Era um asilo como todos
os outros. Tendo uma paisagem agradável e uma mansão linda hospedando as
pessoas via-se melancolia e certa tristeza nos residentes que aparentavam a vontade de está em outro
lugar se pudessem. Era um bom lugar para morrer, pensou consigo, não de quem
desejava viver os dias que restavam.
- Finalmente chegastes,
até que enfim.
- Hahahaha, se eu fosse
você daria graças a Deus por ter lhe encontrado, olha esse fim de mundo,
pergunto-me o que estava fazendo aqui.
- É um bom lugar, pessoas
acolhedoras e que não fazem muitas
perguntas, não tenho motivos para reclamar.
- Rs, que bom então.
Porque não me chamou antes? Achei que
éramos amigos.
- Ainda somos. Eu não
rompi minha amizade.
- Então, filho da puta,
porque demorou tanto a me chamar?
- Primeiro eu achei que
iria resolver sozinho, não havia motivos para te preocupar, depois eu
concentrei toda a atenção na tentativa de recuperação, um dia percebi a
necessidade de ajuda e nada melhor para ajudar em uma situação difícil do que
um amigo.
- Claro, e eu vim o mais
rápido que pude.
- Sei disso, por isso
lhe chamei não me deixará na mão.
- Li sua carta, só você
mesmo para em pleno século XXI ainda escrever a mão. A doença é realmente
incurável? A medicina é tão moderna, talvez tenha alguma chance...
- Não tenho, não vamos
nos enganar.
- Porque eu?
- Ei garoto, não chora,
homens iguais à gente só choram por causa de futebol, esqueceu?
- Rss. Porque eu?
- Eu poderia procurar
algum parente, alguém próximo, mas em você eu confio. Não é nada demais, apenas
uma assinatura...
- É uma condenação.
Estarei condenando o meu melhor amigo à morte.
- Não, é um ato de
caridade, estará abreviando meu sofrimento. Só não faço eu mesmo porque não
quero prestar minhas contas com Deus sendo um suicida.
- E tem alguma
diferença?
- Sim, malandramente
estou jogando a responsabilidade para você, quando chegar lá em cima vou alegar
ao pai celestial que eu não me suicidei.
- E eu que fico com a
responsabilidade né? Pqp.
- Você é ateu, porra.
Desde quando ateu se preocupa com isso?
- E minha consciência?
Como vou lidar com essa situação?
- Quando chegar os
últimos meses, ao ver-me, perceberá ser o melhor a assinatura do termo de
responsabilidade. Em nome da nossa amizade saberá disso.
- Tenho dúvida.
- Mermão, olha onde
estou. Isso aqui é um asilo, onde ficam pessoas solitárias ou que os
parentes não conseguem manter em
casa. Eu aceitei vir para cá para ter paz, somente isso, não
mereço ficar penando sem ter nenhuma chance de viver. Se eu quisesse lutar, não
tinha vindo para cá, não teria chamado você.
- Minha vontade é ir embora,
esquecer essa conversa e mandar você a merda (rsss).
- Eu peço-te um último
ato de amizade, somente isso. Faça por mim, por favor.
- Se assim quer, farei.
- Enxuga essas lágrimas,
cara. Vivi muito, curti essa vida, nada é para sempre. Sempre te disse isso,
aproveita cada momento porque a vida é curta e acaba um dia. Não há motivo para
lamentos, até quando tiver consciência estarei vivendo da forma como quero, são
poucos os que podem dizer isso.
Alguns meses depois
entrou em um hospital e se identificou como sendo a pessoa que estava apta a
assinar a autorização da eutanásia. Quando perguntado se queria despedir-se,
sorriu tristemente e declinou. Já tinha feito isso quando seu amigo estava
consciente e podia escutar o que tinha a lhe dizer, agora era só uma questão
dolorosamente burocrática, ele já tinha morrido há dias atrás apesar do seu
coração pulsando.
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