sexta-feira, 15 de março de 2013

Madrugada



   Outra madrugada insone em um lugar com a janela aberta, dando para um muro de concreto, frio e silencioso, sem nem ao menos um vento no rosto. Está frio; madrugadas são frias. Eu gostava disso. Ah, como eu gostava de sentir essa friagem enquanto caminhava de volta para casa. A mente diz que eram bons tempos, mas é mentira. É apenas saudosismo, idealizando e romantizando o passado. Não eram tão bons, mas eu gostava daquela vida que já não tenho mais. Talvez seja por isso que o que não temos e não podemos mais ter é o que nos faz muita falta e nos faz sentir saudades.
     Eu não fumo, nunca fumei, mas hoje eu queria um cigarro, um copo de bebida em uma sacada qualquer, olhando a madrugada, a rua, a lua, o céu. Queria poder refletir sobre o rumo que minha vida tomou, quando perdi o controle dessa forma. Em vez de conduzir, passei a ser conduzido por uma série de acontecimentos pelos quais sou culpado pelas pessoas que convivem comigo.
    Fico me imaginando com o cigarro na boca. Sou bom de imaginação. Quando criança, viajava dessa forma e mantive o costume até os dias atuais, embora agora, bem menos. A realidade está sempre desesperadamente presente, evitando que meus esforços sejam para qualquer coisa que não lidar com o mundo real.
    O copo imaginário na outra mão enquanto a fumaça sobe, um sorriso cínico no rosto de alguém acostumado a desafiar qualquer um. Basta achar que a batalha vale a pena. Olhando para a vida e como um Muhammad Ali gritando "me bate, me bate que eu não caio". É o que resta, é o que sei fazer de melhor.

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