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segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Casamento Gay

- Pai
- Oi, Carla.
- Eu tenho essas duas bonecas, elas podem se casar?
- Sim, podem.
- Mas a mulher se casa com homem.
- Sim, se casam.
- Então?
- Algumas mulheres se casam com mulheres. Alguns homens se casam com homens. E alguns homens se casam com mulheres e vice versa.
- A mãe da Clara disse que Deus fez o homem e a mulher e que eles devem se casar. Mulher com mulher não.
- Manda ela cuidar da vida dela.
-Pai!
-Já sei, já sei. Fui mal educado.
- Foi. Você me ensinou que não devemos ser.
- Ensinei e falta eu ensinar a não escutar o que idiotas dizem.
- A mãe da Clara é idiota?
-Sim.
- Porque ela falou que mulher não se casa com mulher?
- Também.
- Isso é certo?
- O certo é casar com quem a gente gosta. Errado é casar com quem não gostamos. Simples assim. Entendeu? Todo o resto é perda de tempo.
- Você já quis casar com outro homem, pai?
- Não. Vou te explicar melhor, maldita seja aquela idiota que fica te colocando coisas na cabeça.
- Pai!
- Já sei, já sei, mas eu vou fazer o que, ela é idiota e pronto.
- Rsrsrsrs
- Os animais, os humanos, as aves nascem homem e mulher e quando são adultos se casam. Só que alguns quando ficam adultos descobrem que não gostam do sexo oposto e sim do igual e por isso eles se gostam e casam também. Simples assim.
- E isso não é errado?
- Errado é quando fazemos o que não gostamos. Já lhe disse.
- A mãe da Clara disse que isso não é de Deus.
- Deixa eu te falar algo e leve para toda sua vida, ok?
- Deixo.
- Se Deus existir conforme dizem, onde tiver amor ele está, entendeu? Onde as pessoas estiverem felizes sem causar mal a ninguém ele estará feliz. E ele deve está saturado de idiotas que usam o nome dele para tomar conta da vida dos outros.
- A mãe da Clara falou que é pecado e que Deus fez o homem pra casar com mulher.
- Pecado é quando não deixamos as pessoas ser felizes, meu amor. Deus com certeza odeia a esses. O resto é bobagem.
- Então vou casar minhas bonecas porque elas já são grandes e descobriram que se gostam, ta?
- Sim meu amor, faça isso.
- Só mais uma pergunta, pai.
- Pergunte.
- Se a mãe da Clara disser que o senhor está errado o que eu falo?
- Aqui em casa cada um toma conta da sua vida e deixa a dos outros. Diga isso a ela.


domingo, 10 de agosto de 2014

Aprendi Com Meu Pai

Falar com a boca fechada.

Responder com “hum” a perguntas que eu não quero responder.

Saltar no ponto errado, me perder nos caminhos ou lugares.

Não pedir informação quando estou perdido.

Que se pode ser duro e o coração vulnerável.

Ser grosso sem perder a ternura.

Homem chora.

Nunca admitir que está chorando.

Colocar a culpa na minha mãe quando evidentemente foi eu que errei.

Esquecer onde eu coloquei algo e dizer que tiraram de onde estava.

Falar com alguém olhando para o lado oposto que esse alguém está.

Autismo voluntário.

Ter calma.

Ter calma em momentos tensos.

Não importa quem seja aqui em casa deve ser bem tratado.

Gostar de política.

Assistir o jornal nacional e jornais locais.

Manter a palavra dada.

Ser honesto.

