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terça-feira, 19 de junho de 2012

A Cidade Abandonada


Há muito cheguei e fiquei andando por lugares conhecidos. Passei pela praça e  lembrei de quantas vezes fiquei ali assistindo a um jogo de futebol ou esperando alguém chegar, passei também pelo clube social onde sempre tinha festas ou outras atividades. Tinha muitos amigos ali, hoje me contentaria em ver um rosto conhecido, somente, ao menos. Olhei em volta, mas já não vi a festa de antes, por alguns instantes tive esperança de encontrar alguém dos velhos tempos, talvez um garçom, mas nem isso consegui. Fui interrompido por uma voz me trazendo para a realidade.

-  Essa cidade não serve mais para turismo. Deveria seguir em frente para outro lugar.

Saio dos meus pensamentos e procuro o autor da frase. Um homem sentado em uma mesa me cumprimenta. Vou ao seu encontro e sento a sua frente.

-   Eu passei muito tempo aqui. Retornei para ver como estava. Não sou  bem um turista? (dou um sorriso)
- Você não é daqui, então é turista.

-   Eu era daqui. Mas tudo mudou.

Meu interlocutor olha para o copo, fala para si “ realmente esse território não é mais o mesmo”.  Percebo certa amargura. Em todos os meus contatos para escrever esse relato eu a percebi. Existe sempre um sentimento de tristeza ou saudosismo quando falam daqui. Peço uma bebida para mim e pergunto se ele está aqui há muito tempo.

-  Sim, estou. Sou da antiga, fui soldado, lutei aqui por muito tempo.

-   Esteve por muito tempo no exercito?

- Tempo suficiente para não saber fazer mais nada além de lutar.

-    Então lutou na última guerra?

- Sim, eu lutei, defendi esse país com meu próprio sangue. Ganhamos mas como pode ver, foi uma vitória amarga.

- Teria sido pior se vocês tivessem perdido. Seriam invadidos e dominados pelos inimigos.

- É verdade, mas não serve de consolo. Não adianta muito sair vencedor e destruído. Olhe em volta, a cidade tão bonita parece mais uma cidade fantasma.

 Fiquei mais um pouco com o desconhecido e me despedi rapidamente, não queria ficar perto de pessoas derrotadas no pensamento, tinha retornado para mudar a sua vida e a daquela cidade, para isso era necessário ter pessoas fortes ao seu lado com tanta vontade quanto ele de mudar tudo de ruim a sua volta.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

O mercenário

Pretendia escrever um livro sobre as várias guerras que o seu país tinha travado e para isso fazia pesquisas de campo em diversas cidades colhendo depoimentos, tirando fotos, investigando momentos importantes do passado sangrento. Muitas guerras não eram tão antigas sendo possível encontrar ex-soldados dispostos a contar a sua versão da história.

A cidade dos Pinheiros era uma grande floresta de árvores dessa espécie por isso esse nome e por muito tempo era uma região esquecida, habitada por quem vivia da exploração de madeiras.
No jogo político da diplomacia, um dos países vizinhos tornou-se um valoroso aliado, essa aliança causou uma divisão de territórios conquistados tornando a cidade dos Pinheiros importante pela sua localização, fazia fronteira com o país vizinho, por isso às atenções do governo se voltaram para ela tornando-a próspera.
A bonança começou a sofrer abalos quando ocorreu o que foi chamado de "a grande traição", o país vizinho rompeu o pacto firmado e se aliou a um inimigo permitindo ataques nos territórios ocupados e a partir disso a invasão da cidade dos Pinheiros. O que era uma guerra nos territórios ocupados passou a ser  uma defesa dramática daquela cidade afetando toda a população do país gerando crises políticas e financeiras além do risco do país inteiro cair sob domínio inimigo. O rompimento do pacto de não agressão não causou apenas perdas de colônias, atingiu em cheio o reino e a cidade antes rica foi definhando.
Quando os invasores foram finalmente expulsos e um tratado de paz aceito por todos, aquela parte do país estava destruída e  sem atrativos para quem quisesse investir, os territórios conquistados tinham sido perdidos, uma grave crise financeira tinha se instalado no país.
Os mercenários sempre fizeram partes do exército do reino. Raras vezes tem a liderança de uma divisão, lutam por dinheiro e não fazem questão de esconder essa postura. O rei nunca se importou de usá-los nas guerras e não recebe críticas da oposição por isso. Tratados como iguais perante os outros soldados, são sempre visto em qualquer tropa e quando a guerra acaba é comum alguns deles permanecerem nas cidades onde lutaram, esperando uma nova oportunidade de trabalho. São estrangeiros respeitados, raramente criam mais problemas que os nativos e assim não incomodam e nem são incomodados em tempos de paz.
Aqui nesse território tem vários que lutaram na defesa da cidade há anos atrás. Com a paz firmada e o final das hostilidades,  alguns ficaram até os dias atuais. Alexandre é um desses remanescentes e por algum tempo sentou-se para conversar comigo e narrar um pouco do ocorrido naqueles tempos.

