Escrever este diário se tornou uma terapia. Aqui nas folhas, coloco capítulos desta história que pretendo finalizar com a sua volta. Sim, te aguardo todos os dias, sem vacilar, com a certeza da fé. Se te conheço bem, vai reclamar disso, resmungar só para não reconhecer o quanto está feliz com a minha espera. Te conheço, sou uma das poucas pessoas que te conhece bem.
Faltam poucos dias para a Copa, mas a cidade ainda está entrando no clima. A demora na empolgação talvez tenha sido causada pelas manifestações do ano passado, patrulhamento ideológico ou desmandos governamentais. Não sei dizer; eu sou das exatas, lembra? Das humanas aqui em casa é você. Tenho certeza que, se estivesse aqui, teria boas explicações a respeito dessa demora. Arrisco-me a dizer que os brasileiros sentem certo medo do que pode acontecer quando os jogos começarem ou demoraram a acreditar que realmente vai ter Copa, mesmo com todos os problemas e falhas na organização.
A casa está enfeitada conforme você sempre gostou. Comprei bandeirinhas, plásticos, cortei e, com a ajuda da Júlia, fiz e coloquei os enfeites na varanda e janelas. Quem sabe você volta a tempo de ver conosco esta Copa do Mundo. Sua filha está empolgada, ansiosa. A pequena já me fez mil perguntas sobre a Copa do Mundo. Tive que me informar na internet para não fazer feio. Ah, se estivesse aqui, nem precisaríamos da ajuda do Google.
Eu fiz dois álbuns de figurinhas, um para a Júlia e outro para você. Está guardado aqui, junto com as coisas que deixou quando partiu dizendo que voltava em breve. Por que ainda não voltou? Por que não dá notícias? Sempre me disseste que não era homem de sumir sem avisar. É isso que me conforta; a pessoa que eu conheci não é capaz de ser covarde a ponto de desaparecer, deixando eu e sua filha esperando.
Ela te espera, sinto isso, mesmo que não fale. Nesse ponto, é igual ao pai: não fala, guarda lá dentro o que sente, quieta. Eu pergunto, jogo indiretas, insinuo, mas ela não se abre. Me olha com aquele maldito jeito que sabe muito bem qual é, porque é seu, e muda de assunto.
Lembra quando discutíamos com quem ela parece mais? Exteriormente, é mais comigo, mas o sorriso, o jeito de olhar, o jeito de me enrolar é seu. Só pode ser genético, ou uma bênção de Deus, a forma que ele encontrou para eu não te esquecer.
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