domingo, 11 de agosto de 2013

Pai

Eram pequenos cadernos com páginas datilografadas. Cada um dos cadernos tinha um ano na capa, e lá dentro estavam algumas datas com anotações. Um diário, pensou, não aquele que sempre vem à mente quando citamos um. Não era escrito à mão; parecia ter sido digitado em um computador e não parecia ser organizado. Misturavam-se ali coisas pessoais com acontecimentos no mundo e no seu país. Em uma mesma data, tinha algo pessoal escrito junto com outro fato totalmente diferente. Dava para entender, é claro, mas isso o distanciava da imagem que ela tinha de um diário.

Ficou folheando alguns anos, leu mágoas e alegrias, descobriu como ele havia se sentido diante de alguns acontecimentos, sorriu. Era como se fosse um Forrest Gump contando a história a partir daquelas páginas, e percebeu que os anos se sucediam até o dia da sua morte. Inconscientemente procurou o ano da sua chegada ali. Tinha a esperança de ser citada e um medo de descobrir o que não queria. Se quisesse que ela visse, tinha avisado antes de morrer sobre a existência dos cadernos. Parecia estar cometendo uma invasão de privacidade, mas não ia desistir pelo meio. Era curiosa e agora ia até o final.

Achou o ano e, trêmula, começou a leitura. Já não lembrava o mês que tinha chegado, por isso ficou lendo data por data até encontrar. Uma nota fria informava que tinha decidido dar guarida a uma menina que, morando em um orfanato, tinha suas chances de ser adotada reduzidas. Era um texto frio, sem emoção. Entristeceu-se, mas não se surpreendeu. O escrito era exatamente como o escritor vivia a vida, sem mostrar muitos sentimentos, uma pessoa dura.

Ia desistir. Para que reabrir velhas feridas? Aquilo ali tinha sido largado para ser esquecido. O lugar adequado dele realmente era aquele baú velho sem ninguém abrir. Teimosamente, pegou outro ano aleatoriamente e, se recriminando por isso, começou a leitura. Era o ano do seu primeiro namorado, e ele escrevia que tinha sentido ciúmes, mas o garoto parecia ser legal. Sorriu, mal se lembrava desse namorico. Não tinha durado muito, e ele tinha dado tanta importância que tinha escrito sobre o fim do relacionamento e a preocupação para que não ficasse triste.

O tempo ia passando, os acontecimentos se acumulando, e para cada um que a envolvesse, ele dedicava algo. Ali, descobriu que ele chorou no banheiro, escondido, quando ela se formou, e para não deixar que percebessem, lavou o rosto e se controlou quando foi lhe dar um beijo. Quando foi para a mesa de operação por causa de uma apendicite, o velho, duro na queda, fez promessas ao seu santo de devoção. Logo ele, que dizia não acreditar em religiões e achava que aqueles santos eram só para decorar a casa.

No seu último ano, relatou estar doente. Dia após dia, foi se despedindo da vida. Na última anotação, agradeceu pela filha que Deus tinha dado e por estar indo antes dela. Filha, ele a considerava como tal. Ali, naquele lugar onde não precisava se esconder de ninguém, deixava seus sentimentos à mostra. Ele considerava-se seu pai. Chorou, molhando as páginas, e se arrependeu de quantas vezes duvidou do sentimento paterno dele e não considerou a hipótese de morar naquela casa por uma circunstância qualquer que não fosse o amor nutrido por ele. Agora, tinha certeza. Tinha sido sempre a filha dele, a moleca que, como ele escreveu, o fez feliz até o último dia

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