- Eu estava na capital trabalhando quando o pacto com o país do Sul foi assinado e territórios repartidos entre  ele e a gente. Depois disso, fiquei desempregado e escutava muita gente falando da cidade dos Pinheiros, resolvi vir para cá.

- Além disso, algum outro motivo especial para vir?

- Não, eu estava sem trabalho e vim para cá conhecer a cidade e quem sabe arrumar algo para mim. Fui mais um migrante em busca de oportunidades.

- Se lembra como ocorreu a guerra?

- Sim, eu lembro. A gente não esperava a traição, acho que ninguém no reino esperava apesar dos desentendimentos sérios que já tinham ocorrido. Essa aliança já trazia problemas e os boatos eram que logo seria necessário mais força militar na fronteira, eu esperava por isso, mas soldados na fronteira e talvez algum ajuste de conta mais sério. Uma traição, não esperava. Estava enganado.

- Se enganou mesmo.

- Fui recrutado quando nos atacaram nos territórios ocupados, não parecia ser uma guerra longa e nem sangrenta, fomos para lá na certeza que os políticos iriam rapidamente resolver a situação e tudo ficar bom para todos. Mas as coisas foram dando erradas, o nosso inimigo usava bases do nosso ex-aliado para nos atacar, fomos empurrados para dentro de nossas fronteiras e tivemos que ficar defendendo a cidade.

- Sim, e isso trouxe crises políticas  intensas. Enquanto na capital, o rei utilizava a sua popularidade tentando uma saída para a crise.

-  Aqui as coisas foram piores.

- Piores?

- Sim.  A alta patente do exército já tinha se dividido há muito tempo por causa das hostilidades recebidas. .Uma parte queria o rompimento do pacto e outra achava que isso era uma questão política e deveria ser resolvida com diplomacia, mas então eles romperam com a gente, se aliaram ao nosso inimigo e nosso exercito se dividiu ao meio. 

-    Entendo. Você era um mercenário, correto? Ficou de qual lado. Contra ou a favor dos pró rompimento?


-    Eu não lutava por ideologias apenas por dinheiro. Quem me pagava era o rei então se tivesse uma guerra civil iria servir para quem o defendesse. Mas não chegaram a esse ponto, embora a situação fosse tensa, prevaleceu o ódio ao inimigo comum.

-  E se os contras lhe pagassem mais?

- Sempre lutei por dinheiro e deixava isso bem claro. Era um mercenário com orgulho, só lutaria enquanto tivessem condições  de me pagar, não queria glórias e nem uma historia bonita, naquele momento (nesse momento ele faz questão de frisar essa palavra) se me pagassem mais mudaria de lado e iria fazer o meu trabalho, nada mais do que isso.

 - O exercito rachou, mas não ocorreu uma guerra civil. O que ocorreu então?

- Fomos expulsos dos territórios ocupados e essa cidade foi invadida também, sendo destruída pouco a pouco. Vendo hoje em dia você pode não acreditar, mas aqui era um lugar muito bonito, cheio de oportunidades e alegrias.
A situação ficou muito difícil para nós porque corríamos riscos de ficar isolados, as divisões aqui defendiam o pouco que restava, mas resistir muito tempo era uma tarefa pouco possível. As notícias vindas da capital falavam sobre uma tentativa de reatar relações com antigos aliados naquela época e assim conseguir manter a resistência, acreditava que era uma boa alternativa se tivesse dado certo. Nem sei se isso realmente ocorreu ou foram apenas boatos.

 - Ocorreu sim. Pesquisando, descobri alguns documentos e testemunhos falando disso. O rei tentou uma aliança com as terras verdes. Você apoiaria se ele tivesse reatado as relações com ela?

         - Sim. Apoiaria. A gente poderia bater em retirada para lá e então tentar uma ofensiva depois, voltaria para lá com toda alegria, já tinha lutado lá quando éramos amigos e fomos muito feliz. Muito melhor do que ficar aqui nos defendendo de qualquer jeito, com cada vez menos suprimentos. Lamentei muito quando não conseguimos isso,  a situação estava cada dia pior e ficou mais ainda com o atentado matando o guarda costa do rei. 

-   Lembra da morte do guarda-costas? Lembra como foi?

 - Sim. A fronteira era uma zona de risco naqueles dias, sabíamos disso,  o país do Sul antes aliado agora permitia o uso do seu território para nos atacar, não era para termos ido para aqueles lados, deveríamos ter evitado, mas o rei queria demonstrar coragem perante a tropa e fizemos aquele caminho. Foi um erro (olhar no vazio).

           - Continue.

           - Uma tarde o rei estava com seus cavaleiros ao lado. Eu estava  longe fazendo a “contenção” e aquele desgraçado nos bombardeou. O rei não foi atingido, mas teve um guarda-costas ferido gravemente. Logo depois ele morreria no hospital.

(dá uma pausa)

- Continue, por favor.

