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segunda-feira, 15 de julho de 2024

Esperança

        A festinha de formatura transcorria como sempre. Mães e pais empolgados, flashes, a criançada com suas pequenas becas indo até o palco pegar seus diplomas. Havia risadas, abraços e uma sensação de realização no ar.

         Ao fundo, uma idosa prestava atenção a tudo. Suas feições inexpressivas escondiam o turbilhão na sua alma. Seu netinho estava entrando na adolescência e ela havia conseguido viver para ver isso. Em meio às comemorações, sua mente viajava pelo tempo, relembrando os momentos que a haviam levado até ali.

           Dois casamentos, dois lutos, duas dores. A vida nunca fora fácil para ela. O primeiro casamento, ainda na juventude, trouxe felicidade e a bênção de um filho. Mas a guerra levou seu marido, deixando-a viúva e com um bebê para criar. Tempos difíceis se seguiram, mas ela encontrou forças para seguir em frente, casando-se novamente anos depois. Seu segundo marido trouxe estabilidade, mas a paz foi breve. Outra guerra, outro luto. O segundo marido também foi levado pela crueldade dos conflitos.

          Seu filho, seguindo o caminho do pai e do padrasto, alistou-se quando fez dezoito anos. Era uma guerra longa e dolorosa. Ela esperou com fé o retorno do seu filho, mas ele voltou gravemente ferido, com notícias desesperadoras. Os médicos disseram que ele não teria muito tempo, mas ele provou ser mais forte do que esperavam, lutando por cada dia. Ainda assim, as noites foram preenchidas por suas lágrimas amargas, enquanto a realidade cruel se impunha.

         Hoje, vendo seu netinho com a beca, ela sentia uma mistura de dor e orgulho. Dor pelas lembranças dos entes queridos que a guerra tirou dela, e orgulho por ter conseguido criar e sustentar sua família, mesmo em meio a tanta adversidade. Seu netinho era a prova viva de sua resiliência e amor inabalável.

        A formatura continuava, mas para ela, cada sorriso e cada flash de câmera eram um tributo à sua luta e à memória daqueles que ela havia perdido. Com o coração pesado, mas grato, ela enxugou uma lágrima solitária que escapou, permitindo-se um pequeno sorriso de esperança. Afinal, apesar de tudo, a vida seguia em frente, e ela estava lá para testemunhar um novo começo.

        Seu filho tinha sobrevivido apesar das probabilidades e tomado uma boa mulher como esposa. A depressão pós-guerra tinha sido forte para ele. A cada guerra, ele se sentia um inútil por não poder seguir o mesmo caminho dos homens da família. Isso também era passado, felizmente. O bebê cresceu, se tornou um menino genioso, igual ao pai e ao avô, pensou sorrindo. "Deve ser genético", sussurrou para si mesma.

      Ainda não tinha falado disso, mas temia que o neto também se tornasse soldado. Mas o menino era de outra geração, com outros valores. Era das artes, o pequeno. Gostava de pintar e sabia que ele seria um artista de sucesso, longe das armas.

     Enquanto observava seu neto no palco, a avó sentiu uma onda de alívio. Talvez, finalmente, a maldição da guerra que assombrava sua família tivesse chegado ao fim. Ela fechou os olhos por um momento, agradecendo silenciosamente por essa nova esperança. Quando os abriu novamente, viu seu netinho sorrindo para ela, o diploma nas mãos e um brilho de felicidade nos olhos. E, pela primeira vez em muitos anos, ela sentiu que o futuro era promissor.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Fantasmas



   — Era para você ter sido minha nora.

   A voz e o rosto da velhinha bonachona ainda estavam em sua lembrança. A frase nunca esquecida soava em sua mente a cada noite fria. Era um martelo batendo em uma ferradura, causando um barulho que gostaria de não mais escutar.

   Quando o passado é mais forte do que o presente e temos medo do futuro, é porque não estamos bem. Ele costumava dizer isso com aquela entonação usada quando queria falar algo sério. Lembrava dos olhos fitando o nada e as palavras saindo da boca sem demonstrar emoção, sem demonstrar sentimentos. Ah, mas ela sabia o que ele sentia; ela sabia tantas coisas dele, sabia o que ele deixou saber e o que ela descobriu sem ele perceber. Sabia demais, pensou.

   Foi para a sacada e acendeu um cigarro. E se tudo tivesse sido diferente? Fez-se a pergunta pela milésima vez. Uma sessão de tortura cotidiana. Flagelava-se na tentativa de se purificar pela dor. Quem sabe um dia iria conseguir. As respostas vinham à sua mente com a velocidade de um trem-bala, conhecidas e duvidosas, e lá ficavam até qualquer hora.

   Abriu a porta e foi para a rua. O frio maltratou seu rosto descoberto e a fez esquecer seus fantasmas.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Tinder

- Pqp, você é muito burro!

- Eu? Porque eu sou tão burro o gênio da raça?

- Você gostou da mulher não gostou?

- Gostei?

- E porque não puxou conversa o idiota?

- E era pra fazer isso?

- Claro né? Porque você está naquele lugar? Não é pra isso? Ou é pra arrumar homem?

- Vai se fuder, vai.  Pelo que disseram os dois tem que combinar para iniciar um bate papo e tal.

- Então, caramba, quando combina aparece aquela mensagem e inicia.

- É?

- É.

- E porque ela não iniciou?

- Porque desde que Deus criou Eva elas esperam o homem tomar a iniciativa.

- Isso é machismo. Se uma feminista te escutar falando isso te xinga. Estamos em um mundo moderno onde essas convenções já...

- Cara, para, por favor. Você não vai começar com esse papo escroto né? Quase quarenta e parece um integrante do DCE. Pqp.

- E agora o que eu faço?

- Senta e chora.

- Estou falando sério.

- Ué, espera outra mulher combinar com você e dessa vez inicia uma conversa.

- E se isso não ocorrer de novo?

- Aí é caso de uma cirurgia plástica nessa sua cara. Hahahaha.


- Filho da puta.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Celebração

  • Eles estão celebrando. Você não vai ficar com eles?

  • Não.

O silêncio paira entre as duas pessoas. Elas parecem estranhas, cada uma olhando para frente com seus pensamentos. Já foram íntimos; ele a fazia gargalhar e gostava disso, mas a vida, ah, a vida, havia separado os dois e transformado o passado em dor. O silêncio podia ser cortado com uma faca e não estava fazendo bem a nenhum dos dois.

  • Por que não vai?

  • Não faço parte desse povo, dos costumes deles. Sou um forasteiro aqui.

  • Já está aqui há bastante tempo e todos chegaram de algum lugar. Não existem nativos por essas bandas.

  • Não precisa ser nativo para se sentir assim. E eu me sinto um forasteiro mesmo depois de ter passado todos esses anos aqui.

Voltaram a silenciar. A festa continuava a toda, as pessoas se divertiam enquanto os dois não tinham o que comemorar. As feridas no coração ainda sangravam, o passado atormentava e não permitia um sorriso. Mais uma vez, ela tentou acabar com aquele silêncio opressor.

  • Eu achei que você se sentia bem aqui. Sempre falou desse lugar com certa empolgação.

  • Eu me sinto bem, apesar de, nos últimos tempos, o ambiente ter piorado. Não me sinto parte desse povo. Prefiro ficar quieto no meu canto.

  • A solidão não é uma boa opção.

  • Melhor do que tentar rompê-la com falsidade.

Ficaram calados pela terceira vez, até que ela se levantou e foi para onde estava a maioria. Entendia o amargor, mas não queria ficar assim. Iria tentar fazer parte daquela terra, ter seus costumes, não ficaria sozinha.

domingo, 10 de maio de 2015

Mãe (dialogos)

- Eu preciso que você veja o meu exame nesse site aqui.

- Espera  um pouco deixa eu acabar essa conversa

(olha por cima do seu ombro a tela do computador)

- Quem é essa mulher?

- É uma pessoa aí.

- E ela não tem nome não?

- Tem.

- Ela é de onde?

- Bairro tal.

- Ela é solteira?

- Não sei não trabalho pesquisando a vida das pessoas.

- Fala direito com sua mãe. Não está falando com sua “mulher” não.

- Você vai ficar olhando eu conversar?

- Vou, o que tem? Está escrevendo algo que eu não possa ver?

- Tem algo que se chama privacidade.

- Com mãe não tem isso. Eu te vi nascer.

- Hum

- Ela tem filhos?

- Não sei. Não perguntei.

- Ela é bonita. Namora com ela.

- Qual é o site para ver seu exame?

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Encontros Inevitáveis

- Senhor, desculpa te incomodar, mas me pediram para te fazer uma pergunta.
- Fique a vontade, faça.
- Aquela pessoa sentada na cadeira ao lado da porta. Está vendo?
- Sim.
- Pediu para perguntar se você ainda lembra-se dela.
- Lembro.

- Senhor, sei que estou incomodando.
- Pois não.
- Eu fui lá e dei sua resposta, mas ela hesita em acreditar na sua resposta.
- Diga-lhe que eu tenho um pequeno baú onde guardo lembranças. Nele tem uma pequena medalha de nossa senhora. De prata. Benzida.
- Eu direi sim.
- Diga-lhe também que eu continuo o mesmo, ela não precisa se preocupar.


Ficaram a distância e não se falaram evitando que seus acompanhantes percebessem que eram conhecidos. Lágrimas foram secadas furtivamente. Era necessário manter as aparências e evitar perguntas inconvenientes.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Vai Ter Copa (Diário)


Escrever este diário se tornou uma terapia. Aqui nas folhas, coloco capítulos desta história que pretendo finalizar com a sua volta. Sim, te aguardo todos os dias, sem vacilar, com a certeza da fé. Se te conheço bem, vai reclamar disso, resmungar só para não reconhecer o quanto está feliz com a minha espera. Te conheço, sou uma das poucas pessoas que te conhece bem.

Faltam poucos dias para a Copa, mas a cidade ainda está entrando no clima. A demora na empolgação talvez tenha sido causada pelas manifestações do ano passado, patrulhamento ideológico ou desmandos governamentais. Não sei dizer; eu sou das exatas, lembra? Das humanas aqui em casa é você. Tenho certeza que, se estivesse aqui, teria boas explicações a respeito dessa demora. Arrisco-me a dizer que os brasileiros sentem certo medo do que pode acontecer quando os jogos começarem ou demoraram a acreditar que realmente vai ter Copa, mesmo com todos os problemas e falhas na organização.

A casa está enfeitada conforme você sempre gostou. Comprei bandeirinhas, plásticos, cortei e, com a ajuda da Júlia, fiz e coloquei os enfeites na varanda e janelas. Quem sabe você volta a tempo de ver conosco esta Copa do Mundo. Sua filha está empolgada, ansiosa. A pequena já me fez mil perguntas sobre a Copa do Mundo. Tive que me informar na internet para não fazer feio. Ah, se estivesse aqui, nem precisaríamos da ajuda do Google.

Eu fiz dois álbuns de figurinhas, um para a Júlia e outro para você. Está guardado aqui, junto com as coisas que deixou quando partiu dizendo que voltava em breve. Por que ainda não voltou? Por que não dá notícias? Sempre me disseste que não era homem de sumir sem avisar. É isso que me conforta; a pessoa que eu conheci não é capaz de ser covarde a ponto de desaparecer, deixando eu e sua filha esperando.

Ela te espera, sinto isso, mesmo que não fale. Nesse ponto, é igual ao pai: não fala, guarda lá dentro o que sente, quieta. Eu pergunto, jogo indiretas, insinuo, mas ela não se abre. Me olha com aquele maldito jeito que sabe muito bem qual é, porque é seu, e muda de assunto.

Lembra quando discutíamos com quem ela parece mais? Exteriormente, é mais comigo, mas o sorriso, o jeito de olhar, o jeito de me enrolar é seu. Só pode ser genético, ou uma bênção de Deus, a forma que ele encontrou para eu não te esquecer.

sábado, 20 de abril de 2013

A Última Despedida


   Última noite que eu iria passar naquela casa antes de retornar para o Rio e sugeri irmos a uma pizzaria, queria reunir a família naquele encontro antes de partir como outras vezes.
Minha vó, já idosa, não queria ir. Diante da sua teimosia uma filha tentava convencê-la em vão enquanto as outras se arrumavam na esperança dela mudar de idéia. Suspeitei que dona Maria achasse  a presença dela desimportante e ia incomodar a todos, ocupando mais um lugar no carro, por isso ficou deitada na cama sem dá atenção a ninguém.
Depois de algum tempo fui ao seu encontro e ternamente, como dificilmente eu falo com alguém, disse-lhe com carinho o quanto a queria presente, pedi para colocar a roupa nova e ir com a gente. Ela era especial demais para mim e mesmo se não comesse pizza, ia adorar vê-la ao nosso lado. Aceitou meu pedido e, algo raro, posou para fotos, não reclamou de nada, comeu alguma coisa, enfim, foi uma companhia agradável.
No outro dia, na hora de me despedir percebi as lágrimas em seu rosto, nunca a vi chorar quando nos despedimos  outras vezes, já no carro, senti um aperto no coração quando pensei ser aquela a última vez.
Um ano e alguns meses depois, novamente viajei para Pernambuco. Minha vó, chegou até os oitenta e sete anos em pé, lúcida, mas em janeiro, um derrame deteriorou a sua saúde e desde então as notícias não foram animadoras. Quando pude, parti mais uma vez para vê-la, ao chegar, os esforços dos parentes eram em me preparar para o que estava por vir. Quando adentrei na casa, tomei o primeiro choque, ela sempre vinha nos receber feliz e dessa vez estava em uma cama, balbuciando palavras, sem reconhecer ninguém. Contive as lágrimas, procurei um canto e chorei sozinho, contido e aceitei ser assim a vida. No outro dia ela morreu, dormindo, foi para a eternidade e somente várias horas depois disso eu deixei as lágrimas descerem fartas pelo meu rosto. A mulher que eu amava tanto tinha esperado apenas a chegada do seu neto e filha para ir desse mundo e deixou comigo a lembrança da última despedida onde aquelas lágrimas delas tenham sido quando entendeu ser a última vez.

sábado, 17 de novembro de 2012

Espera

   Ela esperou como faz todos os anos, sabia que não viria, mas mesmo assim esperava com uma esperança que se recusa a morrer.
   O dia foi passando e ficou olhando pela janela, com o telefone na mão, checando os e-mails mesmo sabendo que seu número tinha mudado e que atualmente ninguém usa o Hotmail, e seu endereço não é conhecido por ele. Mesmo assim, esperava, quem sabe um milagre divino, e então escreveria em seu diário como aquela tinha sido a melhor data da sua vida e choraria, explicando o porquê desse pensamento.
    Mas a noite veio, e nada aconteceu. Tudo igual, as crianças na rua, os carros passando com seus motoristas indiferentes, as pessoas preocupadas andando a pé, cachorros vira-latas procurando comida, tudo como sempre. 
   Teve vontade de gritar alto sua angústia, talvez procurar o CVV e conversar com alguém fizesse bem. Ligou o computador e tentou curar a solidão em um chat, mas desistiu quando isso lhe trouxe lembranças tristes.
    Desistiu de esperar depois da meia-noite. Não haveria uma chegada alegre, uma lembrança que lhe fizesse sorrir. Tomou um remédio para dormir, deitou-se e esperou tempos melhores ou menos dolorosos.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Finados

O cemitério estava cheio; pessoas com flores e velas nas mãos entravam para homenagear os seus mortos, enquanto ela permanecia do outro lado da rua, como se esperasse alguém. Era bonita, parecia ter uns quarenta anos, rosto sério e um olhar firme, capaz de silenciar qualquer um que a olhasse por minutos. Vestia-se com simplicidade e lá ficou por quase meia hora.

Foi até o vendedor ambulante e comprou um maço de velas. Entrou no cemitério e, com passos firmes, foi até a parte onde estavam enterrados os indigentes. Abaixou-se e acendeu as velas até ficar somente com uma na mão. Essa derradeira foi banhada por suas lágrimas, e ao acender, murmurou: “Ainda sinto saudades”.

Minutos depois, saiu tentando não demonstrar emoção. Onde ele estivesse, não iria gostar de vê-la chorar, ainda mais ali, lugar que ele sempre detestou e sempre dizia não querer ser enterrado, mas sim cremado, para ninguém procurá-lo em determinados dias. Sorriu ao lembrar disso; o conhecia e apostava que lá no céu estaria resmungando por ela não seguir suas recomendações, mas logo daria aquele sorriso infantil e cederia às suas justificativas.

Não queria esquecê-lo e nem tirá-lo da sua vida. Quem sabe um dia só a saudade vai restar, mas, por enquanto, doía demais, e por isso estava ali. Há muito tempo atrás, o seu amor morreu em uma batalha e foi enterrado como indigente em terras estrangeiras. Igual a ele, outros foram, por isso rezava por todos, pedindo a paz para quem foi e quem ainda está por aqui.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Revolução


      Neste momento, estou olhando pela janela a agitação na rua, com o sangue fervendo. Você sabe como eu me sinto nessas situações. Nas ruas, há pessoas com trajes civis portando armas pesadas. Se havia alguma dúvida, agora não há mais: o povo vai tentar tirar o governo do poder à força novamente. Não é a primeira vez na história do país que isso ocorre, mas a última vez já faz mais de quatro décadas, e poucos viveram esses tempos. Quem foi para a linha de frente agora talvez sejam os filhos e sobrinhos daqueles.

     Você já conhece um pouco dessa história. Quem é daquela época conta que o governo era corrupto, vivia no luxo enquanto o povo estava cada vez mais miserável. Eleito pelo voto direto, se beneficiava de uma democracia viciada para permanecer no poder, usando artifícios legais para a continuidade do mandato, como plebiscitos e prorrogações votadas por um congresso sempre disposto a atender suas exigências mediante o atendimento de suas demandas. Explorando os pobres e agradando a elite, começou a ser odiado e, como nada na vida é para sempre, um dia a população se cansou e foi protestar nas ruas. Eram poucos e foram reprimidos com violência; logo eram muitos, e o estado foi perdendo o controle até que o exército e os policiais ficaram ao lado do povo. O presidente caiu, e muitos sonharam com uma vida diferente.

     O governo foi deposto pelo exército, deu lugar a outro pregando a reconciliação nacional, e as pessoas voltaram para suas casas. Foi feita uma nova reforma na constituição e um novo presidente foi eleito. Muitos anos se passaram, o país progrediu, mas as estruturas não foram mudadas. Desde então, cada governo dava atenção aos pobres e enriquecia mais os ricos, agradando a ambos os extremos e evitando problemas. Mas a burguesia se ressentia disso, não aceitava ver seus impostos sendo gastos com a parte mais desfavorecida, vendo-a ascender socialmente, e apoiou um golpe de estado, levando ao poder alguém que se adequava aos seus interesses.

    Nos últimos quinze anos, a proteção social da classe baixa foi diminuída paulatinamente, enquanto o número de pobres e miseráveis voltava a subir dramaticamente. A burguesia voltou a controlar o ensino superior e os gastos dos impostos. Os ricos, mais uma vez, não foram afetados em nada e lavaram as mãos perante a situação. A parte de baixo da pirâmide social, levada a uma situação desesperadora, não aguentou mais, se armou e foi para as ruas, como seus pais e avós fizeram há muito tempo.

