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segunda-feira, 28 de março de 2016

Uma História Real? (Final)

A polícia foi chamada e agiu duramente tendo apoio explícito tanto da oposição quanto do governo. A democracia deveria ser preservada, protestos só se fossem pacíficos, violência não era aceitável, foram alguns dos argumentos usados para mascarar o principal objetivo: sufocar uma revolta popular.
Dispersados com violência se organizaram para outro confronto. Os números de pessoas nas ruas mais do que dobraram.  Capuz no rosto, paus nas mãos, o que pode servir de arma foi levado. Violentos  e desorganizados foram tratados como quadrilhas. Corajosos enfrentaram um destacamento policial que tinha sido deslocado para proteger políticos na inauguração de uma obra. Escandalizados, os moradores da cidade, mais uma vez se manifestaram pedindo paz. A ordem deveria ser restabelecida, clamavam.
Nas redes sociais, formadores de opiniões ficavam ao lado do Estado, apoiavam qualquer medida para que a violência fosse cessada.
Duas semanas depois, os revoltados da cidade já eram tantos que atemorizavam a todos. Atacava tudo o que consideravam opressor. De bancos a repartições públicas, a tensão na cidade era insuportável, ninguém sabia onde ou quando algo iria ocorrer. Os negócios acumulavam prejuízos, partidários do governo denunciavam a tentativa de um golpe, tratavam pejorativamente como um ato político incentivado pela oposição.
Dois meses depois os políticos atemorizados depois de dois deles terem sidos agredidos e um terceiro ter tido o carro queimado e saído com queimaduras leves de dentro dele começaram a dizer que iriam fazer mudanças. Tentavam aplacar a ira.

Finalmente o Estado conseguiu o seu intento desarticulando a revolta prendendo seus líderes e liderados, investigando, aprovando leis severas, usando o judiciário a seu favor. Aos poucos iam conseguindo restabelecer a ordem para a tranqüilidade de muitos. Porém a cidade nunca mais foi à mesma.

sábado, 26 de março de 2016

Uma História Real? (IV)

Foram chegando aos poucos, desconfiados, temerosos  de uma emboscada da polícia e não foram nem metade do que poderiam reunir. Estavam ali para saber do que se tratava o chamado que a "rádio esquina" tinha levado a todos os cantos.
Vielas, bares, pontos, cadeias, tinham mandado o “salve” e alguns tinham comparecido. Quem tem pouco a perder não se importa com riscos e tinham pagado para ver o que estava em jogo.
Notado que mais ninguém iria chegar um homem se levantou de onde estava e caminhou para frente. Porte de líder, empertigado não deixou dúvidas que iria falar para todos os presentes. Foi facilmente reconhecido, se chamava Marcos, e era conhecido por sempre ter um discurso político para conscientizar os seus pares. Sabia usar algo mais do que as palavras e quem duvidou disso parou no hospital. Tinha vários processos por lesão corporal e absolvido de uma acusação de homicídio (nunca comprovada, mas ninguém duvidava da sua autoria). Era considerado perigoso por todos e sabia que sempre estava na mira da polícia. Falou alto e em tom beligerante disse que estava cansado de ser perseguido e que agora ia deixar de ser caça e ser caçador.  Continuou o seu discurso dizendo a todos que tinha ódio, raiva, vontade de se vingar dos opressores, era à hora do revide gritou no final. Aplausos, gritos e gestos mostraram o apoio dos presentes.
O primeiro ato chamou a atenção dos jornais e foi rapidamente repudiado pelo povo. Alguns homens armados com paus e pedras tinham quebrado as vidraças de um banco e pichado fachadas de lojas. Diziam fazer parte de um grupo de manifestantes  que não aceitavam mais a situação do país.

Vândalos, bandidos, desocupados, gritou a opinião pública. Ameaças de identificação e processo foram faladas insistentemente. Era necessário conter a horda negra, pobre, marginalizada antes que colocasse em risco a ordem vigente. O medo da elite tinha razão de ser. Décadas de exploração mais a desigualdade causava descontentes e não podiam aceitar quem desafia essa situação.

(continua)

quinta-feira, 24 de março de 2016

Uma História Real? (III)


O local escolhido tinha sido a principal praça da cidade. Um grande espaço público abandonado a própria sorte por um governador mais competente em desviar recursos do que investir na conservação. Projetada para ser um amplo espaço de convivência com o passar dos anos virou sinônimo de um local perigoso onde não era recomendável freqüentar a não ser que fizesse parte de grupos considerados potencialmente perigosos.
Torcida organizadas, membros de gangues, clientes e oferecedores de prostituição, viciados, pichadores, grafiteiros ou qualquer outro grupo excluído. Não havia santos e os demônios não eram tão perigosos quanto quem usa caneta mont Blanc e nem tão violentos quanto quem sentava no sofá de casa apoiando torturas, assassinatos, ditaduras e qualquer ato odioso. Eram partes de um mundo hostil e tinham em comum a sensação de pertencimento quando estavam em seus grupos.

Naquela praça as leis, as regras de convivências não encontravam abrigo no judiciário, não eram referendadas por um executivo, discutidas pelo legislativo.

(continua) 

Uma História Real? (II)


Pela sociedade que se via como “pessoas de bem” eram vistos como baderneiros, integrantes de gangues, preconceito reforçado pelas pichações e grafite nas paredes (com palavras de ordem e protestos). Com idades entre dezesseis e vinte e cinco anos, excluídos por conta da sua cor, música, linguajar, parte de grupos marginalizados, não aceitos pela sociedade eram exemplos a não ser seguidos, pois não querendo mudar o mundo também não aceitavam se sujeitar a eles.

A revolta na mente e a vontade de lutar sempre presente e o caldeirão explodiu. Um dia a polícia atirou e matou um deles. “Um artilheiro diante do gol não pode errar” justificou o governador. O cidadão de bem não pensou muito ao decidir que era um bandido. O morto era um dos mais ponderados no grupo e sua morte causou revolta, não era a primeira vez que matavam inocentes e depois incriminavam sujando a sua memória tratando como um fora da lei, à mídia noticiava a versão policial como verdade absoluta, as pessoas aceitavam o fato e tudo ficava na sua normalidade. Dessa vez  alguns líderes tinham decidido que seria diferente, pelas ruas da cidade um aviso correu a periferia, todos que se identificassem com a situação deveriam comparecer em determinado local, a morte do amigo não iria ficar assim.

(continua)

segunda-feira, 21 de março de 2016

Uma Historia Real?

O país era imenso e mal administrado permitindo que algumas cidades virassem feudos controlados pelos poderosos da política local que não permitiam a ninguém contestar o seu poder. A desigualdade social causava diversos tipos de violência, a polícia era usada pelo Estado para reprimir e o fazia muito bem. Dizem as más línguas que era a única função exercida com competência. Sua democracia era frágil e por algumas vezes já tinha sido alvo de ditaduras e políticos sempre dispostos a tudo pelo poder.
Aquela cidade era rica, bonita e para os turistas um lugar aprazível, mas ficava muito distante da capital e por isso o governo federal não a olhava com a devida atenção deixando as oligarquias ali reinantes impor suas vontades sem ser incomodadas por ninguém.  Para estrangeiros um paraíso, para nativos um inferno, exceto para nativos capazes de se isolar umas das regiões capazes de lhe dá segurança, conforto, segurança à custa do sangue derramado e outros interesses atendido.
Por muitas décadas foi assim, o poder passando entre poucas famílias unidas por laços matrimoniais ou sanguíneos  permitindo a dominação do povo que sustentava tudo com o suor do seu trabalho sendo explorado diariamente.
As coisas começaram a mudar quando um grupo de meninos se tornou adolescentes e começaram a ter idéias que causavam arrepios e rejeição na elite como, por exemplo, lutar contra as injustiças sociais. Alguns se consideravam de esquerda, tinham um conhecimento rudimentar do marxismo e achavam que aquilo bastava, outros simplesmente tinham a revolta dentro de si e queriam mudar aquela situação.
“Mudar” deveria ser o verbo predileto de qualquer jovem. Ao lado de “subverter”, “revolucionar”, “modernizar”,  querer ser agente de mudanças. Infelizmente gerações anteriores tinham feito o contrário e apoiado um retrocesso, amantes de uma ordem estatal garantida à bala e porrete preferiram dá voz a quem deveria ser repudiado. 

(continua)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Espera

Caminhava todas as tarde até a praça e lá iniciava a leitura de algum livro que levava nas mãos ou ficava olhando as crianças brincando no parque. Tinha virado um hábito que dizia a si mesmo ser saudável. Uma forma de se enganar e não aceitar que era a solidão levando-o até ali. Já a havia notado nas outras vezes que ali estivera, mas tudo tinha se resumido a um olhar discreto. Chegava com seu livro, procurava um banco, se sentava e ficava por algumas horas até anoitecer;

- Eu gostei muito desse livro.

- Como?

- O livro que está lendo.

- O que é que tem?

- É muito bom.

Foi assim que iniciaram a primeira conversa. Conversaram agradavelmente mais de duas horas, deram risadas e não perceberam o tempo passar. Quando ela percebeu o quanto era tarde se despediu não sem antes avisar que sempre estava ali naquele horário. No outro dia ele retornou, ela estava lá, no mesmo lugar, como havia dito. A cumprimentou e pareciam amigos de longa data.  Os encontros foram ficando recorrente e a cada despedida uma promessa (cumprida) de retorno.
Certa vez ele demorou demais a reaparecer, os dias se passaram e somente uma semana depois estava de volta. Ela não comentou sua demora, orgulhosa não queria mostrar o quanto tinha sentido sua falta e precavida estava evitando qualquer envolvimento maior com aquele estranho agradável.
  Não sabe quando, mas os encontros foram rareando só lembra que um dia sem esperar ele reapareceu, sorriso no rosto e como se não estivesse há tanto tempo sem ir ali a cumprimentou com o carinho de sempre. No meio da conversa com suavidade ela revela o medo de que ele tivesse ido embora de vez.

- Achei que nunca mais iria vê-lo. Sumiu.

- Eu sempre retorno aqui. Sempre. E se eu não aparecer podemos manter contato, meios para isso não faltam. Tem celular, e-mail, whats.

Ofereceu seus contatos entre um sorriso e uma esperança, mas foi delicadamente ignorado. Preferiram firmar o acordo de que se um dia um dos dois pretendesse não ir mais ali por qualquer motivo avisaria o outro de que aquela era a última vez.  Decidiram assim, a segurança de sempre revê-lo estava firmada na sua palavra disse-lhe com aquele sorriso enigmático enquanto desviava o olhar do seu rosto.  Nas últimas vezes ele mais uma vez insistiu em dar-lhe uma forma de manter contato, mas ela não quis, preferiu esperar, conhecer melhor o moço misterioso com uma presença agradável.

Nos últimos meses ela ainda continua indo a praça, às vezes leva um livro, mas seu olhar está no horizonte, mantém a esperança de que quando menos esperar uma presença conhecida apareça.  Ele prometeu avisá-la se um dia decidisse não vir mais. É a sua esperança.

domingo, 8 de novembro de 2015

Chumbo Quente

As pessoas não perdoam mesmo que você peça desculpas por algo que não fez. Você não quis ofender, mas ofendeu dizem os detratores. Não adianta dizer, repetir, falar alto que não teve a intenção o que importa é o fato.
R esta a desculpa vinda em palavras formais ou delicadas. Um aceno de paz, a bandeira branca acenada, um jeito de dizer não briga comigo eu te quero bem. O que adianta? A pessoa é igual uma flor com espinhos ou mais fácil dizer um cacto com água que pode matar sua sede no Saara que está seu coração.
O mastro da bandeira é quebrado em sua cabeça e após um chute no traseiro mandando embora de forma categórica. No meio fio sentado resta àquela vontade de seguir em frente, tem outras pessoas para conversar, há de ter alguém que veja a vida sem precisar distribuir chumbo quente a cada “erro” do outro.


quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Nostalgia

Dirigiu pela cidade dizendo a si mesmo não ter destino. Ruas, retas, curvas, seguiu sem direção, algumas vezes diminuindo a velocidade sem parar até chegar naquele bar. Mentiu para si mesmo dizendo que era uma mera coincidência ter chegado até ali, tinha tentado se enganar, mas desde que saiu de casa era ali que queria está.
Parou o carro e olhou a fachada, a mesma de sempre, o mesmo local, mas sem as mesmas pessoas, pensou. Entrou e pediu uma bebida, buscou uma mesa discreta para sentar e ali ficou imerso em seus pensamentos. Qual tinha sido a última vez que tinha estado ali? Um, dois, três anos? Não lembrava. Tinha partido pensando em nunca mais voltar, dado um adeus definitivo tendo a certeza de não retornar, mas algo deu errado em algum momento. E quando se deu conta estava de volta tentando recuperar o que deixou. Era esse o motivo para está ali, mais uma tentativa de recuperar pedaços da memória.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Sanidade

O dia amanheceu e percebeu algo estranho no ar, um calafrio, a estranha sensação de algo errado. Saiu de casa e andando pela rua não escutava mais as conversas amenas de sempre algo estava fora do lugar, pensou.
Aos poucos foi reconhecendo as frases que ouvia e quanto mais escutava, mas se assustava e queria acordar daquele pesadelo. Gritou para que parassem, mas ninguém lhe deu atenção, bateu nas portas procurando ajuda e não conseguiu.
Os comentaristas de portais estavam nas ruas, falando o que comentavam na internet, sem pudores, para todos ouvir. Era enlouquecedor e por mais que tentasse não conseguia deixar de escutar
         Acordou assustado e prometeu a si mesmo não usar tanto a internet. Estava preferindo à hipocrisia das pessoas na vida real ao que elas demonstravam ser na internet. Tinha que manter a sanidade.

domingo, 16 de agosto de 2015

Perfil

Não sabia dizer se sempre tinha sido uma pessoa dura ou a vida tinha feito isso dele, tinha pensado a respeito muitas vezes quando sozinho e não chegava a nenhuma conclusão. As lembranças da infância eram de um menino assustado e sensível em algumas situações e em outra capaz de atos corajosos, um dia tinha sido meigo ou essa era uma mentira que contava para si? Não sabia a resposta correta.
Desde moleque tinha aprendido a ser forte, não importando as circunstâncias, mesmo quando fosse o lado mais fraco da situação, fraqueza era para os outros e não para ele, pensava assim desde as suas primeiras lembranças. Não era valente ou um desses garotos que criavam confusão a todo instante com tudo e todos, mas desde aquele tempo gostava de se fazer respeitar e ser temido pelo que tinha feito e era capaz de fazer. Na vida o respeito adquirido evitava problemas era uma das lições aprendida, não cogitava ser tomado como um fraco mesmo que para isso tomasse decisões amargas.
Cresceu e aprendeu também a não perdoar jamais, não importando a situação ou motivo, perdão é para Deus e não para mim dizia com aquele jeito autoritário, e foi por isso que descartou pessoas da sua vida mesmo com o coração implorando para voltar atrás. Seguia em frente deixando, sem pensar muito, quem de alguma forma lhe decepcionava, não olhava para trás, não permitia um novo começo ou recomeço, era para os fracos, pensava, e ele precisava ser forte. Não era homem de muitas explicações e deixar dúvidas a seu respeito, não fazia questão de ser querido ou de ser simpático, o olhar sério, a voz pausada assustava e afastava pessoas.
    Era por isso que estava sozinho, pensava, remoendo o passado e temendo o futuro, ele precisou ser forte e por isso o coração ficou frio demais. 

domingo, 17 de maio de 2015

Escravos

   O problema não é o escravo que não se importa com as chicotadas no lombo. O problema é o escravo que recebe essa chicotadas e critica quem não aceita o açoite, recebe do feitor e adiante vira feitor pra outros, exige que outros aceitem calados.
O problema maior não é de quem se cala, cada um sabe a dor que sente e pelo que deve lamentar, é quem se cala e não aceita ouvir os lamentos dos seus semelhantes.

sábado, 1 de março de 2014

Carla e o Carnaval

    Odiava o carnaval. Não era daqueles que compartilhava vídeos e opiniões de jornalistas loiras imbecis ou que enchia a paciência dos seus amigos com aqueles cartazes ridículos no Facebook, simplesmente não achava divertido tudo aquilo que outros diziam ser. Olhava os blocos com aquela multidão e torcia o nariz, não aguentava assistir dez minutos de desfile na Sapucaí, viajar só se fosse para o exterior, definitivamente nada o atraía na festa popular e mesmo assim lá estava ele preparado para ir a uma festa de rua se perguntando como tinha sido convencido a isso.
    Carla, a menina que agora alegrava a casa (embora só admitisse isso sob pressão e para poucos) tinha chegado com um sorriso perguntando "quando vai me levar ao carnaval?"  e seu rostinho ficou sombrio quando respondeu: 
  
    - Pra onde?

    - Curtir o carnaval. A Clara disse que o pai dela vai viajar e eles vão pular o carnaval fora. O André vai com a mãe dele no bloco do Bola Preta...

   - Cordão do Bola Preta.
I
   - Isso, a Clarissa em um baile no clube...

   - Não precisa dizer o nome de todos os seus amigos.

   - E então?

   - Detesto o carnaval. Muito barulho, violência, gente bêbada.

   - Eu vi na televisão as pessoas felizes. Queria ir.

   -  Alegria forçada. Depois que acaba todo mundo volta aos seus problemas e fica reclamando da cidade, do país, de tudo.

    - Alegria forçada é melhor do que tristeza forçada. 

    Ficou calado. Onde essa menina tinha aprendido a responder desse jeito? Crianças de hoje em dia são abusadas, no seu tempo se respondesse a um adulto dessa forma tomava umas palmadas e ficaria de castigo. A voz de um adulto era lei sem contestações, mas esse mundo está de ponta-cabeça, tudo culpa desses degenerados. Respirou fundo para não responder com grosseria.

    - Você é uma criança e essas festas que viu na televisão não são para crianças e sim para adultos. Tem bebidas, brigas, um monte de coisas ruins.

    - Você também acha que é coisa do diabo igual à mãe da Carminha?

   - Não, eu acho que é coisa dos homens mesmo.

   - Eu vi no Facebook um monte de crianças fantasiadas. Vi na televisão também. Só eu que não vou, todo mundo vai.

  - Você não é todo mundo.

  - Eu sei. Sou diferente.

  - Por que diferente?

  - O Luam que falou.

 - Falou o que?

 - Que eu era adotada ao contrário dos outros e que quem tinha me adotado era um cara velho e por isso eu era diferente deles.

  - Mas que filho da mãe!

  - Pai!! Não pode falar palavrão.

 - E quem falou que não pode?

 - Você mesmo. Não lembra.

  - A regra vale para você e não para mim. Vá se arrumar para irmos ao carnaval. Velho, filho da mãe, até parece que eu sou um idoso.

  - Tem que ter fantasia e eu não tenho. 
  
  E foi assim que resmungando de tudo e prometendo a si mesmo ser a última vez que se deixava enrolar por aquele rosto angelical é que enfrentou o tumulto da Saara e conseguiu comprar uma fantasia infantil, quase xingando a vendedora gentil que lhe perguntou se pra ele não ia comprar nada, pesquisou na internet algum bloco de rua que tivesse um ambiente familiar e se obrigou a participar dos festejos de Momo. 
  Enquanto sua menina tinha um sorriso lindo e certamente se divertia, ele se perguntava o quanto ela tinha sido verdadeira e o quanto tinha sido chantagista emocional, e sorria.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Natal (Parte IV)


 A Entrega

  Acordou sobressaltado. Sem esforço lembrava cada palavra e imagem do sonho daquela noite, já tinha tomado a sua decisão. Resmungou quando tropeçou no tapete, meio sonolento se olhou no espelho e perguntou-se a que horas o mercado abria. Talvez se fosse um dos primeiros a chegar enfrentasse uma fila menor, pensou resignado enquanto escovava os dentes e tentava dizer a si mesmo algum motivo para aceitar toda essa loucura como normal. Se contasse para alguém que tinha sonhado com um anjo e ele tinha pedido para doar uma cesta básica era capaz de ser internado ou visto com desconfiança. 
Comprou os mantimentos, pegou o carro e rumou até o endereço indicado. Tocou a campainha e quando uma senhora apareceu entregou os mantimentos.

- Bom dia. Mandaram entregar a senhora.

- Hã? Quem? O que é isso?


Não respondeu, deu as costas, entrou no carro, acelerou e foi embora. Ela que arrumasse explicações, ouvisse sua filha, não importava. Sua parte estava feita e estava com a sensação de ao menos nesse natal mesmo passando sozinho como nos anos passados iria ser melhor. Ao menos teria um conforto no coração. E sorriu como há muito tempo não fazia.

Natal (parte II)


Pedido de Ajuda

Não precisavam ser apresentados, pois eram velhos conhecidos. Não foi um encontro amistoso ou com demonstrações de afeto das duas partes, mas a rispidez estava somente de um lado. 

- Preciso de sua ajuda.

- Ajuda? Minha? Tem algo errado aí.

- Na verdade não sou eu que estou precisando. É Ele que mandou eu vir aqui te pedir.

- Hum, peraí. Os papéis estão invertidos. Não sou eu que peço ajuda, rezo, vou à igreja e tal?

- Sim, era você. Nos últimos tempos já não faz isso.

- Claro, pedia, pedia, e nada. Desisti.

- Está sendo injusto.

- Se tivesse sido auxiliado acho que não teria deixado de pedir, correto?

- Você foi, mas imerso em sua dor deixou de ver ao seu redor e passou a olhar somente para si. Várias vezes velei seu sono enquanto você rolava na cama perturbado por pesadelos. Não foram poucas manhãs que tentei melhorar algo para que enfrentasse um novo dia, pois eu tinha medo da sua desistência. Mas você não me via, não o chamava mais, lidou com a sua dor e dificuldades do seu jeito. Não o recrimino.

- Obrigado por não me recriminar. 

- De nada.

- Vou ignorar sua ironia. Porque eu? Tem tanta gente por aí.

- Às vezes eu não entendo as decisões dele. Acato as ordens.

- Pois já faz um tempinho que não estou disposto a acatar as decisões dele se é que não perceberam ainda.

