sábado, 22 de fevereiro de 2014

Só o Amor Resolve

- E agora?

- Ame.

- Hã? Amar quem? Esqueceu que não tenho ninguém. Estou sozinho nessa merda de mundo.

- Sozinho não está. Tem seus parentes...

- Ora bolas, cada um deles tem a sua vida e eu estou à margem. Você sabe muito bem de qual solidão estou falando. Não se faça de tonto.

- Tem gente em situação pior.

- Pqp, eu sei, não precisa me dizer. Comparar a dor que eu sinto com a dor dos outros não melhora a situação.

- É verdade.

- Tudo está dando errado. Nunca passei por isso antes.

- Eu sei que não.

- E o que eu faço?

- Ame. Tem gente precisando de conforto, conforte-o. Outros precisam de uma refeição, ajude-o. Desabrigados precisam de ajuda, animais de um lar, pessoas de uma palavra carinhosa, crianças de um protetor. Faça isso. Saia do seu mundo e olhe o do seu próximo.

- Isso não vai aplacar a minha dor. Sinto, mas eu sou egoísta, quero resolver primeiro meus problemas e não os dos outros. Estou sofrendo demais para me preocupar com o alheio.

- Você não vai conseguir resolver seus problemas a curto prazo, sua situação é difícil, não existem soluções fáceis. Fechando-se é como não permitir a luz do sol em sua alma permitindo que detritos apodreçam e te faça mal. Abra seu coração, o amor é mágico, ele pode curar feridas. Acredite em mim.

- O quer que eu faça? Funde uma ONG? Saia por aí dando comida a mendigos? Não é a minha cara fazer isso. Não sou um Francisco de Assis, porra. 

- Faça um pouco todo o dia. Em frente a sua casa tem um idoso que mora sozinho, quantas vezes você deu um bom dia para ele? Um sorriso é o que ele precisa e não custa muito. Passar por ele pensando apenas em si não é bom para nenhum dos dois. Não lhe digo para fazer o máximo que pode, apenas o mínimo. Todos os dias se procurar encontrará quem precisa de amor, divida um pouco de si, fará bem aos dois. Existem aquelas pessoas que fazem muito e outras pouco mas elas estão fazendo algo. É isso que te peço, faça algo por eles e estará fazendo a ti.

- Não sou uma pessoa simpática. Nunca gostei de mostrar afeto, não me vejo na rua distribuindo amor para estranhos.

- Tente. É o que eu tenho a dizer. Tchau.

- Ei, espera. Temos ainda o que conversar.

- Quando precisar novamente estarei aqui ao seu lado. Agora não é mais comigo, já lhe dei a solução.

Despediram-se e cada um seguiu seu caminho. Amar era tão difícil, não estava disposto a isso, a última vez que tinha se entregado a esse sentimento não tinha sido uma experiência agradável. Mas o que fazer? Ficar fechado em seu mundo, bancando o durão não estava lhe fazendo bem. Todo dia sorvia o amargor e só se acalmava quando a noite chegava e ia dormir. 

Foi andando pela rua e viu um neném em um carrinho, esboçou um sorriso tímido e ensaiou um gesto carinho para o bebê, recebeu de volta um sorriso da mulher que acompanhava a criança. Talvez não fosse tão difícil ser agradável com desconhecidos, pensou. Talvez a dor passasse um dia.

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