domingo, 20 de abril de 2014

Saudades (Carla III)


 Ainda era daqueles que costumava ler o jornal impresso. Sentava-se em um sofá, colocava os óculos e lia os cadernos espalhados em seu colo, rejeitava categoricamente qualquer sugestão para trocar o papel pelo on line. Às vezes pedia uma xícara de café à empregada, fazia questão do silêncio e não gostava de ser incomodado em hipótese nenhuma, mas, como vinha acontecendo com constância desde a sua chegada, Carla, desrespeitava as regras da casa.
Sempre deixou claro aos cada vez mais raros freqüentadores que não tolerava certas atitudes e uma delas era ser interrompido quando lia o jornal, mas com aquela menina travessa abria exceções, sorrindo por dentro e com a face séria, sempre.
Já conhecia um pouco do seu comportamento, quando começava a lhe rodear, inquieta, é porque queria perguntar algo, puxar conversa, contar alguma novidade. Era sempre a mesma coisa, vinha sorrateiramente com aquele rosto ingênuo, como se tivesse a intenção de está ali por acaso e na primeira oportunidade levava a cabo o seu intento. 
Por isso se desconcentrou da leitura, manteve o jornal aberto, mas já não lia as páginas, esperava a pestinha dizer o que estava lhe passando pela cabeça e ela não tardou em fazê-lo:

- Pai?

- Oi

-  Hoje eu entrei no seu quarto.

- Hum. Foi fazer o que lá? Não tem nada lá dentro que lhe interesse.

- Eu estava brincando e entrei lá dentro.

- Hum.

- Eu vi aquela foto que o senhor já tinha me falado. Aquela mulher é muito bonita.

- Ela era sim. Já falamos sobre ela.

- Já sim, mas...

- Mas...

- A Marília disse que os pais dela se amam e ...

- E?

-  você amou aquela mulher da foto?

Levou um susto. O que uma garotinha de 8 anos sabe sobre o amor? Que mundo é esse que as crianças  perguntam essas coisas ao pai? No meu tempo de menino eu perguntava coisas bobas, hoje em dia essa maldita modernidade faz com que se cresça rápido demais. E quem disse isso a ela? Aposto que foi a Maria, empregada fofoqueira. Esses empregados em vez de calar a porra da boca e manter a discrição, falam pelos cotovelos.

- O que é amar para você, menina?

- Amar é gostar de alguém. A Paula falou isso hoje de manhã. 

- E você concorda com a Paula?

- Sim.

- Então está respondida sua pergunta. Amei sim. Pode voltar a brincar.

- O que é amar pra você, pai?

Eu sabia que não seria tão fácil me livrar dela. Sabia, não podia ser tão simples né, Deus. Ela tinha que complicar, e agora, cito Fernando Pessoa, Vinicius de Moraes, procuro uma resposta filosófica, dou uma resposta qualquer, como é difícil a paternidade, tinha que ter um manual de instruções junto com as crianças adotadas. Se eu mandá-la procurar no dicionário acho que resolvo o problema por agora, mas tenho certeza que ela voltará com mais perguntas, é melhor responder:

- Amar é gostar muito de alguém sem motivos ou do jeito que a pessoa é. É mais do que simplesmente gostar.

- E você mais do que gostou daquela mulher?

- Sim.

- E chorou quando ela foi embora?

- Não, quando era criança os homens aprendiam que não podiam chorar e eu não chorei. Fiquei triste, muito triste.

- Você sente falta dela?

- Sinto.

- Muita?

- Muita.

- E como a gente faz quando sente muita a falta de quem já foi embora?

Não faz, menina, agüenta firme, finge que não está doendo, chora, berra, dá chutes nas paredes, sei lá. Ah que vontade de ser duro com essa moleca impertinente e suas perguntas embaraçosas. Será que quando criança fazia tantas perguntas também? Vamos lá, respira fundo, pensa e responde:

- Quando a gente sente muita falta de alguém é porque estamos com saudades e não há o que se possa fazer quando a pessoa já não está aqui. Então procuramos formas de aliviar esse sentimento, às vezes vemos fotos, escutamos uma música, relembramos. 

- Eu não sinto saudades?

- Você é uma menininha, está começando a viver. Sentirá conforme o tempo passar. Todos nós temos motivos para sentir. 

- Sentir saudade é ruim?

- Depende. Lembra quando um dia te disse que certas coisas na vida podemos optar por ser algo ruim ou bom?

- Sim, lembro.

- Assim é a saudade. Ela pode machucar fazer sofrer, mas também pode ser um sinal dentro da gente que valeu a pena ter vivido certos momentos, ter conhecido certas pessoas. Depende.

- Porque ela foi embora?

- Porque nada nessa vida é eterno. Esses dias você viu que um dos meus pássaros amanheceu morto não viu?

-Vi, sim. E você ficou triste.

- Então. Bichos, gente, plantas, não duram para sempre. Um dia, Deus chama, decide que é chegada à hora. Esse é o problema de envelhecer, menina, temos que aprender a dá adeus, a entender que tudo nessa vida é passageiro, tem um fim.

- Você não acredita em Deus, pai. Esqueceu?

- Não seja espertinha. Eu te disse que eu não falava com ele faz um tempo e por isso não sabia se acreditava mais.

- E como você adora brigar, brigou com ele por causa disso.

- Engraçadinha.

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