- Percebemos.

- E porque eu acataria essa?

- Não me pergunte. Ele sabe o que faz. Quem sou eu para perguntar os motivos.

- Que tipo de ajuda vocês querem?

- Coisa simples, amanhã é natal e certa família não tem nada na geladeira. Basta você levar uma cesta básica para ela.

- E porque eu faria isso? Não está querendo que amanhã, véspera de natal eu vá para um supermercado cheio de gente mal educada comprar os itens né? Vocês estão malucos. Procurem outros.

- Sempre o mesmo, tentando esconder atrás dessa grossura um coração mole.

- Eu estou falando sério. Não vou fazer isso.

- Não posso te obrigar. Apenas pense que será uma nova chance para você.

- Chance de que?

- De ser feliz.

- Não entendi.

- Lei do retorno. Não preciso explicar do que se trata. Sabe muito bem disso.


- Isso é chantagem. E daquelas emocional.

( continua)

Natal (Parte I)


   O Pedido

  Clarisse acordou e escutou seus pais lamentarem a má sorte da família. Endividados e desempregados tinham conseguido até então manter a comida na mesa, mas por uma dessas coincidências tristes tudo levava a crer que o natal teria menos do que os outros dias. Já tinha se conformado em não receber presente igual às outras crianças, os brinquedos que via nas vitrines não eram para ela, os baratos nesse ano não chegariam as suas mãos, mas quem sabe se rezasse pedindo a Deus por comida ele ajudasse a terem um natal melhor. Alegraria a ela e seus pais, os faria felizes e com isso ela ficaria feliz também. Ajoelhou-se e fez uma prece silenciosa, acreditou tanto que acordou no dia vinte e quatro feliz com a surpresa reservada aos seus pais. Até a noite iriam ter uma ceia como nas outras casas e seria uma família feliz, tinha certeza disso, não pedia muita coisa a papai do céu e tinha certeza que por isso ele iria dá um jeito de atendê-la. Não sabia como seria mas tinha certeza do milagre.

(continua)

domingo, 11 de agosto de 2013

Pai

Eram pequenos cadernos com páginas datilografadas. Cada um dos cadernos tinha um ano na capa, e lá dentro estavam algumas datas com anotações. Um diário, pensou, não aquele que sempre vem à mente quando citamos um. Não era escrito à mão; parecia ter sido digitado em um computador e não parecia ser organizado. Misturavam-se ali coisas pessoais com acontecimentos no mundo e no seu país. Em uma mesma data, tinha algo pessoal escrito junto com outro fato totalmente diferente. Dava para entender, é claro, mas isso o distanciava da imagem que ela tinha de um diário.

Ficou folheando alguns anos, leu mágoas e alegrias, descobriu como ele havia se sentido diante de alguns acontecimentos, sorriu. Era como se fosse um Forrest Gump contando a história a partir daquelas páginas, e percebeu que os anos se sucediam até o dia da sua morte. Inconscientemente procurou o ano da sua chegada ali. Tinha a esperança de ser citada e um medo de descobrir o que não queria. Se quisesse que ela visse, tinha avisado antes de morrer sobre a existência dos cadernos. Parecia estar cometendo uma invasão de privacidade, mas não ia desistir pelo meio. Era curiosa e agora ia até o final.

Achou o ano e, trêmula, começou a leitura. Já não lembrava o mês que tinha chegado, por isso ficou lendo data por data até encontrar. Uma nota fria informava que tinha decidido dar guarida a uma menina que, morando em um orfanato, tinha suas chances de ser adotada reduzidas. Era um texto frio, sem emoção. Entristeceu-se, mas não se surpreendeu. O escrito era exatamente como o escritor vivia a vida, sem mostrar muitos sentimentos, uma pessoa dura.

Ia desistir. Para que reabrir velhas feridas? Aquilo ali tinha sido largado para ser esquecido. O lugar adequado dele realmente era aquele baú velho sem ninguém abrir. Teimosamente, pegou outro ano aleatoriamente e, se recriminando por isso, começou a leitura. Era o ano do seu primeiro namorado, e ele escrevia que tinha sentido ciúmes, mas o garoto parecia ser legal. Sorriu, mal se lembrava desse namorico. Não tinha durado muito, e ele tinha dado tanta importância que tinha escrito sobre o fim do relacionamento e a preocupação para que não ficasse triste.

O tempo ia passando, os acontecimentos se acumulando, e para cada um que a envolvesse, ele dedicava algo. Ali, descobriu que ele chorou no banheiro, escondido, quando ela se formou, e para não deixar que percebessem, lavou o rosto e se controlou quando foi lhe dar um beijo. Quando foi para a mesa de operação por causa de uma apendicite, o velho, duro na queda, fez promessas ao seu santo de devoção. Logo ele, que dizia não acreditar em religiões e achava que aqueles santos eram só para decorar a casa.

No seu último ano, relatou estar doente. Dia após dia, foi se despedindo da vida. Na última anotação, agradeceu pela filha que Deus tinha dado e por estar indo antes dela. Filha, ele a considerava como tal. Ali, naquele lugar onde não precisava se esconder de ninguém, deixava seus sentimentos à mostra. Ele considerava-se seu pai. Chorou, molhando as páginas, e se arrependeu de quantas vezes duvidou do sentimento paterno dele e não considerou a hipótese de morar naquela casa por uma circunstância qualquer que não fosse o amor nutrido por ele. Agora, tinha certeza. Tinha sido sempre a filha dele, a moleca que, como ele escreveu, o fez feliz até o último dia

domingo, 14 de julho de 2013

Culpa (III)

Olá, eu te escrevo e não sei se você irá ler, gostaria que sim, mas não tenho certeza. Estranho, não? Eu não quero te despertar nenhum sentimento apenas me despedir, dessa vez para sempre. Tantas vezes te dei adeus e voltei, em algumas delas nunca deixei que soubesse da minha volta, ficava te olhando de longe sem me aproximar e anunciar a minha presença. Certas vezes reconheci seu sorriso, jeito de caminhar, teve ocasião que me aproximando demais escutei você falando e senti muita saudade.

Eu estou sentindo-me culpado por me ver obrigado a partir e deixar tudo para trás, por não conseguir mais despertar o que um dia sentiu por mim, sinto-me culpado por tantas coisas e penso ser esse sentimento um jeito de me apegar ao que não tenho mais. Por isso estou indo embora, vou tentar deixar minhas culpas pelo caminho, em algum canto, se conseguir é porque o passado já não me assombrará.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

FIM (II)


Não me lembro a primeira vez que eu cogitei um retorno, fui adiando, arrumando desculpas, sempre postergando o momento da volta, embora sendo honesto comigo diga claramente nunca ter partido de vez, parte de mim ficou, uma porta aberta permaneceu e isso não foi bom.
Durante o tempo entre a minha saída e agora, fui atormentado por esqueletos no armário, diversas vezes tentei acabar com qualquer possibilidade de dá uma meia volta, teimosamente segui em frente mesmo diante de tantas dificuldades.
Um dia o dinheiro acabou desempregado, sem casa, dormindo em um banco da praça, reconheci diante de um espelho d`água que onde estava já não tinha mais nada a me oferecer, como se fosse um sertanejo persistente no agreste nordestino arei a terra infértil, plantei esperando a chuva e vi aos poucos todo o meu trabalho não dá em nada até aquele momento, já não tinha mais nada a fazer ali, somente viver de uma esperança raquítica enganando-me que, um belo dia tudo ia dá certo, pois merecia um outro final. A esperança morreu sem choro e vela acesa, enterrada com poucos lamentos e assim já não havia outra alternativa, somente ir embora, botar o pé no caminho e seguir em frente ou talvez, a escolhida, voltar atrás e com o orgulho guardado em algum canto pedir para ser recebido.
O caminho de volta foi difícil, várias vezes parei e me perguntei se era realmente o que eu queria, não obstante as dúvidas, segui, tendo a certeza de ser o correto não adiar mais o cogitado há muito tempo.
Entrei na cidade, onde outrora fui feliz ao amanhecer, não fui recebido com festas e nem com alegria, reconheci rapidamente alguns lugares e fui em direção a casa onde pretendia me hospedar. Toquei o interfone, o portão foi aberto depois de uma saudação pouco entusiasmada, não fui convidado a entrar, permanecendo no quintal escutei ter demorado demais entre outras coisas desagradáveis, a porta foi batida em meu rosto deixando-me no quintal falando sozinho tentando lidar com a frustração.
Não sei quanto tempo permaneci olhando a porta fechada, esperando ela abrir, uma hora, duas, não sei realmente, fato é, fui para a rua de novo, saí da cidade e segui em frente, sem olhar para trás, sem chorar, apenas com uma leve tristeza no olhar.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Madrugada



