- Pai, você acredita em Deus?
A pergunta o pegou de surpresa.
Carla desde que tinha chegado a sua casa tinha algo a perguntar. Natural,
adotada, com oito anos de idade tentava entender quem era aquele adulto que a
tinha buscado no orfanato e dado um lar. Logo deixou de chamá-lo pelo nome para
chamar de pai, o interrogava constantemente e isso não o irritava. Ah se
fosse com qualquer outra pessoa, mas aquela menininha que tinha trazido luz
para sua vida ele achava compreensível à curiosidade. Pousou os talheres sobre
a mesa e começou a ensaiar uma resposta.
- Hum... Acreditava... Não sei
mais... Porque a pergunta?
A menina rapidamente responde.
- O pai da Clara disse que não.
Disse que é uma forma das igrejas tirar dinheiro dos otários. Você acha isso?
Mexeu-se desconfortável na cadeira,
olhou para os lados, e agora? Começava a discorrer sobre o ópio do povo e a corrupção
dos religiosos? Ela era uma criança ainda, melhor não, pretendia que ela lesse
Marx quando tivesse uns doze anos ao menos. Tentou algo mais simples.
- Tem uns que usam Deus e estão
na igreja para enganar os outros. Outros realmente acreditam.
- E como nós sabemos quem faz
isso, pai?
Boa pergunta, pensou. Coçou a
cabeça e mais uma vez procurou uma resposta convincente. Essa historia de
paternidade definitivamente era algo difícil demais:
- Bem, quem acredita em Deus
faz o bem, ajuda as pessoas, então esses não enganam ninguém.
- E quem não acredita, não
ajuda ninguém?
Putz. Eu sabia que ela ia
perguntar isso. Essa pestinha deve está lendo aquelas páginas no feice com
ateus criticando cristãos e vice versa só pode ser. Preciso me lembrar de
vigiá-la melhor quando estiver conectada.
- Não, meu amor. Quem não
acredita ajuda sim. Eu estava falando dos que enganam os outros.
- O pai da Clara falou que são todos otários.
- Acreditar ou não acreditar em
algo não faz alguém ser otário, meu amor.
- Outro dia você falou que só
sendo muito idiota para acreditar no PT, lembra?
Sim, eu lembro. Sim, eu preciso
começar a prestar atenção no que eu falo na sua frente. Quem sabe fique mudo e
não precise perder o meu almoço tentando explicar coisas complicadas. E sim,
acreditar em algumas coisas somente sendo idiota, mas eu não vou lhe dizer isso
agora.
- Eu falei na hora da raiva.
Não são todos otários.
- Só alguns?
Suspirou com ar de paciência e
não se conteve.
- Outros são espertos, mocinha.
Espertos demais.
- São os espertos que enganam?
- Nesse país, a esperteza é sempre
associada à desonestidade. Infelizmente.
- Você ainda não falou se
acredita em Deus ou não.
- Eu acreditava. Hoje em dia eu
não sei mais se acredito.
- Porque não sabe mais?
- Porque não falo mais com ele.
Um dia você vai passar por isso. Temos amigos que com o tempo não nos vemos
mais e deixamos de nos falar. Deus é como se fosse um amigo que sumiu e o tempo
foi passando fazendo com que eu deixasse de acreditar na sua existência.
- Vocês brigaram?
- Eu briguei com ele.
- Por quê?
- Na igreja que eu ia diziam
que ele ia me ajudar. Mas as coisas foram ficando difíceis, eu pedia ajuda e
nada. Um dia eu me revoltei e falei que não acreditava mais nele.
- Hummm
- Você já viu aquela foto que
está no meu quarto né. A da mulher com um vestido vermelho.
- Já sim.
- Foi no dia que ela morreu que
eu me revoltei.
- Então deixou de acreditar?
- Deixamos de nos falar.
- Ele deve ter ficado chateado.
Você explicou a ele?
- Sim, naquele dia eu deixei
bem claro os motivos. Sempre é bom a gente ser sincero. Dizer a verdade faz bem.
- O pai da Clara falou que Deus
não existe. Vou falar pra ele que existe sim e você até conversava com ele.
- É por aí. Tem gente que
acredita, outros não, alguns conversam com ele, outros rezam para ser
escutados, tem gente que pede. Tem lugar para todo mundo nesse mundo.
- A Roberta disse que quem não
acredita vai para um lugar ruim. A mãe dela que disse. Será que o pai da Clara
vai pra lá?
- É porque a mãe dela acredita
em uma religião que diz isso. Tudo é uma questão de acreditar.
- E quem está certo, pai?
- Quando você acredita em algo
é porque acha que aquilo é certo. Acho que não tem ninguém errado.
- Nem por acreditar no PT?
Por pouco não se deixou levar e
começou um discurso sobre a situação política no Brasil, mas, se conteve. Era
só uma conversa de pai para filha, ela talvez um dia se lembrasse disso com
carinho, não queria estragar aquele momento especial. Respirou fundo para a
resposta.
- Nem. Se você acredita em algo
e não prejudica ninguém por causa da sua crença não vai para um lugar ruim e
podemos achar que ele não está errado.
- E se prejudicar?
- Aí nem precisa ir para um
lugar ruim. Onde ele está será ruim.
- Se eu falar com Deus ele vai
me escutar? Mesmo se eu não acreditar nele?
Boa pergunta, pensou. Gostaria
de saber essa. Será que se eu consultar o google encontro alguma teoria
filosófica, religiosa, sei lá o que. Estou quase começando a voltar acreditar
só para pedir ajudar a ele nessa conversa. Apelou para uma mentira.
- Bem, se ele existir, vai te
escutar sim. Quando eu ia pra igreja sempre me diziam que ele escutava todo
mundo até quem não acreditava nele.
A menina se distraiu com a
comida, provavelmente pensando em tudo que lhe havia sido dito. Apostava que
iria voltar a esse assunto e era melhor se preparar para ter respostas melhores
às perguntas que viriam. Será que tinha um tutorial no google que lhe ajudasse?
Seria bom uma orientação. Talvez se perguntasse em um fórum ou perguntasse para
alguma mulher. Sim, mulher entendia disso, ia perguntar para uma como respondia
certo. Dessa vez tinha se saído mal, mas também, pego de surpresa tentou fazer
o que podia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário