-
Minhas amigas sempre dizem que ali é muito perigoso, cheio de bandidos
sanguinários. Pode ser uma armadilha, não vai, por favor.
-
Suas amigas, sabem de favela apenas o que passa na Globo, ou seja, porra
nenhuma. Se fosse bandido pedia resgate pelo bichinho quando ligou. Disse-me
que entregava, mas não ia descer porque tinha medo, algo totalmente
compreensível. Ele quer ganhar o dinheiro prometido pela gente e gastar da
melhor forma.
-
Não entendo isso, quem tem medo de polícia é bandido.
-
Viva um ano na favela e irá entender bem.
-
Isso é conversa de esquerdista defendendo direitos humanos para
bandido. Em qualquer lugar, quem tem medo de bandido é policia e pronto.
-
Humrum
-
Me escuta, poxa!!
-
Eu estou escutando, acredite, estou, contra a minha vontade, mas estou.
-
Não vá sozinho, é perigoso, pode ocorrer uma tragédia, não quero nem pensar
nisso.
-
Não pense, fique quietinha e eu resolvo isso.
-
Se você for eu vou ligar para a polícia em seguida.
-
Caralho! Não entendeu ainda algo simples. Vou desenhar, ok. Se a
polícia aparecer lá a minha vida e a de quem está com o cachorro não valerá um
real furado . Não entendeu ainda?
-
E se for uma armadilha, um seqüestro relâmpago, já pensou nisso?
-
Já.
-
Está vendo, eu tenho razão, me escuta, pelo amor de Deus. A gente pensa em outra
solução.
- Você acha que em uma situação de risco, o
Pluto nos abandonaria a própria sorte?
-
Ele não abandonaria.
-
Então não farei isso com ele, São Jorge vai me proteger.
-
Lá vem você com essas crendices populares.
-
Não começa, ao menos dessa vez, se não acredita deixe-me acreditar. Eu preciso disso nesse momento.
-
E o que eu faço? Fico aqui quieta, esperando, é isso?
-
Não, espere uma hora e ligue para o meu celular. Se eu não atender, chame a
polícia, porque algo saiu errado. Mas não vai acontecer não se preocupe.
Subiu
o morro tenso, todos os preconceitos e os
medos justificados presentes, e conforme combinado foi até o alto do
morro, onde foi recebido por lambidas e latidos do seu cachorro de estimação.
Ao contrário de bandidos, encontrou uma família humilde esperançosa em receber
o dinheiro da recompensa e ter alguns dias de fartura na sua casa. O cachorro
tinha sido encontrado vagando pelas ruas e um dos meninos o levou para cima,
percebendo a coleira com nome, o mais velho desceu para o asfalto e viu os
cartazes com a foto e o anúncio recompensando quem devolvesse o cão, com medo
de serem acusados de roubo tinham decidido telefonar e fazer a devolução em um
local que consideravam seguro.
Nenhum comentário:
Postar um comentário