Assumir responsabilidades.

domingo, 20 de abril de 2014

Saudades (Carla III)


 Ainda era daqueles que costumava ler o jornal impresso. Sentava-se em um sofá, colocava os óculos e lia os cadernos espalhados em seu colo, rejeitava categoricamente qualquer sugestão para trocar o papel pelo on line. Às vezes pedia uma xícara de café à empregada, fazia questão do silêncio e não gostava de ser incomodado em hipótese nenhuma, mas, como vinha acontecendo com constância desde a sua chegada, Carla, desrespeitava as regras da casa.
Sempre deixou claro aos cada vez mais raros freqüentadores que não tolerava certas atitudes e uma delas era ser interrompido quando lia o jornal, mas com aquela menina travessa abria exceções, sorrindo por dentro e com a face séria, sempre.
Já conhecia um pouco do seu comportamento, quando começava a lhe rodear, inquieta, é porque queria perguntar algo, puxar conversa, contar alguma novidade. Era sempre a mesma coisa, vinha sorrateiramente com aquele rosto ingênuo, como se tivesse a intenção de está ali por acaso e na primeira oportunidade levava a cabo o seu intento. 
Por isso se desconcentrou da leitura, manteve o jornal aberto, mas já não lia as páginas, esperava a pestinha dizer o que estava lhe passando pela cabeça e ela não tardou em fazê-lo:

- Pai?

- Oi

-  Hoje eu entrei no seu quarto.

- Hum. Foi fazer o que lá? Não tem nada lá dentro que lhe interesse.

- Eu estava brincando e entrei lá dentro.

- Hum.

- Eu vi aquela foto que o senhor já tinha me falado. Aquela mulher é muito bonita.

- Ela era sim. Já falamos sobre ela.

- Já sim, mas...

- Mas...

- A Marília disse que os pais dela se amam e ...

- E?

-  você amou aquela mulher da foto?

Levou um susto. O que uma garotinha de 8 anos sabe sobre o amor? Que mundo é esse que as crianças  perguntam essas coisas ao pai? No meu tempo de menino eu perguntava coisas bobas, hoje em dia essa maldita modernidade faz com que se cresça rápido demais. E quem disse isso a ela? Aposto que foi a Maria, empregada fofoqueira. Esses empregados em vez de calar a porra da boca e manter a discrição, falam pelos cotovelos.

- O que é amar para você, menina?

- Amar é gostar de alguém. A Paula falou isso hoje de manhã. 

- E você concorda com a Paula?

- Sim.

- Então está respondida sua pergunta. Amei sim. Pode voltar a brincar.

- O que é amar pra você, pai?

Eu sabia que não seria tão fácil me livrar dela. Sabia, não podia ser tão simples né, Deus. Ela tinha que complicar, e agora, cito Fernando Pessoa, Vinicius de Moraes, procuro uma resposta filosófica, dou uma resposta qualquer, como é difícil a paternidade, tinha que ter um manual de instruções junto com as crianças adotadas. Se eu mandá-la procurar no dicionário acho que resolvo o problema por agora, mas tenho certeza que ela voltará com mais perguntas, é melhor responder:

- Amar é gostar muito de alguém sem motivos ou do jeito que a pessoa é. É mais do que simplesmente gostar.

- E você mais do que gostou daquela mulher?

- Sim.

- E chorou quando ela foi embora?

- Não, quando era criança os homens aprendiam que não podiam chorar e eu não chorei. Fiquei triste, muito triste.

- Você sente falta dela?

- Sinto.

- Muita?

- Muita.

- E como a gente faz quando sente muita a falta de quem já foi embora?

Não faz, menina, agüenta firme, finge que não está doendo, chora, berra, dá chutes nas paredes, sei lá. Ah que vontade de ser duro com essa moleca impertinente e suas perguntas embaraçosas. Será que quando criança fazia tantas perguntas também? Vamos lá, respira fundo, pensa e responde:

- Quando a gente sente muita falta de alguém é porque estamos com saudades e não há o que se possa fazer quando a pessoa já não está aqui. Então procuramos formas de aliviar esse sentimento, às vezes vemos fotos, escutamos uma música, relembramos. 

- Eu não sinto saudades?

- Você é uma menininha, está começando a viver. Sentirá conforme o tempo passar. Todos nós temos motivos para sentir. 

