quarta-feira, 23 de abril de 2014

Salve, Jorge

- Amor, onde que tem uma encruzilhada?

- Uma o que??

- Encruzilhada, eu preciso de uma.

- Enlouqueceu, só pode ser isso. Para que você precisa de uma encruzilhada, homem de Deus?

- Hoje é dia de São Jorge.

- E daí?

- Todo dia de São Jorge eu acendo velas em uma encruzilhada.

- Não sabia que você era macumbeiro. Aliás, não sabia nem que você era religioso.

- Não existe macumba, tem umbanda e candomblé e...

- Foda-se o politicamente correto entendeu isso que importa.

- Então, precisamos encontrar um local para acender as velas.

- Precisamos não. Eu não vou a lugar nenhum a essa hora da madrugada, não conte comigo.

- Eu preciso de ajuda. Você segura às velas e eu acendo.

- Foda-se. Não vou. E se resolve baixar um santo na encruzilhada. Eu heim.

- Não vai baixar, não somos médiuns, pais de santo ou algo do tipo. Não vai ocorrer nada.

- Não vou, não vou e não vou. Porque não faz igual a todo mundo, vai a uma igreja e acende lá. Ou sei lá, acende na calçada, na pqp, mas me deixa quieta.

- A promessa é para acender em uma encruzilhada.

- Que promessa, homem de Deus? Que promessa? Porque eu sempre me irrito com suas maluquices? Porque não é um homem com aqueles hábitos normais, ir ao bar, ao futebol, etc.?

- Meu pai prometeu que se eu ficasse vivo todo dia 23 de abril ia acender uma vela para são Jorge.

- Ficasse vivo? Como assim?

- Teve um assalto lá em casa, o bandido atirou e meu pai desesperado fez essa promessa.

- E o tiro te acertou?

- Milagrosamente pegou de raspão.

- A promessa era dele. Ele morreu a dívida acabou.

- Eu estou vivo até hoje, não estou? Quero agradecer a graça alcançada.

- Não conhecemos nada por aqui. Onde vamos achar uma encruzilhada, cacete?

- Sei lá. Algum lugar deve ter.

A lua ainda estava presente no céu quando o casal saiu pela rua de mãos dadas e maços de vela na mão, procurando por uma encruzilhada. Enquanto ele ia compenetrado como se cumprisse um ritual, ela não conseguia mais reclamar. Ele estava vivo, embora não acreditasse em santos, Deus, milagres e coisas do tipo, tinha vivido para encontrá-la. Se por acaso esse santo existisse mesmo, merecia dela um obrigado por ter permitido viver essa historia de amor.

Depois de muito andar, sem direção, encontraram um lugar adequado para as velas serem acesas, ele ia acendendo e colocando no chão, de joelhos fazia uma prece para cada uma. No final, ao acender a última vela os dois murmuraram um “salve, Jorge”.

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