sábado, 26 de março de 2016

Uma História Real? (IV)

Foram chegando aos poucos, desconfiados, temerosos  de uma emboscada da polícia e não foram nem metade do que poderiam reunir. Estavam ali para saber do que se tratava o chamado que a "rádio esquina" tinha levado a todos os cantos.
Vielas, bares, pontos, cadeias, tinham mandado o “salve” e alguns tinham comparecido. Quem tem pouco a perder não se importa com riscos e tinham pagado para ver o que estava em jogo.
Notado que mais ninguém iria chegar um homem se levantou de onde estava e caminhou para frente. Porte de líder, empertigado não deixou dúvidas que iria falar para todos os presentes. Foi facilmente reconhecido, se chamava Marcos, e era conhecido por sempre ter um discurso político para conscientizar os seus pares. Sabia usar algo mais do que as palavras e quem duvidou disso parou no hospital. Tinha vários processos por lesão corporal e absolvido de uma acusação de homicídio (nunca comprovada, mas ninguém duvidava da sua autoria). Era considerado perigoso por todos e sabia que sempre estava na mira da polícia. Falou alto e em tom beligerante disse que estava cansado de ser perseguido e que agora ia deixar de ser caça e ser caçador.  Continuou o seu discurso dizendo a todos que tinha ódio, raiva, vontade de se vingar dos opressores, era à hora do revide gritou no final. Aplausos, gritos e gestos mostraram o apoio dos presentes.
O primeiro ato chamou a atenção dos jornais e foi rapidamente repudiado pelo povo. Alguns homens armados com paus e pedras tinham quebrado as vidraças de um banco e pichado fachadas de lojas. Diziam fazer parte de um grupo de manifestantes  que não aceitavam mais a situação do país.

Vândalos, bandidos, desocupados, gritou a opinião pública. Ameaças de identificação e processo foram faladas insistentemente. Era necessário conter a horda negra, pobre, marginalizada antes que colocasse em risco a ordem vigente. O medo da elite tinha razão de ser. Décadas de exploração mais a desigualdade causava descontentes e não podiam aceitar quem desafia essa situação.

(continua)

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