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quarta-feira, 29 de junho de 2016

saudosismo

- Ali tinha um coqueiro.
- Desculpe-me. Não escutei o que disse.
- Um coqueiro. Tinha um ali. .
Aponta para o local onde agora se via um muro amarelo com uma casa ao fundo. Parados na rua o acompanhante acompanhou o dedo apontado e tentou fingir algum interesse.
- Ah. Não tem mais. Devem ter cortado.
- Sim, provavelmente.
Não continuou a falar e quem o acompanhava não demonstrou o menor interesse em continuar a conversa. Queria falar algo mais. Dizer que ali tinha um coqueiro e dentro daquele quintal uma goiabeira. Aquele portão da garagem tinha muitas vezes servido de baliza para as crianças jogando bola. Onde agora tinha o segundo andar da casa era um terraço e sorriu lembrando quanta vez ali em cima soltou pipa. Certa vez caiu, machucou o joelho e teve muito medo de voltar pra casa. Deu uma risada lembrando-se disso.
- Do que o senhor está rindo?
- Nada não. Lembrei de algo engraçado.
- Esse lugar é perigoso. Vamos ficar muito tempo parado aqui?
- Não se preocupe. Não pode ter ficado mais perigoso do que um dia já foi.
- Porque não?
- Deixa pra lá.
Olhou as ruas e se lembrou dos riscos que elas traziam. Acidentes de automóveis eram constantes. O poste da esquina várias vezes tinha sido albaroado por um carro desgovernado. Até disso sentiu saudades. Estava ficando um velho saudosista tolo. Ali tinha uma árvore e quando foi plantada a cada foi dado o nome de quem plantou. Outras plantadas também foram nomeadas..
- Quais eram mesmo os nomes?
- Que nomes?
- Pensei alto. Esquece.
Muitas calçadas eram de terra batida e agora estavam todas diferentes. As casas estavam todas modificadas. A da dona Maria não existe mais. Toda modificada se não tivesse certeza da sua existência não veria nenhum vestígio do que um dia foi. 
Percorrendo os olhos ainda conseguiu identificar sinais do que algumas tinham sido um dia. O santo no mosaico dos azulejos permanecia, o muro de pedras de outra residência também. 
As calçadas já não davam para jogar bolas de gude se essa brincadeira ainda existisse. Era bom nesse jogo assim como no dominó que se jogava sentado em algum degrau ou no pião. Ainda soltavam pipas, dava para perceber pelos fios com esqueletos das armações pendurados. Mas não devia ser igual aquela época.
- Senhor, vamos ficar mais quanto tempo parado?
- Nenhum. Podemos ir.
- Retorno para sua casa?
- Ela sempre foi aqui. Vamos voltar para a que dizem ser minha.


quarta-feira, 11 de junho de 2014

Vai Ter Copa (Lembranças)


    Eu lembro que estava operado; o braço engessado não permitia que eu pulasse ou fizesse qualquer extravagância (minha mãe sempre usava essa palavra, ainda me recordo, para me impedir de me machucar mais) nas horas dos gols.

    Jurema tinha uma televisão a cores e fazia questão de me convidar para ver os jogos em sua casa. Lembro-me de ter visto dois jogos lá. Um foi contra um time vermelho, acho que era a Polônia, faz tanto tempo que as lembranças vão se tornando escassas. Foi na casa da Jurema que ela reuniu muita gente para assistir àquele jogo contra a França. Foi ali que eu senti minha primeira frustração futebolística.

   A rua ficou triste demais; os lamentos na vila onde eu morava, as críticas ao Zico, ainda estão comigo, embora a cada dia eu lute mais para não esquecê-los e, quando os conto, já não sou fiel à realidade. Me desculpem.

   Em oitenta e seis, eu era uma criança tentando conciliar minhas idas aos hospitais, intervenções cirúrgicas e a infância. O futebol, nesse cenário, era meu esporte preferido; ainda não tinha conhecido as Olimpíadas e só um pouco depois o futebol alcançaria o status de religião.

   Eu ouvia as histórias da minha tia sobre Copas do Mundo e sonhava. Devia ser muito bom ser campeão do mundo, imagina as ruas em festa, todo mundo comemorando. Eu pensava e sonhava. Infelizmente, tinha uma França no meio do caminho, um pênalti perdido, a decepção. Futebol não é apenas sonhos e felicidades; é dolorido também. E o pior: esperar mais quatro anos por uma nova chance, algo que me deixava inconsolável.

   Assisti a todas as Copas depois dessa. Para cada uma, eu tenho histórias, lembranças, alegrias, tristezas; guardo recortes, figurinhas, álbuns. Amanhã começará mais uma, talvez a única em que eu tema algo mais do que somente os resultados esportivos. O que vai ocorrer? Não sei, mas tenho certeza de que, quando o hino for tocado, eu vou chorar, quietinho em um canto. Vou chorar emocionado.