- O socorro foi feito rapidamente, mas não evitamos a fatalidade, eu fui chamado para substituir a posição do ferido e por isso estava ao lado do soberano quando ainda na sala de cirurgia o vi chorar quando soube da morte. Por alguns instantes esqueci o dinheiro e me senti um soldado do reino.  Alguém deveria te-lo convencido a usar outro caminho, a se proteger melhor, todos nós sabíamos dos riscos, mas isso não foi feito infelizmente. Um erro que custou caro demais.
Existem coisas na vida inesquecíveis e nem todas são agradáveis. Trago comigo lembranças de muitas batalhas, já vi muitas coisas, mas aquele momento no hospital é algo dolorido ainda.

-   O que ocorreu depois?

-   Eu pedi baixa, não quis mais lutar naquela guerra. Um guerreiro suporta as agruras de uma batalha, mas não um espírito torturado, Eu não fiquei em paz desde aquele maldito dia no hospital, era uma guerra perdida, tivesse essa certeza naquele dia, então deixei de lutar.Como eu percebi, a derrota veio e eles bateram em retirada deixando isso aqui para os inimigos.

- E você? Não foi embora? Não teve medo de ser capturado?

- Rss. Capturar-me para que? Eu lutava por dinheiro, não tinha nada a oferecer e minha vida não vale muito. Fiquei por aqui, vi os inimigos chegarem e destruir tudo, saquearam e levaram o que puderam,  foram embora também. Eu fiquei esperando dias melhores e estou até hoje aqui.

- Olhando a cidade os dias melhores não vieram? E você ficou...

- Fiquei por comodismo, por não querer mudar, perdi a vontade de guerrear.  Quando se perde a vontade de lutar, a gente morre lentamente, como se tivesse uma doença crônica, as vezes penso ser essa a minha última cidade, vou ficar aqui até o fim, e não gosto disso. Como qualquer um pode ver, essa cidade está morta e ficar aqui é ser mais um morto vivo.

Despedi-me do ex-soldado e paguei a conta. Deixei para trás um coração amargurado como encontrei muitos por aí, outro que por algum motivo depôs as armas e não conseguem viver tranqüilo os tempos de paz. Olhei em volta e da linda cidade de outrora lamentei mais uma vez não ter sido reconstruída, permanecendo até hoje com construções abandonadas, abandonada pelo governo novamente. Pagou o preço de ter sido ela a porta de entrada da invasão sofrida e não ter conseguido expulsa-los e até hoje existe uma tendência á culpa-la por isso como se tivesse sido unicamente ela a errar.
Entrei no carro e parti, olhei pelo retrovisor e senti alívio está saindo desse lugar decadente. Não pretendo voltar mais lá.
          

terça-feira, 17 de abril de 2012

A Ponte

Quando o meu reino (o do norte) e o reino do sul firmaram uma aliança a  "ponte da amizade" unindo os dois países foi construída para celebrar essa união entre as duas nações e ela foi usada pelos habitantes dos dois lados sem maiores problemas. O pacto entre os dois povos  permaneceu por muito tempo até que as relações diplomáticas foram cortadas e a ponte fechada por tempo indeterminado.
O livre trânsito de outrora passou a não mais existir sendo proibida a entrada de pessoas vindas do sul e para garantir o cumprimento dessa determinação essa área foi militarizada, o tempo foi passando e aos poucos o lugar foi ficando abandonado com cada vez menos pessoas no posto militar.
No começo para evitar problemas, tínhamos vários soldados, mas alguns morreram em escaramuças na fronteira outros foram chamados de volta ou deram baixa, um triste dia percebi que somente eu permanecia, era a presença do estado ali e fiquei aqui até hoje quando o comandante em pessoa veio me buscar. 

- É hora de ir. Acabou. Não existem mais motivos para você ficar aqui.

Com essa frase meu comandante deu a noticia de que eu deveria sair do posto guardado por mim até agora. Durante longos meses, eu velei por essa ponte, olhando quase ininterruptamente para o outro lado, esperando o retorno de dias melhores,  até hoje quando Kaio em pessoa veio me buscar:

- Eu não mereço tanta honra de sair daqui com você ao meu lado, comandante. 

-  Sua  bravura não poderia ser tratada de outra forma, soldado. Permanecestes aqui mesmo quando todos foram embora servindo ao seu país. Você foi um bravo.

Eu fui o último a permanecer, pensei em pedir para sair, mas cumpri meu dever até o fim. No fundo do meu coração acalentava a esperança de vê isso aqui fervilhando de soldados, com pessoas rindo e cantando como era antigamente. Hoje em dia só tem casas destruídas, cruzes em alguns lugares, nada mais resta de importante além do posto militar e dessa ponte guardada por mim até agora, mas até eles serão destruídos, não tenho mais o que fazer aqui. Como disse Kaio, é hora de ir embora para outro lugar e lá viver a minha vida. 

- Descobrimos outras terras, lá tem paz, você com sua experiência pode ir para lá nos ajudar. Sempre tem lugar para bons soldados iguais a você.

