantemente. Envergonhada, lembrou-se da primeira vez que tinha feito esse trajeto e como tinha estranhado ver pessoas em trajes comuns, estava acostumada a vê-las com uniformes impecáveis destinado aos empregados, esse tinha sido o primeiro de muitos choques até compreender a realidade do outro lado de uma cidade segregada socialmente.
Chegou à favela, tinha aprendido com os moradores as regras do lugar e sabia que não podia burlar nenhuma delas, ali seu nome e seu dinheiro não valia muita coisa, imperava a lei do tráfico e todos respeitavam. Piscou o farol pedindo permissão e foi reconhecida por um dos "meninos" armados:
- Pode passar tia. A favela "tá" lazer.
Sorriu para o garoto talvez com dezesseis anos, com certeza não mais do que isso e foi em frente. Já entendia um pouco daquele linguajar peculiar, o "lazer" significava tranqüilidade para todos, sem polícia, tiros ou qualquer outro motivo de tensão, por isso não precisava se preocupar. Foi dirigindo com cuidado pela comunidade, pessoas e motos dividiam o espaço na rua com os automóveis, era preciso cuidado, então chegou a um casarão onde tinha uma placa o denominando de Centro de Lazer. Era ali o seu destino ao menos uma vez por semana desde a reconstrução da sua vida destruída pela morte da filha. A dor da perda e depois a depressão foram responsáveis por longos anos vivendo um inferno particular, até que aceitou o tratamento médico rigoroso e seguiu com disciplina a rotina de tomar os remédios para se manter sã, como dizia aos amigos.
(Continua)
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