Mostrando postagens com marcador dialogos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador dialogos. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Vai Ter Copa (Amigos)



Pelo segundo dia ficou dentro de casa, sem abrir as janelas, saindo da cama só para ir ao banheiro. Tinha Depressão, se procurasse um médico ia diagnosticá-lo com essa doença, tinha certeza, precisava de um tarja preta, qualquer coisa para levantar seu ânimo, uma ajuda química qualquer para lhe colocar em pé novamente. 
Era meio dia, hora do almoço em várias casas, mães gritando seus filhos para levá-los a escola, famílias felizes, pessoas saindo do trabalho para comer alguma coisa em algum restaurante. E ele ali, prostrado, sem ânimo para nada, querendo que o mundo acabasse para poder descansar em paz.
Já chegou à tarde, dezesseis horas, continua olhando o nada, tentando arrumar um motivo para viver, repentinamente à porta da sua casa se abre e escuta passos, quem será, pensa, enquanto ainda está se levantando, uma figura conhecida adentra o seu quarto.

- Pensei que tinha morrido. Liguei várias vezes e não atendeu, receei que entraria aqui já com o cheiro ruim alertando.

- Sempre gentil. 

- Outra crise depressiva?

- Acho que sim. Sei lá, talvez seja o meu normal, talvez eu só não queira ver a cara de ninguém.

- Talvez continue mentindo a si mesmo, talvez seja orgulhoso demais para admitir que precisa de ajuda, talvez seja burro demais para pedir ajuda enquanto é tempo.

- Veio aqui para me deixar pior? É melhor voltar, já tenho o suficiente para ficar ruim.

- Não, toma um banho, coloca uma roupa no corpo e outra na mochila que vamos para São Paulo.

- Vamos? São Paulo? Fazer o que lá?

- Arrumei dois ingressos para a copa do mundo. Jogo de estréia do Brasil, vamos realizar nosso sonho de criança, cara.

- O meu você pode vender ou doar. Não vou. Estou boicotando a copa.

- Eu sei que vou me irritar, mas, pergunto: Boicotando a copa?

- Sim, olha o que ela causou, desvio de dinheiro, remoções. Uma tristeza enorme.

- E por isso vai boicotar a copa.

- Sim, e vou pra rua protestar. Vem comigo, como nos velhos tempos, temos muito pelo que lutar. 

- Uma das coisas que eu aprendi contigo foi sonhar e lutar pelos meus sonhos. E um deles é ver o Brasil jogar uma copa do mundo em casa.

- Mas não era para ser assim, polícia repressora, políticos desonestos, está tudo errado, cara. Tudo errado.

- Eu achava que a gente separava a política do futebol.

- Não dá, minha copa é na rua, desafiando o choque, gritando pelos que não tem voz.

- E não pode fazer isso depois da copa?

- Engraçadinho.

- Falo sério. A copa vai passar, os problemas vão ficar e a luta será a mesma. Porque não podemos por alguns dias esquecer essa merda toda.

- Enquanto a gente se diverte tem gente se fudendo por causa da copa, você sabia?

- Sim, nesse país, por causa de várias coisas tem gente se ferrando. 

- Então?

- A copa vai acabar e vão precisar de gente lutando por um Brasil melhor. Eu serei um deles, como sempre fui. Tenho direito a sonhar, por alguns instantes esquecer as lágrimas no meu rosto.

- Não, não temos. Não somos melhores do que aqueles que sofrem, entenda isso.

- Não somos melhores do que ninguém e mesmo assim, perceba, o quanto está tentando ser superior ao sentir uma dor que não é sua. Depressivo, em um quarto escuro, lamentando a vida, sorvendo cada gole de tristeza com prazer. Deixou de gostar de futebol? Responda-me sinceramente.

- Não.

- Levanta, vamos embora pra São Paulo. Ninguém é forte o suficiente para lutar constantemente. Às vezes é necessário parar e se divertir um pouco. Vamos embora, garoto. Não me faça chorar sozinho quando ouvir o hino nacional.

- Eu vou te acompanhar até São Paulo, mas não garanto que vou entrar. Se do lado de fora estiver mais divertido eu escolherei as ruas.

- Ok, revolucionário. Ok. Se adianta que já é tarde.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Natal (parte II)


Pedido de Ajuda

Não precisavam ser apresentados, pois eram velhos conhecidos. Não foi um encontro amistoso ou com demonstrações de afeto das duas partes, mas a rispidez estava somente de um lado. 

- Preciso de sua ajuda.

- Ajuda? Minha? Tem algo errado aí.

- Na verdade não sou eu que estou precisando. É Ele que mandou eu vir aqui te pedir.

- Hum, peraí. Os papéis estão invertidos. Não sou eu que peço ajuda, rezo, vou à igreja e tal?

- Sim, era você. Nos últimos tempos já não faz isso.

- Claro, pedia, pedia, e nada. Desisti.

- Está sendo injusto.

- Se tivesse sido auxiliado acho que não teria deixado de pedir, correto?

- Você foi, mas imerso em sua dor deixou de ver ao seu redor e passou a olhar somente para si. Várias vezes velei seu sono enquanto você rolava na cama perturbado por pesadelos. Não foram poucas manhãs que tentei melhorar algo para que enfrentasse um novo dia, pois eu tinha medo da sua desistência. Mas você não me via, não o chamava mais, lidou com a sua dor e dificuldades do seu jeito. Não o recrimino.

- Obrigado por não me recriminar. 

- De nada.

- Vou ignorar sua ironia. Porque eu? Tem tanta gente por aí.

- Às vezes eu não entendo as decisões dele. Acato as ordens.

- Pois já faz um tempinho que não estou disposto a acatar as decisões dele se é que não perceberam ainda.

- Percebemos.

- E porque eu acataria essa?

- Não me pergunte. Ele sabe o que faz. Quem sou eu para perguntar os motivos.

- Que tipo de ajuda vocês querem?

- Coisa simples, amanhã é natal e certa família não tem nada na geladeira. Basta você levar uma cesta básica para ela.

- E porque eu faria isso? Não está querendo que amanhã, véspera de natal eu vá para um supermercado cheio de gente mal educada comprar os itens né? Vocês estão malucos. Procurem outros.

- Sempre o mesmo, tentando esconder atrás dessa grossura um coração mole.

- Eu estou falando sério. Não vou fazer isso.

- Não posso te obrigar. Apenas pense que será uma nova chance para você.

- Chance de que?

- De ser feliz.

- Não entendi.

- Lei do retorno. Não preciso explicar do que se trata. Sabe muito bem disso.


- Isso é chantagem. E daquelas emocional.

( continua)

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Ateu? Não Sei.

- Pai, você acredita em Deus?

A pergunta o pegou de surpresa. Carla desde que tinha chegado a sua casa tinha algo a perguntar. Natural, adotada, com oito anos de idade tentava entender quem era aquele adulto que a tinha buscado no orfanato e dado um lar. Logo deixou de chamá-lo pelo nome para chamar de pai, o interrogava constantemente e isso não o irritava. Ah se fosse com qualquer outra pessoa, mas aquela menininha que tinha trazido luz para sua vida ele achava compreensível à curiosidade. Pousou os talheres sobre a mesa e começou a ensaiar uma resposta.

- Hum... Acreditava... Não sei mais... Porque a pergunta?

A menina rapidamente responde.

- O pai da Clara disse que não. Disse que é uma forma das igrejas tirar dinheiro dos otários. Você acha isso?

Mexeu-se desconfortável na cadeira, olhou para os lados, e agora? Começava a discorrer sobre o ópio do povo e a corrupção dos religiosos? Ela era uma criança ainda, melhor não, pretendia que ela lesse Marx quando tivesse uns doze anos ao menos. Tentou algo mais simples.

- Tem uns que usam Deus e estão na igreja para enganar os outros. Outros realmente acreditam.

- E como nós sabemos quem faz isso, pai?

Boa pergunta, pensou. Coçou a cabeça e mais uma vez procurou uma resposta convincente. Essa historia de paternidade definitivamente era algo difícil demais:

- Bem, quem acredita em Deus faz o bem, ajuda as pessoas, então esses não enganam ninguém.

- E quem não acredita, não ajuda ninguém?

Putz. Eu sabia que ela ia perguntar isso. Essa pestinha deve está lendo aquelas páginas no feice com ateus criticando cristãos e vice versa só pode ser. Preciso me lembrar de vigiá-la melhor quando estiver conectada.

- Não, meu amor. Quem não acredita ajuda sim. Eu estava falando dos que enganam os outros.

- O pai da Clara falou que são todos otários.

- Acreditar ou não acreditar em algo não faz alguém ser otário, meu amor.

- Outro dia você falou que só sendo muito idiota para acreditar no PT, lembra?

Sim, eu lembro. Sim, eu preciso começar a prestar atenção no que eu falo na sua frente. Quem sabe fique mudo e não precise perder o meu almoço tentando explicar coisas complicadas. E sim, acreditar em algumas coisas somente sendo idiota, mas eu não vou lhe dizer isso agora.

- Eu falei na hora da raiva. Não são todos otários.

- Só alguns?

Suspirou com ar de paciência e não se conteve.

- Outros são espertos, mocinha. Espertos demais.

- São os espertos que enganam?

- Nesse país, a esperteza é sempre associada à desonestidade. Infelizmente. 

- Você ainda não falou se acredita em Deus ou não.

- Eu acreditava. Hoje em dia eu não sei mais se acredito.

- Porque não sabe mais?

- Porque não falo mais com ele. Um dia você vai passar por isso. Temos amigos que com o tempo não nos vemos mais e deixamos de nos falar. Deus é como se fosse um amigo que sumiu e o tempo foi passando fazendo com que eu deixasse de acreditar na sua existência.

- Vocês brigaram?

- Eu briguei com ele.

- Por quê?

- Na igreja que eu ia diziam que ele ia me ajudar. Mas as coisas foram ficando difíceis, eu pedia ajuda e nada. Um dia eu me revoltei e falei que não acreditava mais nele.

- Hummm

- Você já viu aquela foto que está no meu quarto né. A da mulher com um vestido vermelho.

- Já sim.

- Foi no dia que ela morreu que eu me revoltei.

- Então deixou de acreditar?

- Deixamos de nos falar.

- Ele deve ter ficado chateado. Você explicou a ele?

- Sim, naquele dia eu deixei bem claro os motivos. Sempre é bom a gente ser sincero. Dizer a verdade faz bem.

- O pai da Clara falou que Deus não existe. Vou falar pra ele que existe sim e você até conversava com ele.

- É por aí. Tem gente que acredita, outros não, alguns conversam com ele, outros rezam para ser escutados, tem gente que pede. Tem lugar para todo mundo nesse mundo.

- A Roberta disse que quem não acredita vai para um lugar ruim. A mãe dela que disse. Será que o pai da Clara vai pra lá?

- É porque a mãe dela acredita em uma religião que diz isso. Tudo é uma questão de acreditar.

- E quem está certo, pai?

- Quando você acredita em algo é porque acha que aquilo é certo. Acho que não tem ninguém errado.

- Nem por acreditar no PT?

Por pouco não se deixou levar e começou um discurso sobre a situação política no Brasil, mas, se conteve. Era só uma conversa de pai para filha, ela talvez um dia se lembrasse disso com carinho, não queria estragar aquele momento especial. Respirou fundo para a resposta.

- Nem. Se você acredita em algo e não prejudica ninguém por causa da sua crença não vai para um lugar ruim e podemos achar que ele não está errado.

- E se prejudicar?

- Aí nem precisa ir para um lugar ruim. Onde ele está será ruim.

- Se eu falar com Deus ele vai me escutar? Mesmo se eu não acreditar nele?

Boa pergunta, pensou. Gostaria de saber essa. Será que se eu consultar o google encontro alguma teoria filosófica, religiosa, sei lá o que. Estou quase começando a voltar acreditar só para pedir ajudar a ele nessa conversa. Apelou para uma mentira.

- Bem, se ele existir, vai te escutar sim. Quando eu ia pra igreja sempre me diziam que ele escutava todo mundo até quem não acreditava nele.

A menina se distraiu com a comida, provavelmente pensando em tudo que lhe havia sido dito. Apostava que iria voltar a esse assunto e era melhor se preparar para ter respostas melhores às perguntas que viriam. Será que tinha um tutorial no google que lhe ajudasse? Seria bom uma orientação. Talvez se perguntasse em um fórum ou perguntasse para alguma mulher. Sim, mulher entendia disso, ia perguntar para uma como respondia certo. Dessa vez tinha se saído mal, mas também, pego de surpresa tentou fazer o que podia.


sábado, 27 de julho de 2013

Culpa (V)

- Você está estranho. O que houve?

