— Era para você ter sido minha nora.
A voz e o rosto da velhinha bonachona ainda estavam em sua lembrança. A frase nunca esquecida soava em sua mente a cada noite fria. Era um martelo batendo em uma ferradura, causando um barulho que gostaria de não mais escutar.
Quando o passado é mais forte do que o presente e temos medo do futuro, é porque não estamos bem. Ele costumava dizer isso com aquela entonação usada quando queria falar algo sério. Lembrava dos olhos fitando o nada e as palavras saindo da boca sem demonstrar emoção, sem demonstrar sentimentos. Ah, mas ela sabia o que ele sentia; ela sabia tantas coisas dele, sabia o que ele deixou saber e o que ela descobriu sem ele perceber. Sabia demais, pensou.
Foi para a sacada e acendeu um cigarro. E se tudo tivesse sido diferente? Fez-se a pergunta pela milésima vez. Uma sessão de tortura cotidiana. Flagelava-se na tentativa de se purificar pela dor. Quem sabe um dia iria conseguir. As respostas vinham à sua mente com a velocidade de um trem-bala, conhecidas e duvidosas, e lá ficavam até qualquer hora.
Abriu a porta e foi para a rua. O frio maltratou seu rosto descoberto e a fez esquecer seus fantasmas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário