quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Ateu? Não Sei.

- Pai, você acredita em Deus?

A pergunta o pegou de surpresa. Carla desde que tinha chegado a sua casa tinha algo a perguntar. Natural, adotada, com oito anos de idade tentava entender quem era aquele adulto que a tinha buscado no orfanato e dado um lar. Logo deixou de chamá-lo pelo nome para chamar de pai, o interrogava constantemente e isso não o irritava. Ah se fosse com qualquer outra pessoa, mas aquela menininha que tinha trazido luz para sua vida ele achava compreensível à curiosidade. Pousou os talheres sobre a mesa e começou a ensaiar uma resposta.

- Hum... Acreditava... Não sei mais... Porque a pergunta?

A menina rapidamente responde.

- O pai da Clara disse que não. Disse que é uma forma das igrejas tirar dinheiro dos otários. Você acha isso?

Mexeu-se desconfortável na cadeira, olhou para os lados, e agora? Começava a discorrer sobre o ópio do povo e a corrupção dos religiosos? Ela era uma criança ainda, melhor não, pretendia que ela lesse Marx quando tivesse uns doze anos ao menos. Tentou algo mais simples.

- Tem uns que usam Deus e estão na igreja para enganar os outros. Outros realmente acreditam.

- E como nós sabemos quem faz isso, pai?

Boa pergunta, pensou. Coçou a cabeça e mais uma vez procurou uma resposta convincente. Essa historia de paternidade definitivamente era algo difícil demais:

- Bem, quem acredita em Deus faz o bem, ajuda as pessoas, então esses não enganam ninguém.

- E quem não acredita, não ajuda ninguém?

Putz. Eu sabia que ela ia perguntar isso. Essa pestinha deve está lendo aquelas páginas no feice com ateus criticando cristãos e vice versa só pode ser. Preciso me lembrar de vigiá-la melhor quando estiver conectada.

- Não, meu amor. Quem não acredita ajuda sim. Eu estava falando dos que enganam os outros.

- O pai da Clara falou que são todos otários.

- Acreditar ou não acreditar em algo não faz alguém ser otário, meu amor.

- Outro dia você falou que só sendo muito idiota para acreditar no PT, lembra?

Sim, eu lembro. Sim, eu preciso começar a prestar atenção no que eu falo na sua frente. Quem sabe fique mudo e não precise perder o meu almoço tentando explicar coisas complicadas. E sim, acreditar em algumas coisas somente sendo idiota, mas eu não vou lhe dizer isso agora.

- Eu falei na hora da raiva. Não são todos otários.

- Só alguns?

Suspirou com ar de paciência e não se conteve.

- Outros são espertos, mocinha. Espertos demais.

- São os espertos que enganam?

- Nesse país, a esperteza é sempre associada à desonestidade. Infelizmente. 

- Você ainda não falou se acredita em Deus ou não.

- Eu acreditava. Hoje em dia eu não sei mais se acredito.

- Porque não sabe mais?

- Porque não falo mais com ele. Um dia você vai passar por isso. Temos amigos que com o tempo não nos vemos mais e deixamos de nos falar. Deus é como se fosse um amigo que sumiu e o tempo foi passando fazendo com que eu deixasse de acreditar na sua existência.

- Vocês brigaram?

- Eu briguei com ele.

- Por quê?

- Na igreja que eu ia diziam que ele ia me ajudar. Mas as coisas foram ficando difíceis, eu pedia ajuda e nada. Um dia eu me revoltei e falei que não acreditava mais nele.

- Hummm

- Você já viu aquela foto que está no meu quarto né. A da mulher com um vestido vermelho.

- Já sim.

- Foi no dia que ela morreu que eu me revoltei.

- Então deixou de acreditar?

- Deixamos de nos falar.

- Ele deve ter ficado chateado. Você explicou a ele?

- Sim, naquele dia eu deixei bem claro os motivos. Sempre é bom a gente ser sincero. Dizer a verdade faz bem.

- O pai da Clara falou que Deus não existe. Vou falar pra ele que existe sim e você até conversava com ele.

- É por aí. Tem gente que acredita, outros não, alguns conversam com ele, outros rezam para ser escutados, tem gente que pede. Tem lugar para todo mundo nesse mundo.

- A Roberta disse que quem não acredita vai para um lugar ruim. A mãe dela que disse. Será que o pai da Clara vai pra lá?

- É porque a mãe dela acredita em uma religião que diz isso. Tudo é uma questão de acreditar.

- E quem está certo, pai?

- Quando você acredita em algo é porque acha que aquilo é certo. Acho que não tem ninguém errado.

- Nem por acreditar no PT?

Por pouco não se deixou levar e começou um discurso sobre a situação política no Brasil, mas, se conteve. Era só uma conversa de pai para filha, ela talvez um dia se lembrasse disso com carinho, não queria estragar aquele momento especial. Respirou fundo para a resposta.

- Nem. Se você acredita em algo e não prejudica ninguém por causa da sua crença não vai para um lugar ruim e podemos achar que ele não está errado.

- E se prejudicar?

- Aí nem precisa ir para um lugar ruim. Onde ele está será ruim.

- Se eu falar com Deus ele vai me escutar? Mesmo se eu não acreditar nele?

Boa pergunta, pensou. Gostaria de saber essa. Será que se eu consultar o google encontro alguma teoria filosófica, religiosa, sei lá o que. Estou quase começando a voltar acreditar só para pedir ajudar a ele nessa conversa. Apelou para uma mentira.

- Bem, se ele existir, vai te escutar sim. Quando eu ia pra igreja sempre me diziam que ele escutava todo mundo até quem não acreditava nele.

A menina se distraiu com a comida, provavelmente pensando em tudo que lhe havia sido dito. Apostava que iria voltar a esse assunto e era melhor se preparar para ter respostas melhores às perguntas que viriam. Será que tinha um tutorial no google que lhe ajudasse? Seria bom uma orientação. Talvez se perguntasse em um fórum ou perguntasse para alguma mulher. Sim, mulher entendia disso, ia perguntar para uma como respondia certo. Dessa vez tinha se saído mal, mas também, pego de surpresa tentou fazer o que podia.


Nenhum comentário:

Postar um comentário