- Eu?

- E tem mais alguém aqui a não ser você e eu?

- E porque eu estou estranho?

- Não reclamou de nada até agora.

- E do que eu deveria reclamar posso saber?

- Ora, te convenci a largar tudo para trás e tentar outro caminho e agora estamos sem nada. Nem um dinheiro para comer algo a gente tem no momento. Vamos ter que nos virar de algum jeito.

- Não tínhamos tanta coisa assim que eu lembre. Nas minhas lembranças era quase nada e em certos dias nem para matar a fome dava.

- Era pouco, concordo. Mas era nosso.

- Se fosse um pouco que nos desse o suficiente para a gente sentir falta eu reclamaria. Mas se for para viver na miséria que ao menos seja tentando mudar.

- Nossa, estou surpreso. Não é sempre que lhe escuto com essa disposição.

- (sorriso) Você sabe por que está me provocando né?

- Não sei. Por quê?

- Está em dúvida e se eu resmungasse disso não se sentiria tão responsável por essa situação.

- Não me arrependo, mas confesso que imaginei chegar nesses dias atuais em uma situação diferente. Imaginei que alguns meses depois nós estaríamos felizes e eu lhe diria o quanto foi bom a minha decisão.

- Nossa decisão. Eu aceitei vir e não fui obrigado.

- Isso.

- Também apostei nisso e perdi. Pretendia ter um pouco de conforto para nós dois, algum lugar que a gente pudesse descansar menos dissabores e perdi feio. Mas não há motivos para arrependimentos ou sentimentos do tipo, ficar lá seria permanecer em uma situação miserável até sabe-se lá quando.

- Ao menos tínhamos algo para nos cobrir nas noites frias, um alimento qualquer, motivo para sorrir em alguns dias.

- Em dias de inverno rigoroso um pano não serve para nada. Perdemos um alimento que não matava a nossa fome e é sempre possível achar um motivo para sorrir.

- Você não quer reclamar mesmo né? Vai fazer de propósito (risos).

- Não vou reclamar. Desiste. (sorriso)


sábado, 13 de julho de 2013

Culpa (II)

- Tive que perder para ver o quanto a amava.

- Será?

- Está evidente, não entendi a sua pergunta.

- Você só pode perder aquilo que tem.

- Mas eu tinha.

- Não, você no máximo tinha uma miragem, uma ilusão. Enganava-se com isso e agora não tem mais como se enganar. Por isso o sentimento de perda.

- Pode ser isso.

- É.

- E o que eu faço?

- Segue em frente.

- Como se fosse fácil.

- Como se fosse possível. É, portanto, siga em frente.



Culpa (I)

- Eu tinha que ter tentado fazer algo agora é tarde.

- Fazer o que?

- Sei lá, avisar a família, pensar em uma solução, era evidente os sinais da depressão.

- Você estava longe.

- Sim, eu estava.

- E então?

- Quem quer faz, quem não quer, arruma motivo. Foi isso que me ensinou.

- Sim, ensinei e também ensinei que certas coisas são inevitáveis. Não aprendeu essa parte? (sorriso).

- Sou teimoso, reconheço. Fico relutante em aceitar.

- Não existe espaço para a morte. A única opção é que ela é o destino final de todos e não há alternativas.

- Eu sei.

- Então não se culpe, ora!

- Vou tentar.

- Não, você vai deixar de se culpar.

- Ok.


quarta-feira, 12 de junho de 2013

Dia dos Namorados

Entro na loja de 1.99 para comprar um cofrinho (pobre adora um para colocar as "economias") e fico escutando a conversa da caixa com uma que mulher que está sendo atendida:

Mulher: E aí, já comprou o presente do seu namorado?

Caixa: Não e nem vou comprar. Ele não está merecendo.

Eu: ( É daqueles que vacila, fica no bar e esquece da hora, diz que dia festivo é quando seu time ganha e só)

Mulher: Porque?

Caixa: Eu heim, parece criança. Sabe o que ele me pediu?

Eu: (Homem moderno que curte um ps3. Aposto que pediu um game)

Mulher: O que?

Caixa: Primeiro pediu uma calça saruel, mas batemos Bangu inteiro e não compramos.