- Sentir saudade é ruim?

- Depende. Lembra quando um dia te disse que certas coisas na vida podemos optar por ser algo ruim ou bom?

- Sim, lembro.

- Assim é a saudade. Ela pode machucar fazer sofrer, mas também pode ser um sinal dentro da gente que valeu a pena ter vivido certos momentos, ter conhecido certas pessoas. Depende.

- Porque ela foi embora?

- Porque nada nessa vida é eterno. Esses dias você viu que um dos meus pássaros amanheceu morto não viu?

-Vi, sim. E você ficou triste.

- Então. Bichos, gente, plantas, não duram para sempre. Um dia, Deus chama, decide que é chegada à hora. Esse é o problema de envelhecer, menina, temos que aprender a dá adeus, a entender que tudo nessa vida é passageiro, tem um fim.

- Você não acredita em Deus, pai. Esqueceu?

- Não seja espertinha. Eu te disse que eu não falava com ele faz um tempo e por isso não sabia se acreditava mais.

- E como você adora brigar, brigou com ele por causa disso.

- Engraçadinha.

domingo, 11 de agosto de 2013

Pai

Eram pequenos cadernos com páginas datilografadas. Cada um dos cadernos tinha um ano na capa, e lá dentro estavam algumas datas com anotações. Um diário, pensou, não aquele que sempre vem à mente quando citamos um. Não era escrito à mão; parecia ter sido digitado em um computador e não parecia ser organizado. Misturavam-se ali coisas pessoais com acontecimentos no mundo e no seu país. Em uma mesma data, tinha algo pessoal escrito junto com outro fato totalmente diferente. Dava para entender, é claro, mas isso o distanciava da imagem que ela tinha de um diário.

Ficou folheando alguns anos, leu mágoas e alegrias, descobriu como ele havia se sentido diante de alguns acontecimentos, sorriu. Era como se fosse um Forrest Gump contando a história a partir daquelas páginas, e percebeu que os anos se sucediam até o dia da sua morte. Inconscientemente procurou o ano da sua chegada ali. Tinha a esperança de ser citada e um medo de descobrir o que não queria. Se quisesse que ela visse, tinha avisado antes de morrer sobre a existência dos cadernos. Parecia estar cometendo uma invasão de privacidade, mas não ia desistir pelo meio. Era curiosa e agora ia até o final.

Achou o ano e, trêmula, começou a leitura. Já não lembrava o mês que tinha chegado, por isso ficou lendo data por data até encontrar. Uma nota fria informava que tinha decidido dar guarida a uma menina que, morando em um orfanato, tinha suas chances de ser adotada reduzidas. Era um texto frio, sem emoção. Entristeceu-se, mas não se surpreendeu. O escrito era exatamente como o escritor vivia a vida, sem mostrar muitos sentimentos, uma pessoa dura.

Ia desistir. Para que reabrir velhas feridas? Aquilo ali tinha sido largado para ser esquecido. O lugar adequado dele realmente era aquele baú velho sem ninguém abrir. Teimosamente, pegou outro ano aleatoriamente e, se recriminando por isso, começou a leitura. Era o ano do seu primeiro namorado, e ele escrevia que tinha sentido ciúmes, mas o garoto parecia ser legal. Sorriu, mal se lembrava desse namorico. Não tinha durado muito, e ele tinha dado tanta importância que tinha escrito sobre o fim do relacionamento e a preocupação para que não ficasse triste.

O tempo ia passando, os acontecimentos se acumulando, e para cada um que a envolvesse, ele dedicava algo. Ali, descobriu que ele chorou no banheiro, escondido, quando ela se formou, e para não deixar que percebessem, lavou o rosto e se controlou quando foi lhe dar um beijo. Quando foi para a mesa de operação por causa de uma apendicite, o velho, duro na queda, fez promessas ao seu santo de devoção. Logo ele, que dizia não acreditar em religiões e achava que aqueles santos eram só para decorar a casa.