    Um dia, alguém vai dizer que o início disso tudo foi pelas redes sociais, mas não saberá dizer como ou quem começou, somente que a indignação na internet foi ridicularizada e vista como mais uma sem efeitos maiores. Uma manifestação foi marcada e apareceram poucas pessoas, solenemente ignoradas e dispersadas pela polícia. Na outra semana, as duas maiores cidades tiveram outros protestos, sempre combinados no mundo virtual, dessa vez com mais gente e com uma repressão maior. Imagens de pessoas sendo agredidas foram parar no YouTube, e quando o governo se deu conta, a indignação popular explodiu descontroladamente, levando as pessoas para as ruas, pedindo mudanças, e os acontecimentos foram se precipitando. Foi formado um exército irregular disposto a lutar pela libertação deste país.

    Essa é a situação há semanas, e nesse tempo eu fiquei apenas observando, esperando os acontecimentos, rezando para que os políticos consigam um acordo que faça o povo voltar para suas casas com as armas guardadas. Não sou idiota e já vivi muitas guerras; sei o quanto elas são cruéis, e uma guerra civil coloca irmãos contra irmãos, rachando para sempre uma nação. Mas já não consigo me manter neutro, e escolhi meu lado, o do povo, o nosso povo. Por ele vou lutar, e espero seu perdão por ter largado tudo para mais uma vez ir para o campo de batalha. Sei que lhe prometi nunca mais fazer isso, mas desta vez é por um bom motivo. Se um dia tivermos filhos, quero que cresçam em um país melhor, e morreria de vergonha se eles me perguntassem o que eu fiz nessa época e minha resposta fosse “não fiz nada”.

   Quando você ler esta carta, eu estarei bem longe e peço perdão por isso. Mas me entenda, detesto despedidas, já te falei isso muitas vezes. Consola-me saber que não será surpresa para ti. Nas últimas semanas, sabíamos que era questão de tempo até eu ser mais um dos revolucionários a lutar contra o governo. Várias vezes você me viu olhando as lembranças do meu pai e limpando minha arma.

   Olhe pela sua janela e verá o povo nas ruas, pedindo liberdade e mudanças. Eu quero fazer parte disso, como meu pai fez. Prometo me cuidar para retornar aos seus braços, se depois disso tudo ainda me quiser. Cuide-se, evite sair de casa e reze para que essa revolução seja breve, para que nosso país seja um lugar bom para nossos filhos viverem. Eu prometo tentar voltar e, se não conseguir, guarde esta carta para lembrar de mim.

sábado, 2 de junho de 2012

Uma Mulher Brasileira


     Getúlio Vargas chega ao poder no começo da década de trinta e no exercício dele mantém uma política exterior ambígua, podemos dizer que enquanto pode, ficou em cima do muro. Em mil novecentos e trinta e oito, o governo brasileiro toma uma decisão triste, com a circular secreta de nº. 1.127, Getulio decide restringir a entrada de judeus em nosso país, oficializando a discriminação já existente de forma clandestina por aqui.
O Brasil que até então tinha recebido migrantes de várias partes do mundo, não importando de onde viesse, sucumbia ao anti-semitismo fechando a porta para quem já começava a ser perseguido na Europa e precisava de desesperadamente procurar um novo lugar para ficar.  
Por aqui os tempos eram difíceis, no ano anterior as eleições presidências que deveriam ocorrer nesse ano tinham sido canceladas e o país vivia uma ditadura  que não hesitava em reprimir e perseguir seus opositores, não importando quem fosse. Em um ambiente político conturbado como estávamos naquela época, era mais prudente os funcionários do governo simplesmente se omitir em ajudar quem fosse de origem judia para não arrumar problemas, mas felizmente alguém trabalhando na Alemanha não pensou assim e eu imagino quantas vidas ela mudou para melhor com seu ato de coragem.
Na seção de vistos do consulado brasileiro em Hamburgo, cidade alemã trabalhava uma paranaense,  separada do marido que tinha ido morar na Alemanha, chamada Aracy. Sendo essa uma mulher de fibra, como todas são, percebendo a situação dos judeus na nação onde estava vivendo, ignorou a ordem governamental e decidiu com o coração ignorar a circular continuando a preparar os vistos dos judeus que chegavam a suas mãos. Para não ser descoberta, essa corajosa mulher  quando ia despachar  com o cônsul geral, colocava os vistos junto com outros papéis.
Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, não precisa ser lembrada como mulher do poeta, tem uma historia própria e merece ser sempre lembrada pelo que fez quando servia ao seu país em um lugar distante, podendo se omitir, pensar na sua segurança, preferiu fazer a diferença.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Um Conto de Natal (Parte Final)

  A festa foi um sucesso, presentes foram distribuídos para as crianças, adultos se divertiram e ao final de tudo o salão ficou vazio. Já era noite, as famílias começavam a se reunir em suas casas para a comemoração particular de cada uma delas. Ao contrário do que pensava por anos, existia feliz natal na periferia, não era apenas tristeza e miséria, era simples é verdade, mas com calor humano. Era hora de voltar para a solidão do seu lar e foi em direção ao seu carro quando um casal conhecido a chamou e perguntou:
   - Vai passar o natal com quem?
   - Desde que minha filha morreu eu passo sozinha lá em casa.
   - Lá em casa não tem o luxo que a senhora está acostumada, mas se quiser passar com a gente será muito bem recebida.
   - Agradeço. Não quero atrapalhar.
   - Vai fazer desfeita? Vamos lá, não passa, não passe o natal sozinha. Vem com a gente.
   Sorriu e aceitou o convite, indo com eles para a pequena casa sem pintura e com poucos móveis. Em cima da mesa uma ceia simples, mas o mais importante estava presente. A tranqüilidade e o amor no lar, isso era algo que dava para sentir ao entrar. Os moradores tinham dito a verdade, não era o luxo a qual estava acostumada e isso não fez a menor importância. Os talheres de prata e os pratos de porcelanas eram lindos, mas eram apenas coisas materiais, enquanto ali o garfo e faca simples e um prato limpo e barato era servido com amor. Acostumou-se com toalhas de linho, mas não se importou nem um pouco com a toalha de pano forrada na mesa, as pessoas sentiam prazer pela sua presença, não por causa da sua posição social ou pela condição financeira, mas por ela e isso não tinha preço. Agradeceu a Deus em oração aquele momento proporcionado e pela lição aprendida, passou a noite com seus novos amigos, e pela primeira vez em muitos anos não se sentiu solitária na noite de natal.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Um Conto de Natal (II)

      Tinha dinheiro e podia ter tudo o que ele poderia comprar, no entanto lhe faltava muito e sofria por isso. Um dia leu sobre um projeto social em uma favela, as pessoas daquele lugar tinham se unido e estavam tendo pequenas conquistas, procurou saber mais e quando percebeu estava batendo na porta do projeto perguntando como poderia ajudar.
    Foi olhada com desconfiança a princípio, parecia ser mais um “turista” indo ver favelados em seu habitat natural como os pesquisadores observam animais na floresta, perguntaram se era política ou de alguma igreja e diante das negativas alguém foi direta:
   - Olha não me leve a mal não. Mas se não é política, da igreja, porque está aqui? Curiosidade em conhecer como é uma favela? É isso?
   - Não, não é isso, não me entendam mal. Eu vi uma reportagem sobre o projeto de vocês e queria saber como ajudar.
   - Madame, se você quiser doar dinheiro, ninguém aqui vai rejeitar. Se quiser ajudar de outra forma aqui nunca falta trabalho.
   Poderia dá o dinheiro somente e retornar para sua casa, seu mundo luxuoso, onde tudo era diferente. Ficou e engolindo seu orgulho pela primeira vez em muito tempo pediu e não deu uma ordem. Queria fazer parte daquele trabalho, poderia trabalhar igual às pessoas ali faziam. Foi aceita e se tornou mais uma mão a construir um futuro melhor, sua posição social e seu dinheiro ali não valia de nada.
  Desde esse dia sempre retornou, tornou-se conhecida e aos poucos foi se integrando ao lugar, sempre participando das festas promovidas por aquela gente. Por isso estava ali hoje, era o dia vinte e quatro de dezembro, a festa de natal e lá estava mais uma vez participando como em outros anos.
  O salão estava cheio de crianças barulhentas, o som alto tocava um pagode desses tão ao gosto popular enquanto as mulheres enfeitavam ou mostravam aos homens onde colocar as mesas e cadeiras. Ficou olhando em volta, alguém gritou seu nome e se pôs a trabalhar junto com todos. À tarde a festa finalmente começou, as crianças se divertiam, estavam felizes como deveria ser sempre, muitas tinham o pai ausente (desconhecido, preso ou morto), poucos motivos para sonhar e para sorrir. Cada sorriso deles era uma forma de alegrar o seu coração, ali ela não era a madame que ordenava e sim a tia sendo puxada pela mão para tirar uma foto de lembrança. A importância ali não era por causa do dinheiro ou do status e sim por fazer parte da relação social daquele lugar, se a pessoa era querida, solidária e participativa então tornava-se importante.

(Continua)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Um Conto de Natal (Parte I)

