sábado, 27 de julho de 2013

Culpa (V)

- Você está estranho. O que houve?

- Eu?

- E tem mais alguém aqui a não ser você e eu?

- E porque eu estou estranho?

- Não reclamou de nada até agora.

- E do que eu deveria reclamar posso saber?

- Ora, te convenci a largar tudo para trás e tentar outro caminho e agora estamos sem nada. Nem um dinheiro para comer algo a gente tem no momento. Vamos ter que nos virar de algum jeito.

- Não tínhamos tanta coisa assim que eu lembre. Nas minhas lembranças era quase nada e em certos dias nem para matar a fome dava.

- Era pouco, concordo. Mas era nosso.

- Se fosse um pouco que nos desse o suficiente para a gente sentir falta eu reclamaria. Mas se for para viver na miséria que ao menos seja tentando mudar.

- Nossa, estou surpreso. Não é sempre que lhe escuto com essa disposição.

- (sorriso) Você sabe por que está me provocando né?

- Não sei. Por quê?

- Está em dúvida e se eu resmungasse disso não se sentiria tão responsável por essa situação.

- Não me arrependo, mas confesso que imaginei chegar nesses dias atuais em uma situação diferente. Imaginei que alguns meses depois nós estaríamos felizes e eu lhe diria o quanto foi bom a minha decisão.

- Nossa decisão. Eu aceitei vir e não fui obrigado.

- Isso.

- Também apostei nisso e perdi. Pretendia ter um pouco de conforto para nós dois, algum lugar que a gente pudesse descansar menos dissabores e perdi feio. Mas não há motivos para arrependimentos ou sentimentos do tipo, ficar lá seria permanecer em uma situação miserável até sabe-se lá quando.

- Ao menos tínhamos algo para nos cobrir nas noites frias, um alimento qualquer, motivo para sorrir em alguns dias.

- Em dias de inverno rigoroso um pano não serve para nada. Perdemos um alimento que não matava a nossa fome e é sempre possível achar um motivo para sorrir.

- Você não quer reclamar mesmo né? Vai fazer de propósito (risos).

- Não vou reclamar. Desiste. (sorriso)


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