Penso nessa possibilidade, mais logo a descarto. Aqui acaba minha história no exército, é hora de paz para minha alma. Não quero mais lutas, hoje essas terras novas estão em paz, mas e amanhã? Bem sei a qualquer momento a defesa pode se fazer necessária e as armas serem novamente empunhadas como ocorreu outras vezes em diversas ocasiões.
Começo a juntar meus pertences, são poucos, de uns tempos para cá recebia o suficiente para subsistir, trazido pela esperança do rei de um dia ter esse território como era antes. Eu aceitava de bom grado, e compartilhava com o mensageiro, como ia receber as pessoas quando essa ponte fosse de novo usada. Então fazíamos planos, sonhávamos, ele retornava e eu permanecia aqui, incólume, esperando o grande momento. 
Um após um, os soldados foram indo, alguns desistiram, outros foram deslocados, tem alguns que ficaram nessa terra, mortos como herói, quando me dei conta só restava eu, e sozinho permaneci nos últimos meses.
Agora tudo acabou, não resta mais nada, o rei ordenou a retirada levando embora a última presença do reino aqui e o serviço irá se completar com a destruição total das construções. 
Um carro me espera e vou até ele com os soldados me escoltando, olho para trás e me volto em direção a Kaio. Quem sabe a ponte seja um dia reconstruída, volte a ser usada, pergunto, com um fio de esperança. Recebo como resposta ser algo impossível, não há volta para aquele lugar o exército não retorna nunca mais, a gente vai embora para nunca mais voltar, é essa a decisão tomada e não será mudada.
Para um pouco, respiro, agradeço a Deus, por ter lutado com honra, e sigo em frente. Entro dentro do carro, lagrimas caem, não me importo de esconder, são lagrimas de quem nos últimos meses, suportou tudo, acreditou em uma causa, lutou por ela até o último instante e não se rende. São lagrimas de desilusão, desabafo, alívio. Lágrimas de um último guerreiro partindo do campo de batalha sem a vitória e com a certeza de ter lutado o bom combate. 

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Paixão De Cristo

Fazia parte de um exército temido e se orgulhava de fazer jus a esse sentimento, não era cruel, mas impiedoso não hesitava em cumprir as ordens recebidas sejam quais fossem. Não sentia remorso no cumprimento do seu dever e nunca tinha parado para pensar em uma vida quando morresse, em algum reino além do que servia e de outros por essa terra, até ouvir aquele homem.
Pela cidade, alguns comentavam o aparecimento de mais um maluco se dizendo profeta levando alguns nativos a lhe seguir por onde andava, isso não era raro por ali, mas aquele o impressionou pelas palavras ditas, acostumado com a guerra e batalhas esperava encontrar um líder com discursos inflamados e no entanto via um homem manso de coração, inofensivo até, se formos comparar com outros inconformados com o domínio romano.
Um dia parou discretamente para lhe escutar e ouviu aquele homem andrajoso falar em um reino nos céus, onde só entraria aqueles que tivessem feito o bem entre outras coisas, parou e pensou em si, tentou saber se ele seria um dos escolhidos caso isso fosse verdade e triste chegou à conclusão que não. Era um guerreiro, matava por um governo, lutava por ideologia e para defender um país, não olhava seu próximo, pouco se importava com as pessoas, pensava apenas em si, não era alguém que iria para aquele tal reino com certeza.
Missão não se questionava, era cumprida, por isso fez parte de um destacamento que recebeu a ordem de prender o tal líder, há meses ele estava pregando pelas cidades, e agora tinha contrariado os interesses dos poderosos e seria preso.
Os soldados foram ao encontro do homem e seus seguidores, preparados para a resistência e para sua surpresa ele não reagiu com violência, recriminando um deles quando ergueu a espada e feriu um dos soldados. Não percebeu direito, tinha achado que o ferimento era grave, mas estava errado, foi superficial, pois o soldado atacado não tinha nenhuma marca no rosto, realmente tinha tido sorte, por alguns instante pensou em um talho fundo no rosto ou quem sabe um ferimento na orelha.
O homem foi preso e foi a julgamento, por algum motivo estava impressionado com ele, e ficou de longe observando enquanto era interrogado e depois debochavam dele e do que diziam. Ficou olhando e pensando porque ele não tentava se defender, ao menos insuflar seus amigos para tirá-lo daquela situação, a falta de resistência dele não era covardia, tinha visto muitos homens covardes e não era o caso, parecia aceitar o seu destino sem lutar. Julgado e condenado, não por Pilatos, pois esse lavou as mãos, a pior morte da época, esperou que agora ao menos mostrasse algum arrependimento ou sentimento de revolta e, no entanto continuava com aquele comportamento desconcertante.
Quando o homem começou a carregar a cruz onde seria crucificado, o acompanhou de longe durante todo o trajeto, sem ser percebido, viu a crucificação e ficou olhando não entendendo o que estava sentindo, o seu coração lhe falava algo e não conseguia saber do que se tratava. Aos pés do condenado, tinha mulheres chorando, alguns seguidores, e ele longe apenas observava dizendo a si mesmo ser hora de ir embora, não tinha mais nada a fazer ali.
Quando o crucificado deu o último suspiro, o céu ficou negro e o soldado caiu de joelhos, tinha entendido o que seu coração estava dizendo, ele tinha lutado até então por um governo, um reino, mas não por si, pelos mais fracos ou oprimidos. Sempre esteve ao lado do mais forte, nunca teve clemência e sua espada quando erguida não teve compaixão, enquanto aquele homem morto tinha vindo a terra para ensinar uma outra forma de ser guerreiro, assim como ele era, embora poucos pudessem ver isso.
Daquele dia em diante, tornou-se um ex centurião romano, passou a lutar pelos perseguidos, passou a ter clemência e a não ser injusto, já não era um soldado do exército romano e sim um soldado de cristo, era assim que gostava e assim foi até a sua morte.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Conselho de Guerra

