sábado, 1 de março de 2014

Carla e o Carnaval

    Odiava o carnaval. Não era daqueles que compartilhava vídeos e opiniões de jornalistas loiras imbecis ou que enchia a paciência dos seus amigos com aqueles cartazes ridículos no Facebook, simplesmente não achava divertido tudo aquilo que outros diziam ser. Olhava os blocos com aquela multidão e torcia o nariz, não aguentava assistir dez minutos de desfile na Sapucaí, viajar só se fosse para o exterior, definitivamente nada o atraía na festa popular e mesmo assim lá estava ele preparado para ir a uma festa de rua se perguntando como tinha sido convencido a isso.
    Carla, a menina que agora alegrava a casa (embora só admitisse isso sob pressão e para poucos) tinha chegado com um sorriso perguntando "quando vai me levar ao carnaval?"  e seu rostinho ficou sombrio quando respondeu: 
  
    - Pra onde?

    - Curtir o carnaval. A Clara disse que o pai dela vai viajar e eles vão pular o carnaval fora. O André vai com a mãe dele no bloco do Bola Preta...

   - Cordão do Bola Preta.
I
   - Isso, a Clarissa em um baile no clube...

   - Não precisa dizer o nome de todos os seus amigos.

   - E então?

   - Detesto o carnaval. Muito barulho, violência, gente bêbada.

   - Eu vi na televisão as pessoas felizes. Queria ir.

   -  Alegria forçada. Depois que acaba todo mundo volta aos seus problemas e fica reclamando da cidade, do país, de tudo.

    - Alegria forçada é melhor do que tristeza forçada. 

    Ficou calado. Onde essa menina tinha aprendido a responder desse jeito? Crianças de hoje em dia são abusadas, no seu tempo se respondesse a um adulto dessa forma tomava umas palmadas e ficaria de castigo. A voz de um adulto era lei sem contestações, mas esse mundo está de ponta-cabeça, tudo culpa desses degenerados. Respirou fundo para não responder com grosseria.

    - Você é uma criança e essas festas que viu na televisão não são para crianças e sim para adultos. Tem bebidas, brigas, um monte de coisas ruins.

    - Você também acha que é coisa do diabo igual à mãe da Carminha?

   - Não, eu acho que é coisa dos homens mesmo.

   - Eu vi no Facebook um monte de crianças fantasiadas. Vi na televisão também. Só eu que não vou, todo mundo vai.

  - Você não é todo mundo.

  - Eu sei. Sou diferente.

  - Por que diferente?

  - O Luam que falou.

 - Falou o que?

 - Que eu era adotada ao contrário dos outros e que quem tinha me adotado era um cara velho e por isso eu era diferente deles.

  - Mas que filho da mãe!

  - Pai!! Não pode falar palavrão.

 - E quem falou que não pode?

 - Você mesmo. Não lembra.

  - A regra vale para você e não para mim. Vá se arrumar para irmos ao carnaval. Velho, filho da mãe, até parece que eu sou um idoso.

  - Tem que ter fantasia e eu não tenho. 
  
  E foi assim que resmungando de tudo e prometendo a si mesmo ser a última vez que se deixava enrolar por aquele rosto angelical é que enfrentou o tumulto da Saara e conseguiu comprar uma fantasia infantil, quase xingando a vendedora gentil que lhe perguntou se pra ele não ia comprar nada, pesquisou na internet algum bloco de rua que tivesse um ambiente familiar e se obrigou a participar dos festejos de Momo. 
  Enquanto sua menina tinha um sorriso lindo e certamente se divertia, ele se perguntava o quanto ela tinha sido verdadeira e o quanto tinha sido chantagista emocional, e sorria.

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