   Acordou tarde, tomou café e um banho para despertar. Hoje tinha um compromisso importante, se arrumou para ele colocando seu vestido e um perfume comprado na última viagem a Paris. Olhou para os remédios tarja preta na cama e sussurrou sorrindo um "hoje não" na mansão vazia. Nos últimos cinco anos para conseguir viver com certa tranqüilidade precisava de ajuda médica, mas hoje não precisaria da química no corpo, conseguiria isso sozinha.
   Saiu do seu condomínio em seu carro de luxo e aos poucos foi deixando para trás os bairros ricos enquanto a paisagem ia mudando de casas luxuosas, bem cuidadas com aquele ar de sofisticação para lugares onde a simplicidade e a pobreza se confundiam constantemente. Envergonhada, lembrou-se da primeira vez que tinha feito esse trajeto e como tinha estranhado ver pessoas em trajes comuns, estava acostumada a vê-las com uniformes impecáveis destinado aos empregados, esse tinha sido o primeiro de muitos choques até compreender a realidade do outro lado de uma cidade segregada socialmente.
   Chegou à favela, tinha aprendido com os moradores as regras do lugar e sabia que não podia burlar nenhuma delas, ali seu nome e seu dinheiro não valia muita coisa, imperava a lei do tráfico e todos respeitavam. Piscou o farol pedindo permissão e foi reconhecida por um dos "meninos" armados:
   - Pode passar tia. A favela "tá" lazer.
  Sorriu para o garoto talvez com dezesseis anos, com certeza não mais do que isso e foi em frente. Já entendia um pouco daquele linguajar peculiar, o "lazer" significava tranqüilidade para todos, sem polícia, tiros ou qualquer outro motivo de tensão, por isso não precisava se preocupar. Foi dirigindo com cuidado pela comunidade, pessoas e motos dividiam o espaço na rua com os automóveis, era preciso cuidado, então chegou a um casarão onde tinha uma placa o denominando de Centro de Lazer. Era ali o seu destino ao menos uma vez por semana desde a reconstrução da sua vida destruída pela morte da filha. A dor da perda e depois a depressão foram responsáveis por longos anos vivendo um inferno particular, até que aceitou o tratamento médico rigoroso e seguiu com disciplina a rotina de tomar os remédios para se manter sã, como dizia aos amigos.

(Continua)

sábado, 15 de outubro de 2011

Demora

Ficou esperando na janela e viu o dia amanhecer mais uma vez. Nos últimos dias tinha se levantado da cama sem sono e ficava olhando o final da rua até o sol nascer. Então começava a se preparar para mais um dia sem notícias do seu amado. A guerra já tinha acabado os soldados retornavam para suas casas, mas o pai da sua filha não tinha retornado até então. Nos primeiros dias esperou pacientemente, depois tentou obter notícias e frustrada percebeu que não tinham informações do seu paradeiro. Era comum isso ocorrer, soldados sumiam para sempre, alguns escolhiam viver uma nova vida e simplesmente morriam para a vida antiga, outros morriam de verdade e nem seus corpos retornavam e tinha também os prisioneiros, pessoas capturadas pelos inimigos ficando incomunicável até surgir uma oportunidade de serem inseridos em alguma negociação.
Eram os "desaparecidos" e as historias das suas famílias tinha sempre esperas torturantes e tristes para serem contadas. Quantas vezes soube de casos onde mães esperavam até o fim da sua vida o retorno do filho (a) sem querer aceitar a sua morte, algumas pessoas depois de longos anos reapareciam e então se descobria que as lágrimas derramadas não eram merecidas, não tinham morrido e nem estavam presas, apenas tinham decidido não mais retornar.
Acabou de preparar o café e foi acordar sua filha, quando tinha dúvidas se ele realmente a amava lembrava-se que ele não deixaria sua menina sem um pai, disso tinha certeza, se não tinha voltado ainda era porque não podia, quem sabe estava morto. Pensando isso, chorou a que ponto tinha chegado, o preferia morto a se sentir abandonada, seus pensamentos estavam confusos. Não, ele iria voltar assim que pudesse, tinha prometido antes de ir que voltaria e gostava de dizer com aquele sorriso irônico que suas promessas sempre eram cumpridas, não seria dessa vez a falhar.
A menina tomou seu banho e foi para a mesa fazer a primeira refeição do dia sendo olhada pela mãe. Era linda como o pai, pensou, e tinha as mesmas manias. O jeito de olhar, a personalidade forte e aquele maldito sorriso que a tinha conquistado alguns anos antes. Como adorava e odiava aquele jeito de sorrir,  enigmático e irônico, a irritava e ao mesmo tempo apaixonava sempre. O jeito desafiador era outra herança paterna, pensou sorrindo enquanto fazia os últimos preparativos para sair para mais um dia de espera, esperança e fé. Um dia ele iria voltar, sempre cumpria suas promessas.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Vidas em Guerra