 Não fujo das decisões, desde que assumi o trono e comecei a governar sempre decidi o que achava ser melhor para todos assumindo todas as responsabilidades. O reino não é uma democracia, sou eu quem manda a palavra final sempre será minha  e nem sempre levo em conta a vontade da maioria.
 Algumas vezes recorro ao conselho (formado por todos os comandantes da ativa e reserva) para me orientar sobre o que eu devo fazer, é quando estou em dúvidas ou acho que necessito de opinião alheia em relação a algum assunto. Nessa situação os conselheiros se reúnem (sem a presença do rei) e discutem a situação votando uma recomendação para a situação apresentada,  então o soberano pode acatar ou seguir o seu pensamento assumindo as responsabilidades desse ato.  
O conselho de guerra começou durante a noite e varou a madrugada, estavam lá todos os generais do reino tentando chegar a uma decisão, o tempo passou e eu novamente entrei na sala. Não tendo nenhuma decisão sido tomada novamente começaram as deliberações, agora com a minha participação, um fato raro o que demonstra o quanto a situação é grave.
Quando me sentei e comecei a ouvir o comandante do décimo quarto batalhão ele falou aquilo que a julgar pelas expressões na sala ninguém queria dizer: 

- Não existe lugar seguro no reino. Fomos atacados por inimigos e traídos por amigos, meus soldados sempre estão expostos a perigos constantes. Algo tem de ser feito urgentemente, todos os dias temos baixas, o terror está instalado entre os nossos e os civis começam a migrar com medo. Não estou lamentando a sorte e sim constatando a nossa situação crítica na atualidade.

Não houve questionamentos, alguns acenaram à cabeça concordando e então o Cmt do 4º falou:

- Concordo, mas o que vamos fazer? Atacar nossos inimigos mesmo estando com o nosso exército fraco? Isso não me parece uma boa opção, já tivemos muitas perdas e iríamos ficar pior do que já estamos.

Todos se põem a falar sem serem entendidos uns pelos outros, até que a ordem retorna a reunião para que se possa deliberar novamente. Dessa vez quem começa a discursar é o comandante mais velho do reino, veteranos de muitas batalhas e muito respeitado. Com firmeza, encarando cada um nos olhos ele começa a falar:

- Passamos a noite deliberando, e eu não abri a boca, escutei a todos vocês cada qual com argumentos valorosos e eu respeito cada opinião, agora peço licença para falar.
O dia amanheceu e agora temos aqui o rei e sem nenhuma decisão, algo raro, mas fica evidente que tudo se resume ao dito pelos dois últimos comandantes. Fomos atacados de maneira feroz, tivemos que nos defender e mesmo assim os danos foram enormes. Hoje o reino tem territórios ocupados e outros perdidos de vez, os suprimentos já começam a ficar escassos. Para resolver isso à solução é atacar o inimigo, sair da defensiva e assumir os riscos dessa atitude. Não adianta a gente se enganar querendo alternativas, não temos. Ou atacamos e tentamos expulsa-los de nossas terras ou vamos permanecer ocupados recebendo ataques constantes, bem sei das nossas condições atuais e dos riscos de tomarmos uma decisão beligerante, mas sempre fomos valentes porque agora não estamos sendo? Quantas vezes lutamos em situações adversas e vencemos? É necessário viver o presente e não esquecer o passado e quando a gente olha para o nosso passado sempre temos várias histórias de superações para contar. Se alguém esqueceu disso, eu não e por isso não temo mais uma vez está em desvantagem, não é a primeira vez e nem será a última.

