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Você está estranho. O que houve?
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Eu?
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E tem mais alguém aqui a não ser você e eu?
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E porque eu estou estranho?
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Não reclamou de nada até agora.
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E do que eu deveria reclamar posso saber?
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Ora, te convenci a largar tudo para trás e tentar outro caminho e agora estamos
sem nada. Nem um dinheiro para comer algo a gente tem no momento. Vamos ter que
nos virar de algum jeito.
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Não tínhamos tanta coisa assim que eu lembre. Nas minhas lembranças era quase
nada e em certos dias nem para matar a fome dava.
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Era pouco, concordo. Mas era nosso.
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Se fosse um pouco que nos desse o suficiente para a gente sentir falta eu
reclamaria. Mas se for para viver na miséria que ao menos seja tentando mudar.
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Nossa, estou surpreso. Não é sempre que lhe escuto com essa disposição.
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(sorriso) Você sabe por que está me provocando né?
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Não sei. Por quê?
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Está em dúvida e se eu resmungasse disso não se sentiria tão responsável por
essa situação.
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Não me arrependo, mas confesso que imaginei chegar nesses dias atuais em uma
situação diferente. Imaginei que alguns meses depois nós estaríamos felizes e
eu lhe diria o quanto foi bom a minha decisão.
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Nossa decisão. Eu aceitei vir e não fui obrigado.
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Isso.
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Também apostei nisso e perdi. Pretendia ter um pouco de conforto para nós dois,
algum lugar que a gente pudesse descansar menos dissabores e perdi feio. Mas
não há motivos para arrependimentos ou sentimentos do tipo, ficar lá seria
permanecer em uma situação miserável até sabe-se lá quando.
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Ao menos tínhamos algo para nos cobrir nas noites frias, um alimento qualquer,
motivo para sorrir em alguns dias.
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Em dias de inverno rigoroso um pano não serve para nada. Perdemos um alimento
que não matava a nossa fome e é sempre possível achar um motivo para sorrir.
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Você não quer reclamar mesmo né? Vai fazer de propósito (risos).
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Não vou reclamar. Desiste. (sorriso)
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