  As guerras eram como desastres naturais, todos ali sabiam que elas sempre aconteciam, deveriam sempre permanecer preparados para quando ocorressem, poderia demorar anos ou alguns dias, mas elas sempre vinham e todos esperavam  essa situação. 
  Um dia qualquer a notícia chegava e então algumas pessoas da aldeia, procuravam o conforto da fé pedindo proteção aos seus entes queridos e choravam em silêncio a dor de mais uma partida para sem certeza da volta.  Os homens se reuniam para relembrar outras batalhas e se preparavam para lutar, os mais velhos saudosistas em volta da fogueira se passavam por mais heróis do que realmente foram, os mais jovens ansiavam ter tantas glórias quantos outros, quem já não reunia condições sentia certa inveja dos atuais guerreiros, o sentimento geral era de excitação.
   As mulheres  também faziam parte do exército e era incomum ve-las no combate corpo a corpo, não tinham a necessidade masculina de se mostrarem corajosas e de se gabar dos seus feitos. Recebiam a notícia e iam para suas casas se prepararem para mais uma vez ir a luta, tinham tido a opção entre serem mães ou guerreiras, as duas não era aceitável  embora a proibição não existisse.  
   O governo dava preferência a soldados alistados por vontade própria e somente se precisasse começava uma convocação compulsória dos mais aptos. Naquele reino a cultura da guerra era forte e quando se chegava à maioridade se alistar nas forças armadas era a primeira opção das pessoas. 
   O menino desde pequeno já sonhava em ser um guerreiro, ter medalhas por bravuras, chegar como herói em sua cidade e se morresse seria lembrado como um bravo, alguém valente e digno de orgulho. As meninas tinham a opção de serem soldados ou mulheres de soldados, podiam se alistar ou ser as noivas, namoradas ou esposas que viam os seus indo sem ter certeza da volta, muitas receosas de criarem um filho sem pai e outras temendo ver o segundo homem da família não retornar mais. Era uma vida dura, se tornavam fortes por necessidade e não por querer. 
   Um habitante daquele lugar poderia optar por ser um pacifista ou alguém sem vontade de guerrear, mas seria sempre um estranho no ninho, alguém fora da ordem, pois tudo remetia as batalhas travadas desde muito tempo. De uma forma ou de outra todos se envolviam, aqueles que não podiam ser soldados por não estarem aptos  contribuíam para os esforços de outra forma.
   Assim sendo, era comum cada família ter soldados mulheres ou homens entre os seus, com perdas e historias semelhantes. Uma família sem um soldado era uma desonra, um motivo para ser segregada, por isso era necessário ter no mínimo dois herdeiros ou herdeiras para que não corressem o risco de não ter a honra de ver um filho seu servindo ao reino.
   Enquanto o pai catequizava os filhos a serem guerreiros a mãe aceitava o destino imposto às mulheres naquele lugar. Ver seus amados partirem sem certeza de volta, muitas vezes nem o corpo para enterrar tinham. Pior do que enterrar alguém era a eterna espera, sem corpo, sem notícias, sem enterro, ficavam olhando o horizonte dia após dia, esperando quem sabe, o reaparecimento de quem mais amavam. 

sábado, 8 de janeiro de 2011

Ato de fé

   Não perdeu sua fé embora tenha pensado nisso intensamente nos últimos anos, ainda é capaz de acreditar no impossível, sem medo de parecer tola, crê em Deus. Perante os homens é uma pecadora, mulher mundana, vende o corpo por dinheiro. Já foi usada diversas vezes, olhada com desprezo e com desejo, somente uma vez a viram como alguém á ser amada. Pelas ruas, mercadora do prazer, segue seu caminhar,  rezando para mudanças ocorrerem. Uma vez acreditou nisso, promessas de um freguês que se tornou amante e depois amor, mas,  veio a guerra, o chamamento as armas e ele se foi. Chorou amargamente por vários dias quando percebeu a falta de dinheiro. Voltou para as ruas, para o mundo marginal onde mulheres tem preço e rótulos. Oferece seus serviços por necessidade, talvez por já ter desistido de outra vida. Um dia, passando por uma igreja, escutou o sermão de um padre. Falava da fé em Deus. Voz firme, o homem em cima do altar, discorria sobre a arte de acreditar no impossível divino. Por não ter mais em que acreditar na terra, acreditou no céu. Naquele dia acendeu uma vela fazendo o pedido da volta ao seu amado. Repetiu  por outros dias seguidos. Nada ocorria mas era o que restava acreditar. Mais por necessidade do que por religiosidade, acreditou por meses. Um dia, o telefone tocou. Reconheceu a voz quando escutou. Ele perguntava se ainda o esperava, não se importando com mais nada. Diante da resposta afirmativa, pediu para que continuasse, ele voltaria para ela. Desde então acende as velas esperançosa, fazendo uma prece silenciosa. Jesus um dia evitou que uma adúltera fosse apedrejada, então poderia perdoá-la e quem sabe deixar ter uma nova vida.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Mulher de Atenas

      Parada na janela, olhava a rua. Não chorava, as lágrimas já haviam secado anos atrás. Aprendera a sufocar a dor para continuar a viver. Esperava, como várias mulheres em outras casas daquele país. Mães, namoradas, esposas, amantes, não importava, era como se fosse uma sina feminina, ver seus homens irem para a guerra sem saber se voltavam e como voltavam.
     Olhou mais uma vez para fora, e sentiu a dor da solidão misturada com o temor de nunca mais ve-lo. Fez uma prece silenciosa, ainda que já não acreditasse em um Deus capaz de fazer sofrer tanto assim. Olhos secos, face sem expressão, queria fazer planos, ter sonhos. Sorriu amargamente. isso era para quem não via seus homens irem guerrear. A mulheres iguais a ela restava apenas a esperança de um dia as batalhas terminarem, a paz ser selada e entre os sobreviventes estar quem lhe importava.