Quando se calou e se sentou, novamente várias vozes foram ouvidas ao mesmo tempo não permitindo o entendimento de ninguém enquanto todos queriam se fazer ouvir. Foram necessários alguns minutos para que mais uma vez a ordem fosse restabelecida e a palavra foi dada ao Comandante conhecido como “o sábio" por sua sensatez. Levantou-se e começou a discursar

- Pode parecer estranho para um guerreiro, mas eu não gosto das guerras, prefiro a paz. E minha preferência não é por covardia, pois graças a Deus eu nunca senti isso e nem por medo, pois o sinto desde que ergui uma arma há décadas atrás e nunca me recusei a lutar. Prefiro-a porque quando se guerreia são poucas vezes que o vencedor não tem algo a lamentar, muitas vezes o preço é alto demais e não vale a pena. Sim, eu sei, muitos estão com raiva e querem vingança e por isso estão dispostos a pagar o preço, mas outros ainda não se recuperaram de batalhas anteriores e por isso ainda tem dúvidas quanto a mais uma vez entrar em guerra.
A todos vocês, eu tenho a dizer que estou cansado de ser atacado em meus domínios, de ver meus soldados serem mortos dentro dos nossos territórios onde deveríamos está em segurança. É hora de a gente mostrar que nossa fama não é falsa e mexer com a gente não é uma boa opção. Sempre fomos respeitados e temidos e hoje o que mudou? Deixamos de ser fortes? Não acredito nisso e se alguém me convencer disso eu juro me calar e aceitar qualquer proposta de paz.

Sentou-se recebendo aplausos calorosos, alguns deixavam claro com palavras e gestos a sua empolgação. O sábio pareceu ter conseguido alcançar a maioria e com isso termos uma decisão. Quem pediu a palavra agora era um da jovem guarda digamos assim, alguém que tinha subido rapidamente na hierarquia militar  sendo um jovem para aquele posto. Todos se calaram para ouvi-lo.

- Quisemos a paz e mesmo assim não nos respeitaram. Oferecemos a nossa amizade e mesmo assim nos tomaram o que tínhamos, tentamos acordos de paz e preferiram nos atacar. É hora de mudar, de voltarmos a ser temidos, de a nossa força voltar a ser conhecida porque tentamos ser pacíficos e isso foi confundido com  covardia. Basta meu rei dá a ordem que está preparado para lutar e creio que comigo estarão outros guerreiros. 

Os aplausos dessa vez foram altos e longos. Estava claro, a decisão tinha sido tomada, mas mesmo assim pedi para  a votação ser feita conforme mandava a tradição. Cada general deu seu voto e explicou o porquê da sua decisão. Alguns justificavam mais longamente outros com poucas palavras, a maioria decidiu por atacar nossos inimigos aceitando todas as conseqüências desse ato. Foi informado a mim a decisão então declarei o conselho encerrado dizendo a última fala dele: 

- A partir de agora começa os preparativos e declaro desde já estarmos em estado de guerra. Cada um de vocês se prepare para os tempos difíceis que virão, mas já não é mais tempo de dá a outra face. Tentamos viver em paz e não conseguimos, tentamos apenas nos defender e acharam que podiam nos humilhar por isso, tentamos acordos diplomáticos e assinaram hoje para romper amanhã. Agora chega, é hora  de a espada ser desembainhada,  o fuzil ser erguido,  a lança ser empunhada,  que nossos inimigos tremam quando ouvir nossos nomes e a notícia  que estamos de volta ao campo de batalha, nossos soldados lutem com honra.
Desejo a proteção de Deus para os religiosos, a proteção das armas para os ateus e nossa vitória contra quem ficar em nosso caminho.

A reunião acabou e eu me despedi de todos, até agora tínhamos sido atacados e nos limitamos a nos defender sem conseguir alcançar o objetivo de proteger as nossas fronteiras. Agora, era hora de atacar, mostrar para quem nos subestimou o porquê da nossa fama e do temor despertado em outras ocasiões. 

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Humilhação


“Foi um tapa na cara“. Com essa frase um rei desolado se dirigiu ao conselho, admitindo a humilhação que estava estampada em sua face.
Alguns conselheiros tinham uma expressão no rosto de  triunfo, como se dissessem “ avisamos antes, você não acreditou”, outros de decepção. Foi assim o começo da reunião do conselho de generais, convocado após a dura derrota causada pela traição de um aliado.
O rei então discursou, falou que agiu conforme tinha sido orientado pelos estrategistas mas assumia toda a responsabilidade pois a decisão de ter mantido o tratado de cooperação era dele, apesar da desconfiança de muitos que algo assim poderia ocorrer se levarmos em conta os últimos acontecimentos onde já havia sinais claros que a relação entre os dois países estavam desgastadas. Por mais algum tempo nosso grande chefe falou, rosto sério, dentes trincados, olhos fitando cada face, assustando até mesmo quem já viu outras crises tão sérias quanto essas. Não era a primeira vez que nós víamos em dificuldades mas ao discursar o soberano parecia ter sido atingido em cheio dessa vez.
Depois discursaram os generais e conselheiros de guerra. Aqueles que sempre a defenderam falaram com uma certa repulsa por terem negociado e aceitado uma aliança quando poderia ter simplesmente rejeitado e ter largado o outro país a própria sorte. Agora eles estavam fortes e a gente fraco, isso não podia mais acontecer, nunca mais.Quem sempre foi contra (mesmo com alguns evitando) tinha na face e nas palavras a certeza de que sempre estiveram certos e que deveríamos ter invadido e destruído tudo em vez de negociar a paz. Se tivéssemos feitos dessa forma teríamos evitado agora todas essas perdas.
Destaco o comandante que foi atacado e derrotado na fronteira, a culpa da derrota de certa foi dele por ter sido incapaz de ter conseguido a vitória. Esse me impressionou pelo orgulho e altivez que foi ao centro falar, quando eu achava que apareceria quebrado diante de tanta desventura. 
Com a cabeça erguida, voz firme, disse que ele mais do que ninguém sentiu todos os efeitos dessa guerra. Seus guerreiros que estão vivos tem a moral baixa e muitas viúvas choram a morte de seus pares. 