No seu último ano, relatou estar doente. Dia após dia, foi se despedindo da vida. Na última anotação, agradeceu pela filha que Deus tinha dado e por estar indo antes dela. Filha, ele a considerava como tal. Ali, naquele lugar onde não precisava se esconder de ninguém, deixava seus sentimentos à mostra. Ele considerava-se seu pai. Chorou, molhando as páginas, e se arrependeu de quantas vezes duvidou do sentimento paterno dele e não considerou a hipótese de morar naquela casa por uma circunstância qualquer que não fosse o amor nutrido por ele. Agora, tinha certeza. Tinha sido sempre a filha dele, a moleca que, como ele escreveu, o fez feliz até o último dia

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Aniversário (II)


O pai contou o dinheiro cuidadosamente quando o dia amanheceu e esperou impacientemente as horas passarem até o horário combinado. Estava com medo de algo dá errado, tinha planejado tudo cuidadosamente e o destino tinha conspirado a favor, destino não, pensava, Deus havia ajudado, tinha certeza disso.
Saiu pela rua apressado, pegou um ônibus e se dirigiu até o local indicado, cumprimentou a pessoa, entregou o dinheiro e recebeu a caixa com um vídeo game dentro, não tinha idéia qual era a marca ou outros detalhes, mas era o que seu moleque queria, tinha visto nas fotos e confirmado com outras pessoas, era aquele mesmo.
Seu dinheiro era pouco, mais um trabalhador com um salário suficiente apenas para comer, nunca teria outra oportunidade igual a essa, um conhecido do trabalho aceitou vender o seu sem uso recebendo o pagamento parcelado em muitas prestações. Sabia que iria passar dificuldades para pagar, teria que cortar algum gasto pessoal, mas iria realizar o sonho do menino, era o mais importante.
Entrou dentro de casa com a caixa velha, sem papel de presente com um sorriso no rosto e gritou o nome do garoto, entregou-lhe e ficou vendo a felicidade estampada no rosto.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Esperando Alguém

Um dia, você volta; essa é minha esperança, e por isso fico aqui olhando o horizonte por muitos minutos. Não foi minha culpa a sua partida, e nem isso alivia a tristeza, só me consola. Por onde você anda, o que faz, suas risadas ainda são constantes. Quanta falta você me faz. Às vezes, preciso conversar com você sobre nossos assuntos preferidos, contar minhas novidades; como era bom fazer isso.

Eu agora virei religioso, por sua causa, e quando te contar, aposto que dará aquele sorriso irônico, me chamando de ateu de meia tigela, e eu o culparei pela minha conversão, rindo com o meu jeito debochado de ser. Deus não vai gostar nada disso, aposto. Correremos risco de ser castigados por não levar a sério o sagrado, mas ele vai entender. Afinal, sempre estivemos na vida errada, ficando do lado certo.

Até indo à igreja rezar, estou. Olha o que você apronta, seu canalha. Me ajoelho diante de São Jorge e peço a ele para me auxiliar; ele foi um guerreiro como você é, meu pai, e por isso tenho certeza da sua atenção. Às vezes, choro naquela igreja e me culpo por não ter sua coragem. Se tivesse, esperaria sua volta sem aborrecer ninguém com minhas lamúrias, nem mesmo o santo guerreiro.

Esses meses sem te ver são intermináveis, se transformaram em anos, já nem sei quantos. Um ano, dois anos, não me lembro, não quero lembrar a data da sua partida e sim a da sua chegada.

O Maracanã está fechado, sabia? Reforma para a copa. O Rio de Janeiro está em paz, algo raro nos últimos anos. Nunca mais retornei à praia da Urca; não quero voltar lá sem sua presença. O seu bar preferido continua aberto. Quando passo lá, tenho que dar notícias suas ao dono. Seus livros continuam na estante; não deixo ninguém mexer. Esperam seu retorno, de terras estrangeiras, para a sua casa.