sábado, 10 de novembro de 2012

Eutanásia


Era um asilo como todos os outros. Tendo uma paisagem agradável e uma mansão linda hospedando as pessoas via-se melancolia e certa tristeza nos residentes que aparentavam a vontade  de está em outro lugar se pudessem. Era um bom lugar para morrer, pensou consigo, não de quem desejava viver os dias que restavam.

- Finalmente chegastes, até que enfim.

- Hahahaha, se eu fosse você daria graças a Deus por ter lhe encontrado, olha esse fim de mundo, pergunto-me o que estava fazendo aqui.

- É um bom lugar, pessoas acolhedoras e que não fazem  muitas perguntas, não tenho motivos para reclamar.

- Rs, que bom então. Porque não me chamou antes?  Achei que éramos amigos.

- Ainda somos. Eu não rompi minha amizade.

- Então, filho da puta, porque demorou tanto a me chamar?

- Primeiro eu achei que iria resolver sozinho, não havia motivos para te preocupar, depois eu concentrei toda a atenção na tentativa de recuperação, um dia percebi a necessidade de ajuda e nada melhor para ajudar em uma situação difícil do que um amigo.

- Claro, e eu vim o mais rápido que pude.

- Sei disso, por isso lhe chamei não me deixará na mão.

- Li sua carta, só você mesmo para em pleno século XXI ainda escrever a mão. A doença é realmente incurável? A medicina é tão moderna, talvez tenha alguma chance...

- Não tenho, não vamos nos enganar.

- Porque eu?

- Ei garoto, não chora, homens iguais à gente só choram por causa de futebol, esqueceu?

- Rss. Porque eu?

- Eu poderia procurar algum parente, alguém próximo, mas em você eu confio. Não é nada demais, apenas uma assinatura...

- É uma condenação. Estarei condenando o meu melhor amigo à morte.

- Não, é um ato de caridade, estará abreviando meu sofrimento. Só não faço eu mesmo porque não quero prestar minhas contas com Deus sendo um suicida.

- E tem alguma diferença?

- Sim, malandramente estou jogando a responsabilidade para você, quando chegar lá em cima vou alegar ao pai celestial que eu não me suicidei.

- E eu que fico com a responsabilidade né? Pqp.

- Você é ateu, porra. Desde quando ateu se preocupa com isso?

- E minha consciência? Como vou lidar com essa situação?

- Quando chegar os últimos meses, ao ver-me, perceberá ser o melhor a assinatura do termo de responsabilidade. Em nome da nossa amizade saberá disso.

- Tenho dúvida.

- Mermão, olha onde estou. Isso aqui é um asilo, onde ficam pessoas solitárias ou que os parentes não conseguem manter em casa. Eu aceitei vir para cá para ter paz, somente isso, não mereço ficar penando sem ter nenhuma chance de viver. Se eu quisesse lutar, não tinha vindo para cá, não teria chamado você.

- Minha vontade é ir embora, esquecer essa conversa e mandar você a merda (rsss).

- Eu peço-te um último ato de amizade, somente isso. Faça por mim, por favor.

- Se assim quer, farei.

- Enxuga essas lágrimas, cara. Vivi muito, curti essa vida, nada é para sempre. Sempre te disse isso, aproveita cada momento porque a vida é curta e acaba um dia. Não há motivo para lamentos, até quando tiver consciência estarei vivendo da forma como quero, são poucos os que podem dizer isso.


Alguns meses depois entrou em um hospital e se identificou como sendo a pessoa que estava apta a assinar a autorização da eutanásia. Quando perguntado se queria despedir-se, sorriu tristemente e declinou. Já tinha feito isso quando seu amigo estava consciente e podia escutar o que tinha a lhe dizer, agora era só uma questão dolorosamente burocrática, ele já tinha morrido há dias atrás apesar do seu coração pulsando.




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