segunda-feira, 30 de abril de 2012

O mercenário

Pretendia escrever um livro sobre as várias guerras que o seu país tinha travado e para isso fazia pesquisas de campo em diversas cidades colhendo depoimentos, tirando fotos, investigando momentos importantes do passado sangrento. Muitas guerras não eram tão antigas sendo possível encontrar ex-soldados dispostos a contar a sua versão da história.

A cidade dos Pinheiros era uma grande floresta de árvores dessa espécie por isso esse nome e por muito tempo era uma região esquecida, habitada por quem vivia da exploração de madeiras.
No jogo político da diplomacia, um dos países vizinhos tornou-se um valoroso aliado, essa aliança causou uma divisão de territórios conquistados tornando a cidade dos Pinheiros importante pela sua localização, fazia fronteira com o país vizinho, por isso às atenções do governo se voltaram para ela tornando-a próspera.
A bonança começou a sofrer abalos quando ocorreu o que foi chamado de "a grande traição", o país vizinho rompeu o pacto firmado e se aliou a um inimigo permitindo ataques nos territórios ocupados e a partir disso a invasão da cidade dos Pinheiros. O que era uma guerra nos territórios ocupados passou a ser  uma defesa dramática daquela cidade afetando toda a população do país gerando crises políticas e financeiras além do risco do país inteiro cair sob domínio inimigo. O rompimento do pacto de não agressão não causou apenas perdas de colônias, atingiu em cheio o reino e a cidade antes rica foi definhando.
Quando os invasores foram finalmente expulsos e um tratado de paz aceito por todos, aquela parte do país estava destruída e  sem atrativos para quem quisesse investir, os territórios conquistados tinham sido perdidos, uma grave crise financeira tinha se instalado no país.
Os mercenários sempre fizeram partes do exército do reino. Raras vezes tem a liderança de uma divisão, lutam por dinheiro e não fazem questão de esconder essa postura. O rei nunca se importou de usá-los nas guerras e não recebe críticas da oposição por isso. Tratados como iguais perante os outros soldados, são sempre visto em qualquer tropa e quando a guerra acaba é comum alguns deles permanecerem nas cidades onde lutaram, esperando uma nova oportunidade de trabalho. São estrangeiros respeitados, raramente criam mais problemas que os nativos e assim não incomodam e nem são incomodados em tempos de paz.
Aqui nesse território tem vários que lutaram na defesa da cidade há anos atrás. Com a paz firmada e o final das hostilidades,  alguns ficaram até os dias atuais. Alexandre é um desses remanescentes e por algum tempo sentou-se para conversar comigo e narrar um pouco do ocorrido naqueles tempos.

- Eu estava na capital trabalhando quando o pacto com o país do Sul foi assinado e territórios repartidos entre  ele e a gente. Depois disso, fiquei desempregado e escutava muita gente falando da cidade dos Pinheiros, resolvi vir para cá.

- Além disso, algum outro motivo especial para vir?

- Não, eu estava sem trabalho e vim para cá conhecer a cidade e quem sabe arrumar algo para mim. Fui mais um migrante em busca de oportunidades.

- Se lembra como ocorreu a guerra?

- Sim, eu lembro. A gente não esperava a traição, acho que ninguém no reino esperava apesar dos desentendimentos sérios que já tinham ocorrido. Essa aliança já trazia problemas e os boatos eram que logo seria necessário mais força militar na fronteira, eu esperava por isso, mas soldados na fronteira e talvez algum ajuste de conta mais sério. Uma traição, não esperava. Estava enganado.

- Se enganou mesmo.

- Fui recrutado quando nos atacaram nos territórios ocupados, não parecia ser uma guerra longa e nem sangrenta, fomos para lá na certeza que os políticos iriam rapidamente resolver a situação e tudo ficar bom para todos. Mas as coisas foram dando erradas, o nosso inimigo usava bases do nosso ex-aliado para nos atacar, fomos empurrados para dentro de nossas fronteiras e tivemos que ficar defendendo a cidade.

- Sim, e isso trouxe crises políticas  intensas. Enquanto na capital, o rei utilizava a sua popularidade tentando uma saída para a crise.

-  Aqui as coisas foram piores.

- Piores?

- Sim.  A alta patente do exército já tinha se dividido há muito tempo por causa das hostilidades recebidas. .Uma parte queria o rompimento do pacto e outra achava que isso era uma questão política e deveria ser resolvida com diplomacia, mas então eles romperam com a gente, se aliaram ao nosso inimigo e nosso exercito se dividiu ao meio. 

-    Entendo. Você era um mercenário, correto? Ficou de qual lado. Contra ou a favor dos pró rompimento?


-    Eu não lutava por ideologias apenas por dinheiro. Quem me pagava era o rei então se tivesse uma guerra civil iria servir para quem o defendesse. Mas não chegaram a esse ponto, embora a situação fosse tensa, prevaleceu o ódio ao inimigo comum.

-  E se os contras lhe pagassem mais?

