segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Revolução


      Neste momento, estou olhando pela janela a agitação na rua, com o sangue fervendo. Você sabe como eu me sinto nessas situações. Nas ruas, há pessoas com trajes civis portando armas pesadas. Se havia alguma dúvida, agora não há mais: o povo vai tentar tirar o governo do poder à força novamente. Não é a primeira vez na história do país que isso ocorre, mas a última vez já faz mais de quatro décadas, e poucos viveram esses tempos. Quem foi para a linha de frente agora talvez sejam os filhos e sobrinhos daqueles.

     Você já conhece um pouco dessa história. Quem é daquela época conta que o governo era corrupto, vivia no luxo enquanto o povo estava cada vez mais miserável. Eleito pelo voto direto, se beneficiava de uma democracia viciada para permanecer no poder, usando artifícios legais para a continuidade do mandato, como plebiscitos e prorrogações votadas por um congresso sempre disposto a atender suas exigências mediante o atendimento de suas demandas. Explorando os pobres e agradando a elite, começou a ser odiado e, como nada na vida é para sempre, um dia a população se cansou e foi protestar nas ruas. Eram poucos e foram reprimidos com violência; logo eram muitos, e o estado foi perdendo o controle até que o exército e os policiais ficaram ao lado do povo. O presidente caiu, e muitos sonharam com uma vida diferente.

     O governo foi deposto pelo exército, deu lugar a outro pregando a reconciliação nacional, e as pessoas voltaram para suas casas. Foi feita uma nova reforma na constituição e um novo presidente foi eleito. Muitos anos se passaram, o país progrediu, mas as estruturas não foram mudadas. Desde então, cada governo dava atenção aos pobres e enriquecia mais os ricos, agradando a ambos os extremos e evitando problemas. Mas a burguesia se ressentia disso, não aceitava ver seus impostos sendo gastos com a parte mais desfavorecida, vendo-a ascender socialmente, e apoiou um golpe de estado, levando ao poder alguém que se adequava aos seus interesses.

    Nos últimos quinze anos, a proteção social da classe baixa foi diminuída paulatinamente, enquanto o número de pobres e miseráveis voltava a subir dramaticamente. A burguesia voltou a controlar o ensino superior e os gastos dos impostos. Os ricos, mais uma vez, não foram afetados em nada e lavaram as mãos perante a situação. A parte de baixo da pirâmide social, levada a uma situação desesperadora, não aguentou mais, se armou e foi para as ruas, como seus pais e avós fizeram há muito tempo.

    Um dia, alguém vai dizer que o início disso tudo foi pelas redes sociais, mas não saberá dizer como ou quem começou, somente que a indignação na internet foi ridicularizada e vista como mais uma sem efeitos maiores. Uma manifestação foi marcada e apareceram poucas pessoas, solenemente ignoradas e dispersadas pela polícia. Na outra semana, as duas maiores cidades tiveram outros protestos, sempre combinados no mundo virtual, dessa vez com mais gente e com uma repressão maior. Imagens de pessoas sendo agredidas foram parar no YouTube, e quando o governo se deu conta, a indignação popular explodiu descontroladamente, levando as pessoas para as ruas, pedindo mudanças, e os acontecimentos foram se precipitando. Foi formado um exército irregular disposto a lutar pela libertação deste país.

    Essa é a situação há semanas, e nesse tempo eu fiquei apenas observando, esperando os acontecimentos, rezando para que os políticos consigam um acordo que faça o povo voltar para suas casas com as armas guardadas. Não sou idiota e já vivi muitas guerras; sei o quanto elas são cruéis, e uma guerra civil coloca irmãos contra irmãos, rachando para sempre uma nação. Mas já não consigo me manter neutro, e escolhi meu lado, o do povo, o nosso povo. Por ele vou lutar, e espero seu perdão por ter largado tudo para mais uma vez ir para o campo de batalha. Sei que lhe prometi nunca mais fazer isso, mas desta vez é por um bom motivo. Se um dia tivermos filhos, quero que cresçam em um país melhor, e morreria de vergonha se eles me perguntassem o que eu fiz nessa época e minha resposta fosse “não fiz nada”.

   Quando você ler esta carta, eu estarei bem longe e peço perdão por isso. Mas me entenda, detesto despedidas, já te falei isso muitas vezes. Consola-me saber que não será surpresa para ti. Nas últimas semanas, sabíamos que era questão de tempo até eu ser mais um dos revolucionários a lutar contra o governo. Várias vezes você me viu olhando as lembranças do meu pai e limpando minha arma.

   Olhe pela sua janela e verá o povo nas ruas, pedindo liberdade e mudanças. Eu quero fazer parte disso, como meu pai fez. Prometo me cuidar para retornar aos seus braços, se depois disso tudo ainda me quiser. Cuide-se, evite sair de casa e reze para que essa revolução seja breve, para que nosso país seja um lugar bom para nossos filhos viverem. Eu prometo tentar voltar e, se não conseguir, guarde esta carta para lembrar de mim.

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