sábado, 29 de dezembro de 2012

A Mão



A Mão

Era o final do ano letivo, a  professora chegou à escola e olhou pensativa para o prédio,  antes tão barulhento com crianças correndo e gritando,  já silenciava com a dispensa das turmas e o final das aulas. Os meses ali tinham sido difíceis, por várias vezes, tinha sido obrigada a acalmar “seus meninos” como carinhosamente chamava, devido à violência que teimava em rondar, lidado com pais alcoólatras, outros ausentes, muitos trabalhavam o dia todo, outros eram incapazes de assistir uma reunião escolar, problemas ali não faltavam como na maioria das escolas públicas.
Durante as aulas tinha tentado ensinar para suas crianças que poderiam sonhar com um futuro melhor, contava historias de superação e amor, tentava de todas as formas passar uma mensagem de esperança para cada um daqueles meninos e meninas carentes de tudo, pretendia plantar no coração de cada um uma semente de amor para quem sabe, se tornassem adultos capazes de quebrar aquele círculo de agressividade e violência tão comum nas periferias das grandes cidades brasileira.
Quando veio trabalhar em uma escola situada dentro de uma das favelas mais violentas do Rio tinha sentido medo, mas, agora, estava feliz com alguns resultados obtidos,  alguns alunos tinham dificuldade de aprendizado, e conseguiu fazê-los aprender a ler e escrever corretamente, outros tidos como problemáticos tinha conseguido se integrar, pequenos progressos tinham sido feito, ainda não era o ideal, somente o começo, costumava dizer aos descrentes.
Na última aula, planejou uma atividade e colocou em prática, pediu para cada criança fazer um desenho sobre aquilo que elas lembravam de melhor durante todo o ano. Já sabia mais ou menos o que iria receber, conhecia cada criança como se fosse seu filho ou filha. Ao final do trabalho, olhou cada um com atenção, e tinha ocorrido como o previsto. Uma das crianças tinha escolhido um passeio da escola para retratar, outra um brinquedo do dias das crianças, outra uma festa da comunidade, uma em especial lhe chamou a atenção, era de um aluno retraído, apesar dos seus esforços, ele tinha sido judiado demais pela vida, ficava sempre quieto no final da sala, poucas palavras, sem amigos.  Não havia como tirar uma conclusão, no papel estava apenas desenhado uma mão, intrigada a professora perguntou:

- Não entendi seu desenho Roberto. O que significa?

O aluno a olhou com um sorriso sincero como só as crianças ou os que têm seu espírito no coração têm, e respondeu:

- É sua mão professora, no ano que vem eu quero a senhora me dando ela novamente.

A professora se emocionou,  lembrou-se de ao longo do ano, ter pegado várias vezes  na mão do menino, fazia isso com todas as crianças, algumas vezes levando para o recreio, outras até a saída, não havia percebido que um gesto tão pequeno era tão importante para o seu aluno.
No final daquele dia passou a refletir em quantas vezes, seus pequenos gestos tinham feito a diferença para as pessoas ao seu redor, talvez mudado o dia de alguém para melhor. Desde então, no último dia do ano, deseja apenas ser a mão importante para alguém.

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