- Você tem mesmo que ir?
Fala sem olhar no rosto. Não quer mostrar a tristeza que sente. Caminha até a janela e finge olhar o horizonte como se lá tivesse algo interessante.
- A guerra não acabou. Sinto muito, mas eu vou até o fim.
- Lembra o que me falou?
- Sim. Questão de tempo para isso acabar e a gente ser feliz.
- E eu acreditei.
As lágrimas antes contidas agora rolam no rosto. Não tem por que esconder o sentimento de tristeza. "Eu acreditei nisso", repete.
- Eu também acreditei. Mas nem tudo nessa vida é como a gente quer. Planejamos algo como se fôssemos donos do nosso destino, mas, infelizmente ou felizmente, não somos nós a decidir. Eu vou voltar, te juro, e seremos felizes como planejamos. Conforme prometi, você ainda vai caminhar pelas areias da praia e sentar para ver o pôr do sol. Eu te prometo isso.
- Apenas me prometa sua volta. Apenas sua volta e eu ficarei feliz. Por que a vida gosta tanto de maltratar certas pessoas? Entendo sua ida, mas nunca entenderei se não retornar. Vá, mas volte, pelo amor de Deus, volte.
- Eu volto. Ainda não vivemos tudo. Deus vai me proteger como sempre. "Soldado de Jorge tem o corpo fechado."
- Fala isso e termina de se arrumar. Pega sua arma e verifica mais uma vez se está carregada. Já fez isso tantas vezes, mas agora é diferente. Está com medo de não voltar, medo da morte. Pensou melhor, não era medo de morrer e sim de não cumprir sua promessa. Não era justo agora na reta final não sair vitorioso, ficar em algum campo de batalha sem identificação ou vir em um caixão com honras militares. Não era justo, pensou mais uma vez. Merecia voltar, inteiro, com saúde. Conferiu se estava arrumado corretamente, pegou sua arma e se despediu. Manteve a frieza, caso contrário, não conseguiria sair dali.
- - Estou indo. Espere minha volta.
Beijou seus lábios, chorando de mansinho. Aceitando a dor de mais uma partida. Não falou nada, palavras em certas ocasiões não são necessárias. Acariciou o rosto e se desprendeu dos seus braços. Era o seu jeito de permitir sua ida. Ainda de costas, escutou a porta bater. O barulho doeu em seu coração como se fosse uma flechada. Rezou uma prece, pediu a Deus a sua volta. Foi para o altar, acendeu velas. Se refugiou na religião.
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