- E agora?
- Ame.
- Hã? Amar quem? Esqueceu que
não tenho ninguém. Estou sozinho nessa merda de mundo.
- Sozinho não está. Tem seus
parentes...
- Ora bolas, cada um deles tem
a sua vida e eu estou à margem. Você sabe muito bem de qual solidão estou
falando. Não se faça de tonto.
- Tem gente em situação pior.
- Pqp, eu sei, não precisa me
dizer. Comparar a dor que eu sinto com a dor dos outros não melhora a situação.
- É verdade.
- Tudo está dando errado. Nunca
passei por isso antes.
- Eu sei que não.
- E o que eu faço?
- Ame. Tem gente precisando de
conforto, conforte-o. Outros precisam de uma refeição, ajude-o. Desabrigados
precisam de ajuda, animais de um lar, pessoas de uma palavra carinhosa,
crianças de um protetor. Faça isso. Saia do seu mundo e olhe o do seu próximo.
- Isso não vai aplacar a minha
dor. Sinto, mas eu sou egoísta, quero resolver primeiro meus problemas e não os
dos outros. Estou sofrendo demais para me preocupar com o alheio.
- Você não vai conseguir
resolver seus problemas a curto prazo, sua situação é difícil, não existem
soluções fáceis. Fechando-se é como não permitir a luz do sol em sua alma
permitindo que detritos apodreçam e te faça mal. Abra seu coração, o amor é mágico,
ele pode curar feridas. Acredite em mim.
- O quer que eu faça? Funde uma
ONG? Saia por aí dando comida a mendigos? Não é a minha cara fazer isso. Não
sou um Francisco de Assis, porra.
- Faça um pouco todo o dia. Em
frente a sua casa tem um idoso que mora sozinho, quantas vezes você deu um bom
dia para ele? Um sorriso é o que ele precisa e não custa muito. Passar por ele
pensando apenas em si não é bom para nenhum dos dois. Não lhe digo para fazer o
máximo que pode, apenas o mínimo. Todos os dias se procurar encontrará quem
precisa de amor, divida um pouco de si, fará bem aos dois. Existem aquelas
pessoas que fazem muito e outras pouco mas elas estão fazendo algo. É isso que
te peço, faça algo por eles e estará fazendo a ti.
- Não sou uma pessoa simpática.
Nunca gostei de mostrar afeto, não me vejo na rua distribuindo amor para
estranhos.
- Tente. É o que eu tenho a
dizer. Tchau.
- Ei, espera. Temos ainda o que
conversar.
- Quando precisar novamente
estarei aqui ao seu lado. Agora não é mais comigo, já lhe dei a solução.
Despediram-se e cada um seguiu
seu caminho. Amar era tão difícil, não estava disposto a isso, a última vez que
tinha se entregado a esse sentimento não tinha sido uma experiência agradável.
Mas o que fazer? Ficar fechado em seu mundo, bancando o durão não estava lhe
fazendo bem. Todo dia sorvia o amargor e só se acalmava quando a noite chegava
e ia dormir.
Foi andando pela rua e viu um
neném em um carrinho, esboçou um sorriso tímido e ensaiou um gesto carinho para
o bebê, recebeu de volta um sorriso da mulher que acompanhava a criança. Talvez
não fosse tão difícil ser agradável com desconhecidos, pensou. Talvez a dor
passasse um dia.
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