Eu: (Putz, que viadagem)

Mulher: Hum.

Caixa: Aí então desistiu e pediu um carretel de linha daqueles grandes.

Eu: (Justo e compreensível. Ganhou meu respeito)

sábado, 6 de abril de 2013

Fim


- É o adeus definitivo né?

- Sim, nunca mais a gente volta aqui.

- Bastava uma palavra, uma atitude e tudo seria diferente...

- Palavras essas que deveriam ter sido ditas há muitos anos atrás. Agora não tinham a menor chance de serem faladas, não se maltrate com “tudo podia ser diferente” nessa parte final. Não podia, ocorreu exatamente como era evidente que ia acontecer.

-Eu podia ter me arrependido e voltado atrás.

- Podia.

- E porque eu não fiz isso?

- Entre tantos motivos, por mais que não queira reconhecer você sabe que, não há mais chances de vitória, voltar atrás seria retornar para o mesmo lugar onde estava e não estava feliz.

- Talvez, tudo mudasse.

- Se acreditasse realmente nisso, não teria tomado nenhuma decisão. Esperaria até o último momento antes de decidir algo. Fizestes isso?

- Não.

- Está arrependido?

- Não.

- Então, não lamente pelo fim e sim por ter demorado a aceita-lo. Recolha as suas coisas, coloque um sorriso no rosto, mesmo se ele for dolorido e pegue a estrada. Siga outro caminho, a vida não para.


06/04/13

sexta-feira, 29 de março de 2013

Encontro Marcado (IV)

- Nunca passou pela sua cabeça que poderia ser um?

- Um o que?

- Um bruxo, ora! Estamos falando de que? (sorriso). Não me enrola.

- Um dia, em algum lugar, alguém me disse que eu era, achei interessante e segui a minha vida, não dei atenção ao fato.

- Não teve curiosidade em aprender? Tentar ao menos ser um aprendiz?

- Eu sou católico, tive medo de ser excomungado, não quero ir para o inferno.

- Está falando sério?

- Estou, pareço brincando (rs)?

- Não parece alguém que tenha medo do inferno.

- Tenho, espero não ir pra lá.

- E te contaram também sobre o seu poder?

- Hahahahaha, poder só se for de arrumar confusão. Se eu tivesse algum, arrumaria dinheiro e ajeitaria a minha vida, não viveria tal qual um vagabundo, vagando nesse mundo em busca de farelos de alguém com gratidão.

- Existem várias formas de usar os nossos dons e com certeza ganhar dinheiro e ser um sucesso capitalista não é uma delas.

- Você aprendeu isso com os outros bruxos ou com algum comunista maluco?

- Não, com a vida e você está mentindo novamente. O meu guia disse-me que é muito poderoso e tem exata noção do quanto, por isso nunca deveria subestimá-lo e acreditar na sua fraqueza, só você é capaz de saber seus limites.

- A última parte é verdade, mas acho que, com todos são assim. A única pessoa capaz de saber até onde consegue ir é você mesma. Pelo visto você sabe muito sobre mim.

- Pode-se ler um resumo de um livro e falar sobre, mas nunca poderemos dizer que conhecemos o livro.

- E mesmo assim veio ao meu encontro?

- Sim, estava marcado, não adiantava fugir.

- Não teve medo?

- Tive, coloquei cartas e perguntei se oferecia perigo, fiz perguntas ao meu guia, mas, não se foge do que decidiram lá em cima para sempre.

- E decidiram que a gente ia se encontrar e mais o que?

- Mais nada. A partir do nosso encontro, as páginas estão em branco, podemos nos separar e nunca mais vermos ou ficarmos amigos para sempre, não sei.

- hum

- Não vai falar nada?

- Vou dizer o que?

- Sei lá, tudo isso é uma loucura, eu sou uma louca, estranhe, fale algo, homem.

- A vida tem dessas coisas.

- É só isso que tem a dizer?

- As páginas estão em branco, então, vamos escrever algo nela. O que, só com o tempo saberemos, confesso, estou começando a gostar desse início.

- Eu também.

- Então, um brinde ao início da nossa história.


quarta-feira, 27 de março de 2013

Encontro Marcado (Parte III)

         - Posso continuar a minha historia? Onde parei?

- Quando se divorciou e tentou reconstruir sua vida.