- Confiamos para evitar uma guerra e fomos atacados, guerreamos para defender o nosso reino e fomos derrotados, mas não nos destruíram, causaram somente danos passageiros, somos fortes e vamos nos recuperar por isso, hoje venho pedir a vocês não á pena e  nem o apoio moral. Venho pedir respeito por todos aqueles que lutaram nesses meses todos, alguns morreram, outros voltaram para suas casas tendo que se recuperar de ferimentos, todos foram heróis. Nenhum deles fugiu da luta, por isso peço a vocês, eles merecem.

O comandante acabou seu discurso e ao final foi aplaudido de pé por todos os presentes. Saiu do centro das atenções como entrou, altivo, olhos firmes, mais percebi que não conseguia e talvez não fizesse questão de disfarçar o quanto estava sofrendo. Ao retornar para junto dos generais foi cumprimentado por todos que estavam perto, e quando chegou ao seu lugar, um dos conselheiros,  aquele sempre defendeu a paz foi ao seu encontro e se abraçaram de forma afetuosa e demorada. Percebi que os dois sentiam a mesma dor. A dor da humilhação.
Com o final desse discurso, eu comecei a redigir esse relato para o jornal enquanto a ninha volta as pessoas saíam vagarosamente e falando em voz baixa, menos o comandante citado por mim anteriormente. Esse continuava em seu lugar, em pé encarando a todos os presentes, sem evitar olhares com uma coragem invejável. 

sábado, 15 de outubro de 2011

Demora

Ficou esperando na janela e viu o dia amanhecer mais uma vez. Nos últimos dias tinha se levantado da cama sem sono e ficava olhando o final da rua até o sol nascer. Então começava a se preparar para mais um dia sem notícias do seu amado. A guerra já tinha acabado os soldados retornavam para suas casas, mas o pai da sua filha não tinha retornado até então. Nos primeiros dias esperou pacientemente, depois tentou obter notícias e frustrada percebeu que não tinham informações do seu paradeiro. Era comum isso ocorrer, soldados sumiam para sempre, alguns escolhiam viver uma nova vida e simplesmente morriam para a vida antiga, outros morriam de verdade e nem seus corpos retornavam e tinha também os prisioneiros, pessoas capturadas pelos inimigos ficando incomunicável até surgir uma oportunidade de serem inseridos em alguma negociação.
Eram os "desaparecidos" e as historias das suas famílias tinha sempre esperas torturantes e tristes para serem contadas. Quantas vezes soube de casos onde mães esperavam até o fim da sua vida o retorno do filho (a) sem querer aceitar a sua morte, algumas pessoas depois de longos anos reapareciam e então se descobria que as lágrimas derramadas não eram merecidas, não tinham morrido e nem estavam presas, apenas tinham decidido não mais retornar.
Acabou de preparar o café e foi acordar sua filha, quando tinha dúvidas se ele realmente a amava lembrava-se que ele não deixaria sua menina sem um pai, disso tinha certeza, se não tinha voltado ainda era porque não podia, quem sabe estava morto. Pensando isso, chorou a que ponto tinha chegado, o preferia morto a se sentir abandonada, seus pensamentos estavam confusos. Não, ele iria voltar assim que pudesse, tinha prometido antes de ir que voltaria e gostava de dizer com aquele sorriso irônico que suas promessas sempre eram cumpridas, não seria dessa vez a falhar.
A menina tomou seu banho e foi para a mesa fazer a primeira refeição do dia sendo olhada pela mãe. Era linda como o pai, pensou, e tinha as mesmas manias. O jeito de olhar, a personalidade forte e aquele maldito sorriso que a tinha conquistado alguns anos antes. Como adorava e odiava aquele jeito de sorrir,  enigmático e irônico, a irritava e ao mesmo tempo apaixonava sempre. O jeito desafiador era outra herança paterna, pensou sorrindo enquanto fazia os últimos preparativos para sair para mais um dia de espera, esperança e fé. Um dia ele iria voltar, sempre cumpria suas promessas.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Luta

- E agora playboy?


- Playboy porra nenhuma, como diz o Catra, já viu preto ser playboy?


- Hahaha. É verdade, mas, as coisas estão mudando. Dizem que lá no Brasil as coisas estão melhorando, não é como antigamente.


- Sei, melhorando. Dá uma lida no que escrevem ou falam. O que antes era dissimulado, agora é dito abertamente. Preto playboy, irmão, só se for artista ou jogador de futebol. Gente igual a mim tem outro nome.

