Carla, a menina que agora alegrava a casa (embora só admitisse isso sob pressão e para poucos) tinha chegado com um sorriso perguntando "quando vai me levar ao carnaval?" e seu rostinho ficou sombrio quando respondeu:
- Pra onde?
- Curtir o carnaval. A Clara disse que o pai dela vai viajar e eles vão pular o carnaval fora. O André vai com a mãe dele no bloco do Bola Preta...
- Cordão do Bola Preta.
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- Isso, a Clarissa em um baile no clube...
- Não precisa dizer o nome de todos os seus amigos.
- E então?
- Detesto o carnaval. Muito barulho, violência, gente bêbada.
- Eu vi na televisão as pessoas felizes. Queria ir.
- Alegria forçada. Depois que acaba todo mundo volta aos seus problemas e fica reclamando da cidade, do país, de tudo.
- Alegria forçada é melhor do que tristeza forçada.
Ficou calado. Onde essa menina tinha aprendido a responder desse jeito? Crianças de hoje em dia são abusadas, no seu tempo se respondesse a um adulto dessa forma tomava umas palmadas e ficaria de castigo. A voz de um adulto era lei sem contestações, mas esse mundo está de ponta-cabeça, tudo culpa desses degenerados. Respirou fundo para não responder com grosseria.
- Você é uma criança e essas festas que viu na televisão não são para crianças e sim para adultos. Tem bebidas, brigas, um monte de coisas ruins.
- Você também acha que é coisa do diabo igual à mãe da Carminha?
- Não, eu acho que é coisa dos homens mesmo.
- Eu vi no Facebook um monte de crianças fantasiadas. Vi na televisão também. Só eu que não vou, todo mundo vai.
- Você não é todo mundo.
- Eu sei. Sou diferente.
- Por que diferente?
- O Luam que falou.
- Falou o que?
- Que eu era adotada ao contrário dos outros e que quem tinha me adotado era um cara velho e por isso eu era diferente deles.
- Mas que filho da mãe!
- Pai!! Não pode falar palavrão.
- E quem falou que não pode?
- Você mesmo. Não lembra.
- A regra vale para você e não para mim. Vá se arrumar para irmos ao carnaval. Velho, filho da mãe, até parece que eu sou um idoso.
- Tem que ter fantasia e eu não tenho.
E foi assim que resmungando de tudo e prometendo a si mesmo ser a última vez que se deixava enrolar por aquele rosto angelical é que enfrentou o tumulto da Saara e conseguiu comprar uma fantasia infantil, quase xingando a vendedora gentil que lhe perguntou se pra ele não ia comprar nada, pesquisou na internet algum bloco de rua que tivesse um ambiente familiar e se obrigou a participar dos festejos de Momo.
Enquanto sua menina tinha um sorriso lindo e certamente se divertia, ele se perguntava o quanto ela tinha sido verdadeira e o quanto tinha sido chantagista emocional, e sorria.
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