Não fui feito para lugares sofisticados ou que pareçam sempre estar em paz. Nasci e vivi por muito tempo em um bairro pobre onde o dia a dia era uma guerra constante, aos dezoitos anos me alistei no exército para nunca mais sair. Desde então vivo em guerras, sem pouso certo, freqüentando lugares que muita gente teria temor só de olhar as fotos, tendo poucos momentos de paz e muitos de tensão. Aprendi com o tempo a conviver com a falta de tranqüilidade, sempre pronto para o pior, sem dar chances ao inimigo mesmo que esse não esteja visível para mim.
Não sou o tipo que é convidado para festas elegantes com homens falando sobre negócios e contando suas glórias para mulheres bem sucedidas, vestidas com roupas de grifes com seus perfumes caríssimos. Meu mundo é outro, onde eu me sinto bem e faço questão de fazer parte, locais bem diferentes de onde estou agora e por mais que não entenda, gosto de vir aqui.
Um bairro para gente que tem dinheiro, um apartamento só é vendido por indicação nunca tem anúncio no jornal, à praia é linda e tem um ar de paz constante que me seduz.
Venho às vezes, olho o horizonte, caminho pela areia, vejo idosos com suas peles brancas e rolex no pulso gozando uma velhice tranqüila, enquanto eu não chegarei aos quarenta anos. Duvida? Eu saio fora antes de completar essa idade, aposto o que quiser sem medo de perder, e se Deus me deixar sem condições de lutar aqui na terra eu mesmo providencio minha partida.
Uma criança anda pelo calçadão acompanhada de uma mulher vestida de branco, deve ser babá, o uniforme sendo mais uma forma dos patrões diferencia-la, penso comigo. A criança dá risadas enquanto sai correndo, eu fico olhando sem pensar no futuro, faço isso sem esforço, há vivo cada minuto de uma vez, fazendo planos para serem realizados no máximo em uma semana.
As ondas batem nas pedras, barulhentas, luta incessante do rochedo contra o mar, penso sorridente, assim como eu em batalha constante contra tudo e todos, travadas por um país, por dinheiro ou guerras no dia a dia envolvendo amigos, amores, conhecidos. Essas doem mais, pois quando perdemos fica a sensação de uma vida fracassada, de você ter falhado em algo que poderia ter sido evitado. Nas guerras do exército pode-se culpar o comandante, os políticos, ou quem sabe uma derrota honrada com a gente saindo sabendo que ao menos um estrago foi feito. E na vida, quando o comandante somos nós, nossa consciência muitas vezes se transforma em corte marcial sem clemência, condenando sem segunda chance. Um dia deixo de lutar, um dia terei paz.
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