- Sempre lutei por dinheiro e deixava isso bem claro. Era um mercenário com orgulho, só lutaria enquanto tivessem condições  de me pagar, não queria glórias e nem uma historia bonita, naquele momento (nesse momento ele faz questão de frisar essa palavra) se me pagassem mais mudaria de lado e iria fazer o meu trabalho, nada mais do que isso.

 - O exercito rachou, mas não ocorreu uma guerra civil. O que ocorreu então?

- Fomos expulsos dos territórios ocupados e essa cidade foi invadida também, sendo destruída pouco a pouco. Vendo hoje em dia você pode não acreditar, mas aqui era um lugar muito bonito, cheio de oportunidades e alegrias.
A situação ficou muito difícil para nós porque corríamos riscos de ficar isolados, as divisões aqui defendiam o pouco que restava, mas resistir muito tempo era uma tarefa pouco possível. As notícias vindas da capital falavam sobre uma tentativa de reatar relações com antigos aliados naquela época e assim conseguir manter a resistência, acreditava que era uma boa alternativa se tivesse dado certo. Nem sei se isso realmente ocorreu ou foram apenas boatos.

 - Ocorreu sim. Pesquisando, descobri alguns documentos e testemunhos falando disso. O rei tentou uma aliança com as terras verdes. Você apoiaria se ele tivesse reatado as relações com ela?

         - Sim. Apoiaria. A gente poderia bater em retirada para lá e então tentar uma ofensiva depois, voltaria para lá com toda alegria, já tinha lutado lá quando éramos amigos e fomos muito feliz. Muito melhor do que ficar aqui nos defendendo de qualquer jeito, com cada vez menos suprimentos. Lamentei muito quando não conseguimos isso,  a situação estava cada dia pior e ficou mais ainda com o atentado matando o guarda costa do rei. 

-   Lembra da morte do guarda-costas? Lembra como foi?

 - Sim. A fronteira era uma zona de risco naqueles dias, sabíamos disso,  o país do Sul antes aliado agora permitia o uso do seu território para nos atacar, não era para termos ido para aqueles lados, deveríamos ter evitado, mas o rei queria demonstrar coragem perante a tropa e fizemos aquele caminho. Foi um erro (olhar no vazio).

           - Continue.

           - Uma tarde o rei estava com seus cavaleiros ao lado. Eu estava  longe fazendo a “contenção” e aquele desgraçado nos bombardeou. O rei não foi atingido, mas teve um guarda-costas ferido gravemente. Logo depois ele morreria no hospital.

(dá uma pausa)

- Continue, por favor.

- O socorro foi feito rapidamente, mas não evitamos a fatalidade, eu fui chamado para substituir a posição do ferido e por isso estava ao lado do soberano quando ainda na sala de cirurgia o vi chorar quando soube da morte. Por alguns instantes esqueci o dinheiro e me senti um soldado do reino.  Alguém deveria te-lo convencido a usar outro caminho, a se proteger melhor, todos nós sabíamos dos riscos, mas isso não foi feito infelizmente. Um erro que custou caro demais.
Existem coisas na vida inesquecíveis e nem todas são agradáveis. Trago comigo lembranças de muitas batalhas, já vi muitas coisas, mas aquele momento no hospital é algo dolorido ainda.

-   O que ocorreu depois?

-   Eu pedi baixa, não quis mais lutar naquela guerra. Um guerreiro suporta as agruras de uma batalha, mas não um espírito torturado, Eu não fiquei em paz desde aquele maldito dia no hospital, era uma guerra perdida, tivesse essa certeza naquele dia, então deixei de lutar.Como eu percebi, a derrota veio e eles bateram em retirada deixando isso aqui para os inimigos.

- E você? Não foi embora? Não teve medo de ser capturado?

- Rss. Capturar-me para que? Eu lutava por dinheiro, não tinha nada a oferecer e minha vida não vale muito. Fiquei por aqui, vi os inimigos chegarem e destruir tudo, saquearam e levaram o que puderam,  foram embora também. Eu fiquei esperando dias melhores e estou até hoje aqui.

- Olhando a cidade os dias melhores não vieram? E você ficou...

- Fiquei por comodismo, por não querer mudar, perdi a vontade de guerrear.  Quando se perde a vontade de lutar, a gente morre lentamente, como se tivesse uma doença crônica, as vezes penso ser essa a minha última cidade, vou ficar aqui até o fim, e não gosto disso. Como qualquer um pode ver, essa cidade está morta e ficar aqui é ser mais um morto vivo.

Despedi-me do ex-soldado e paguei a conta. Deixei para trás um coração amargurado como encontrei muitos por aí, outro que por algum motivo depôs as armas e não conseguem viver tranqüilo os tempos de paz. Olhei em volta e da linda cidade de outrora lamentei mais uma vez não ter sido reconstruída, permanecendo até hoje com construções abandonadas, abandonada pelo governo novamente. Pagou o preço de ter sido ela a porta de entrada da invasão sofrida e não ter conseguido expulsa-los e até hoje existe uma tendência á culpa-la por isso como se tivesse sido unicamente ela a errar.
Entrei no carro e parti, olhei pelo retrovisor e senti alívio está saindo desse lugar decadente. Não pretendo voltar mais lá.
          

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