sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Vidas em Guerra

  As guerras eram como desastres naturais, todos ali sabiam que elas sempre aconteciam, deveriam sempre permanecer preparados para quando ocorressem, poderia demorar anos ou alguns dias, mas elas sempre vinham e todos esperavam  essa situação. 
  Um dia qualquer a notícia chegava e então algumas pessoas da aldeia, procuravam o conforto da fé pedindo proteção aos seus entes queridos e choravam em silêncio a dor de mais uma partida para sem certeza da volta.  Os homens se reuniam para relembrar outras batalhas e se preparavam para lutar, os mais velhos saudosistas em volta da fogueira se passavam por mais heróis do que realmente foram, os mais jovens ansiavam ter tantas glórias quantos outros, quem já não reunia condições sentia certa inveja dos atuais guerreiros, o sentimento geral era de excitação.
   As mulheres  também faziam parte do exército e era incomum ve-las no combate corpo a corpo, não tinham a necessidade masculina de se mostrarem corajosas e de se gabar dos seus feitos. Recebiam a notícia e iam para suas casas se prepararem para mais uma vez ir a luta, tinham tido a opção entre serem mães ou guerreiras, as duas não era aceitável  embora a proibição não existisse.  
   O governo dava preferência a soldados alistados por vontade própria e somente se precisasse começava uma convocação compulsória dos mais aptos. Naquele reino a cultura da guerra era forte e quando se chegava à maioridade se alistar nas forças armadas era a primeira opção das pessoas. 
   O menino desde pequeno já sonhava em ser um guerreiro, ter medalhas por bravuras, chegar como herói em sua cidade e se morresse seria lembrado como um bravo, alguém valente e digno de orgulho. As meninas tinham a opção de serem soldados ou mulheres de soldados, podiam se alistar ou ser as noivas, namoradas ou esposas que viam os seus indo sem ter certeza da volta, muitas receosas de criarem um filho sem pai e outras temendo ver o segundo homem da família não retornar mais. Era uma vida dura, se tornavam fortes por necessidade e não por querer. 
   Um habitante daquele lugar poderia optar por ser um pacifista ou alguém sem vontade de guerrear, mas seria sempre um estranho no ninho, alguém fora da ordem, pois tudo remetia as batalhas travadas desde muito tempo. De uma forma ou de outra todos se envolviam, aqueles que não podiam ser soldados por não estarem aptos  contribuíam para os esforços de outra forma.
   Assim sendo, era comum cada família ter soldados mulheres ou homens entre os seus, com perdas e historias semelhantes. Uma família sem um soldado era uma desonra, um motivo para ser segregada, por isso era necessário ter no mínimo dois herdeiros ou herdeiras para que não corressem o risco de não ter a honra de ver um filho seu servindo ao reino.
   Enquanto o pai catequizava os filhos a serem guerreiros a mãe aceitava o destino imposto às mulheres naquele lugar. Ver seus amados partirem sem certeza de volta, muitas vezes nem o corpo para enterrar tinham. Pior do que enterrar alguém era a eterna espera, sem corpo, sem notícias, sem enterro, ficavam olhando o horizonte dia após dia, esperando quem sabe, o reaparecimento de quem mais amavam. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário