Foram
chegando aos poucos, desconfiados, temerosos de uma emboscada da polícia e não foram nem
metade do que poderiam reunir. Estavam ali para saber do que se tratava o
chamado que a "rádio esquina" tinha levado a todos os cantos.
Vielas,
bares, pontos, cadeias, tinham mandado o “salve” e alguns tinham comparecido.
Quem tem pouco a perder não se importa com riscos e tinham pagado para ver o
que estava em jogo.
Notado
que mais ninguém iria chegar um homem se levantou de onde estava e caminhou
para frente. Porte de líder, empertigado não deixou dúvidas que iria falar para
todos os presentes. Foi facilmente reconhecido, se chamava Marcos, e era
conhecido por sempre ter um discurso político para conscientizar os seus pares.
Sabia usar algo mais do que as palavras e quem duvidou disso parou no hospital.
Tinha vários processos por lesão corporal e absolvido de uma acusação de homicídio
(nunca comprovada, mas ninguém duvidava da sua autoria). Era considerado
perigoso por todos e sabia que sempre estava na mira da polícia. Falou alto e
em tom beligerante disse que estava cansado de ser perseguido e que agora ia
deixar de ser caça e ser caçador. Continuou o seu discurso dizendo a
todos que tinha ódio, raiva, vontade de se vingar dos opressores, era à hora do
revide gritou no final. Aplausos, gritos e gestos mostraram o apoio dos
presentes.
O
primeiro ato chamou a atenção dos jornais e foi rapidamente repudiado pelo
povo. Alguns homens armados com paus e pedras tinham quebrado as vidraças de um
banco e pichado fachadas de lojas. Diziam fazer parte de um grupo de
manifestantes que não aceitavam mais a situação
do país.
Vândalos,
bandidos, desocupados, gritou a opinião pública. Ameaças de identificação e
processo foram faladas insistentemente. Era necessário conter a horda negra,
pobre, marginalizada antes que colocasse em risco a ordem vigente. O medo da
elite tinha razão de ser. Décadas de exploração mais a desigualdade causava
descontentes e não podiam aceitar quem desafia essa situação.
(continua)
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