 - Quanta amargura negão, porra. Até parece que estamos na pior e isso não é verdade. Temos mais dinheiro do que nunca tivemos em nossa vida, estamos vivendo bem nesse país, conforme for podemos voltar para o Brasil à hora que a gente quiser...

- Mas estamos derrotados, qual sonho que você tinha e está realizado? O tempo passou, irmão e a gente ficou aqui. Ex-soldados em um país que está em paz e não tem mais lugar para a gente. Estamos vivendo bem porque já vivemos em situações piores, voltar para o nosso país para que, ver uma classe média fudida mais elitista do que nunca? Antigamente os filhos da puta eram de Copacabana, Tijuca, agora qualquer babaca de Madureira se acha elite. Para lá eu só volto se não tiver mais opção.


- To ligado. Concordo com você, mas a babaquice elitista sempre existiu. É como eu falei, agora estão tendo que lidar com certa ascensão social da pobreza. As coisas estão mudando.


- Pode até está mudando para eles. E para nós, estamos aqui olhando o tempo passar, aceitando o mínimo quando sabemos que poderíamos ter muito mais. É foda, no passado ao menos lutávamos por algo, e agora nem isso temos mais.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Paz

    Não fui feito para lugares sofisticados ou que pareçam sempre estar em paz. Nasci e vivi por muito tempo em um bairro pobre onde o dia a dia era uma guerra constante, aos dezoitos anos me alistei no exército para nunca mais sair. Desde então vivo em guerras, sem pouso certo, freqüentando lugares que muita gente teria temor só de olhar as fotos, tendo poucos momentos de paz e muitos de tensão. Aprendi com o tempo a conviver com a falta de tranqüilidade, sempre pronto para o pior, sem dar chances ao inimigo mesmo que esse não esteja visível para mim.
  Não sou o tipo que é convidado para festas elegantes com homens falando sobre negócios e contando suas glórias para mulheres bem sucedidas, vestidas com roupas de grifes com seus perfumes caríssimos. Meu mundo é outro, onde eu me sinto bem e faço questão de fazer parte, locais bem diferentes de onde estou agora e por mais que não entenda, gosto de vir aqui.
 Um bairro para gente que tem dinheiro, um apartamento só é vendido por indicação nunca tem anúncio no jornal, à praia é linda e tem um ar de paz constante que me seduz.
  Venho às vezes, olho o horizonte, caminho pela areia, vejo idosos com suas peles brancas e rolex no pulso gozando uma velhice tranqüila, enquanto eu não chegarei aos quarenta anos. Duvida? Eu saio fora antes de completar essa idade, aposto o que quiser sem medo de perder, e se Deus me deixar sem condições de lutar aqui na terra eu mesmo providencio minha partida.
   Uma criança anda pelo calçadão acompanhada de uma mulher vestida de branco, deve ser babá, o uniforme sendo mais uma forma dos patrões diferencia-la, penso comigo. A criança dá risadas enquanto sai correndo, eu fico olhando sem pensar no futuro, faço isso sem esforço, há vivo cada minuto de uma vez, fazendo planos para serem realizados no máximo em uma semana.
   As ondas batem nas pedras, barulhentas, luta incessante do rochedo contra o mar, penso sorridente, assim como eu em batalha constante contra tudo e todos, travadas por um país, por dinheiro ou guerras no dia a dia envolvendo amigos, amores, conhecidos. Essas doem mais, pois quando perdemos fica a sensação de uma vida fracassada, de você ter falhado em algo que poderia ter sido evitado. Nas guerras do exército pode-se culpar o comandante, os políticos, ou quem sabe uma derrota honrada com a gente saindo sabendo que ao menos um estrago foi feito. E na vida, quando o comandante somos nós, nossa consciência muitas vezes se transforma em corte marcial sem clemência, condenando sem segunda chance. Um dia deixo de lutar, um dia terei paz.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Soldado

  Já chorei demais, muitas vezes sem molhar o rosto tendo a alma torturada pela dor. Lágrimas já rolaram, comigo escondido em algum canto me consolando sem ter ninguém para procurar. Trago na minha alma cicatrizes e feridas não curadas, muitas noites acordo com pesadelos de guerras passadas e em alguns dias relembrar não é uma atividade agradável. Minhas mãos já ergueram armas e meus dedos não hesitaram em apertar gatilhos, meus olhos já miraram muitos alvos e não pensei duas vezes quando foi necessário atirar. Meu aprendizado das ruas me ensinou a ser forte em todas as situações sem direito a escolhas, a não me arrepender das decisões voltando atrás. Não fui feito para entender a fraqueza seja qual for e a força me fascina sempre, escapei da morte mais de cinco vezes, já corri risco de vida tantas vezes que perdi a conta, não temo sair fora dessa vida, pagar minhas contas lá no céu mas quero partir sem contas abertas, sem a sensação de ainda ter faltado algo a fazer. Não me limite é perigoso fazer isso, não me substime sou pior do que aparento, não me superestime não sou tudo o que aparento ser.
  A vida é uma guerra, e eu sou um soldado desde que me entendi gente, não estou disposto a mudar.