quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Um Conto de Natal (II)

      Tinha dinheiro e podia ter tudo o que ele poderia comprar, no entanto lhe faltava muito e sofria por isso. Um dia leu sobre um projeto social em uma favela, as pessoas daquele lugar tinham se unido e estavam tendo pequenas conquistas, procurou saber mais e quando percebeu estava batendo na porta do projeto perguntando como poderia ajudar.
    Foi olhada com desconfiança a princípio, parecia ser mais um “turista” indo ver favelados em seu habitat natural como os pesquisadores observam animais na floresta, perguntaram se era política ou de alguma igreja e diante das negativas alguém foi direta:
   - Olha não me leve a mal não. Mas se não é política, da igreja, porque está aqui? Curiosidade em conhecer como é uma favela? É isso?
   - Não, não é isso, não me entendam mal. Eu vi uma reportagem sobre o projeto de vocês e queria saber como ajudar.
   - Madame, se você quiser doar dinheiro, ninguém aqui vai rejeitar. Se quiser ajudar de outra forma aqui nunca falta trabalho.
   Poderia dá o dinheiro somente e retornar para sua casa, seu mundo luxuoso, onde tudo era diferente. Ficou e engolindo seu orgulho pela primeira vez em muito tempo pediu e não deu uma ordem. Queria fazer parte daquele trabalho, poderia trabalhar igual às pessoas ali faziam. Foi aceita e se tornou mais uma mão a construir um futuro melhor, sua posição social e seu dinheiro ali não valia de nada.
  Desde esse dia sempre retornou, tornou-se conhecida e aos poucos foi se integrando ao lugar, sempre participando das festas promovidas por aquela gente. Por isso estava ali hoje, era o dia vinte e quatro de dezembro, a festa de natal e lá estava mais uma vez participando como em outros anos.
  O salão estava cheio de crianças barulhentas, o som alto tocava um pagode desses tão ao gosto popular enquanto as mulheres enfeitavam ou mostravam aos homens onde colocar as mesas e cadeiras. Ficou olhando em volta, alguém gritou seu nome e se pôs a trabalhar junto com todos. À tarde a festa finalmente começou, as crianças se divertiam, estavam felizes como deveria ser sempre, muitas tinham o pai ausente (desconhecido, preso ou morto), poucos motivos para sonhar e para sorrir. Cada sorriso deles era uma forma de alegrar o seu coração, ali ela não era a madame que ordenava e sim a tia sendo puxada pela mão para tirar uma foto de lembrança. A importância ali não era por causa do dinheiro ou do status e sim por fazer parte da relação social daquele lugar, se a pessoa era querida, solidária e participativa então tornava-se importante.

(Continua)

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