   Outra madrugada insone em um lugar com a janela aberta, dando para um muro de concreto, frio e silencioso, sem nem ao menos um vento no rosto. Está frio; madrugadas são frias. Eu gostava disso. Ah, como eu gostava de sentir essa friagem enquanto caminhava de volta para casa. A mente diz que eram bons tempos, mas é mentira. É apenas saudosismo, idealizando e romantizando o passado. Não eram tão bons, mas eu gostava daquela vida que já não tenho mais. Talvez seja por isso que o que não temos e não podemos mais ter é o que nos faz muita falta e nos faz sentir saudades.
     Eu não fumo, nunca fumei, mas hoje eu queria um cigarro, um copo de bebida em uma sacada qualquer, olhando a madrugada, a rua, a lua, o céu. Queria poder refletir sobre o rumo que minha vida tomou, quando perdi o controle dessa forma. Em vez de conduzir, passei a ser conduzido por uma série de acontecimentos pelos quais sou culpado pelas pessoas que convivem comigo.
    Fico me imaginando com o cigarro na boca. Sou bom de imaginação. Quando criança, viajava dessa forma e mantive o costume até os dias atuais, embora agora, bem menos. A realidade está sempre desesperadamente presente, evitando que meus esforços sejam para qualquer coisa que não lidar com o mundo real.
    O copo imaginário na outra mão enquanto a fumaça sobe, um sorriso cínico no rosto de alguém acostumado a desafiar qualquer um. Basta achar que a batalha vale a pena. Olhando para a vida e como um Muhammad Ali gritando "me bate, me bate que eu não caio". É o que resta, é o que sei fazer de melhor.

sábado, 29 de dezembro de 2012

A Mão



A Mão

Era o final do ano letivo, a  professora chegou à escola e olhou pensativa para o prédio,  antes tão barulhento com crianças correndo e gritando,  já silenciava com a dispensa das turmas e o final das aulas. Os meses ali tinham sido difíceis, por várias vezes, tinha sido obrigada a acalmar “seus meninos” como carinhosamente chamava, devido à violência que teimava em rondar, lidado com pais alcoólatras, outros ausentes, muitos trabalhavam o dia todo, outros eram incapazes de assistir uma reunião escolar, problemas ali não faltavam como na maioria das escolas públicas.
Durante as aulas tinha tentado ensinar para suas crianças que poderiam sonhar com um futuro melhor, contava historias de superação e amor, tentava de todas as formas passar uma mensagem de esperança para cada um daqueles meninos e meninas carentes de tudo, pretendia plantar no coração de cada um uma semente de amor para quem sabe, se tornassem adultos capazes de quebrar aquele círculo de agressividade e violência tão comum nas periferias das grandes cidades brasileira.
Quando veio trabalhar em uma escola situada dentro de uma das favelas mais violentas do Rio tinha sentido medo, mas, agora, estava feliz com alguns resultados obtidos,  alguns alunos tinham dificuldade de aprendizado, e conseguiu fazê-los aprender a ler e escrever corretamente, outros tidos como problemáticos tinha conseguido se integrar, pequenos progressos tinham sido feito, ainda não era o ideal, somente o começo, costumava dizer aos descrentes.
Na última aula, planejou uma atividade e colocou em prática, pediu para cada criança fazer um desenho sobre aquilo que elas lembravam de melhor durante todo o ano. Já sabia mais ou menos o que iria receber, conhecia cada criança como se fosse seu filho ou filha. Ao final do trabalho, olhou cada um com atenção, e tinha ocorrido como o previsto. Uma das crianças tinha escolhido um passeio da escola para retratar, outra um brinquedo do dias das crianças, outra uma festa da comunidade, uma em especial lhe chamou a atenção, era de um aluno retraído, apesar dos seus esforços, ele tinha sido judiado demais pela vida, ficava sempre quieto no final da sala, poucas palavras, sem amigos.  Não havia como tirar uma conclusão, no papel estava apenas desenhado uma mão, intrigada a professora perguntou:

- Não entendi seu desenho Roberto. O que significa?

O aluno a olhou com um sorriso sincero como só as crianças ou os que têm seu espírito no coração têm, e respondeu:

- É sua mão professora, no ano que vem eu quero a senhora me dando ela novamente.

A professora se emocionou,  lembrou-se de ao longo do ano, ter pegado várias vezes  na mão do menino, fazia isso com todas as crianças, algumas vezes levando para o recreio, outras até a saída, não havia percebido que um gesto tão pequeno era tão importante para o seu aluno.
No final daquele dia passou a refletir em quantas vezes, seus pequenos gestos tinham feito a diferença para as pessoas ao seu redor, talvez mudado o dia de alguém para melhor. Desde então, no último dia do ano, deseja apenas ser a mão importante para alguém.