quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Amigos (II)

- Jão, está dormindo?


- Não, você não cala a porra da boca. Como vou conseguir.


- Rss, não coloque a culpa em mim pela sua insônia. Toda noite você fica sem dormir maior tempão. Pensa que eu não percebo?


- É verdade. Esses últimos acontecimentos tiraram o meu sono. Fala aí, o que você quer?


- Acredita em outra encarnação, outra vida, essas paradas?

- Hã? Porque a pergunta?


- Ah cara, sei lá. Estou com isso na cabeça. Já ouvi falar que a gente morre e volta em outra vida em bichos ou gente. Acho que é essa parada, nem entendo de religião, você sabe. Aí fico imaginando como será isso, como eu voltar se posso escolher.


- Já escutei falar sobre isso, mas não sei te dizer. Nunca pensei sobre isso, vivo o presente e foda-se o resto. Se tiver outra vida que seja melhor, essa está ruim de aturar, essa última derrota foi dolorida demais.

- Eu queria voltar em um país sem guerras, comigo sem precisar pegar em armas frequentemente. Cansado de lutar, de perder amigos, de sempre está preparado para o pior em qualquer situação.

- Mas você não precisa de outra vida para isso. Basta não se alistar mais. Quando tiver a próxima guerra você não vai, viva sua vida de paz igual muitos fazem, dando milho aos pombos em uma praça tranqüila. Como diz o escritor, vivendo a vida como se fosse uma eterna tarde de domingo.

- Sei, até parece. Sabe o que vamos fazer? Chegar à nossa cidade, curar as feridas e com o passar do tempo esperar uma nova batalha para irmos tentar mais uma vez a vitória. É sempre assim, a gente não aprende.


- A gente quem cara pálida? Eu aprendo sim e muito. Quem se meteu nessa roubada foi você esqueceu? Eu te acompanhei por amizade, mas essa foi à última vez juro por Deus. Erros de agora em diante somente novos, velhos não rolam. Era evidente que a gente deveria ter pulado fora antes, não ter insistido tanto tempo. Mas fizemos isso? Não, ficamos achando que ia ocorrer um milagre e iríamos ver a situação resolvida. Deu nisso...


- Vai começar os resmungos. Nem sei para que fui conversar com você. Já conversamos sobre isso. Tentamos, se a gente tivesse saído antes estaríamos lamentando não ter permanecido até o limite. Não fomos covardes, ora.


- Então fica combinado que chega de velhos erros. Se voltar para o campo de batalha será por uma causa nova, outros motivos. Dá murro em ponta de faca machuca demais.


- Você acredita mesmo nisso? Que não vamos errar da mesma forma em algumas ocasiões? Rs.


- Quero acreditar. Preciso Acreditar.


- Estamos reclamando aqui da vida e tal, mas sabemos que logo estaremos de novo na pista. Não adianta, não nascemos para a tranqüilidade que a aceitação ou acomodação proporciona. Gente igual a nós não aceitamos, lutamos para mudar, então se tivermos que errar novamente vamos errar. Foda-se, só se vive uma vez até me provarem o contrário.

- É verdade, somos assim. Se os erros vierem que sejam a nosso favor ou não nos prejudique tanto.

- É isso. Vamos começar errar a nosso favor. Chega de nos fuder enquanto os outros ficam bem.


- Agora deixa eu dormir, porra. Quando quiser filosofar faça isso de dia.


- Hahaha. Já é.

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