sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Assum Preto


 Ele foi caminhando devagar até a praça como se acostumou a fazer nas últimas semanas.  Evitava olhar no rosto das pessoas ou andava cabisbaixo cantarolando uma música triste. Sentou-se em um dos bancos de pedra e ficou olhando o nada como se esperasse algo. Fazia isso todos os dias, tinha se tornado um hábito, não falava com ninguém, era como se não enxergasse nada ao seu redor, fitava o vazio imerso em seus pensamentos até a noite chegar e percorrer o caminho de volta até a sua casa.
O mês de abril tinha chegado trazendo um sol exuberante e um jardim florido, nas ruas as pessoas aproveitavam o final da tarde agradável para apreciar a natureza ou levar seus filhos para passear. Riam, sorriam, faziam planos, mas ele não via nada ao seu redor
Ali era uma bela cidade, quem chegava logo se encantava com as belezas naturais, mas já não enxergava isso, enquanto os outros olhos viam a luz do sol seus olhos tinham perdido o brilho há algum tempo atrás. Lamentava-se por isso cantarolando canções tristes, andando pelas ruas, sentado naquele banco, onde estivesse. Passava por pessoas felizes e invejava a felicidade delas, um dia também tinha sido assim, pensava, e continuava seu caminho.
Não tinha para onde ir, nenhuma condição de mudar o seu destino. Dizia magoado que preferia está em uma gaiola sendo bem tratado e amado por alguém a ter uma liberdade triste.
Voe, você pode, pois suas asas não estão quebradas, não está preso a nada e nem por nada, diziam, e ele sorria tristemente. Não podia, tinham deixado-o liberto, mas sem condições de ir longe. Preferia está preso, mas com os seus olhos brilhando a cada manhã. Livre, podia cantar á cada amanhecer, mas seu canto era de dor. Lamentava-se pelo destino ter levado o seu amor.


Obs: Uma das músicas que eu mais gosto é Assum Preto do Luiz Gonzaga e o conto acima foi inspirado em sua letra que eu posto abaixo junto com um vídeo.

Assum Preto

Luiz Gonzaga

Tudo em vorta é só beleza
Sol de Abril e a mata em frô
Mas Assum Preto, cego dos óio
Num vendo a luz, ai, canta de dor (bis)
Tarvez por ignorança
Ou mardade das pió
Furaro os óio do Assum Preto
Pra ele assim, ai, cantá de mió (bis)
Assum Preto veve sorto
Mas num pode avuá
Mil vez a sina de uma gaiola
Desde que o céu, ai, pudesse oiá (bis)
Assum Preto, o meu cantar
É tão triste como o teu
Também roubaro o meu amor
Que era a luz, ai, dos óios meus
Também roubaro o meu amor
Que era a luz, ai, dos óios meus.



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