sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Conselho de Guerra

 Não fujo das decisões, desde que assumi o trono e comecei a governar sempre decidi o que achava ser melhor para todos assumindo todas as responsabilidades. O reino não é uma democracia, sou eu quem manda a palavra final sempre será minha  e nem sempre levo em conta a vontade da maioria.
 Algumas vezes recorro ao conselho (formado por todos os comandantes da ativa e reserva) para me orientar sobre o que eu devo fazer, é quando estou em dúvidas ou acho que necessito de opinião alheia em relação a algum assunto. Nessa situação os conselheiros se reúnem (sem a presença do rei) e discutem a situação votando uma recomendação para a situação apresentada,  então o soberano pode acatar ou seguir o seu pensamento assumindo as responsabilidades desse ato.  
O conselho de guerra começou durante a noite e varou a madrugada, estavam lá todos os generais do reino tentando chegar a uma decisão, o tempo passou e eu novamente entrei na sala. Não tendo nenhuma decisão sido tomada novamente começaram as deliberações, agora com a minha participação, um fato raro o que demonstra o quanto a situação é grave.
Quando me sentei e comecei a ouvir o comandante do décimo quarto batalhão ele falou aquilo que a julgar pelas expressões na sala ninguém queria dizer: 

- Não existe lugar seguro no reino. Fomos atacados por inimigos e traídos por amigos, meus soldados sempre estão expostos a perigos constantes. Algo tem de ser feito urgentemente, todos os dias temos baixas, o terror está instalado entre os nossos e os civis começam a migrar com medo. Não estou lamentando a sorte e sim constatando a nossa situação crítica na atualidade.

Não houve questionamentos, alguns acenaram à cabeça concordando e então o Cmt do 4º falou:

- Concordo, mas o que vamos fazer? Atacar nossos inimigos mesmo estando com o nosso exército fraco? Isso não me parece uma boa opção, já tivemos muitas perdas e iríamos ficar pior do que já estamos.

Todos se põem a falar sem serem entendidos uns pelos outros, até que a ordem retorna a reunião para que se possa deliberar novamente. Dessa vez quem começa a discursar é o comandante mais velho do reino, veteranos de muitas batalhas e muito respeitado. Com firmeza, encarando cada um nos olhos ele começa a falar:

- Passamos a noite deliberando, e eu não abri a boca, escutei a todos vocês cada qual com argumentos valorosos e eu respeito cada opinião, agora peço licença para falar.
O dia amanheceu e agora temos aqui o rei e sem nenhuma decisão, algo raro, mas fica evidente que tudo se resume ao dito pelos dois últimos comandantes. Fomos atacados de maneira feroz, tivemos que nos defender e mesmo assim os danos foram enormes. Hoje o reino tem territórios ocupados e outros perdidos de vez, os suprimentos já começam a ficar escassos. Para resolver isso à solução é atacar o inimigo, sair da defensiva e assumir os riscos dessa atitude. Não adianta a gente se enganar querendo alternativas, não temos. Ou atacamos e tentamos expulsa-los de nossas terras ou vamos permanecer ocupados recebendo ataques constantes, bem sei das nossas condições atuais e dos riscos de tomarmos uma decisão beligerante, mas sempre fomos valentes porque agora não estamos sendo? Quantas vezes lutamos em situações adversas e vencemos? É necessário viver o presente e não esquecer o passado e quando a gente olha para o nosso passado sempre temos várias histórias de superações para contar. Se alguém esqueceu disso, eu não e por isso não temo mais uma vez está em desvantagem, não é a primeira vez e nem será a última.

Quando se calou e se sentou, novamente várias vozes foram ouvidas ao mesmo tempo não permitindo o entendimento de ninguém enquanto todos queriam se fazer ouvir. Foram necessários alguns minutos para que mais uma vez a ordem fosse restabelecida e a palavra foi dada ao Comandante conhecido como “o sábio" por sua sensatez. Levantou-se e começou a discursar

- Pode parecer estranho para um guerreiro, mas eu não gosto das guerras, prefiro a paz. E minha preferência não é por covardia, pois graças a Deus eu nunca senti isso e nem por medo, pois o sinto desde que ergui uma arma há décadas atrás e nunca me recusei a lutar. Prefiro-a porque quando se guerreia são poucas vezes que o vencedor não tem algo a lamentar, muitas vezes o preço é alto demais e não vale a pena. Sim, eu sei, muitos estão com raiva e querem vingança e por isso estão dispostos a pagar o preço, mas outros ainda não se recuperaram de batalhas anteriores e por isso ainda tem dúvidas quanto a mais uma vez entrar em guerra.
A todos vocês, eu tenho a dizer que estou cansado de ser atacado em meus domínios, de ver meus soldados serem mortos dentro dos nossos territórios onde deveríamos está em segurança. É hora de a gente mostrar que nossa fama não é falsa e mexer com a gente não é uma boa opção. Sempre fomos respeitados e temidos e hoje o que mudou? Deixamos de ser fortes? Não acredito nisso e se alguém me convencer disso eu juro me calar e aceitar qualquer proposta de paz.

Sentou-se recebendo aplausos calorosos, alguns deixavam claro com palavras e gestos a sua empolgação. O sábio pareceu ter conseguido alcançar a maioria e com isso termos uma decisão. Quem pediu a palavra agora era um da jovem guarda digamos assim, alguém que tinha subido rapidamente na hierarquia militar  sendo um jovem para aquele posto. Todos se calaram para ouvi-lo.

- Quisemos a paz e mesmo assim não nos respeitaram. Oferecemos a nossa amizade e mesmo assim nos tomaram o que tínhamos, tentamos acordos de paz e preferiram nos atacar. É hora de mudar, de voltarmos a ser temidos, de a nossa força voltar a ser conhecida porque tentamos ser pacíficos e isso foi confundido com  covardia. Basta meu rei dá a ordem que está preparado para lutar e creio que comigo estarão outros guerreiros. 

Os aplausos dessa vez foram altos e longos. Estava claro, a decisão tinha sido tomada, mas mesmo assim pedi para  a votação ser feita conforme mandava a tradição. Cada general deu seu voto e explicou o porquê da sua decisão. Alguns justificavam mais longamente outros com poucas palavras, a maioria decidiu por atacar nossos inimigos aceitando todas as conseqüências desse ato. Foi informado a mim a decisão então declarei o conselho encerrado dizendo a última fala dele: 

- A partir de agora começa os preparativos e declaro desde já estarmos em estado de guerra. Cada um de vocês se prepare para os tempos difíceis que virão, mas já não é mais tempo de dá a outra face. Tentamos viver em paz e não conseguimos, tentamos apenas nos defender e acharam que podiam nos humilhar por isso, tentamos acordos diplomáticos e assinaram hoje para romper amanhã. Agora chega, é hora  de a espada ser desembainhada,  o fuzil ser erguido,  a lança ser empunhada,  que nossos inimigos tremam quando ouvir nossos nomes e a notícia  que estamos de volta ao campo de batalha, nossos soldados lutem com honra.
Desejo a proteção de Deus para os religiosos, a proteção das armas para os ateus e nossa vitória contra quem ficar em nosso caminho.

A reunião acabou e eu me despedi de todos, até agora tínhamos sido atacados e nos limitamos a nos defender sem conseguir alcançar o objetivo de proteger as nossas fronteiras. Agora, era hora de atacar, mostrar para quem nos subestimou o porquê da nossa fama e do temor despertado em outras ocasiões. 

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