- Isso, senti o gosto da liberdade e tratei de usufruí-la o quanto pude, mas, as coisas deram errado.

- Por quê?

- Não queria viver sozinha, precisava de alguém ao meu lado.

- Todos nós precisamos, alguns lidam com isso de forma diferente, mas, acho que ninguém, aceita viver só nesse mundo.

- Pois é, fiquei procurando alguém e tendo experiências ruins, um dia desisti e resolvi focar na minha carreira e agora chego aos quarenta e cinco anos, sendo uma profissional bem sucedida e resolvida financeiramente.

- Mas poderia ser melhor né?

- Sim, às vezes sinto falta de alguém e não estou falando de sexo, é de companhia mesmo.

- Eu entendo, sei bem como é.

- E você, não vai me contar nada? Nesse jogo só eu falo?

- Nesse jogo, por enquanto eu tento saber quais são as peças e as regras (sorriso).

- Ué, e não sabe ainda?

- Não, ainda não.

- Quer saber o que?

- Você é uma espécie de vidente, é isso?

- Bruxa,  os leigos chamam de bruxa, feiticeira, maga e afins. Rs.

- Uma bruxa, uma bruxa linda, deveras.

- Obrigado.

- E você fala com uma entidade, né?

- Não é uma entidade...

- Já sei, os leigos chamam de entidade...

- Pense em um guia espiritual, um espírito que conversa comigo quando eu o chamo. Resumidamente é isso.

- E ele falou que a gente iria se encontrar...

- Sim, disse.  Iríamos nos encontrar um dia, mas não falou a hora, local, nem nada. Segundo ele nossos caminhos estão traçados e um encontro entre a gente marcado sabe-se lá por quem nesse universo e ele estava certo. Aqui estamos nós.

-  Não sei o que dizer.

- Saberá quando começar a deixar de tentar mentir para mim e resolver ser verdadeiro. Desculpe-me os maus modos, mas não vou te subestimar, disseram para jamais fazer isso quando a gente se encontrasse.

- Vou tomar como um elogio.

-  Você também é um bruxo não é? É um de nós, digamos assim.

- Não sou, sinto te decepcionar.

- Fale a verdade, por favor, não minta dessa forma, se quer se ver livre de mim, basta falar e eu vou embora, nada nos prende mais, já cumprimos o nosso destino.

-  Estou falando a verdade.

(continua)

terça-feira, 26 de março de 2013

Encontro Marcado (Parte II)


- Eu estou meio confuso então deixa eu me situar. Um dia eu estou sentado tomando um café, lendo um livro quando você me aborda e diz que eu não deveria ver o filme, pois iria detestar.

- Sim, não ia perder a chance de falar com você né? Nessa vida nunca sabemos se teremos outra oportunidade, não se pode correr riscos.

- Eu surpreso, pergunto o porquê, você sorri, diz que apenas sabe, deixa seu telefone e vai embora sem dizer nada.

- Sim, aí você me telefona eu te conto o que sou e estamos aqui, simples.

- Não é simples assim.

- Claro que é, a gente é que complica as coisas querendo explicações para tudo.

- Para tudo não, mas, algumas coisas é preciso.

- Será mesmo?

- Acho que sim.

- Já te enrolei demais e acho que você está curioso em saber como a gente veio parar aqui, não é mesmo?

- Confesso que sim.

- Então, como diz aquele rap do Racionais (conhece a música Negro Drama?) a minha historia é mais ou menos assim...

(balança a cabeça confirmando conhecer a música)


- Eu tentei ser aquela mulher que meus pais sonhavam,  boa aluna, ingressei em uma boa faculdade, uma profissão que paga bem e o casamento com o cara que é o genro preferido de toda mãe, sabe como é?

- Sim (sorriso), bom moço, bem sucedido profissionalmente, essas coisas.

- Sim, isso mesmo e consegui tudo isso antes dos 30 anos, estava tudo perfeito para todos, menos para mim. O casamento se tornou uma prisão que aos poucos se transformou em um inferno, diziam para eu ter um filho e tudo ia melhorar loucos, eu não curto crianças, nunca me vi sendo mãe.

- Entendo, pressão social é horrível mesmo.

- Um dia descobri que ele estava me traindo, chorei mais pelo fracasso dos planos feitos para mim por outros do que propriamente pela traição. Por ele não chorei nem um pouco, fui franca com ele a respeito e decidimos terminar o casamento com cada um seguindo o seu caminho, com trinta anos eu era a mais nova divorciada nesse país e cheia de planos para o recomeço da minha vida.

- Recomeçar é preciso, sempre, nunca podemos parar e aceitar as coisas como o final.

- Estou falando demais?

- Não, pode continuar.

- Estou sim, eu falo de mim e você não fala nada sobre você.

- (sorriso) E precisa falar? Lembra o que me contou quando a gente se falou no telefone?

- Sim, lembro, mas eu não sei muito sobre você, se acertaram o que disseram a seu respeito só saberei o que quiser.

- Continue sua historia, estava interessante, não interrompa por favor. Depois eu conto-lhe o que desejar.

- Hahaha, duvido

- Não é prudente duvidar de mim, sabia?

- Sim, disseram isso.

- Pois é.

(continua)

domingo, 24 de março de 2013

Encontro Marcado (Parte I)


- Então você veio? (sorriso)

- E porque não viria?

- Sei lá, podia me achar louca, alguma maluca que fica contando historias estranhas por aí.  Rssss

- De louco todos nós temos um pouco e confesso gostar de historias loucas.

- Haha, por isso veio?

- Não.

- Porque então?

- Pensei, não tenho nada a perder, porque não aceitar o convite para jantar.

- Teve um tempo que os homens aceitavam meus convites para beber por me achar interessante e não por ter nada a perder. E não confundiam com jantar.

- Ué? Não é um jantar?

- Que eu lembre era para tomar uma bebida em um bar, conversarmos e eu contar a historia toda que iniciei naquela noite...

- Perdão, então. Que seja assim, não vou reclamar.

- Devo agradecer-te por isso?

- Agradeça quando eu fizer outras coisas.

- Por exemplo, me ouvir?

- Também não, vim para isso, esqueceu?

- Claro que não.

(continua)

domingo, 17 de março de 2013

Alívio, Tristeza e Recomeço


- Não lamenta, era para ter sido feito e você fez.

- Eu não queria fazer...

- Queria, se não quisesse não faria, não tente se enganar. São poucas as coisas que faz totalmente sem querer.

- Pode ser. Mas podia ter adiado mais um pouco, ter feito de outro jeito. Vou causar destruição demais.

- Já era para ter sido feito há muito tempo, sabemos disso. Não adianta, de qualquer jeito iríamos ter danos, infelizmente, não tem outro jeito. Para nascer um novo mundo, o velho é destruído em parte ou totalmente.

- Não é um novo mundo, é tudo familiar, parece igual.

- Nada nessa vida é igual, aprenda isso. Se você caminha pela mesma trilha mais de uma vez, ela não é igual embora seja capaz de reconhecer muitas coisas nela. Mas algo sempre muda.

- Eu queria está feliz ou sem tristeza...

- Impossível, fizestes algo que estava postergando por não ter coragem de lidar com as conseqüências. Sinta-se recompensado com o sentimento de ter feito o certo.

- Nunca serei perdoado.

- Não, as pessoas não perdoam quem as magoa.

- Eu não queria isso.

- Ninguém quer, mas assim são as relações humanas. Por mais que se evite, sempre vai ocorrer. Não se culpe por mais que seja considerado culpado.

- Agora é seguir em frente né?

-  Sim, finalmente seguir em frente.

- Eu estou com medo, sinto-me como se tivesse pulado do trapézio sem rede de proteção.

- E foi o que fizestes.

- E se eu cair e me machucar?

- Não será a primeira vez, até hoje não morreu, não será agora.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Buraco


- Outro dia que será igual ao de ontem, até quando? Já não agüento mais isso, daria tudo para sair dessa situação.

- Há quanto tempo estamos nesse buraco?

- Cinco anos.

- Ta maluco?! Não é tudo isso não.

- É sim, quando caímos aqui eu marquei o dia ali na parede. Dá uma olhada lá, basta contar.

- Você contou todos os dias que estamos aqui?

- Sim, no começo fiz isso achando que não iríamos demorar. Achei que era uma questão de tempo, quando passou um ano a contagem virou uma forma de lamento, hoje em dia é um hábito adquirido, somente isso.

-  Cinco anos jogados fora.

- Discordo, aprendemos muito nesses anos, foram proveitosos apesar de tudo.

- Eu odeio esse seu modo de achar algo de bom em tudo. Proveitosos? Proveitosos com a gente nesse buraco, sem ter a nossa vida de volta, sem saber se um dia vamos sair.

- Proveitosos sim, todos os dias estamos nos preparando para quando sairmos vamos dá valor a pequenas coisas, não vamos cometer alguns erros, não vamos ficar reclamando, aprendemos demais aqui.

- E se a gente nunca sair, já pensou nisso?

- Já, às vezes eu penso.

- E?

- Sinto tanto medo quanto você de ficar aqui até o final da nossa vida, sempre sonho com a nossa liberdade, a gente correndo pelas ruas e comemorando.

- Sairemos com tantos traumas, você pensa em comemorar e eu penso apenas em conseguir viver melhor.

- Quanto otimismo.

- Tenho muitos motivos, né?

- Um dia a gente tenta sair de novo.

- Um dia? Até lá a gente morre.

- Porque não agora, então?

- Ainda estou com machucados da última tentativa, prefiro esperar sarar.

- E mais dias vão passando.

- Já perdemos cinco anos, o que são alguns dias.

- Deveríamos dá valor a cada dia e, no entanto, vamos ficando aqui sempre achando que, um dia a gente sai. Olha quanto tempo ficamos, se prepara, pois mesmo machucados vamos tentar de novo, e quantas vezes for necessário. Não podemos desistir, aqui não é o nosso lugar.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

O Resgate (III)


- Minhas amigas sempre dizem que ali é muito perigoso, cheio de bandidos sanguinários. Pode ser uma armadilha, não vai, por favor.

- Suas amigas, sabem de favela apenas o que passa na Globo, ou seja, porra nenhuma. Se fosse bandido pedia resgate pelo bichinho quando ligou. Disse-me que entregava, mas não ia descer porque tinha medo, algo totalmente compreensível. Ele quer ganhar o dinheiro prometido pela gente e gastar da melhor forma.

- Não entendo isso, quem tem medo de polícia é bandido.

- Viva um ano na favela e irá entender bem.

- Isso é conversa de esquerdista defendendo direitos humanos para bandido. Em qualquer lugar, quem tem medo de bandido é policia e pronto.

- Humrum

- Me escuta, poxa!!

- Eu estou escutando, acredite, estou, contra a minha vontade, mas estou.

- Não vá sozinho, é perigoso, pode ocorrer uma tragédia, não quero nem pensar nisso.

- Não pense, fique quietinha e eu resolvo isso.

- Se você for eu vou ligar para a polícia em seguida.

- Caralho! Não entendeu ainda algo simples. Vou desenhar, ok. Se a polícia aparecer lá a minha vida e a de quem está com o cachorro não valerá um real furado . Não entendeu ainda?

- E se for uma armadilha, um seqüestro relâmpago, já pensou nisso?

- Já.

- Está vendo, eu tenho razão, me escuta, pelo amor de Deus. A gente pensa em outra solução.

-  Você acha que em uma situação de risco, o Pluto nos abandonaria a própria sorte?

- Ele não abandonaria.

- Então não farei isso com ele, São Jorge vai me proteger.

- Lá vem você com essas crendices populares.

- Não começa, ao menos dessa vez, se não acredita deixe-me acreditar. Eu preciso disso nesse momento.

- E o que eu faço? Fico aqui quieta, esperando, é isso?

- Não, espere uma hora e ligue para o meu celular. Se eu não atender, chame a polícia, porque algo saiu errado. Mas não vai acontecer não se preocupe.


Subiu o morro tenso, todos os preconceitos e os  medos justificados presentes, e conforme combinado foi até o alto do morro, onde foi recebido por lambidas e latidos do seu cachorro de estimação. Ao contrário de bandidos, encontrou uma família humilde esperançosa em receber o dinheiro da recompensa e ter alguns dias de fartura na sua casa. O cachorro tinha sido encontrado vagando pelas ruas e um dos meninos o levou para cima, percebendo a coleira com nome, o mais velho desceu para o asfalto e viu os cartazes com a foto e o anúncio recompensando quem devolvesse o cão, com medo de serem acusados de roubo tinham decidido telefonar e fazer a devolução em um local que consideravam seguro.