A Mão
Era
o final do ano letivo, a professora
chegou à escola e olhou pensativa para o prédio, antes tão barulhento com crianças correndo e
gritando, já silenciava com a dispensa
das turmas e o final das aulas. Os meses ali tinham sido difíceis, por várias
vezes, tinha sido obrigada a acalmar “seus meninos” como carinhosamente
chamava, devido à violência que teimava em rondar, lidado com pais alcoólatras,
outros ausentes, muitos trabalhavam o dia todo, outros eram incapazes de
assistir uma reunião escolar, problemas ali não faltavam como na maioria das
escolas públicas.
Durante
as aulas tinha tentado ensinar para suas crianças que poderiam sonhar com um
futuro melhor, contava historias de superação e amor, tentava de todas as
formas passar uma mensagem de esperança para cada um daqueles meninos e meninas
carentes de tudo, pretendia plantar no coração de cada um uma semente de amor
para quem sabe, se tornassem adultos capazes de quebrar aquele círculo de
agressividade e violência tão comum nas periferias das grandes cidades
brasileira.
Quando
veio trabalhar em uma escola situada dentro de uma das favelas mais violentas
do Rio tinha sentido medo, mas, agora, estava feliz com alguns resultados
obtidos, alguns alunos tinham dificuldade
de aprendizado, e conseguiu fazê-los aprender a ler e escrever corretamente,
outros tidos como problemáticos tinha conseguido se integrar, pequenos
progressos tinham sido feito, ainda não era o ideal, somente o começo,
costumava dizer aos descrentes.
Na
última aula, planejou uma atividade e colocou em prática, pediu para cada
criança fazer um desenho sobre aquilo que elas lembravam de melhor durante todo
o ano. Já sabia mais ou menos o que iria receber, conhecia cada criança como se
fosse seu filho ou filha. Ao final do trabalho, olhou cada um com atenção, e
tinha ocorrido como o previsto. Uma das crianças tinha escolhido um passeio da
escola para retratar, outra um brinquedo do dias das crianças, outra uma festa
da comunidade, uma em especial lhe chamou a atenção, era de um aluno retraído,
apesar dos seus esforços, ele tinha sido judiado demais pela vida, ficava
sempre quieto no final da sala, poucas palavras, sem amigos. Não havia como tirar uma conclusão, no papel estava
apenas desenhado uma mão, intrigada a professora perguntou:
- Não entendi seu desenho Roberto. O que significa?
O aluno a olhou com um sorriso sincero como
só as crianças ou os que têm seu espírito no coração têm, e respondeu:
- É sua mão professora, no ano que vem
eu quero a senhora me dando ela novamente.
A professora se emocionou, lembrou-se de ao longo do ano, ter pegado
várias vezes na mão do menino, fazia
isso com todas as crianças, algumas vezes levando para o recreio, outras até a
saída, não havia percebido que um gesto tão pequeno era tão importante para o
seu aluno.
No final daquele dia passou a refletir em
quantas vezes, seus pequenos gestos tinham feito a diferença para as pessoas ao
seu redor, talvez mudado o dia de alguém para melhor. Desde então, no último
dia do ano, deseja apenas ser a mão importante para alguém.
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