Ainda era daqueles que costumava ler o jornal
impresso. Sentava-se em um sofá, colocava os óculos e lia os cadernos
espalhados em seu colo, rejeitava categoricamente qualquer sugestão para trocar
o papel pelo on line. Às vezes pedia uma xícara de café à empregada, fazia
questão do silêncio e não gostava de ser incomodado em hipótese nenhuma, mas,
como vinha acontecendo com constância desde a sua chegada, Carla, desrespeitava
as regras da casa.
Sempre deixou
claro aos cada vez mais raros freqüentadores que não tolerava certas atitudes e
uma delas era ser interrompido quando lia o jornal, mas com aquela menina
travessa abria exceções, sorrindo por dentro e com a face séria, sempre.
Já conhecia um
pouco do seu comportamento, quando começava a lhe rodear, inquieta, é porque
queria perguntar algo, puxar conversa, contar alguma novidade. Era sempre a
mesma coisa, vinha sorrateiramente com aquele rosto ingênuo, como se tivesse a
intenção de está ali por acaso e na primeira oportunidade levava a cabo o seu
intento.
Por isso se
desconcentrou da leitura, manteve o jornal aberto, mas já não lia as páginas,
esperava a pestinha dizer o que estava lhe passando pela cabeça e ela não
tardou em fazê-lo:
- Pai?
- Oi
- Hoje eu entrei no seu quarto.
- Hum. Foi
fazer o que lá? Não tem nada lá dentro que lhe interesse.
- Eu estava
brincando e entrei lá dentro.
- Hum.
- Eu vi aquela
foto que o senhor já tinha me falado. Aquela mulher é muito bonita.
- Ela era sim.
Já falamos sobre ela.
- Já sim, mas...
- Mas...
- A Marília disse
que os pais dela se amam e ...
- E?
- você
amou aquela mulher da foto?
Levou um
susto. O que uma garotinha de 8 anos sabe sobre o amor? Que mundo é esse que as
crianças perguntam essas coisas ao pai? No meu tempo de menino eu
perguntava coisas bobas, hoje em dia essa maldita modernidade faz com que se
cresça rápido demais. E quem disse isso a ela? Aposto que foi a Maria,
empregada fofoqueira. Esses empregados em vez de calar a porra da boca e manter
a discrição, falam pelos cotovelos.
- O que é amar
para você, menina?
- Amar é
gostar de alguém. A Paula falou isso hoje de manhã.
- E você
concorda com a Paula?
- Sim.
- Então está
respondida sua pergunta. Amei sim. Pode voltar a brincar.
- O que é amar
pra você, pai?
Eu sabia que
não seria tão fácil me livrar dela. Sabia, não podia ser tão simples né, Deus.
Ela tinha que complicar, e agora, cito Fernando Pessoa, Vinicius de Moraes,
procuro uma resposta filosófica, dou uma resposta qualquer, como é difícil a paternidade,
tinha que ter um manual de instruções junto com as crianças adotadas. Se
eu mandá-la procurar no dicionário acho que resolvo o problema por agora, mas
tenho certeza que ela voltará com mais perguntas, é melhor responder:
- Amar é
gostar muito de alguém sem motivos ou do jeito que a pessoa é. É mais do que
simplesmente gostar.
- E você mais
do que gostou daquela mulher?
- Sim.
- E chorou
quando ela foi embora?
- Não, quando
era criança os homens aprendiam que não podiam chorar e eu não chorei. Fiquei
triste, muito triste.
- Você sente
falta dela?
- Sinto.
- Muita?
- Muita.
- E como a
gente faz quando sente muita a falta de quem já foi embora?
Não faz,
menina, agüenta firme, finge que não está doendo, chora, berra, dá chutes nas
paredes, sei lá. Ah que vontade de ser duro com essa moleca impertinente e suas
perguntas embaraçosas. Será que quando criança fazia tantas perguntas também?
Vamos lá, respira fundo, pensa e responde:
- Quando a
gente sente muita falta de alguém é porque estamos com saudades e não há o que se
possa fazer quando a pessoa já não está aqui. Então procuramos formas de
aliviar esse sentimento, às vezes vemos fotos, escutamos uma música,
relembramos.
- Eu não sinto
saudades?
- Você é uma
menininha, está começando a viver. Sentirá conforme o tempo passar. Todos nós
temos motivos para sentir.
- Sentir
saudade é ruim?
- Depende.
Lembra quando um dia te disse que certas coisas na vida podemos optar por ser
algo ruim ou bom?
- Sim, lembro.
- Assim é a
saudade. Ela pode machucar fazer sofrer, mas também pode ser um sinal dentro da
gente que valeu a pena ter vivido certos momentos, ter conhecido certas
pessoas. Depende.
- Porque ela
foi embora?
- Porque nada
nessa vida é eterno. Esses dias você viu que um dos meus pássaros amanheceu
morto não viu?
-Vi, sim. E
você ficou triste.
- Então.
Bichos, gente, plantas, não duram para sempre. Um dia, Deus chama, decide que é
chegada à hora. Esse é o problema de envelhecer, menina, temos que aprender a
dá adeus, a entender que tudo nessa vida é passageiro, tem um fim.
- Você não
acredita em Deus, pai. Esqueceu?
- Não seja espertinha. Eu
te disse que eu não falava com ele faz um tempo e por isso não sabia se
acreditava mais.
- E como você adora
brigar, brigou com ele por causa disso.
- Engraçadinha.
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