Acordou tarde, tomou café e um banho para despertar. Hoje tinha um compromisso importante, se arrumou para ele colocando seu vestido e um perfume comprado na última viagem a Paris. Olhou para os remédios tarja preta na cama e sussurrou sorrindo um "hoje não" na mansão vazia. Nos últimos cinco anos para conseguir viver com certa tranqüilidade precisava de ajuda médica, mas hoje não precisaria da química no corpo, conseguiria isso sozinha.
Saiu do seu condomínio em seu carro de luxo e aos poucos foi deixando para trás os bairros ricos enquanto a paisagem ia mudando de casas luxuosas, bem cuidadas com aquele ar de sofisticação para lugares onde a simplicidade e a pobreza se confundiam constantemente. Envergonhada, lembrou-se da primeira vez que tinha feito esse trajeto e como tinha estranhado ver pessoas em trajes comuns, estava acostumada a vê-las com uniformes impecáveis destinado aos empregados, esse tinha sido o primeiro de muitos choques até compreender a realidade do outro lado de uma cidade segregada socialmente.
Chegou à favela, tinha aprendido com os moradores as regras do lugar e sabia que não podia burlar nenhuma delas, ali seu nome e seu dinheiro não valia muita coisa, imperava a lei do tráfico e todos respeitavam. Piscou o farol pedindo permissão e foi reconhecida por um dos "meninos" armados:
- Pode passar tia. A favela "tá" lazer.
Sorriu para o garoto talvez com dezesseis anos, com certeza não mais do que isso e foi em frente. Já entendia um pouco daquele linguajar peculiar, o "lazer" significava tranqüilidade para todos, sem polícia, tiros ou qualquer outro motivo de tensão, por isso não precisava se preocupar. Foi dirigindo com cuidado pela comunidade, pessoas e motos dividiam o espaço na rua com os automóveis, era preciso cuidado, então chegou a um casarão onde tinha uma placa o denominando de Centro de Lazer. Era ali o seu destino ao menos uma vez por semana desde a reconstrução da sua vida destruída pela morte da filha. A dor da perda e depois a depressão foram responsáveis por longos anos vivendo um inferno particular, até que aceitou o tratamento médico rigoroso e seguiu com disciplina a rotina de tomar os remédios para se manter sã, como dizia aos amigos.
(Continua)
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