terça-feira, 20 de novembro de 2012

O Resgate (III)


- Minhas amigas sempre dizem que ali é muito perigoso, cheio de bandidos sanguinários. Pode ser uma armadilha, não vai, por favor.

- Suas amigas, sabem de favela apenas o que passa na Globo, ou seja, porra nenhuma. Se fosse bandido pedia resgate pelo bichinho quando ligou. Disse-me que entregava, mas não ia descer porque tinha medo, algo totalmente compreensível. Ele quer ganhar o dinheiro prometido pela gente e gastar da melhor forma.

- Não entendo isso, quem tem medo de polícia é bandido.

- Viva um ano na favela e irá entender bem.

- Isso é conversa de esquerdista defendendo direitos humanos para bandido. Em qualquer lugar, quem tem medo de bandido é policia e pronto.

- Humrum

- Me escuta, poxa!!

- Eu estou escutando, acredite, estou, contra a minha vontade, mas estou.

- Não vá sozinho, é perigoso, pode ocorrer uma tragédia, não quero nem pensar nisso.

- Não pense, fique quietinha e eu resolvo isso.

- Se você for eu vou ligar para a polícia em seguida.

- Caralho! Não entendeu ainda algo simples. Vou desenhar, ok. Se a polícia aparecer lá a minha vida e a de quem está com o cachorro não valerá um real furado . Não entendeu ainda?

- E se for uma armadilha, um seqüestro relâmpago, já pensou nisso?

- Já.

- Está vendo, eu tenho razão, me escuta, pelo amor de Deus. A gente pensa em outra solução.

-  Você acha que em uma situação de risco, o Pluto nos abandonaria a própria sorte?

- Ele não abandonaria.

- Então não farei isso com ele, São Jorge vai me proteger.

- Lá vem você com essas crendices populares.

- Não começa, ao menos dessa vez, se não acredita deixe-me acreditar. Eu preciso disso nesse momento.

- E o que eu faço? Fico aqui quieta, esperando, é isso?

- Não, espere uma hora e ligue para o meu celular. Se eu não atender, chame a polícia, porque algo saiu errado. Mas não vai acontecer não se preocupe.


Subiu o morro tenso, todos os preconceitos e os  medos justificados presentes, e conforme combinado foi até o alto do morro, onde foi recebido por lambidas e latidos do seu cachorro de estimação. Ao contrário de bandidos, encontrou uma família humilde esperançosa em receber o dinheiro da recompensa e ter alguns dias de fartura na sua casa. O cachorro tinha sido encontrado vagando pelas ruas e um dos meninos o levou para cima, percebendo a coleira com nome, o mais velho desceu para o asfalto e viu os cartazes com a foto e o anúncio recompensando quem devolvesse o cão, com medo de serem acusados de roubo tinham decidido telefonar e fazer a devolução em um local que consideravam seguro.


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